Notas iniciais
OLHA QUEM RESOLVEU POSTAR DEPOIS DE QUARENTA E CINCO DIAS (graças à Giovanna, que me apressou pra escrever) Queria agradecer à Lola Singer que recomendou a história E DESAPARECEU MENINA CADÊ VOCÊ, VOLTA PRA CÁ OU EXPLICA POR QUE VOCÊ APAGOU A SUA CONTA PORQUE AGONIZEI POR SEMANAS. Sérião, dá um sinal de vida, porfas. Ah, e queria deixar aqui alguns aesthetics da Raven: Esse aqui foi a Ana Babe Carol que fez há algum tempo, mas eu esqueci de deixar o link (http://i.imgur.com/abDhXbr.png) e esse é o da Carey Mozão (http://careysjournal.tumblr.com/post/132620112365/dazed-and-confused-aesthetics-raven-is-the) E a fanart da TheChangeling amorzinha: http://the-changeling-art.tumblr.com/post/131394269238/a-raven-e-o-park-s%C3%A3o-dessa-fic-aqui-%C3%B3-dazed-and TEM UNS AVISOS LÁ EMBAIXO, LEIAM PORFAS


Floyd inventariou seus presentes de aniversário. Com os cumprimentos de Beauregard, ganhou sete discos do Sex Pistols, três garrafas de conhaque, um pacote de rapé, um relógio de pulso da Casio, outro relógio de pulso mais elegante e uma camiseta listrada com botões de madrepérola. Finn lhe deu um envelope contendo humildes quarenta dólares e um vale-presente da Stüssy. Park trouxera consigo um bolo de aniversário caseiro, feito com destreza e composto por quatro panquecas empilhadas, recheadas com frutas silvestres e regadas com mel.

No entanto, o presente que recebeu com maior ânimo foi o de Raven. Com o quadril compactado na calça de brim azul, ela gingou até ele, os brincos pesados de cobre se emaranhando em seu cabelo à medida que uma brisa tropical silvava no quintal da sra. Swanson. Raven segurava um aquário retangular, onde um filhote de tartaruga nadava em círculos, abanando as patinhas na água.

— Eu não sei por quê, — disse ela. — mas tive a impressão de que você gostava de tartarugas.

Eles decidiram deixar o tanque na balaustrada da casa de Finn e Raven o ajudou a entrar na casa da árvore, uma vez que já estava grande demais para passar pelo buraco.

O interior da casinha havia sido enfeitado com faixas festivas e galhardetes coloridos. Floyd tinha consciência de que Raven e Finn haviam se encontrando com frequência no lugar sagrado dos cinco, mas dificilmente todos eles se agrupavam no esconderijo.

— Finn, que merda. Olha pra minha mudinha. Tá murcha. — reclamou Beauregard, arrastando a planta de maconha longe do alcance do sol.

— Não dá tempo de regar. — justificou o outro, apossando-se do pufe laranja.

— Ótimo. Que beleza. — bufou Beauregard, cravando impacientemente as dezoito velas rosas no bolo de Floyd, sustentado por uma pilha de livros didáticos velhos, trazidos por Audrey, a irmã mais velha de Finn, quando não restava mais espaço em seu armário da escola.

— O que você vai fazer? — questionou Raven, olhando para Floyd com aqueles orbes pestanejantes. — Você já tem dezoito. Pode fazer uma tatuagem bacana ou comprar fogos de artifício. Floyd! Meu Deus, acabei de perceber que você vai poder votar!

— Tem razão. Você já pode fazer um monte de coisas. Tipo, comprar uma casa. Ou mudar de nome. Se bem que Floyd é um nome da hora. — acrescentou Finn, extraindo um console portátil do bolso.

Ele deu de ombros. A convivência com o pai o impossibilitaria de mudar o nome ou comprar um apartamento. O sr. Dolovan o procuraria até o quinto dos infernos, por amor ou repulsa.

— Ei, Rae, olha só. — chamou Finn, que naquela tarde parecia especialmente mais sedento por atenção. — Game Boy.

Os olhos de Raven cintilaram ao ver aquele aparelho retangular de plástico branco, novinho em folha. Emitia ruídos eletrônicos, daqueles característicos de videogames. Ela se curvou sobre o amigo, respirando em seu cangote, cercando-o com a sua essência deleitosa, mas Finn era tão tolo que não conseguia valorizar pequenos atos como aqueles.

— Ah, cara, preciso de um desses. — suspirou ela, boquiaberta. — Ainda tô jogando no Atari antigo do Park. É ruim pra dedéu.

Beauregard iniciou o processo de acender as velas, cerimonioso. Assim que todas as dezoito oscilavam meio tortas sobre o bolo, chamou atenção do grupo batendo palmas truculentas.

— Hora do parabéns, pessoal. — proclamou ele.

Finn foi obrigado a guardar o console portátil e Raven, já desencantada pelo eletrônico, caminhou até Floyd e abraçou seus ombros. Ela cheirava a desodorante Teen Spirit e puro estrogênio. Uma joia barata de cânhamo circundava seu pescoço e as unhas dos seus pés descalços estavam pintadas de vermelho purpurinado. Sua colônia cítrica misturou-se à fragrância natural de Floyd — uma combinação de suor com Drakkar Noir —, resultando em um odor estranhamente agradável.

Eles cantaram um ‘‘parabéns para você’’ desprovido de entusiasmo. As vozes barítonas preenchiam o ambiente e o tom ingênuo de Raven se mesclava ao som que parecia um bando de ursos bramindo. Floyd assoprou as velas, uma por uma, aspirando as faixas de fumaça densa que os pavios exalavam quando apagados.

Raven lhe deu um ósculo na ponta do nariz e sorriu.

Depois de ter dividido o quarto com ela por três dias, os dois vagaram pela escola como desconhecidos. Em parte porque Park parecia desconfortável quando os via juntos. No entanto, Raven também tinha uma parcela de culpa pelo distanciamento; ela o ignorava alegremente. Naquelas últimas semanas, tornara-se apenas uma silhueta no fim do corredor. Raven era um sonho nevoento e a realidade era uma parede sólida. Agora, eles só se comunicavam por piscadelas significativas e sorrisos furtivos. E isso o frustrava a ponto de querer arrancar suas sobrancelhas com uma pinça.

Finn se acomodou novamente no pufe, que produziu um barulho de flatulência quando os 53 quilos foram depositados sobre ele. Beauregard acendeu um cigarro de menta com o isqueiro que já estava começando a falhar. Park remexia nos cassetes que haviam se acumulado em um canto da casa e os organizava por ordem alfabética. Os óculos com aros de tartaruga quase despencavam da ponta de seu nariz. O bolo de aniversário continuou ali, imponente e apetitoso, com o chantilly já derretendo e as frutas fatiadas ameaçando a cair. Raven olhava a vizinhança pela janela, atenta. Apontou para fora e anunciou para os amigos:

— Olhem só! É a família da Daria. E um caminhão de mudança.

Mais quatro rostinhos joviais e curiosos brotaram na janela. Observaram Daria McAllister, ex-namorada do precocemente falecido Gary Austin, caminhar para dentro e fora da casa, carregando caixas de papelão, vasos enrolados em jornais antigos, abajures envoltos em plástico bolha e aparatos para jardinagem. Despejava tudo dentro de um caminhão de mudança, com o auxílio de um rapaz sem camisa e de músculos torneados.

Beauregard lubrificou os lábios com saliva e assobiou com os dedos, chamando a atenção de Daria.

— Ah. Vocês tão aí de novo. — disse ela, alto o suficiente para que eles ouvissem do topo da árvore.

— É. Aonde você tá indo? — questionou Beauregard, o porta-voz do grupo.

— Michigan.

E voltou para dentro da casa. Eles esperaram que Daria tornasse a aparecer com mais alguma caixa, mas os únicos que transitavam no jardim bem-cuidado eram seus pais e o rapaz bronzeado. Floyd viu um vulto alaranjado passar pela janela de um dos cômodos. Viu duas mãos abrindo-a e jogando as cortinas para o lado de fora, de modo que não ficassem esvoaçando em seu interior. Daria McAllister, em sua aparição de doze segundos, mostrou-se diferente da garota que costumava ser. Sem o permanente no cabelo, sem o ruge animando suas faces cor de queijo, sem a felicidade plácida em seu jeito de andar. Sem Gary.

— Eu ouvi falar que os Wyatt também estão se mudando. — afirmou Park, descolando-se da janela.

— E o Percy me disse que vai passar uma temporada em Poconos. — completou Beauregard.

— Tem umas cinco famílias querendo se mudar pro litoral. Perto do Píer de Santa Mônica, onde as coisas são mais animadas.

— A Sra. Burton comentou com a minha mãe sobre alguns apartamentos alugados em Los Angeles. Uma coisa provisória, até a febre dos assassinatos passar.

— Eu sempre quis morar Los Angeles. É lá que vem a melhor erva.

— Eles querem derrubar o sicômoro. — interrompeu Finn, outra vez largado no pufe, com os olhos cerúleos refletindo as imagens do eletrônico.

Floyd se virou para o amigo, exasperado. Em seguida, voltou-se à caixa de isopor onde guardava seus energéticos. E então, novamente para Finn.

— E onde é que eu vou deixar as minhas latas de Red Bull? — questionou, indignado.

— E a minha muda? Cara, esse é o nosso lugar. É tipo um cafofo sagrado. — argumentou Beauregard, com as bochechas ruborizadas.

— Tem um aviso pregado no tronco. Como vocês não viram? — resmungou Finn casualmente.

Park e Raven permaneceram em silêncio. Roubavam algumas frutas do bolo e mastigavam enquanto observavam o conflito se desenrolar. Floyd queria que ela se manifestasse, chacoalhasse os ombros de Finn, sugerisse que eles cantassem ‘‘Mother's Nature Son’’ de mãos dadas ao redor do sicômoro. Todavia, Raven emudeceu.

— Você sabia disso? — dirigiu-se à ela.

— Ele já tinha me contado. — deu de ombros. — Não tem como impedir. Todas as árvores da vizinhança tão contaminadas. Eles vão derrubar tudo e substituir por aquelas coisinhas esqueléticas e deprimentes que entortam com o vento.

— Mas eles não estabeleceram uma data pra remoção. Relaxa que tem tempo.

As orelhas e a nuca de Beauregard ficaram vermelhas. Um desespero genuíno se alastrou por sua fronte cetrina. Algo que não era tão comum em Beau — o inextinguível Beauregard Godfrey. Ele ainda aspirava a fumaça fresca do cigarro mentolado. Floyd tomou o fumo de suas mãos e tirou uma tragada, enquanto pensava em uma solução para a questão da casa da árvore. Park, após se certificar de que a tensão havia espairecido, despediu-se dos amigos com tapinhas nas costas e desejou um feliz aniversário a Floyd pela última vez. Assim que pousou na grama fresca, Finn voltou-se para Raven, que seguia o irmão com os olhos pela janela.

— Aonde ele vai? — perguntou. — Encontrar-se com...

— Cala a boca. — rebateu Raven, num tom repreendedor.

— Com quem? — indagou Floyd, intrigado.

— Ninguém. — retrucou ela, beliscando discretamente o braço de Finn, que reprimiu um arquejo de dor.

Beauregard praguejou ao queimar a língua tragando a guimba laranja. Soltou a fumaça rala pelas narinas, jogou o toco no chão e o apagou com uma pisada forte. Beirava à fala, lambendo os beiços rubros e bebericando seu copo com Royal Crown.

— Meu pai vai dar uma festa daqui umas duas semanas. Vai chamar a vizinhança inteira, até mesmo a louca da Mädchen Pollock. — Mad Chen, como a vizinhança costumava chamá-la pelas costas, era dona de seis cães insuportáveis e se vangloriava por ter vivido uma juventude deslumbrante nos anos 60, agora aniquilada pelo peiote. — Vocês tem que ir. Vai ser um fiasco.

— Quer que eu leve alguma coisa? — questionou Floyd.

— Sim, a sua presença. — e em seguida, sussurrou para ele sorrateiramente: — Meu pai tem uma adega nota dez, consigo fornecer tudo na hora.

Beauregard ergueu-se, limpando as cinzas de sua camiseta estilo havaiana.

— Hora de ir. Parabéns, campeão. — e beijou sua bochecha com um ruído estalante. Beauregard era seu único amigo que o cumprimentava e se despedia com um beijo afável.

Raven ligou o rádio portátil equilibrado sobre vitrola a pilha. Após alguns segundos escutando estática, conseguiu sintonizá-lo na estação do jornal local (uma ação estranha, uma vez que Raven vivia tagarelando sobre os repórteres ignorantes e os locutores preconceituosos).

— Quero ouvir a previsão do tempo. — justificou ela.

Os três permaneceram em silêncio, aguardando pela melodia alegre tocada pelo trompete que anunciava o início da previsão meteorológica. No entanto, o bloco sobre jardinagem foi interrompido por notícias de última hora, incomuns na cidade, onde nada relevante — digno de intervir a matéria sobre os antúrios em botão e oliveiras trazidas do Velho Mundo — acontecia.

‘‘E agora, Lorna Harper com notícias urgentes.’’ introduziu Dick Burroughs, consumidor frequente dos produtos veganos da mercearia de Floyd.

‘‘A polícia surgiu com novos regulamentos, dada a situação frustrante de não conseguir provas sobre o serial killer à solta. Será estabelecido, neste final de semana, um toque de recolher para menores. Detetives também divulgaram suas teorias em relação ao misterioso assassino; a maioria delas expondo um adolescente como culpado pelas mortes de quatro pessoas. Não há nada que comprove tal afirmação.

Agora, uma informação adicional sobre os assassinatos, encaminhada a nós diretamente do laboratório da cidade: Seward Tuttle, responsável pela autópsia de Angelina Smiths, encontrou partículas de água nas vestes da vítima, concentradas ao redor da região perfurada por um objeto não identificado. Uma pista um tanto inconveniente, a julgar pelo avanço dos assassinatos.

Mais notícias no Jornal da Noite.’’

— Que merda é essa? — protestou Raven, furiosa. — Toque de recolher? ‘‘Um adolescente como culpado pelas mortes de quatro pessoas’’? De onde veio isso? E o que mais eles vão fazer, grampear os telefones de casa? Botar câmeras de segurança nos nossos quartos?

— Eu acho que eles tão certos, Rae. — murmurou Finn entre os dentes. — Digo, o toque de recolher. É importante. Os assassinatos acontecem à noite.

— Isso é um adeus às festas na casa do Percy.

— Cacete, isso é um adeus à liberdade.

Raven sentou-se no chão e começou a ajeitar as barras da calça. Parecia frustrada e grunhia sem parar. A regata branca e puída exibia um buraco deselegante próximo à alça. Alguns fios de cabelo, negros como alcatrão, grudavam-se em sua testa como floreios de nanquim. Anos mais tarde, já tendo cedido aos agrados das anfetaminas, Floyd a descreveria como ‘‘uma garota qualquer’’ e que sua singularidade vinha daí, por ser ‘‘insolitamente ordinária’’. ‘‘Paradoxal, com utopias escondidas embaixo das axilas’’, relataria após uma lavagem gástrica, um pouco sonolento.

— Finn, — chamou ele — você pode descer lá embaixo? Pra pegar umas colheres.

— Tem uns talheres de plástico aqui, ó. — chacoalhou uma embalagem aberta.

— É, mas o bolo é meio duro e as colheres de plástico quebram. — Floyd deu uma piscadela insinuante.

Finn, com um ar de suspeita, arrastou-se até a saída, alternando o olhar entre os amigos. Floyd, percebendo seu tempo limitado, dirigiu-se nervoso até Raven, tendo em mente que um movimento desastrado poderia entregar suas intenções.

— Então, — ela falou vagarosamente — você ganhou tudo o que queria de aniversário?

— Acho que sim. Eu gostaria de umas cordas novas pro baixo. Mas tem, sim, uma coisa que você poderia me dar.

Floyd se sentiu como aqueles atletas imbecis que inventavam cantadas asquerosas. Raven se retraiu e continuou a dobrar a barra da calça.

— Isso saiu meio estranho, desculpa.

— Não, tudo bem. Eu bem que queria dar uns amassos agora, mas o Finn me contou da Didi. — Floyd franziu o cenho com a menção de sua ex-namorada.

— O que tem a Didi?

— Vocês ainda tão de rolo.

— Quem disse?

— O Finn. E eu vi vocês conversando na entrada da escola.

— A gente tava discutindo! A gente sempre tá discutindo! Ela me odeia. Todas as minhas ex-namoradas me odeiam, você já percebeu isso?

Maimie Darling, a garota caucasiana de sobrancelhas arqueadas e gingado refinado; Donna Willard, a salva-vidas da piscina pública do bairro, radiante em seu maiô carmim; Edie Campbell, uma universitária de feições equinas, porém graciosas, que estava deixando seus pelos crescerem como um protesto feminista; Anika Dhar, de ascendência indiana, que possuía uma pele cor de caramelo e era uma das garotas mais inteligentes do ano; e é claro, havia Didi Grindylow, de roupas extravagantes e botinas de couro de cobra, curvilínea e venusta como uma versão negra de Clóris, a ninfa da primavera. Floyd cruzava com elas brevemente, em calçadas opostas ou em filas do caminhão de sorvete, mas todas elas, sem exceção, faziam questão de lançá-lo um olhar fulminante e às vezes, um gesto obsceno.

— Mas o Finn...

— E desde quando o Finn entende de alguma coisa? — interrompeu-a. — Ele inventou tudo.

— Mas por que elas te odeiam tanto?

— Porque eu nunca transei com nenhuma delas! — explanou, exasperado. — Lembra daquela garota que quebrou uma garrafa na sua cabeça? É a Edie. Ela me chamou de virgem frouxo e começou a estapear a minha cara porque ficou um tempão com fome e eu sempre brochava.

Raven ficou em silêncio, roendo a unha do dedão.

— Você já tentou Viagra? — sugeriu ela.

— Não, não era esse o problema.

Ela roeu a unha até o sabugo. Parecia estar ponderando sobre o que mais perguntar.

— E qual era o problema?

— O problema era que não era você. Elas não eram você.

Ela engasgou, surpresa. Ele ficou surpreso por ela estar surpresa. Sua atração transparecia no rubor em sua face toda vez que se viam. Suas falas saíam trêmulas, às vezes persuasivas. Seus pelos eriçavam, suas pupilas dilatavam. Floyd nunca mais experimentou aquele tipo de amor; aquele que o fazia salivar, delirar e agonizar.

— Eu realmente gosto de você, Rae. Mas eu não sei o que dizer.

Ela engatinhou até ele. Escorou-se em seu colo, com as pernas ouriçadas e enroladas ao redor de sua cintura. Segurou sua nuca com ternura e o puxou para perto de si. Um hálito quente escapou de sua boca cavernosa e o inebriou, fazendo-o se esquecer das técnicas que adquirira com a língua ao longo dos anos e namoradas.

— Você não precisa dizer nada. — sussurrou ela.

Inclinou-se e recuou várias vezes, como se estivesse em dúvida. Até que, numa rapidez que cortou o ar, começou a engoli-lo com uma ferocidade desenfreada, que o fez franzir o cenho com assombro e fechar os olhos com alvoroço. Seus colhões esmagados pelo peso de Raven não doíam mais. Suas mãos, úmidas pelo suor, embrenharam-se para dentro da blusa dela, contornando as curvas de seu torso candente.

Raven beijava como uma pré-adolescente — inexperiente, esfomeada, alucinada. Sentiu suas papilas gustativas salientes e o gosto de sua última refeição (comida tailandesa com um molho agridoce enjoativo) borbulhando em suas vísceras. Arfava tresloucado, deleitando-se embaixo dela. Não era assim que acontecia em seus devaneios à meia-noite; neles, era Floyd quem, impulsionado por uma coragem flamejante, tomava-a nos braços e a beijava até sugar seu âmago pela boca.

E também havia o mel; o mel, que transbordava efervescente pelos seus esôfagos, que pulsava viscoso sob as suas calças. Quando ela se afastou, com uma linha de saliva ainda os conectando pelas bocas, Floyd teve a sensação de uma carência impreenchível, um pesar no coração lancinante. Sua boca formigava, seus braços estavam paralisados. Ouvia seus próprios neurônios se arrebentando e estourando em sua cabeça como as bolhas em uma taça de champanhe.

Ela beijou seu pescoço, despiu-o de sua camiseta, lambeu seu pomo de adão — subia e descia, frenético —, abaixou seu zíper, gargalhou, remexeu-se, reprimiu um suspiro, permitiu alguns apertos libertinos. Seus botões, antes indistintos embaixo da regata branca, desabrocharam com o toque de Floyd. Afundaram em um silêncio semelhante àquele do fundo do mar; as churrasqueiras crepitantes e os passos rápidos de Finn retornando à casa da árvore sem colher alguma (seguiu seu instinto que detectava uma malícia sórdida no ar) pareceram sondas de um submarino distante. Raven abria e fechava a boca como um peixinho dourado.

— Pessoal? — ele escutou a voz pueril de Finn chamando-os e em seguida, o farfalhar dos galhos em que se pendurava para alcançar a casa.

— Bota a sua camiseta. — ordenou ela, subindo as alças de sua blusa e limpando a saliva em seus lábios. — Eu posso passar na mercearia amanhã?

— Sem problemas. — respondeu ele, tentando ocultar sua beatitude.

Raven lhe deu um último beijo sucinto e abriu aquele sorriso, característico das amantes de Casanova. Pediu por discrição e no último segundo, notou a braguilha aberta, que descortinava o tecido azul listrado de sua cueca. Ela fechou o zíper e ele se arrepiou, porque seus dedos pareciam pernas de aracnídeos de tão finos e sutis que eram. Em seguida, virou-se na direção da saída e deu um encontrão com Finn.

— Tô indo. — disse.

— Você... — iniciou ele, pestanejando. — Você quer ver Sociedade dos Poetas Mortos de novo?

— Sim, claro. Tchau, Finn.

Finn continuou com os olhos pregados nela enquanto Raven aterrissava na grama úmida e corria até a calçada. Ainda equilibrado em pé sobre um galho, arqueou uma sobrancelha para Floyd, inquisidor.

— Que foi, cara? — ele estampou um sorriso sacana no rosto. — Vai pegar a droga da colher.


***


Floyd deixou a casa da árvore após alguns minutos com Finn (que não parava de o importunar com perguntas sobre Raven e, insatisfeito com as respostas ambíguas e reticentes que recebia, dizia: ‘‘Pisque uma vez se vocês se beijaram, pisque duas vezes se não’’). No caminho de volta para a mercearia, passou pela casa dos Wakahisa e parou no quintal estéril, esperando que Raven aparecesse na janela e o convidasse para entrar. No entanto, as únicas coisas visíveis no andar de cima, eram pernas de alguém que plantava bananeira — e a julgar pela estrutura muscular definida daquelas panturrilhas, deduziu que era Park, que andara fazendo treinos intensivos.

Retornou à sua casa com o desânimo costumeiro. O filhote de tartaruga nadava desnorteado pelo tanque e pareceu frenético quando foi deixado sobre o colchão pelado de seus aposentos.

O quarto de seu pai estava vazio e a TV, apagada. No entanto, o ar que cheirava a flatulência e desodorante barato confirmou a sua presença. O sr. Dolovan se encontrava na cozinha — se é que aquele compartimento poderia ser chamado de cozinha, uma vez que havia uma máquina de lavar ao lado do fogão e uma caixa de areia (pertencente a um gato morto tempos atrás) próxima à geladeira que não funcionava —, sentado em um banco solitário, diante de uma mesa desmontável.

— Eu não sabia que você tava aqui. — Floyd engoliu a seco.

— Bom, é a minha casa também.

Seu pai bebia leite direto do gargalo. Parecia lúcido e consciente pela primeira vez em semanas.

— Eu não te comprei um presente. — revelou, após soltar um arroto estrondoso.

— Tudo bem. O Beau me deu um monte.

— O burguesinho? Pelo menos isso, né?

Floyd puxou uma lixeira vazia, virou-a de ponta cabeça e se sentou ao lado do pai.

— Rolou, pai.

— Rolou o quê?

— Com a Rae.

— É aquela que me acertou com a frigideira?

— Te acertaram com uma frigideira? Poxa, nem sabia.

— E você gosta dela?

— Pra caramba.

O sr. Dolovan estava dando um último gole em seu leite coalhado quando começou a soluçar, com catarro escorrendo pelas narinas avermelhadas e lágrimas desvairadas umedecendo suas bochechas porosas. Ele já cheirava a álcool naturalmente — estava impregnado em suas vestimentas, em seu hálito, em seu sangue. O sr. Dolovan agarrou-se ao colarinho de Floyd e o abraçou como não fazia há anos, molhando sua camiseta com seu pranto quente.

— Eu nem sabia que você tinha uma garota. — lamuriou seu pai, com o rosto vermelho-pitanga. — É o tipo de coisa que eu deveria saber. E agora, você nem vai poder me apresentar ela, porque eu sou um pinguço e você me odeia.

— Eu não te odeio. — distribuiu algumas palmadinhas solidárias nas costas do sr. Dolovan. — Só acho que você não foi feito para ser pai. E você já conhece a Rae, ela mora na vizinhança faz algum tempo.

Ele assentiu com a cabeça, tentando controlar seus soluços para prosseguir.

— Quero dizer, olhe pro seu nome, moleque. Floyd? Que merda de pai dá nome de banda pro filho?

— Gosto do meu nome.

— Você foi internado outro dia porque tava se injetando, você rouba as minhas bebidas, você fuma escondido e sai com esse pessoal drogado. E daqui a pouco, vai me aparecer com uma garota grávida. Eu conheço essa história. E eu sei como ela começa e como ela termina. — ele fez uma pausa para fungar. — Começa com um pai negligente que não quer filhos e termina com um pai negligente que não quer filhos.

Floyd resolveu não dizer nada. Pegou o galão de leite das mãos do pai e o virou em sua boca, sentindo as gotas de um fluído azedo. Com uma careta de nojo, afastou-se do pai, esfregando a língua com os dedos, a fim de se livrar do gosto ácido do laticínio.

Dirigiu-se ao seu quarto, que não parecia tão cinza e constipado como de costume. Arranjou um lugar para o aquário da tartaruga próximo à sua pilha de livros rotos. Entrou em seu banheiro e encarou seu reflexo no espelho turvo. Os olhos eram um fantasma e os olhos refletidos no espelho eram um fantasma de um fantasma. Desalmado, com as vísceras reviradas, sentia a dormência em seus lábios e o êxtase palpitante em sua virilha. Ele esticou o braço para abrir o armário atrás do espelho e pegar a seringa escondida entre escovas de dentes, mas resistiu. Raven era melhor que morfina, porém sem as infecções e as injeções solitárias. Ela apaziguava suas aflições e consumava os seus desejos, e isso bastava.

E pela primeira vez em dias, estava tudo bem.

Notas finais
Então, primeiro de tudo, eu queria anunciar o Tumblr de Dazed And Confused que ainda não está completamente pronto (falta adicionar as prévias, postar mais umas coisinhas), mas se vocês quiserem dar uma olhada, o link: http://dazedcnfused.tumblr.com O Tumblr tem senha, então se vocês quiserem ter acesso, mandem uma MP pedindo a palavra-chave. Depois, é só digitá-la no espaço em branco. Recomendo que entrem pela versão do computador porque tem um theme e é super bonitinho e tal. E para comemorar o décimo capítulo de DaC (acalmem-se que tá quase acabando), quis botar algumas curiosidades/pistas: 1) Prestem atenção na reportagem da Lorna. Tem um spoiler do caramba. 2) O assassino pode ser assassina, pode ser uma dupla, pode ser um quinteto, pode ser um gato, pode ser qualquer um. Não é o primeiro suspeito que aparecer. 3) Não sei se já mencionei isso, mas a mãe do Floyd o abandonou e o pai do Beau tá metido com umas coisas sujas (por isso que ele é tão ricaço e comprou uma mansão no meio do nada) 4) Já falei isso num review: Há uma razão para a Peggy Ryan só aparecer para a Raven. Talvez signifique alguma coisa, talvez seja só a espiritualidade dela. Espero que tenham gostado e deixem suas opiniões nos comentários