Days Of Hell
3 Capítulo 3 - O Sangue Derramado
Notas iniciais
As coisas estavam acontecendo tão depressa que nem percebi o quanto feliz eu estava. Minha mãe confessara que havia uma esperança para Val. Com isso me aproximei mais de meu pai também.
Os dias estavam voando. Já era sexta-feira, meu último dia de aula. Foi estranho.
Consegui me despedir de todos meus amigos e colegas, até de pessoas com quem eu nunca falei na vida. Andrea foi a última, e eu estava triste. Confesso! Estava reprimindo um choro. Andrea estuda comigo desde a oitava série, e ela me conhece melhor que meus familiares. Era estranho pensar que não a veria todos os dias, não riríamos todos os dias, não brigaríamos todos os dias.
Lembro-me como se fosse hoje, era no primeiro ano, eu tinha uma quedinha por ela. Havia acabado de bater o sinal e estávamos indo embora da escola quando encontramos um pássaro com a asa quebrada, ele estava sofrendo. Mas Andrea ficou com dó do pobre pássaro e decidimos que eu o levaria para um veterinário. Atendi o seu pedido, e caminhei em direção ao pássaro e quando me ajoelhei, reparei que o bicho estava se debatendo, ele não havia quebrado apenas as asas, e sim, suas patas também. Enrolei minhas mãos no pássaro e me virei caminhando de volta para Andrea, quando a vi beijando Raphael, meu amigo, e pelo visto, eu era o único que não sabia sobre eles, já que alguns colegas meus comemoravam, como se sempre esperassem por aquele momento. Foi estranho, Andrea me dissera uma vez que eu era o melhor amigo dela e que eu sabia de tudo sobre a vida dela. Eu pensava.
Um calor consumiu meu corpo, eu fiquei com raiva e odiei aquele garoto com todas minhas forças, acho que era porque eu gostava de verdade de Andrea, e eu já estava planejando uma maneira de falar para ela, mas aquilo me pegou de surpresa. Corri daquele lugar o mais rápido que pude, tão rápido que quando Andrea e Raphael se separaram eu não estava mais a vista. Porém, eu havia me esquecido de algo, e tentava lembrar. O pássaro!
Ele estava na minha mão, mas não inteiro. Acho que fiquei com tanta raiva de Andrea e Raphael que o esmaguei sem nem sentir seus ossinhos de estatelarem. O pobre pássaro não existia mais, era uma pasta agora, uma mistura de sangue com penas.
Foi a primeira vez que matei por raiva, mas será que isso vale? Eu não tive culpa, realmente, me esqueci de verdade do pássaro. Arrependo-me de não ter percebido, porque agora eu sei que Andrea era e sempre será apenas uma amiga para mim. Levei isso como apenas fatos de coisas que acontecem na escola.
Sentirei muitas saudades dela.
Hoje era um dia especial, o dia em que Val voltaria para casa depois da primeira consulta, a primeira fase do tratamento. E eu e meu pai iríamos buscá-la. Eu estava muito ansioso.
Ao chegar do último dia de aula joguei minha bolsa no sofá, e nem percebi quando minha mãe falava comigo. Ela devia ter perguntado algo como “Como foi a aula?” como sempre, ou como é o último dia que eu vou para a escola, “Como foi o último dia de aula?”.
BIBIBI
A buzina do carro do meu pai gritou em frente a minha casa, eu sai correndo e entrei com tudo no carro.
– Calma Lucca! Não bata a porta do carro com tanta força. -Advertiu meu pai-
Mas não o ouvi falando, eu estava perdido em meus pensamentos.
Será que Val já estará correndo, falando, cantando como antes? Saudades de escutar sua linda voz novamente!
Eu estava tão animado com a ideia de ter Val, como ela era antes, que quase esqueci que tinha que agradecer ao Walter por ter falado para o pai dele sobre Val, se ele não tivesse feito isso Val nunca teria tido uma chance para receber o tratamento.
Chegamos.
O hospital estava cheio, muita fila e muitas pessoas tossindo e chorando, algo estava acontecendo, mas eu não me contive de ansiedade, nem me abalei com aquilo, e pareceu que meu pai também não.
– Onde é que vamos pegar Val? –Perguntei-
– Vamos até o quarto dela, vamos perguntar para a moça na recepção.
Algo realmente estava acontecendo ali, algo que quase tirou minha atenção, como se todas as pessoas que estavam naquela sala estivessem doentes, algumas estavam sentadas em cadeiras, outras se seguravam para não desmaiarem, todas muito pálidas. Mas eu só pensava em Val, sim, sempre fui meio egoísta.
Mas a recepcionista conseguiu tirar minha atenção, por um momento pensei que ela era apenas uma das pessoas que esperavam para serem socorridas, depois que me dei conta que ela trabalhava mesmo aqui. Ela estava estranha, pálida, muito pálida, e seus olhos saltados e muito vermelhos, e ela estava soando muito. Ela devia estar passando mal.
– Por favor –Começou meu pai já entregando alguns documentos para a moça- Viemos buscar Valkíria Ortiz, ela está recebendo tratamento, está na primeira fase do soro FH23.
A moça arregalou mais ainda os olhos quando meu pai disse “FH23”
– Ah Valkíria Ortiz? –Disse a mulher com um olhar triste que me deu medo do que ela poderia dizer em seguida- Sim... Ela está na sala de espera dos pacientes! É no final do corred... COF! COF! COF! COF! –A recepcionista tossiu desesperadamente, como se lhe faltasse o ar- Desculpem! O senhor pode ir busca-la no final... Do corredor! Mas você terá de esperar aqui...
Ela se referiu a mim, mas eu estava tão perplexo com a moça, que mal pude notar quando meu pai me disse algo e logo em seguida sumiu pelos corredores.
Ela precisava de ajuda, dava para ver seu suor frio, escorrendo pelo canto do rosto, seus olhos da cor de sangue. Não sei quanto tempo ela aguentaria. Eu estava paralisado olhando para ela. Ela percebeu e me encarava, nós dois não dissemos nada, durando dez segundos, mas é como se ela quisesse me dizer, não sei o que, mas é como se ela soubesse de algo.
Foi quando fomos interrompidos por sangue. A recepcionista vomitou uma cachoeira de sangue, muito sangue, que manchou todos os documentos do balcão, e até respingou um pouco em mim, e em outras pessoas que estavam por perto. Eu não consegui me mexer, fiquei paralisado, literalmente. A moça caiu no chão e começou a se debater, cuspindo ainda mais sangue da boca.
Todas as pessoas pararam de choramingar e se voltaram para a pobre recepcionista. Ficaram assustadas, algumas até foram tomar um ar do lado de fora, ou foram embora mesmo. Aquilo foi uma cena horrível. Um grupo de médicos socorreu a mulher ensanguentada que se debatia, e rapidamente a levaram para outro lugar. Espero que ela fique bem, embora não saber o que ela tinha. Mas eu nunca vi ninguém vomitar tanto sangue igual a ela, nem em filmes.
O sangue ficou ali por algum tempo, e as pessoas ficaram comentando. Agora eu estava sentado em uma cadeira próxima, pensando no que eu acabei de presenciar.
O que será que a moça tinha? Onde está meu pai? Porque ele esta demorando tanto?
Odiava não ter as respostas para estas perguntas.
– Graças a Deus! –Comemorei quando vi meu pai empurrando a cadeira de rodas de Val, percebi que ela estava diferente, não estava mais pálida, estava rosada, e quando me viu sorriu meio torto, mas sorriu. Fiquei feliz com isso, eu não me segurei levantei e dei um abraço nela demorado...
– Vai com calma Lucca, ela não está tão forte assim. –Disse meu Pai e continuou- O médico disse que temos que esperar um pouco para ver se o tratamento está fazendo efeito!
– Um pouco? –Desfiz o abraço e olhei pro meu pai-
– Talvez dois ou três dias!
– Ah! Bom, o importante é que a teremos de volta! –Digo-
– Você está bem filho? –Perguntou meu pai, e no mesmo momento percebi que ele leu minha expressão de preocupação, mas eu não estava assim por causa de Val, era a atendente, eu realmente fiquei chateado por ter que presenciar aquilo- Parece meio preocupado!
– Não, estou ótimo, vamos embora? –Menti, desejando meu pai não continuar perguntando-
Ele assentiu, e caminhávamos para a saída.
Passamos pelo balcão onde faxineiras limpavam o que antes era sangue, agora apenas umas manchas vermelhas sobre o chão. Percebi meu pai cruzar o olhar assustado. Será que ele ouviu os médicos comentar algo?
Cruzamos a porta da saída quando escutei duas enfermeiras comentando:
– Pobrezinha! Ela vomitou bem mais lá dentro!
– Oh meu deus! Ela tinha acabado de terminar o tratamento com o soro FH23.
– Verdade! Fiquei sabendo que ela voltou a ter uma vida normal novamente na semana passada... Ela já teve duas paradas cardíacas lá dentro!
Aquela enfermeira ficou daquele jeito por causa do tratamento?!
Notas finais
PRÓXIMO CAPÍTULO - SOB A PERSPECTIVA DE VAL.
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