Notas iniciais
well fuk desculpa aparecer de uma forma tão inusitada e ter parado de acompanhar as histórias maravilhosas que eu lia aqui. acontece que ano passado, back in dois mil e crise, eu me afogava no ócio e a minha imaginação estava a mil. era muito fácil escrever porque eu me dava bem em praticamente todas as matérias (menos matemática lol) e eu tinha tempo livre de sobra. a diferença é que agora eu não consigo fazer literalmente nada. nem estudar. em junho eu passei a maior parte do tempo fazendo vários nadas, indo em rolês e ENTRANDO NO SITE DA URBAN OUTFITTERS DURANTE TODAS AS AULAS. em momento algum deixei de pensar em DaC, mas quando eu sentava pra escrever esse capítulo NÃO SAÍA NADA DE BOM. e na real, esse capítulo realmente não tá bom, tipo, ele é curto e não acontece nada nele, só tô postando pra deixar claro que não abandonei a história. acho que o problema principal é que as minhas referências mudaram e eu não consigo escrever nada sobre subúrbios e anos 80 sem parecer batido. sim, já tentei reler mil vezes Virgin Suicides, não funcionou. nunca passei por um bloqueio criativo tão merda assim. desculpa a vocês que esperaram por tanto tempo e agora tão lendo esse capítulo broxa. vou tentar melhorar. AAH E YAY DAC FEZ UM ANO ENTÃO UM BANNER NOVO E MAIS BONITINHO.

Park despertou com a impressão de que mel escorria pelas paredes. Suas pernas estavam lânguidas sob as cobertas e o cômodo ao seu redor tremeluzia como algas no fundo do oceano. As cortinas enfunavam como pulmões e um único ruído preenchia a atmosfera, acompanhado por um odor inconfundível: ovos farfalhando em uma frigideira. Sentiu a repulsa dos amantes indolentes, a vergonha de um adúltero. Era Tomas e Ben, sua pseudo Tereza.

Recolheu e vestiu suas roupas. Saiu porta afora com extrema cautela, de forma que só se pudesse ouvir a fricção de suas meias contra o carpete púrpura e o ranger da maçaneta ao girá-la.

Caminhou até o ponto de ônibus mais próximo e esperou, com as mãos enfiadas nos bolsos. Era Outono e um vento frígido soprava em suas faces, deixando seu nariz avermelhado e catarrento. Desejava um cigarro para aquecer momentaneamente suas vísceras e distraí-lo do incômodo que o perturbava no ânus — não conseguia sentar-se sem sentir uma pontada.

O panorama da cidade estendia-se no horizonte. Algumas noites, Park sonhava com apartamentos com água quente, mustangues reluzentes com escapamento estourado e estações de metrô pegajosas. Queria ser um baixista de alguma banda de vanguarda do SoHo, que era dono de uma palheta furta-cor e que pintava as unhas de preto; queria ser genuinamente da Costa Oeste e reluzir sob o sol, marinado de areia; queria assaltar mercearias nas madrugadas em Seattle e fugir com seu namorado numa Vespa. Park queria ser todo tipo de garoto, menos ele mesmo.

Dois faróis brilharam no nevoeiro. O ônibus parou no ponto e Park subiu, repentinamente cego pelas luzes fluorescentes que ficavam peculiarmente esverdeadas de manhã. Sentou-se e apoiou a testa na janela depredada, contornada por rachaduras. E se ele não desembarcasse naquele subúrbio deprimente? Talvez assim, não precisasse mais aturar aquele cenário intoxicante, aquele diálogo monocórdio, aquelas pessoas tediosas, aqueles amigos insuportáveis... Seus sonhos seriam consumados, mas Raven não teria alguém para se apoiar. E nem dinheiro para faculdade. E nem uma pessoa sensata para conversar.

— Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. — citou para si mesmo, pausadamente porque havia esquecido as frases restantes. — Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

***

Park resolveu tirar uma soneca que se estendeu por horas. Havia perdido um dia de aula e duas provas surpresas, e tudo isso porque sua mãe ‘‘não o via dormir tão sereno há muito tempo’’ e temeu acordá-lo. Permaneceu enterrado no sofá desconfortável até o meio-dia, quando a chegada de Raven foi anunciada pelo baque da tela de mosquiteiro — ela era incapaz de ser cuidadosa. Andava empertigada, com os livros pressionados contra o peito e o corpo opulento compactado nas vestimentos de tons terrosos (gostava de combinar suas roupas com a paleta de cores da estação). E seu entusiasmo não era surpreendente, pois Floyd a seguia como uma sombra de 1,90 metros. Era como um urubu patético ansiando para espicaçar carne em decomposição.

— Ei, cara, por que você não foi pra escola? Tive que catar as bolas depois do treino sozinho. — Floyd o cumprimentou com um beliscão.

— É, Park. Por onde você andou? — perguntou Raven, provocativa.

— O Finn ligou umas trocentas vezes pra perguntar por onde você andava. Então você deu um bolo nele ontem? — disse Park pausamente, porque frases muito longas eram inexequíveis após horas de sono.

— Então nós vamos acabar as nossas frases com perguntas? Ok, eu não tenho muito tempo, tenho que voltar pro trampo. Só vim te acompanhar até aqui. Tchau, Rae. — ele beijou suas bochechas retocadas com ruge e se foi.

— Tchau pra você também, panaca. — ralhou Park em voz baixa.

Raven deitou sobre as pernas no irmão, desenrolando-se do cachecol de vicunha demoradamente. Ela cheirava a colônia masculina, mas não aquela que Benedict espirrava pelo corpo inteiro, que fazia sua narinas arderem e que lhe dava náuseas. Park fungou o ar; não era colônia, era um tipo de desodorante que mães costumam comprar para seus filhos quando sentem o cheiro da puberdade em suas camisetas.

— Você cheira a desodorante de pirralho. — constatou.

— Você cheira a charuto cubano e coito.

— E você tem chulé.

— Que que você tá vendo? Notícias? Isso é deprimente, vou botar na MTV. — Raven estava se inclinando para alcançar o controle remoto na mesinha de centro, quando Park a repreendeu com um chute. — Jesus, uns videoclipes pra te entreter não cairiam mal. Sabe, eu comecei a escutar Stone Roses e os clipes deles são brutais! O Floyd me fez uma mixtape com I Wanna Be Adored e eu fiquei bamba.

— A gente tem que ficar ligado nas notícias, sacou? Qualquer hora podem falar sobre o Teddy. — ele não percebeu, mas seus olhos estavam lubrificados com esperança.

Raven abraçou uma almofada de crochê (a mesma que ela manchava com batom quando tinha dez anos, ao treinar beijos técnicos) e emudeceu (apenas pediu que ele compartilhasse seu edredom pois era friorenta nos pés). Ressupinos no sofá, assistiram a reportagens sobre as dracenas-vermelhas que floriam em pleno Outono e sobre morcegos taciturnos que buscavam abrigo em chaminés de casarões. A casualidade no sorriso de Lorna Harper e a flacidez daquele permanente em sua cabeça nutriam uma repulsa exorbitante em Park.

— O Teddy tinha o cabelo mais foda de todos. — disse Raven, parecendo nostálgica. — Eu pedi pro Floyd pintar o cabelo de verde, mas ele falou que era muito alegre. Você acha esquisito que algumas pessoas gostam de ser tristes?

— Ei, Rae, sem querer bancar o irmão chato, mas me escuta um pouquinho. Eu sei que o Floyd é tipo o seu Christian Slater em Heathers e, uau, ele é tão poético e intenso, ele é como o River Phoenix com o jeitinho de ativista dele. Mas você devia se emendar com o Finn. Ele sempre esteve lá pra te apoiar, mesmo sendo um moleque estranho pra caramba.

— Ele me fazia chorar, porra.

— Convenhamos que não era culpa dele que a sua paixonite de infância não foi correspondida.

Um mero arregalar de olhos, uma breve dilatação das narinas e um descompasso na respiração, e a vulnerabilidade de Raven vibrou no ar. Ela costumava prender o cabelo em um rabo de cavalo alto e espirrar perfume de farmácia em sua nuca, de forma que posteriormente pudesse inclinar-se sobre Finn para mostrar uma manobra em seu Gameboy, esperando que ele aspirasse aquele odor doce e se desse conta de que não era Gretel Dorothea a quem amava. Ela lhe escrevia odes e elegias repletas de erros ortográficos, e as estocava na fronha do travesseiro, envergonhada, incapaz de colocar em sua caixa de correios ou guardar em seu armário da escola. Os abraços demorados, as discussões acaloradas, as tardes no fliperama; como ela estava surpresa que Park havia interpretado tudo aquilo?

— Como você sabe disso? Você leu o meu diário? — perguntou ela, subitamente encolhida.

— É só ligar os pontos, Rae.

— Você acha que ele sabe? — ela esbugalhou ainda mais os olhos. — Você acha que o Floyd sabe?

— O Finn é bem sem noção, mas o Floyd nem tanto. Bom, pelo menos você superou isso, não é mesmo?

— É. — Raven se desvencilhou do edredom, desconfortável. — Eu vou tirar uma soneca lá em cima. Se passar alguma coisa sobre o Teddy, me avisa, por favor.

Park assentiu e alargou um sorriso compreensivo. Assim que Raven desapareceu no topo das escadas, sua mãe surgiu na sala, ostentando suas vestes de cetim púrpuras. Ela cheirava a pimenta-da-jamaica e os brincos de latão pendiam tilintantes de suas orelhas. Quando a sra. Wakahisa pavoneava daquela forma, barulhenta e com a cabeça erguida, incorporando uma médium enigmática, significava que estava no meio de uma consulta. Desencaixou a tomada da TV e aproximou-se de Park, segurando o rosto do filho com as mãos em concha. Ele conseguia ver os pés de galinha que ela tentava esconder com delineador e a pelanca sob o seu queixo, herdada pelo emagrecimento repentino.

— Parkie, a mamãe está atendendo uma cliente especial. Eu preparei um chá com folhas de louro, quero que sirva naquelas xícaras de porcelana da sua avó.

— Pede pra Raven, ela que gosta de presenciar as suas consultas. — rosnou ele, mal-humorado.

— A Rae pode se sentir incomodada. A cliente é Yvonne Ryan, lembra-se dela? A mãe da menina morta. A Rae encontrou o cadáver, Parkie. Foi traumático. Faça isso por mim só uma vez.

Com um grunhido, Park levantou do sofá, cambaleante. Sua mãe era uma charlatã que enganava os alvos mais fáceis: donas de casa entediadas e idosas devolutas. ‘‘Ah, isso é um caso de poltergeist, queime esse incenso peruano no sótão, ande em círculos dizendo: Saia espírito mau, seja dissolvido pelas forças do dia!’’ e ‘‘Pegue uma foto do finado, molhe em um unguento, acenda uma vela branca e reze até que ela derreta por completo; e pronto, ele estará em paz!’’ eram soluções comuns encontradas em livros poeirentos escritos por outras charlatãs. A Sra. Wakahisa escancarava as janelas, de modo que pudesse se aproveitar de ventanias e trovoadas para confirmar a presença de um espírito. Pendurava carrilhões na hélice do ventilador de teto e acendia incensos de alfazema na pia (as consultas eram realizadas na cozinha). Park se envergonhava da fraude que sua mãe era, ao passo que Raven, além de acreditar naquela baboseira mediúnica, venerava-a.

Mal reconheceu Yvonne Ryan ao entrar na cozinha. Sentada na cadeira de alumínio, com o cabelo preso em um coque descortinando a miséria em seu rosto, não possuía nenhum traço da mãe jovem e saudável que fora. Ela sorriu quando o viu e Park não pôde não se simpatizar com aquela mulher pequena e constipada.

— Então, querida, — iniciou a Sra. Wakahisa enquanto Park pegava o bule de chá. — como que vai a mudança? Flórida, hein?

— Vou ficar uns tempos com a minha irmã e botar a casa para alugar. Já empacotei as roupas da Peggy e vou mandar para um orfanato em Seoul. Acho que foi a coisa certa a se fazer.

— Mas que ideia boa! Quando o meu marido se foi, vendemos tudo que era dele. Ele tinha essas malas de couro, presente de um general (não me lembro quem era o sujeito agora), e conseguimos pagar as contas do mês com aquilo. Foi uma descarga de energia negativa, pra dizer a verdade. A Rae chorou tanto quando vendemos a canoa que eles usavam para pescar em San Diego. Ela tinha uma conexão especial com o pai, sabe? Mas vender todas as roupas dele fez com que o luto passasse mais rápido.

Park colocou as xícaras sobre a mesa delicadamente. Não gostava de ouvir histórias sobre seu pai — na verdade, não gostava de admitir que não gostava dele e que aquela ‘‘conexão especial’’ que possuía com Raven o deixava enciumado.

— Mas o que te traz aqui, querida? — perguntou a Sra. Wakahisa enquanto misturava o chá com uma colher. — Parkie, Parkie, o que está fazendo? Fique aqui até o fim da consulta, a sua energia está boa hoje.

Ele se sentou sobre a pia, tentando não bufar de frustração.

— Bom, eu queria saber sobre a Peggy. Desde o enterro sinto a sua presença. Às vezes, eu acordo no meio da noite com a sua risada. Quando digo isso para outras pessoas, elas me dizem que estou sonâmbula e de fato, eu posso estar. Mas queria saber a opinião de alguém menos cético e lembrei de você. — ela bebericou o chá, concluindo sua fala.

— Ah, já imaginava que seria isso. — fez uma pausa teatral. — A verdade, Yvonne, é que ela está bem aqui, entre nós. A Peggy está mexendo nos brotos de alfafa, ali perto da fruteira. Acho que está feliz porque ela está sorrindo.

Park reprimiu uma risada.

— Como posso chamar a sua atenção? — questionou Yvonne Ryan, com a voz áspera de desespero. — Quero lhe dizer algumas palavras.

— É só chamá-la.

A cliente sorveu o chá em um gole, como se estivesse tomando coragem. Pigarreou e lágrimas de emoção brotaram nos cantos de seus olhos graúdos.

— Peggy, meu tesouro, — começou ela. — quero que você saiba que você foi a melhor filha que alguém já pôde ter. Você era uma princesinha, a menina mais linda do mundo. Eu sinto falta de lavar as suas roupas e de escovar o seu cabelinho. Eu te amo e não é só porque você é a minha filhinha, mas porque você é uma menina muito esperta e corajosa. Papai do céu te tirou de mim pra te transformar em um anjinho.

E então, a mãe da criança morta balbuciou outras palavras ininteligíveis e afundou o rosto nas mãos, fungando e soltando barulhos guturais de sofrimento. A Sra. Wakahisa fez um gesto abrupto para que Park recolhesse as xícaras e abraçou a cliente, afagando sua cabeça e confortando-a com passagens espirituais.

Park preferia se manter descrente em relação ao misticismo, porém quando encostou na xícara de Yvonne Ryan, ele experienciou algo que mais tarde seria compreedido como uma premonição. Viu pequenas pedras brancas e polidas jazendo em seus pés. Quando piscou os olhos, percebeu que não eram cascalhos, e sim, dentes. E quando piscou novamente, não viu nada. Atordoado, largou a louça na pia, provocando um ruído ensurdecedor.

— Que descuido é esse, Park? — ralhou a Sra. Wakahisa, avermelhada e lacrimosa.

— Eu vi... — gaguejou ele. — Eu vi uma coisa. Dentes.

— Ah, é, docinho? — retrucou ela, distraída. — Por favor, vá lá pra cima, preciso convesar com a cliente a sós.

Park não conseguiu se mover. Lembrava-se nitidamente de ter oito anos e observar sua mãe preparando uma sopa de cebolas enquanto tagarelava com a tia ao telefone. Falavam sobre sonhos e seus significados. ‘‘Ursos significam notícias boas; globos de neve, serenidade; velas acesas, um futuro feliz; mas minha filha, se sonhar com dentes caindo, é morte na certa’’.