Days Of Hell
5 Capítulo 5 - Desespero
Notas iniciais
Eu já havia me esquecido de alguns golpes que aprendi nas aulas de Kung-fu com meu amigo Walter. Já fazia uma semana que não praticávamos. Estava um dia perfeito, sem escola, sem tédio... Só o Kung-fu, e ainda quando eu voltasse para casa teria minha irmã Val. Acho... Que eu estava feliz!
Eu estava diante de um saco de areia, e chutava com toda minha força, quando percebi Walter e meu Sensei conversando. Cheguei mais perto para ouvir:
– E está uma guerra em todos os hospitais, acho que a epidemia chegou aqui! –Disse meu Sensei-
– Que horror! Então não podemos sair de casa? –Perguntou Walter-
– Pelo o que eu vi, ainda não passou nada na televisão! –Disse o Sensei-
Todos agora só falam dessa epidemia, que chegara ao Brasil, e que quem estivesse contaminado morria em algumas horas. Outro dia vi anunciarem no jornal de que o novo vírus era letal. Eu não duvido nada sobre este vírus, e tantos outros que aparecem do nada, terem sido criados em laboratório.
Era meio dia. Walter e eu estávamos a caminho de casa. A escola de Kung-fu situava-se apenas alguns minutos de nossas casas. E eu esta0va animado para conversar com Val...
– Então realmente funcionou! Fico feliz que ela esteja mesmo bem novamente, é como um milagre não é? ... Meu pai ficou feliz também! –Disse Walter-
– Não vejo como um milagre, só um fato, mas estou muito agradecido por sua ajuda, e pelo seu pai!
– Que isso, não custou nada para meu pai ajudar, afinal ele é um bom médico e estava bem próximo do soro não é? E além do mais, você é meu melhor... –O olhar dele ficou vago, paralisou, não conseguia andar e nem falar, só então quando acenou indicando algo que acontecera a frente descobrira o motivo repentino de sua paralisia-
De longe enxerguei uma ambulância, vizinhos e curiosos, em frente a minha casa. O que acontecera?
Vi dois ou mais enfermeiros saindo de minha casa empurrando uma maca onde lá, estava Val, desacordada e de olhos virados. Não percebi quando comecei a chorar. O que houve? Porque Val está inconsciente?
– O que aconteceu com ela? Pra onde a estão levando? –Disse seguindo a maca e gritando para seja lá, quem me ouvia.
– Onde estão meus pais? –Não via nem minha mãe, nem meu pai. Apenas alguns vizinhos curiosos e minha prima Gabi.
– Lucca fique calmo! –Disse Gabi me segurando pelo braço- Vai ficar tudo bem, sua mãe me disse que a encontrou assim já caída no banheiro, então ela me pediu para ligar para o socorro!
– Eu vou junto com ela na ambulância! -Disse soltando-me das mãos de Gabi e seguindo mais uma vez a maca-
– Sinto muito, mas você não pode entrar na ambulância! -Diz um enfermeiro me tirando de perto de minha irmã-
Minha mãe apareceu do nada, aterrorizada com a situação, e seus olhos molhados. Eu não tive reação, as palavras fugiram de minha boca. Será que Val tinha morrido? Será que eu nunca mais veria minha irmã novamente? Estes pensamentos se afloraram tanto em minha mente, que quando pude ver, estava no banco do passageiro e minha mãe ligando o carro, para seguir a ambulância. De relance vi meus amigos olharem para mim assustados, havia um pouco de pena também em seus olhares. Walter, Gabi e Rosa.
– Mãe o que aconteceu onde está meu pai? –Disse desesperado enquanto a via pisando fundo no acelerador para acompanhar a ambulância, que gritava estridentemente no meio das ruas-
– Eu não sei... Não sei, eu a encontrei assim no banheiro... Tentei ligar pro seu pai, mas ele não atendeu, liguei tantas vezes! Não sei o que aconteceu... E com aquela epidemia, que chegou aqui no Brasil...
Minha mãe estava bem mais apavorada que eu, o que me deixou mais assustado ainda... O que acontecera com Val?
Segui o resto da viagem em silêncio, era apenas eu e meus pensamentos loucos. Quando entramos no estacionamento do hospital, nem nos preocupamos em fechar as portas do carro, fomos correndo atrás dos enfermeiros que carregavam Val sobre a maca. Como se tivesse sido arrebatada da terra.
A partir do segundo em que pisei na entrada da recepção do hospital, foi como se ali fosse outro mundo. Os gritos de desesperos me acertaram como uma flecha bem no meio do meu peito. Aquilo estava um inferno. Pessoas correndo com manchas de sangue nas roupas. Crianças chorando como se tivessem sido abandonadas pelos pais. Foi a primeira vez que senti o peso da epidemia, se fosse. Já pude saber de muitas, mas esta, sim, esta era a que mais me afetara.
O que estava acontecendo? Que epidemia era esta? Afinal, porque na rua não estava assim? Acho que era por que todos estavam em casa trancados, por isso chegamos tão rápido no hospital, Afinal. O que é esta tal epidemia?
– Filho, eu vou descobrir o que esta acontecendo, e vou procurar sua irmã, por favor me espera aqui!
Minha mãe parecia tão assustada e tão nervosa ao mesmo tempo, que não me achei no direito de questionar sua ordem, é claro que eu não queria! Eu queria saber mais, queria ver Val.
Minha vida estava novamente tão boa meia hora atrás e agora isso? Estou em um inferno!
Pessoas gritando e correndo por todo lado, e não conseguia ver nenhum segurança, nenhuma atendente. Afinal, aonde foram os médicos que levaram minha irmã... O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
Escutava pessoas correndo apressadas gritando: “Foi anunciado agora, temos que nos trancar dentro de casa, passou na TV”.
“Onde está meu marido e meus filhos o que vocês fizeram com eles?”. Uma mulher magra e muito pálida gritava para um médico puxando seu braço.
Decidi sair daquele lugar. Fui eu mesmo procurar Val, entrei nos corredores do hospital, eram menos vazios que a recepção. Comecei a entrar nos quartos e verificar. Eu estava tão absorto em minha busca, que passei em quartos onde jaziam pessoas e só percebia depois de sair deles. Foi então que a encontrei... Ela estava fraca, pálida, parecia á beira da morte. Não era Val, mas eu a conhecia de algum lugar, e decidi chegar mais perto para tentar lembrar.
– Quem... Quem está ai? –Disse a pobrezinha fraca demais para abrir os olhos-.
– Sou o Lucca... –Não sabia o que dizer, nem conseguia me lembrar de onde conhecia a mulher.
– N-Não conheço... Nenhum Lucca...
– Eu sei... Eu só... Vim ver como você está! -Acho que estava começando me lembrar.
– V-Você... Trabalha aqui? –Sua respiração ficou mais forte, e ela começou a tremer como se tivesse medo que minha resposta fosse sim.
– Não! –Apressei-me em dizer- Não trabalho!
– Ah... –Disse a moça de acalmando- Pensei que chegara minha hora!
– Como assim?
– O que... Você quer então?
– Já disse, vim ver como você está, pensei que precisava de ajuda! Porque você ficou tão assustada quando pensou que eu trabalhava aqui?
– Por que eles me... Machucam, eles falaram... Que a próxima vez que voltarem, me matariam!
– M-Mas porque eles fariam uma coisa desta? –Dessa vez era eu que ficara assustado.
– E-Eles dizem que... Estou infectada...
Não pude negar que senti uma vontade forte de sair de perto dela, mas eu precisava saber mais, eu precisava saber quem era a mulher e do que ela ficara infectada agora.
– Porque infectada? –Perguntei atento aos gritos e as correrias que agora se acalmaram um pouco lá fora.
– Por causa dele... É... Ele é o causador da epidemia! ... É ele, o FH...23!
A sensação era como se alguém tivesse montado em minhas costas, como eu pude ser tão burro e não assimilar? É claro, por isso Val passou mal, e por isso esta mulher está aqui... E eu sei quem ela é, eu sei!
– Eu reconheço você, eu já havia te visto antes...
– Ah! Ajude-me... Eles viram e me matarão... Por favor... –Ela não me escutara e agora soava muito, e pude ver que seus cabelos se desprendiam de seu coro cabeludo como se fugissem dele.
– Se acalme não tem ninguém mais aqui além de mim, me fale mais dessa sua infecção, o que acontece? –Estava tudo quieto lá fora-
–Mas... Mas eles virão!... Não sou só eu, mas todos que estão neste hospital estão infectados! O novo vírus começou por nós... –As últimas palavras me chocaram- E todos que estão aqui morrerão!
Val!!!!!!!
Vire-me e comecei a correr em direção a porta, desta vez iria procurar Val e encontrá-la nem que eu precisasse olhar todos os quartos, mas antes que eu desaparecesse no corredor...
– Espere... Não me deixe aqui... Por favor! me leve... Não deixe que eles me machuquem novamente!
– Eu... –Seja lá quem for que estava a caminho para machucar a mulher também machucaria minha irmã, mas eu não poderia esperar mais um segundo e se eles estivessem no quarto de Val agora? E se eles também machucassem minha mãe? Eu tinha que escolher, em ajudar a moça e perder alguns minutos, ou correr e tentar salvar Val e minha mãe, e eu decidi. –Me desculpe!
Virei, e corri o mais rápido que pude, desapareci nos corredores, e no seguinte momento me esqueci da mulher, esqueci que ela me pedira ajuda, e esqueci também que ela, a que estava deitada na cama, era a mesma mulher que era recepcionista no hospital que Val estivera, e vomitou sangue.
Sangue.
Afinal, onde foram todas as pessoas que estavam gritando igual loucas? Onde elas estariam agora?
O hospital estava vazio. Como se estivesse sido abandonado, quase totalmente escuro, se não fossem as luzes de emergência. Era o mesmo hospital em que eu estivera dez minutos atrás?
Será que ele fechou? Não, hospitais são 24hrs, e este também! Onde estão todos? Onde está minha mãe e Val?
Val. Olhei em um quarto e a encontrei, foi rápido. Não ficava tão longe assim do que eu estivera, e mais uma vez reparei que o lugar estava completamente vazio.
–Val! –Chamei-a que estava deitada na cama, e seu rosto virado em direção á janela- Val! Venha... Vou te levar embora!
Mas a garota não se mexeu. Dei passos em direção a ela, percebendo que estava muito pálida.
–Val, você está acordada? Acorde, precisamos sair daqui! E temos que encontrar a mãe!
Eu esperei ver movimento em sua barriga, que confirmaria sua respiração, eu já estava pensando besteira, mas não houve. Se Val não estivesse inconsciente aposto que ela escutaria meu coração pulando, como se estivesse tentando sair de meu peito.
–Val! Acorda!!! –Gritei. O que deram a ela? Porque ela não despertara com meus chamados?
Eu ousei, ousei tocá-la e virá-la para mim. Queria descobrir a causa dela não me ouvir, e acho que descobri mais que queria. Sua cabeça atravessada com uma faca de cozinha. Seu sangue já ressecara, e manchara uma parte do travesseiro em que sua cabecinha estava descansando.
O que eu faria? Quem fez isso? Eu devia chorar agora? Deitar-me no corpo morto de Val e molhá-lo com minhas lágrimas?
Eu não tive reação, não soube como agir, e quando pude ver, eu estava correndo... Na rua vazia, já era noite. Quanto tempo estava correndo eu não sabia, mas estava indo para casa, e desde então, as únicas pessoas com quem tenho trombado, estavam dentro de seus carros empilhados de mala como se estivessem indo viajar em um feriado qualquer. Mas eu sabia que não, elas estavam fugindo de algo, seria da epidemia, ou da infecção que a ex recepcionista me contara? Ou as duas coisas na verdade era a mesma?
Já estava chegando em casa, e minha mente parecia que iria explodir, com tantas perguntas “órfãs”. Foi quando avistei pessoas, sentadas, correndo, andando sem rumo, manchadas de sangue, avistei também uma enorme cratera, como se tivessem explodido o asfalto, e o pior, as pessoas eu conhecia.
Alguns vizinhos, outros amigos, e a cratera? Bom, antes eu chamava aquilo de lar.
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