Days Of Hell
14 Capítulo 14 - A Isca Viva
Notas iniciais
“Todos os sobreviventes se abriguem na montanha Pão de açúcar, estamos isolados, aqui a epidemia não entra, protegemos vocês!”.
“Presidenta diz que arranjará um fim para a epidemia”.
“Presidenta cria unidades Militares para acolher sobreviventes”.
“Vírus criado nos E.U.A, gera epidemia”.
“Bomba nuclear destrói o continente Europeu completamente”.
“Estudos afirmam que o vírus ‘FH23’ não sobrevive em lugares com baixa temperatura”.
“Descoberta: Epidemia já se manifestava á um mês, governo tentou escondê-la”.
“Estado de São Paulo tem os maiores índices de infectados”.
“Laboratório onde vírus foi criado é desconhecido”.
Todos nós líamos sobre os assuntos sentados no chão da sala, quietos, para eles não nos ouvirem. Walter e eu trancamos os outros cômodos, por medo dos infectados invadirem por outras entradas da casa, deixamos apenas a sala, e um banheiro para nosso acesso.
Os móveis da sala, antes revirados e até mesmo alguns quebrados, agora estavam nos seus lugares. Diane e Luma os arrumaram. Walter parecia aliviado de alguma coisa, parecia estar relaxado. Mas então percebi. Ele não encontrara o corpo do pai, e nem o mesmo como um deles. Dando assim, mais chances dele ter se salvado.
– Você encontrou estes papéis no escritório de meu pai? –Perguntou Walter a mim, já sentado no chão.
– Sim... –Respondi, achando estranho ele falando comigo, depois de evitar chegar perto de mim.
– Vocês acham que isto é verdade? O que dizem nestas folhas? –Perguntou Luma.
– Sim! –Respondeu Walter.
– Eu não entendo! Como seu pai sabia destas coisas? –Perguntou Luma abraçada com Diane, que me observava, até fazendo-me ficar um pouco sem graça.
– Meu pai era médico! E como o FH23 chegou primeiro ao estado do Rio, ele foi convocado para ajudar a estudá-lo e... Injetá-lo nos pacientes! -Explicou.
– Sua irmã era doente? –Perguntou Diane a mim e todos me olharam.
– Sim... Ela tinha câncer! Mas então o pai de Walter conseguiu para ela a chance de ser... Curada! –Respondi, com um peso na consciência, não sabia do que.
Houve um momento de silêncio e em seguida Luma falou:
– Vocês acham que é seguro? Irmos até o Pão de açúcar?
– Os Militares estão lá, não é? E se eles nos matarem? –Opinou Diane.
Mas então, se não irmos para lá, o que faremos agora? Para onde vamos?
Eu precisava de sugestões para me deixar mais seguro...
– O que você acha? –Perguntei a Walter.
– Acho... É que foi presidenta que criou não é? O abrigo? Ela não iria querer matar todos os sobreviventes do seu país... –Disse ele olhando para as próprias mãos.
– Mas como saberemos que não foi ela que mandou os Militares... Fazerem o que fez? –Perguntou a Luma.
Não houve resposta, pois nem eu e muito menos Walter sabia o que dizer. Mas entre nós uma pessoa sabia... E me surpreendeu quando disse:
– Temos que arriscar! –Disse Diane.
Todos nós nos entreolhamos. Será mesmo? Será que não seria suicídio? Será que não nos arriscamos demais até agora? Será que os Militares seriam piores do que os Infectados, se eles estivessem lá para matar todos os sobreviventes que salvarem?
– Será que existe ainda este abrigo no pão de açúcar? –Perguntou Luma tentando fugir um pouco da nova esperança, ou da morte certa...
– Sim, lá é isolado, e pode ser que a própria presidenta esteja lá... E não iram colocá-la no perigo... –Respondeu Walter.
– Acho difícil de a presidenta estar justo lá, quando outros estados podem estar em condições melhores que São Paulo e Rio... Mas, acho que é seguro lá! Só não tenho tanta certeza de que não haverá os mesmos Militares que matam sobreviventes... Eu... Não quero esbarrar neles novamente... –Falou Luma.
– Quem vota pra ir? –Perguntou Diane, e inocentemente levantou sua mão esquerda.
Olhei para Luma que permaneceu com a dela abaixada, mas então vi que Walter levantou a dele também, e meu desejo de ir, de saber a verdade se lá era mesmo um lugar seguro se mostrou vivo, e ignorei o medo de encontrarmos com novos Militares assassinos, também levantei a minha...
Luma respirou fundo, e então baixou a cabeça.
Walter se levantou, e foi vigiar pela janela... Por sorte nenhum infectado por perto, então ele disse:
– Acho que o chuveiro desse banheiro pega! Lembro que meu pai usava a água da caixa! Então se tiverem cortado a água, mesmo assim podemos tomar um banho...
Era o melhor a se fazer... Por hora, esquecermos um pouco as preocupações e tomarmos um bom banho. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, abrimos o chuveiro que logo começou a cair água, então primeiro Luma e Diane fecharam a porta para tomarem seus banhos. Depois eu, e em seguida Walter. Ele conseguiu algumas roupas da esposa de seu pai e entregou as garotas, eu e ele usamos as roupas do próprio.
Estava anoitecendo lá fora, e dentro da casa, a escuridão nos engolia, já que não havia energia. De manhã, iríamos tentar chegar ao abrigo, decidimos, com isso comecei a ficar nervoso, e pensar em tudo que eu já havia vivido até aqui... E a sorte infinita que eu tinha.
Da janela, eu vigiava agora, e conseguia ver as sombras de alguns infectados no final da rua, andavam sem destino, e aparentemente não sabiam que estávamos aqui.
Não havia pássaros no céu, que em dias normais á esta hora estavam voltando para seus ninhos. Também não havia cachorros de rua andando sem destino, como agora fazem eles. Será que o vírus afetava os animais também? Quando me virei para deitar no chão e tentar dormir um pouco, mesmo sabendo que não iria consegui, me deparei com Diane olhando para mim sentada...
– Não consigo dormir também... –Disse a garotinha, ao redor de Walter e Luma, que caiam em um sono misterioso.
– Eu... Eu também não, muitas coisas em minha mente!
– Eu sei como é! –Disse Diane, e ao mesmo tempo soou engraçado, mas ao mesmo tempo também soou sincero, ela parecia entender a vida que agora levávamos, ela era tão nova, mas tão inteligente- Estamos muito apavorados para pensar no que devemos fazer... Walter já ‘explodiu’ chorando...
– Você é muito esperta para as garotas da sua idade sabia? –Falei.
– Minha mãe me dizia isto, dizia-me que eu era especial... Você também é especial!
– Eu? Porque eu?
– Você se preocupa com os outros, antes mesmo de você! E você não... ‘Explode’!
Um sorriso, de medo e graça, passou ligeiramente em meu rosto, devo admitir, a garota estava me assustando. Ela continuou...
– Mas isto é um erro Lucca, você passou por coisas horríveis, e um simples choro não vai amenizá-las, você não pode guardar tudo dentro de você... Se não...
– Se não o que?
– É como a bomba que destruiu aquele lugar, você pode ‘explodir’ daquele jeito!
Eu estava sem graça. Como uma garotinha daquele tamanho poderia falar algo desta magnitude para mim? Ela realmente era muito esperta. Mas era verdade o que ela falou... Apesar de me senti assustado, senti surgindo um laço entre mim e ela.
Após isto tentei dormir, não profundamente, mas apenas para tentar antecipar o sono, de três dias atrasado. No meu sonho eu via Val... Linda como no dia anterior ao pesadelo, seus cabelos iluminavam o ambiente que eu reconheci ser uma igreja, ela cantava algo e dançava esplendorosamente. Era aquela música que percebi agora, sempre me perseguira.
♪ Now is the time to start,
let all our fears aside,
we will be stronger, a case apart,
your sorrow is mine, your fear is mine. ♪
O sonho, a música, e Val, todos se foram. Luma me chamava baixinho, e ao acordar percebi que era uma manhã fria e silenciosa...
– Vamos nos aprontar para irmos! É melhor irmos de uma vez... –Disse ela.
Eu me levantei, e pela primeira vez reparei em como Luma era bonita, e em como aquelas roupas novas lhe caiam bem. Um jeans simples e uma blusa branca, com decote nos ombros, que fazia seus cabelos castanhos e ondulados chamarem mais atenção. Diane nas roupas folgadas colocava coisas em uma bolsa, arrumando-a. Mas eu não via Walter...
– Onde está Walter?
– Está revirando os outros cômodos... Ele era brigado com o pai? –Perguntou a garota.
– Ah... Era! Eles não se falavam, Por quê?
– Por nada, eu percebi! Mas vi também que ele está muito preocupado com o fato de seu pai poder ter se salvado... Afinal, esta claro que ele sabia que o Pão de açúcar se transformou em um abrigo não é? Os papéis pertenciam a ele!
– É... Mas não acredito muito nesta possibilidade...
– Você... Tem que ser mais esperançoso...
– Sou realista! –Disse arrancando um sorriso de seu rosto, quando Walter chegou e rapidamente se pôs entre nós mostrando três grandes facas de cozinha...
– Já que não podemos atirar...
Walter ás vezes se contradizia... Mas eu já estava acostumado com seu jeito.
Não demorou muito para estarmos prontos para irmos até o abrigo. Depois de analisarmos mais uma vez o mapa, conseguimos um jeito de chegar lá, o mais rápido e aparentemente o mais fácil, jeito possível. Walter olhou uma última vez para a casa, e com a faca na mão, como eu e Luma... Deixamos ela para trás.
Corríamos o possível para chegarmos mais depressa ao destino que não ficava muito longe, decidimos ir pelas ruas que ficavam perto das praias, mas não conseguíamos vê-la, apenas ouvir as ondas, bem de longe, batendo na areia que á muito não era mais pisada por pessoas felizes...
Escondemo-nos quando vários infectados corriam de um lado para o outro parecendo assustados, mas só estavam procurando algo para colocarem seus dentes. Passamos andando nas pontas dos pés, por uma escola onde na sua frente várias crianças infectadas andavam sem direção, ás vezes indo, ás vezes voltando. Algumas ainda usavam seus uniformes.
O tempo estava nublado e trazia uma brisa fina, gelada, que batia em nossas faces nuas. Eu estava tão distraído com o céu que quase afundei meu pé num pequeno buraco na margem na calçada, um buraco que não caberia nenhum de nós, exceto Diane... Sorte a dela, pois se infectados nos ouvissem ela seria a única a se salvar. Ela estava agarrada nos braços de Luma.
Quando virávamos a esquina nos deparados com uma multidão de infectados, havia muitos, parecendo ser o bairro inteiro concentrado em só uma rua...
Assinalei para pararmos e voltarmos um pouco até podemos cochichar sem sermos ouvidos:
– Temos que passar por esta rua! Não podemos voltar! –Disse.
– E se dermos a no quarteirão? –Perguntou Walter.
– Da pra ver que eles estão por toda aquela parte, certamente estarão espalhados á uns quatro quarteirões a diante... Temos que passar por aqui! –Falei determinado.
Os infectados pareciam perceber que nós estávamos ali, então todos eles abafaram seus gemidos de fome, e pareceram querer escutar...
– Eles logo perceberão que estamos aqui... Precisamos fazer algo rápido! –Disse Luma se desesperando.
Os mortos começaram a caminhar, ainda querendo escutar, em nossa direção...
– Precisamos de uma isca para eles... –Disse Diane- Lá atrás vi um buraco aberto que da para o esgoto, só eu conseguirei passar, eu os atraio, até a rua lá atrás que está o buraco, e entro no nele para vocês passarem!
– Sem chance! Não vamos conseguir tirá-la depois! –Disse Luma.
Os mortos agora estavam a apenas vinte metros de distancia...
– Segundo o mapa há um córrego mais a frente, é só ela seguir pelo cano nesta direção –Disse Walter apontando para o mar de infectados- E então ela sairá no córrego, onde estaremos!
– Não! Não podemos deixá-la... -Luma olhava para mim, buscando apoio, mas como disse Walter, eu era egoísta e só pensava em mim mesmo.
– Você acha que consegue? –Perguntei, fazendo Luma ficar mais apavorada.
Diane assentiu, e por mais que as suplicas silenciosas de Luma tentavam impedir, Diane abraçou cada um de nós e foi...
O restante de nós, entramos num pequeno espaço entre duas casas, onde havia uma caixa de luz, para nos protegermos da demandada, e então ouvimos um grito... De Diane.
Era assim que ela chamara a atenção deles, e após alguns segundos vários outros gritos ecoaram do mar de infectados, e logo nos vimos em meio á multidão que corria para comer a dona daquele ruído vivo. Protegidos pelo pequeno espaço, pude apenas ver Diane correndo para entrar no buraco. Parecia que ela gritara precocemente, pois o buraco sob o qual ela planejava entrar estava muito longe, e os mortos, cada vez mais perto de matá-la a dentadas...
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