Days Of Hell
18 Capítulo 18 - Sobre Trilhos
Notas iniciais
– Não era um infectado, era um Militar... –Disse Walter, olhando para o corpo do homem que eu acabara de matar.
– Foi... É... E se ele fosse nos matar? –Eu estava confuso.
– E se ele fosse nos ajudar?! –A voz de Walter estava se alterando.
Não quis respondê-lo, caminhei até o homem caído e me abaixei para vê-lo melhor. Devia ter entre os vinte e poucos anos, seus cabelos castanhos claros, e sua pele um pouco cinza. Luma abaixou-se e nos mostrou o braço do morto que estava mordido. No seu peito esquerdo havia uma plaquinha de ferro escrito ‘Benjamin Castelhano’.
– Ele não estava totalmente transformado, ele ainda estava consciente. –Opinou Luma séria como uma médica examinando um morto.
– Não da para saber... Mas eu não acho que um infectado agoniza quando esta morrendo. Ele estava! –Disse.
– O tiro vai atrair os infectados vamos embora daqui... –Sugeriu Walter.
Examinamos mais o corpo do homem, e pensativos se era certo ou errado, pegamos três granadas que estava ali com ele, e uma arma. Luma as guardou em sua bolsa. Depois de alguns minutos saímos daquela cena estranha.
O que mais me perturba é saber que eu matei mais uma pessoa, possivelmente, viva. É claro que estava mordido e logo morreria, mas é mais um para entrar na lista. Luma estava com o mapa, examinando-o, vendo para onde teríamos de ir agora. Walter olhava para trás, eu sabia que ele estava pensando no homem em que matei.
– Esperem! –Disse Luma num tom de voz assustada.
Ela olhou e confusamente sorriu para mim e Walter, e então saiu correndo. A estrada da serra era rodeada por árvores, e foi para lá que a garota foi. Para as árvores da direita.
– Luma espere! –Gritei.
– O que foi que aconteceu? –Walter saiu correndo atrás da garota, e eu o segui...
Passávamos por entre as folhas, que estavam molhadas, entre as flores que já não tinham mais cor. A cada passo que dávamos as árvores nos engolia. Árvores petrificadas, cinzas e fantasmagóricas. Antes reclamávamos de não haver mais pássaros voando no céu, mas agora sabemos o porquê, o vírus os afeta também, pois no chão entre as árvores, havia muitos, mortos, alguns só a carcaça, deviam ter caído se seus ninhos, ou o vírus os atingiu em pleno voo.
– Aqui... Por aqui! –Chamou a voz da garota.
Walter corria na frente e eu o seguia rapidamente, talvez, ele não tenha percebido a carnificina animal que acontecia a seus pés. Mas as fileiras de árvores acabaram-se, e senti flutuar no ar, estávamos no alto.
Ao encontrarmos Luma, que estava parada á beira de um barranco, vira a destruição. O horizonte estava quase intacto, mas a cidade, toda destruída. Estávamos num topo de um morro, uma favela. A destruição estava nítida, alguns barracos pegavam fogo outros caíam aos pedaços. Podíamos até ver alguns vultos que caminhavam sem destino. A destruição descia o barranco como um tubarão no mar. No horizonte lá estava ele, o Pão de Açúcar, perto de uma praia distante, mas visivelmente, intocados pela epidemia.
Durante algum tempo ficamos ali, sem falar nada, contemplando a terrível cena desoladora, que estava a nossa frente. Uma favela destruída pelo mal, pelos infectados...
– Como chegaremos até a praia? –Disse Luma.
– Daremos um jeito... –O assustador era que eu não tinha nenhuma ideia.
O barranco não era muito grande, e no final dele, havia um muro, que nos separava da favela destruída. Vi que a respiração de Walter acelerou, ele também estava assustado com a cena... Não tinha jeito, não tinha esperança de passarmos por aquilo.
As árvores por onde passamos estavam mortas, ressecadas e murchas. Mas as novas sementes que haviam sido deixadas no chão pela natureza foram enterradas pelos milhares de pés que ali passavam. Pés mortos, sem vida, com corpos sem alma.
Eu olhei pelos cantos dos olhos sem imaginar que a situação poderia ficar pior... Meu coração saindo pela boca:
– Ei! –Sussurrei para Walter e Luma- Não façam barulho... Tem infectados atrás de nós, saindo das árvores...
Seus olhos se arregalaram quando olharam para os, no mínimo cento e cinquenta, infectados saindo por entre as árvores.
– O que faremos? –Sussurrou Luma tremendo, obviamente certa de nossa morte.
Não houve resposta nem minha e nem de Walter. Eles estavam chegando cada vez mais perto, por sorte pareciam não ter nos percebido ali, ou já teriam corrido para nos abocanhar. Ficamos todos na beira do barranco, o único jeito de sair daquela situação seria se os infectados desistissem e voltassem. Convencidos de que ali não encontrariam o jantar.
Mas Luma estava muito assustada e a cada vez que os mortos iam chegando mais perto, ela ficava mais no topo do barranco, foi quando ela escorregou nele, mas antes que pudesse cair Walter a segurou, fazendo barulho com os pés, na terra seca. Os mortos lentamente movimentaram suas cabeças para nós, sabendo que estávamos ali, mas então antes que pudessem gritar segurei o braço de Walter, que segurava o de Luma, e pulei para o barranco.
Nós estávamos deslizando naquele barranco com terra seca que rasgava nossas mãos aos poucos, quando tentávamos frear a rapidez. Atrás de nós muito mortos vinham caindo e gritando, loucos para nos devorar. Com um estrondo batemos direto no muro que dividia a favela... Todos gritaram com o impacto dolorido, mas tivemos que ser rápidos, pois os infectados estavam deslizando no barranco também. Então nos levantamos ignorando a dor dos arranhões ou até mesmo de um possível osso quebrado.
Havia um buraco, que não percebemos antes, no muro que dava acesso á favela, e foi por lá mesmo que entramos ainda gemendo pela pancada no muro. Havia muitas madeiras e restos de entulhos pelo chão, mas passamos por cima deles tentando correr o mais rápido possível, os infectados que desceram do barranco no nosso encalço. Peguei a Magnum prata, que ainda estava quente devido ao seu último disparo. Walter e Luma com as facas de cozinha, armados, e logo começamos adentrar na favela, fugindo dos mortos.
O lugar estava lotado de infectados, eles saiam de todos os lugares. Viramos bruscamente uma esquina de barracos, e fomos para um corredor muito pequeno onde só havia passagem para um de cada vez, eu estava na frente e logo atrás de mim, Luma. O corredor era todo de madeira podre, como os barracos.
Eles corriam estranhamente rápido atrás de nós, tropeçando nas madeiras no chão e batendo nas paredes dos barracos mortos igualmente. Quando entramos no pequeno corredor, os infectados se amontoaram na entrada tentando passar todos juntos, afinal eles eram burros. Já estávamos chegando perto da saída do corredorzinho quando mais infectados apareceram lá também, estávamos cercados.
– O que faremos? Gritou Walter desesperado.
– Estamos cercados! – Se desesperou Luma, ainda mais quando um á um infectados foram entrando no corredor minúsculo.
Eu atirei com minha magnum na boca de um infectado que caiu no chão, mas logo foi coberto por outro que passava por cima dele, e neste atirei também. Walter, que estava na outra ponta, foi obrigado a enfiar sua faca no olho de um.
Eles estavam nos encurralando mais.
Estávamos num corredor envolvidos por dois barracos, e aquelas paredes eram feitas de madeira, então qualquer batida muito forte elas provavelmente se partiriam. Esmurrei e chutei com toda minha força uma parede de madeira podre, que estava á minha esquerda, a madeira se partiu formando uma pequena passagem para dentro de um barraco. Luma foi a primeira a passar pela passagem, depois Walter, e por último eu.
A casa estava totalmente imunda, e com seus móveis revirados e quebrados. Não ficamos nem dez segundos naquele lugar, por que quando encontramos a porta corremos logo para a saída, era outro corredor que agora, estava com muitos mortos no chão, ensanguentados. Não, não eram mortos, pois muitos deles se levantaram quando passamos, e começaram a tentar agarrar Luma que estava atrás de mim e Walter, eu atirei em um deles, tinha apenas duas balas agora.
Entramos em um novo barraco, e fechamos a porta. Colocando móveis para impedir que eles entrassem.
– Temos que sair daqui logo! –Disse Walter.
– Calma temos que pensar algo... –Gritou Luma olhando para mim como se eu tivesse que saber o que fazer.
Logo comecei a pensar em um jeito de sairmos de lá, se não logo morreríamos ali. Olhei pela janela e vi que estávamos em uma casa que se situava em cima de um barranco ainda maior que o outro, não dava para ver o chão, mas apenas os telhados dos barracos embaixo...
DUM! DUM! DUM!
Aaaaaaaaaaaaaaaaargh!
Os mortos começaram a tentar entrar no lugar onde estávamos, e logo entrariam, pois cada vez que eles batiam uma madeira podre caia no chão.
– Temos que pular... –Eu disse.
– O que... Onde... Lá em baixo? Você está louco, vamos morrer... –Disse Walter.
– É o único jeito... Ou vamos morrer aqui, ou lá em baixo, prefiro morrer de uma vez, que sentir cada centímetro do meu corpo ser arrancado... –Gritei para Walter.
Mirei minha arma na parede da janela e atirei nela três vezes... Depois comecei a chutar ela para as madeiras cederem e ter espaço para nós três passarmos de uma só vez...
– Vamos... –Disse, Luma pegou minha mão e estendeu a outra para Walter, mas ele estava preocupado procurando por algo.
– Aqui! –Disse ele, tirando um colchão de uma cama e dando para mim colocar a nossa frente, eu entendi...
– Mas você sabe que ele não vai amortecer totalmente a queda! –Disse.
DUM
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaarh!
Os mortos conseguiram derrubar as madeiras e começaram a entrar no barraco, Walter e Luma deram as mãos e colocaram o colchão em nossa frente. Então pulamos.
Enquanto caíamos, com impulso virei meu corpo para cair de costas e comecei a atirar nos mortos que tentavam pular atrás de nós...
BRUMMMM
Com um estrondo batemos no telhado de algum barraco e mergulhamos para dentro dele...
– ARGH... AH! –Gemeu Walter de dor-
– Urgh! –Era lancinante a minha- Vamos, precisamos nos levantar! –Disse mal acreditando que sobrevivemos á queda, enquanto os garotos fizeram esforços para continuar, logo em seguida vários mortos começaram a cair do telhado também.
Percebi que Walter era o que tinha se machucado mais, pois Luma, que estava com o rosto cortado, passou um braço sobre o ombro do garoto e o incentivava a continuar. Os infectados que caíram atrás de nós começaram a se levantar trôpegos, e correr. Saímos pela porta da frente, a dor da queda não permitia que corrêssemos apenas caminhar rapidamente.
– Espere. –Disse eu, observando algo nos nossos pés.
– O que foi Lucca?! –Perguntou Luma, com um Walter nos ombros que olhava para o chão e gemia.
– Estamos sobre trilhos... Trilhos! –Observei, a ladeira imensa da favela continuava, e de onde estávamos até o além, lá embaixo, o trilho ia se desenhando.
Olhei para cima, por causa do barulho de algo grande vindo, era como se tivessem um corpo só, unidos, juntos, todos os infectados da favela pareceram se juntarem e agora nos perseguiam ladeira á baixo. Olhei para frente e vi um bondinho, que provavelmente servia para levar as pessoas morro acima, ou morro abaixo.
– Vamos correr para lá... –Disse apontando para o pequeno carrinho, á uns vinte e cinco metros, perto de alguns barracos que pegavam fogo.
Peguei Walter pelo ombro e Luma o ajudava pelo outro... Rápido, corremos para o bondinho em cima dos trilhos.
– Vai! –Disse para Luma entrar no carrinho com Walter.
– Como o ligaremos?! –Perguntou Luma já dentro da pequena casinha-carrinho.
POW! POW!
Não sei no que eu atirei em baixo do bondinho, e nunca vou saber, só sei que logo ele começou a correr ladeira abaixo. Eu subi nele e fechei a portinha, mas os infectados nos alcançaram, mas em vez de tentarem parar o bondinho eles até nos ajudavam a irmos o mais rápido possível, empurrando o carrinho atrás...
– Há muitos infectados vindo atrás de nós, eles não vão parar de nos seguir temos que fazer alguma coisa. Mesmo aqui não estamos salvos... –Disse me segurando nos ferros do carrinho então ele descia desgovernadamente o morro.
Vi muitos infectados atrás de nós, eles eram como uma onda. Lembrei-me de uma vez que estava na praia com meus pais e fui o mais fundo possível quando de repente apareceu uma onda gigantesca que me cobriu, mas o bom disto foi que me levou o mais rápido possível para a beira da terra, para meus pais. Foi inútil, mas Lucca pensara se esta mesma onda o levaria para mais perto da segurança, ou para perto de seus pais mesmo, mortos.
– Se não pararmos o bondinho vamos bater e provavelmente morreremos com a batida, temos que pular... –Gritei-
– Mas e os Infectados? Eles vão nos seguir, e onde pularemos? O carrinho está muito rápido! –Disse Luma ainda segurando Walter que parecia inconsciente, mas em pé.
– Vamos jogar as nossas granadas para explodir tudo aqui... Pode ser que eles não nos escutem quando pularmos... –Gritei novamente-
– Entendi... –Disse Luma abrindo a bolsa e pegando as granadas que havíamos dado para ela guardar.
– Temos que subir lá pra cima, ficar no teto! –Expliquei.
– Mas Walter está ferido... Ele não vai conseguir...
– Podemos ajudá-lo! É o único jeito!
Percebi que Walter estava mesmo machucado, ele quase não conseguia olhar para mim de tanta dor. Mas não pensei duas vezes abri a porta do bondinho, que estava tão rápido que tive que me segurar muito forte, para o golpe de ar não me empurrar para fora do mesmo.
Quando consegui subir no teco e ficar em cima dele, gritei para Luma ajudar Walter a chegar até mim... E foi o que ela fez, vi que o garoto fazia o máximo possível de esforço para conseguir subir no teto do bondinho, mas não conseguia, eu peguei ele pelo ante-braço e o puxei para cima com muita força...
– Pronto, fique aqui deitado Walter! Agora venha Luma eu te ajudo!
Peguei na mão da garota e comecei a puxá-la, quando de repente um infectado apareceu na frente dos trilhos, mas estávamos tão rápido que quando o bondinho o atropelou o infectado, estraçalhou e espirrou sangue no rosto de luma.
– Urgh! –Gemeu a garota com nojo, após isto consegui puxá-la.
O bondinho atropelou mais infectados, e enquanto isto retirei o pino da granada e jogamos ela na onda de infectados que vinham atrás de nós...
De repente, quase fomos lançados para fora do teto do carrinho, a ladeira acabara, e estávamos em linha reta, o monte de favela fora deixado para trás e agora havia apenas ruas com casas velhas.
BUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!
A primeira granada explodiu na onda que vinha cobrindo tudo por onde já passamos, e nós nos seguramos uns aos outros para não voarmos, como algumas pernas e braços que nos ultrapassavam.
Retirei o pino da segunda granada e a joguei.
– Temos que pular Luma!!! –Gritei, sem saber onde. Foi então que eu vi o lugar perfeito. Não faltava muito para os trilhos acabarem. E há apenas alguns metros do lado havia um lago, era o local perfeito.
– Vamos pular no lago! –Gritou Luma rapidamente.
– Sim! Eu vi também! –Gritei de volta.
BUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!
A segunda explosão nos pegou de surpresa, mas mesmo assim a onda atrás de nós não se quebrou, os infectados não desistiam.
Não havia como sabermos a velocidade que estávamos, mas com certeza era mais de cento e cinquenta por hora, tínhamos uma chance de sairmos de lá vivos, e a cada metro que andávamos ela crescia...
– Vamos deixar que esta granada exploda aqui no carrinho, assim eles não escutarão quando cairmos no lago! –Disse Luma me entregando a última bomba.
Eu concordei, pois naquele momento não havia mais como discutirmos, o lago se aproximava, eu e Luma nos preparados, e depois que eu retirei o pino da última granada, esperamos alguns segundos e pulamos.
BUUUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMM!
Em meio a destroços, em meio a fumaças, pulamos e caímos naquela água gelada do lago.
A escuridão pareceu nos engolir mais uma vez, eu estava flutuando no nada, impedido de abrir os olhos naquela água que provavelmente estava imunda, e contaminada, tive um flashback ali:
Val cantava aquela música, porque aquela música? Ela gostava de me aterrorizar na realidade, nos sonhos, e agora nos flashback’s?
♪ Now is the time to start,
let all our fears aside,
we will be stronger, a case apart,
your sorrow is mine, your fear is mine. ♪
Essa música me assusta, esse ritmo indie é demoníaco.
Enfim... Respirei voltando á superfície. Eu não conseguia ver nada, apenas a grande fumaça e o grande número de infectados desnorteados em uma das laterais do lago. Onde estão Walter e Luma?
Eu nadei em direção ao outro lado do lago, o lado em que não havia infectados, mas logo eles chegariam pois os estrondos das bombas são as boas-vindas para eles.
Ao sair da água gelada, vi dois vulto mais a frente, Luma em cima de um estranho Walter, que se contorcia e gemia cada vez mais alto.
– Luma, você está bem? Conseguimos, estamos salvos por enquanto... –Me senti ficando pálido quando vi aquela cena.
– Era por isso, por isso que ele não conseguia continuar, está horrível Lucca, temos que ajudá-lo... –Disse Luma chorando desesperada tentando acalmar Walter, que estava com uma das mãos totalmente torta e ensanguentada, um dos ossos estava exposto.
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