Days Of Hell

12 Capítulo 12 - O Anjo de Fogo


Notas iniciais
Para salvar Walter, Lucca terá de enfrentar um bando de dez Militares sem escrúpulos. Será que ele é páreo para eles? Óbvio que não! Mas como ele salvará seu amigo? Será que ele ajudará as garotas que também estão presas?

PÁ! PÁ! PÁ!



As árvores pareciam ser do século retrasado. As árvores, que um dia podiam ter abrigado ninhos e mais ninhos de pássaros belos, pássaros que cantavam alegremente em dias normais, em dias que a maior preocupação das pessoas era apenas em conseguir um bom trabalho, em como saber escolher um namorado (a), em como conseguir passar em uma boa faculdade... Esses dias nunca mais voltarão. Agora a nossa preocupação era se estaríamos vivos ao por do sol.



Os tiros estraçalhavam o tronco da árvore de madeira cinza, protegendo-me. Os Militares não me viam, mas sabiam que ali estava alguém que explodiu seis dos seus amigos, por assim dizer. Minha única preocupação agora era como eu sairia daqui levando meu amigo comigo, antes da bomba cair em São Paulo, o que podia ser a qualquer momento. Então, não podia perder mais tempo, tremendo e com dificuldade para respirar devido ao impacto da última bomba, retirei o pino da penúltima granada. Olhei, e vi três Militares que tentavam atirar furiosos em um alvo invisível e então... Eu os explodi.


Esta explosão me atingiu mais que a outra, fazendo meus ouvidos zunirem, e minha visão ficar embaçada. Levantei-me aos tropeços, com minha Magnum engatilhada, pronto para atirar nos mortos que certamente viriam. Passei por entre os destroços, ainda tonto, quase tropecei nos restos mortais dos Militares... Quando os ouvi:


Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarg!!!



Aquele grito... De novo. Um calafrio apavorante percorreu minha espinha. Eles vieram tropeçando, cegos, famintos, procurando algo ainda com vida... A minha sorte é que não eram muitos. Mas o suficiente para me despedaçar. Eu tinha que agir rápido.



Correndo, tonto, fui para a Cabana, que estava pela metade, mas após alguns segundos não era nada, ela despencou e caiu... Algo me surpreendeu. Walter não estava lá. Mas sim, duas garotas tentando tirar um infectado de cima de uma Senhora, que pegava fogo, mas mesmo assim o infectado não desistia e arrancava seu nariz numa só dentada. Peguei um pedaço de madeira qualquer do chão e então a meti com toda a força que pude na nuca do infectado. As garotas se assustaram ao ver que fiz o que elas tentavam, e ao ver também a Senhora agoniando-se e morrendo aos poucos... Mas o que eu faria agora? Olhei em volta, e vi o caos, infectados comendo restos humanos, correndo próximo de mim procurando por mais alguém... Neste momento não tive medo, pois as chamas e os destroços faziam a trilha sonora da cena, impedindo-os de que me ouvissem...


Quando olhei próximo da árvore, onde eu estava escondido, vi duas silhuetas, e parece que minha visão normal retornou no momento certo, era Walter sob a mira de um revólver que um Militar apontava para ele, o braço em volta de seu pescoço.



Δ



A bomba caiu, deve ter destruído São Paulo completamente, e acredito que eu agora esteja na vida pós-morte... Mas para ser sincero nunca pensei que fosse assim... Fogo. Pensava que seriam nuvens, pensei que haveria anjos brilhantes, ou negros. Pensei também que agora eu veria meus familiares, meus amigos que perdi... Rosa. Rosa, se eu pudesse voltar no tempo e dizer-lhe tudo que eu não disse... Se eu pudesse recuperar o que eu perdi, seria mais feliz. Mas onde estão todos para me receber? Eu morri. Estou aqui, será que não vem ninguém? Só há fogo, fogo e... Sangue? Pedaços humanos? Infectados?



Alguém me segurava pelo pescoço, sentia uma arma em minha cabeça, alguém ameaçava me matar. Mas para quem esta pessoa fazia tal ameaça? Olhei para frente, e vi meu amigo em meio ao caos, e as garotas que estavam na cabana, logo atrás dele...



Δ



Fiquei imóvel, não teria mais jeito, nós morreríamos aqui, ou eu morreria. Mais infectados saíram de entre as árvores. O motivo deles não terem vindo ao meu encontro, é que as chamas faziam mais barulho que nós, nos encobertando. Já que eles só ouviam...



Olhei o Militar, que estava a apenas dez metros de distância de mim, ele iria matar Walter, eu via isso nos olhos dele, via o quanto ele queria se vingar, por eu ter multilado seus parceiros. Ele sabia de que era alguém tentando salvar seu prisioneiro desde a primeira bomba que eu havia jogado... Mas o que eu poderia fazer agora? Eu só tinha mais uma granada, e tinha minha arma também, mas não sabia atirar, quer dizer, eu sabia, mas nunca atirei na minha vida, e se jogasse a granada, Walter também iria ‘aprender a voar’...



Eu não poderia pedir misericórdia, ou os infectados, que não estavam tão longe de mim me ouviriam, e também por que isso era a última coisa que pediria na hora da minha morte, que poderia ser agora. Sem saber o que estava fazendo, fiz um gesto de desafio, levantei minha arma também, e mirei nos dois, sem pretender atirar. Para minha surpresa a reação do Militar foi a risada, ele debochou de mim, mas ao mesmo tempo também chorava, ele estava com medo, apesar de um monstro ele também era humano.

Neste momento tudo que estava á minha volta congelou, mal percebi quando as chamas da cabana, e dos restos de estilhaços, apagaram. Vi que os infectados se viraram para nós, um de cada vez, como se ouvissem o som do nosso batimento cardíaco, que acelerava descontroladamente. Eles estavam prontos, para que qualquer inaudível fosse o barulho, para se alimentarem. Então o Militar engatilhou sua arma.

Nem mesmo eu, vi que havia um infectado atrás dele, mas ele percebeu, e quando o infectado ameaçou pular em cima dele, ele se virou e jogou Walter contra aquele corpo sem alma, faminto...


PÁH!



Uma sensação curiosa e estranha passou por mim, o impulso do tiro me fez vacilar, por pouco não acertou o alvo, mas me ajudou muito, salvei Walter. Não tingiu o Militar, mas atingiu o Infectado que por pouco não arrancou com a boca, um pedaço do braço de Walter. O Militar se virou para mim novamente e mirou a arma, mas fui mais rápido que ele, que se distraiu com os infectados que corriam em nossa direção, bufando, gritando, e estavam cada vez mais perto. O tiro o atingiu no peito, e o impacto me fez cambalear mais uma vez. Ele caiu no chão ainda vivo, agonizando e sentindo cada arrancar de um pedaço de pele que os infectados lhe tiravam.



Vingança, consegui matar os Militares, agora poderia morrer em paz. Tomara que não doa muito quando eles arrancarem minha pele. Que perturbante, parecia que o destino recusava-se a me permitir morrer, recusava-se. Quando dei por mim, a garota, a que estava seminua, me ajudava a correr, e na frente, Walter estava de mãos dadas com a garotinha, correndo também...


– O CARRO LUCCA... O CARRO! –Gritava Walter correndo mais a frente.

– AINDA ESTÁ LÁ... –Gritei, mal acreditando na situação.

Cinquenta ou mais infectados corriam atrás de nós pela estrada que antes estava marcada pelos Militares. A garota que me segurava e corria tão desesperada quanto eu, era destemida, parecia não desistir mesmo quando reparei que havia sangue pelas suas coxas, ela devia ter sofrido algum corte nelas, e provavelmente doía muito, pelas caretas que vazia, mas mesmo assim seguia em frente.

O carro estava lá, á uns vinte metros de distancia, um pouco longe, e os infectados cada vez mais perto... Por mais que conseguíssemos entrar no carro não poderíamos passar, por essa multidão, e eles quebrariam o vidro já rachado, nos encurralando dentro dele. Foi quando percebi que em uma das minhas mãos, havia uma última granada, a qual se eu usasse poderia haver uma chance. Retirei o pino e deixei-a cair no chão... A garota percebeu, olhou para mim, entendendo, e correu ainda mais rápido, ainda segurando no meu braço...

A contagem regressiva para entrarmos no carro, e para a bomba explodir na estrada começou, e tínhamos que nos empenhar na corrida, pois se quando a bomba explodisse e ainda não tivermos dentro dele, o impacto nos fará rolar pelo asfalto, o mesmo impacto que jogará os mortos para nós também.


30



Faltavam apenas mais alguns metros para alcançarmos o carro...


29

Lembrei-me que deixamos a chave no banco do motorista...

28

Alcançamos o carro...

25

Abrimos as portas...

20

As garotas jogaram-se nos diversos enlatados e garrafas, no banco de trás...

15

Os infectados se aproximavam...

10

Walter tentava ligar o carro... E conseguiu!

5

Ele estava esperando a bomba explodir para dar espaço para o carro passar...

4

3

2

1


BUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!



Os pneus gritaram mais uma vez, e logo Walter, fraco, mas percebi determinado, colocou o carro na estrada, por alguns segundos a fumaça da explosão tapou nossa visão, nos permitindo agora apenas escutar os gemidos da garota seminua, e o choro amargo e impedido, da garotinha menor, enquanto o carro pareceu derrapar numa lombada, mas devia ser o buraco causado pela explosão no asfalto. Olhei para Walter, lágrimas desciam pelo seu rosto imundo.



Senti os pneus derraparem mais uma vez nos restos dos infectados, que ali jaziam. Outros que ainda continuavam sua corrida foram atropelados, pelo carro que a cada segundo aumentava sua velocidade... E aos poucos, milagrosamente, aqueles corpos sem alma foram ficando para trás. De relance, eu vi o lugar da primeira explosão, ainda havia infectados ali comendo os últimos restos humanos, mas não dos outros Militares, os restos daquele que quase matou Walter... Logo o lugar foi se distanciando até desaparecer de vista...



Δ



Eu fui má de ter desejado a morte de Tavarez? Será que eu desejei com tanto ódio que ele acabou morrendo? Não! Foi justo com o que ele fez comigo! O amigo de Walter o matou por que ele ia matar o seu amigo também! Foi justo...



Não conhecia esses garotos, mas já me sentia segura com eles... Queria que este momento a partir de agora não passasse, continuasse sempre com o carro andando, sem medo, sem barulho, a não ser por uns infectados que éramos obrigados a atropelar de vez em quando...



Ficamos um bom tempo sem falar palavra alguma, tive a impressão que podia ter passado algumas horas...


Obrigada meu Deus por mandar seus anjos para me proteger...



Anjos... Foi então que eu vi um.



Ele era lindo e brilhava muito, vinha com sua formosura atropelando as nuvens e caindo cada vez mais rápido do céu, como se algo o tivesse expulsado de lá. Olhei mais atenta pelo retrovisor e percebi que aquele anjo não tinha asas. Estava tão perplexa com aquilo que mal ouvi que os garotos na frente comentavam algo sobre uma bomba...


Quem poderia expulsá-lo? Quem poderia não querer uma coisa tão linda dessas, um anjo brilhante, um anjo de luz... Será que ele morreria ao cair? Afinal, ele não tinha asas... Eu estava ficando apavorada novamente... O anjo morreria, tínhamos que voltar, tínhamos que ajudá-lo, ele ia tocar o solo em instantes... E tocou...

O clarão enorme me fez chorar... Nunca tinha visto algo tão lindo como isso... O poder do anjo era tão grande, que certamente estava chegando até nós... E eu mal podia esperar para respirar seu poder, para me entregar a ele. Mas aquilo não era algo sobrenatural, como tolamente pensei, era fogo... E vinha destruindo tudo por onde já tínhamos passado.

De relance, vi uma placa com os dizeres ‘Bem vindo ao Rio de Janeiro’...



Δ



Notas finais
O Anjo renegado caiu e soltou sua fúria sobre a terra morta, chamas a corroeram... PRÓXIMO: CAPÍTULO 13 - UMA LUZ NA ESCURIDÃO