Days Of Hell

4 Capítulo 4 - Sob a Perspectiva de Val


Notas iniciais
Desta vez, é Val que contará como foi estar doente todo esse tempo, e é ela que contará também suas melhoras. Desta vez é ela que presenciará o verdadeiro começo dos Dias de Inferno.



Eu não tinha forças para andar, para comer, e nem para falar. O máximo que eu podia fazer era ouvir falarem comigo. Era doloroso demais, perdi minha vida.

Eu sempre passeava, tinha amigos, e tinha até mesmo um namorado, Bruno. Ele era o garoto mais lindo da escola. Mas ele se foi, logo após de descobrir minha doença. Sem nem ao menos conversarmos antes. Ele terminou comigo por e-mail.

Minhas amigas e amigos? Perdi todos. As pessoas se afastaram de mim quando eu mais precisava. Até mesmo minha família. Só quando descobriram que eu estava nos últimos meses de vida me levaram para casa.

Eu me considero uma boa pessoa. Nunca fiz mal para ninguém.

Um dia perguntei para deus porque ele tinha destruído minha vida desta maneira. Não houve resposta.

A cada dia que passava eu ficava mais fraca ainda, e quase não tinha forças nem para respirar. É um jeito doloroso de morrer, aos poucos e sozinha. Deus não estava comigo, ele não me respondia.

Foi quando aconteceu. Era meu aniversário e ganhei um buquê de tulipas lindo do meu irmão, Lucca. Ele deixou-as na cômoda ao lado de minha cama, onde eu estava deitada, e desapareceu em seguida. As flores ficaram ali, e ao longo das horas pareceu que todas elas morreram, estavam petrificadas. Eu olhava fixamente para elas, e percebi que apenas uma se salvou, apenas uma. Ela brilhava mais que tudo, como o sol. De repente seu brilho foi se espalhando para todas as outras petrificadas. Eu entendi.

A flor que brilhava poderia ser eu, e as outras, as pessoas que me cercavam. Talvez isto fosse necessário acontecer comigo, para as pessoas que me cercam aprenderem a não serem petrificadas e feias como eram as flores, que agora brilhavam. Foi quando acordei. Foi tudo um sonho, e acredito que deus tenha me dado ele.

Nunca estive sozinha.

Em algum momento da minha vida eu realmente duvidei de deus. Mas agora eu acreditava nele, como acredito que dois mais dois são quatro.

De repente, ele se mostrou ainda mais na minha vida. Tinha uma cura pro meu problema. E eu tinha certeza que foi ele quem a mandou. Eu posso andar novamente, falar novamente, e fazer o que mais gosto... Cantar.

Eu estava cantando quando o primeiro sintoma de minha doença apareceu...

Era um hino lindo, todos amavam minha voz e eu também. Ficava surpresa, cada vez que alcançava um tom maior. Eu era feliz, contagiava a todos com minha felicidade, mas foi então que aconteceu. Estava no púlpito da igreja e todos sorriam para mim quando comecei a sentir enjoo, tontura, deixei apenas a melodia, mas não cantei. Foi com um grande baque que cai lá de cima, e fraturei a costela. Depois só consigo lembrar-me que já estava no hospital, e lá foi descoberto que eu estava com câncer na medula óssea. Foi ai que começou o pesadelo. Mas eu já despertei dele.

Hoje era o terceiro dia desde que comecei o tratamento, e olhe para mim!

Consigo andar, falar... Só não consigo cantar ainda, minha voz falha. Mas acredito que logo ela retornará. Minha família ficava perplexa toda vez que caminhava pela casa, toda vez que os respondia quando perguntava algo, este tratamento veio do céu.

Ding Dong

Era o Doutor que estava no portão, eu estava esperando para alguém vir para me examinar, e dizer se são bons progressos os meus. Eu o vejo pela janela entrando no quintal, passando pela casa de minha prima Gabi, e entrando na minha.

Minha mãe, meu pai e Lucca o cumprimentaram, eu acenei a cabeça.

“Olha só quem já consegue ter uma vida quase normal! Venha querida, sente-se, vou examiná-la” Disse ele, e eu o fiz. Confio muito no Doutor Phelipe, ele que acompanhou todo o começo do tratamento enquanto eu estava no hospital.

Phelipe retirou algumas bugigangas de sua bolsa e começou a me examinar. Meu pai parecia apreensivo. Lucca e minha mãe sorriam para mim.

Quase não percebi quando minha pele foi perfurada pela agulha da injeção.

“Este é um derivado do FH23, serve para aperfeiçoar ainda mais o tratamento! Tenho certeza que você fez grandes progressos Val. Logo já estará andando pelas ruas, trabalhando... ou até mesmo em uma faculdade. Parabéns!”

Todos sorriram e comemoraram com gritinhos estridentes. Eu estava realmente feliz.

Após algumas horas, o Doutor foi embora, e fiquei com minha família. Eu me sentia ainda melhor, do que hoje cedo. Eu estava assistindo TV com Lucca e meu pai, passava algo sério.

Parece que uma epidemia surgiu nos estados unidos, e o governo mandou todos permanecerem em suas casas, e por enquanto não saírem de lá. Deve ser uma doença igual á gripe suína ou algo parecido, mais uma.

Enquanto de relance ouvi minha mãe contar para minhas tias e para as amigas, sobre minha melhora. E até agradecer a algum amigo do Lucca pela “Oportunidade que deram para Val”.

Já era hora de dormir e eu estava pronta para tomar um belo banho antes. Insisti para minha mãe que eu já conseguia fazê-lo sozinha.

Ninguém acreditaria se eu dissesse, mas era a primeira vez em anos que eu me olharia no espelho. E precisava fazer isso sozinha. Eu era muito vaidosa na época da escola. Sempre penteava meus cabelos louros, que agora era quase cinzas, mas podia ver que estavam voltando sua cor normal.

Eu estava mais magra que antes e maior também. Meus olhos mais castanhos e grandes. Eu ainda me sentia bonita.

Foi o banho mais demorado de toda minha vida. Um banho de verdade. E quando sai do chuveiro, me sequei e coloquei um pijama. Já me esquecia como era ser doente. Eu estava normal, não sentia mais fraqueza, não sentia mais enjoo. Será que eu tentaria aquilo agora?

Busquei em minha mente qualquer canção que eu tenha escutado durante o período de minha doença, e tenha ficado triste por não conseguir cantá-la...

♪ Now is the time to start,

let all our fears aside,

we will be stronger, a case apart,

your sorrow is mine, your fear is mine. ♪

Eu achava esta linda, e realmente fiquei muito triste por não conseguir cantá-la quando quis. Mas agora eu posso e canto ela o mais alto e o mais bonito que consigo. Estou feliz, sou novamente a Val de antes. Consigo fazer tudo o que eu fazia.

“Sempre tive saudades de ouvi-la cantar, como você fazia em todos meus aniversários, e quando eu te pegava desprevenida como agora”. Disse meu irmão Lucca, na porta como se me vigiasse.

“É tão bom ser eu novamente... Deus me deu este milagre... estou muito feliz que agora consigo cantar esta música. Quando eu a ouvi da primeira vez, não conseguia...”. Confessei para ele.

“Eu odeio essa música”. Disse Lucca rindo. “Mas estou feliz por você estar de volta”.

Ele saiu do quarto e me deixou sozinha, ainda com a marca de um sorriso no rosto. Aquela noite foi a primeira vez em muitos anos que pude dormir tranquila, sabendo que ao amanhecer estaria viva. Mas quando acordei já não tinha tanta certeza...

Sempre quando eu acordo agora, vou ao banheiro caminhando lentamente para saborear o momento de conseguir andar... Mas dessa vez já era tão comum que fui normalmente.

Quando me olhei no espelho vi meus olhos muito vermelhos e com as veias saltadas, e eu suava muito. Mas é por que fazia calor.

Meus cabelos estavam novamente louros, e não cinza. Ele estava macio, sedoso... E caindo.

Toda vez que eu passava a mão neles, eles caiam de grande quantidade sobre meu pijama e no chão. O que estava acontecendo? Eu estava nervosa e agora suava muito... Meus olhos pareciam mais vermelhos ainda, e eu comecei a tremer... Tremer tanto que perdi o equilíbrio e cai no chão me debatendo cada vez mais... De repente ficou tudo branco, acho que aceitei aquilo...

Aceitei aquilo, como a chegada da morte...



Notas finais
A verdadeira história começa no próximo capítulo: DESESPERO.