Days Of Hell

13 Capítulo 13 - Uma luz na escuridão


Notas iniciais
Após milagrosamente conseguirem escapar da destruição, Walter e Lucca se desentendem. Mas mesmo assim, decidem irem para casa do pai de Walter, e lá... Lucca descobre que estão ainda mais perto do fim para todo este pesadelo... Segurança?

Após alguns minutos, ele decidiu parar o carro e sair sem dizer nenhuma palavra. Eu olhei para fora, pra ver se era seguro, pra ver se as chamas não chegaram até aqui, mesmo que, agora, estamos a uns três quilômetros da divisa... Então também sai, e de relance vi que as garotas me acompanharam.



Ele parou o carro no meio da estrada, rodeada por fazendas, cujas no cume havia árvores. No horizonte uma paisagem até que bonita, montanhas, serragens... Porém nenhum animal. Atrás de nós... Uma densa fumaça negra manchara o horizonte, onde também podia se ver a destruição, e era nessa direção que Walter caminhava devagar, parecendo fraco, cambaleando como se o próprio corpo pesasse.



– Walter! –Chamei desconfiado, vi que a garotinha segurou firme no braço da outra, um pouco atrás de mim- Walter você... Está bem?


O garoto caiu de joelhos e em seguida soltou um grito, mas não igual ao dos infectados, era o grito de alguém vivo, ele chorava, se lamentava por algo...

Meus olhos começaram a lacrimejar, mas não pela cena do homem derrotado, mas pelas cinzas que deslizavam no ar, ainda estávamos próximos da imensa, agora, cratera que se misturava a fogo, e fumaças negras.

– Acho... Que ele precisa de um tempo sozinho! –Disse a garotinha, a que estava agarrada a outra maior.

Era a verdade, mas não podíamos nos dar a esse luxo, fiz um esforço enorme para não chamar Walter novamente e dizer-lhe que os infectados viriam, decidi então dar cinco minutos para ele reforçar suas forças. Enquanto isso eu vi que a garota maior se incomodava com suas poucas roupas, lembrei-me que tinha um casaco no carro, que Walter e eu pegamos do balcão da loja que conveniência que assaltamos. Ofereci-o para a garota que aceitou aliviada e o pôs.

– Obrigada... Por tudo... –Disse ela.

– Não foi nada, temos que ajudar uns aos outros no mundo de hoje! –Respondi a ela.

– O seu amigo... Walter não é? –Perguntou ela e eu confirmei com um aceno- Ele... Ele nos disse que talvez você fosse ajudar...

– Eu não iria continuar sozinho... Eu... Nem sei se posso continuar mais, depois disso tudo... –Disse a ela olhando para a grande fumaça.

– Não podemos parar... Se tudo isto teve que acontecer para sobrevivermos e nos encontrarmos... Tem um propósito...

– Não temos para onde ir... –Disse.

E também ninguém para nos ajudar... Os Militares nos matariam a sangue frio... Como... Como eu os matei. Eu matei pessoas, dez... Matei...


Walter já havia parado de chorar e se levantou olhando para mim, e disse:



– Nós temos para onde ir Lucca... A casa do meu pai... É aqui no Rio, e... Acho que não será muito difícil para chegarmos lá. –Disse ele fungando o nariz.



– Mas pode ser perigoso... Podem ter muito deles – Minhas esperanças estavam abaladas, eu estava desanimado.


– E o que você sugere? –Disse Walter com um tom estranho em sua voz- Irmos para uma escola, para vermos alguém que conhecemos se tornar um deles? Ou então irmos ate uma delegacia e ver uma delas serem mordidas? –Ele acenava para as garotas.

Olhei para a garota com o casaco e vi ela se afastando de mim, entendi que isso era uma briga particular, e ela não queria se envolver.

– O que você está querendo dizer? Que tudo isso é culpa minha? –Perguntei a Walter encarando-o também.

– Quer saber... Acho que sim! Não era pra você ter levado Gabi e eu para aquela escola, ela nunca teria morrido, e eu nunca teria visto Rosa daquele jeito!

– E O QUE EU IRIA FAZER? –Meu grito o pegou de surpresa, ele deu um pulo, eu perdera a paciência antes mesmo de tê-la, por que era isso mesmo que eu via Walter sentir, ele sentia que tudo isto era minha culpa — SE EU NÃO TIVESSE OS ACHADO OS MILITARES TERIAM MATADO VOCÊS!

– SERIA MELHOR DO QUE TER VISTO ROSA NAQUELA ESCOLA COMO UMA DELES!

– VOCÊ É UM EGOÍSTA, SÓ PENSA EM VOCÊ! CASO NÃO SAIBA, EU VI MINHA IRMÃ MORTA COM UMA FACA PRESA EM SUA TESTA!

Walter se calou por dois segundos, mas como ele era uma pessoa que sempre gostava de falar por último, continuou a falar, mas calmamente, e pude ver lágrimas brotarem novamente em seus olhos...

– Você que só pensa em você mesmo! Só me salvou para não continuar sozinho, e foi capaz de matar dez pessoas por isto! Dez pessoas vivas...

De que isto importava? Matamos tantos infectados... Mas é verdade não é? Não havia parado para pensar no peso que causa matar alguém, eu matei dez pessoas que não estavam infectadas. Como os Militares, Isto me faz igual a eles?

Houve silêncio, Walter conseguiu o que queria, falou por último. Ele também conseguiu que eu o odiasse, neste momento ou o resto da minha vida, eu o salvei, ele é um mal agradecido, e agora, estou arrependido de ter o feito. Eu me assustei comigo mesmo quando tive uma vontade imensa de pegar minha arma no meu bolso e dispará-la contra ele.

Depois de alguns minutos, ele falou com a garota maior e juntos decidiram que iriam para a casa do pai dele que não ficava muito longe. Como um dia me senti assim, em uma festa de despedida de um amigo, me sinto agora, deslocado...

– Ele foi pegar o mapa no carro... Vamos para a casa do pai dele não é? Todos nós! Eu e ela não temos para onde ir... –Disse a garota maior.

Analisamos o mapa que achamos no carro, e pegamos uma estrada reta até Paraty... Depois de algum tempo a gasolina acabou e não havia nenhum carro sequer por perto, naquela estrada que parecia infinita, nos equipamos, com nossas bolsas cheias de comida. Walter pegou o radiozinho, colocou no bolso e então seguimos em frente...

O céu permitiu que o sol nos aquecesse um pouco, mas até demais... O calor vinha chegando... Um calor insuportável.

– Meu nome é Luma... –Disse a garota, a quem eu dei o casaco- Aquela é Diane.

Luma e eu andávamos um pouco atrás de Walter e Diane, que estavam na frente. Desde que ele e eu discutimos não trocamos nenhuma única palavra.

Percebi que Luma observava Walter...

– Você tem um radiozinho não tem? –Perguntou ela ao garoto que parou, ao lado de Diane e olhou em sua direção...

– Tenho... É para escutar a transmissão de...

– De um garoto falando? –Interrompeu.

– Sim...

– Ele era meu amigo... Meu e de Diane... Mas nos perdemos dele... Estávamos em Minas gerais, mas os Militares acharam Diane e eu, e nos trouxeram para cá... Estamos no Rio de janeiro mesmo não é? E ali atrás... –Disse ela indicando a explosão que agora começava a se dissipar- É... São Paulo?

– Isso... –Disse, chegando na conversa- Eles machucaram você? –Perguntei, percebi também que ela tentava disfarçar que mancava.

– Não... Estou bem! É... Temos que encontrá-los, meus amigos, eles são inteligentes e fortes... Vão nos ajudar!

– Não tem como... Eles não contam onde estão porque os Militares podem achá-los se escutarem também! –Disse Walter.

Luma pareceu desapontada, todos nós parecemos, até mesmo Walter, que tinha dito, mas mesmo assim continuamos, na estrada. Trovões começaram a estrondar, e rapidamente o céu escureceu, o sol sumiu, e agora era difícil dizer que estivera ali. Fomos obrigados a nos abrigar em uma velha casa vazia, á beira da estrada, e quando entramos nela, nos surpreendemos.

Na sala, havia os corpos de uma mãe abraçando três filhos, ambos com um buraco na cabeça, provavelmente provocado pelos Mili... Não! O causador do buraco em suas cabeças estava ali, na poltrona, estava morto da mesma forma que a mulher e os filhos, sua espingarda sobre o colo jazia. Matou sua família e em seguida provocou o próprio arrebatamento.

Na parede da sala estava escrito com sangue a frase: “Deus nos esqueceu”.

Alguém pareceu apertar meu coração...

Quando a tempestade acalmou lá fora, continuamos, mas logo começamos a correr, pois os infectados das redondezas nos ouviram, e vinham atrás de nós... Entramos num beco, mas logo nos vimos sem saída, pois do outro lado também vinham infectados, babando sangue e com fome, fomos obrigados a pular um muro, de uma casa que dava acesso ao beco, não muito grande e de madeira. Entramos dentro dela, eles vinham atrás, pularam o muro também.

Quando saímos pela porta da frente, havia um mar de corpos na rua, fomos obrigados a pisar neles, para fugirmos. Muitos projéteis de balas estavam misturados aos corpos também, de crianças, jovens como nós, adultos e encontramos até um bebê, morto, multilado que fez Diane chorar. Enfim, faltavam poucos quilômetros até Paraty, e após fugirmos e despistarmos mais infectados... Descansamos em outra casa abandonada.

Após comermos alguns enlatados e bebermos água, ficamos quietos sem fazer sequer algum ruído, por medo dos infectados nos ouvirem. Fiquei observando Walter e Luma tentarem achar alguma transmissão do garoto, de quem ela se perdera. O rádio, porém, só chiava...

– Você acha que eles morreram? –Perguntou ela triste.

– Aconteceu isso já... Ás vezes eu não encontro a transmissão! –Respondeu o garoto.


O silêncio seguiu horas depois...



Recomeçamos nossa caminhada. Os infectados desta vez, quase morderam a mim, mas Walter foi obrigado a atirar nele (chegando muito perto do infectado, pois ele também não sabia atirar). Olhei para ele e disse obrigado, assustado. Ele não respondeu...



– Falta muito para chegar na casa do seu pai? –Perguntou Diane tremendo.



Ele não respondeu novamente, e eu sabia o motivo. Ele parou e ficou contemplando uma casa grande no final da rua. Ela era amarela e tinha um quintal de igual tamanho. Em frente havia muitos corpos de pessoas mortas também, porém os corpos já estavam em decomposição, e fediam, obrigando-nos a tampar os narizes, e mais uma vez pisar neles para chegarmos ao outro lado.


Fui obrigado a perguntar ao garoto que andava na frente:

– Você acha que é seguro entrarmos?

– E porque não seria? Se lá dentro tiver um deles... Temos armas! –Ele respondeu.

O problema é que não podemos atirar se não ficaremos encurralados, e dentro de uma casa nossas chances de sair com vida, são poucas.

A porta da sala estava aberta, percebi que Walter foi entrando, mas segurando a arma de uma forma diferente, pronto para dar uma coronhada. Eu e ele fomos olhando os outros cômodos, enquanto Luma e Diane decidiram vigiar a porta da frente...

O Pai de Walter era médico, lembrei, ele que ajudou Val a receber o tratamento, será que ele sabia de coisas, vamos dizer... Secretas?

Entrei em um cômodo que mais parecia um escritório, olhei para aqueles papeis sobre uma mesa que parecia ter sido abandonada á dias, antes de começar a epidemia... Em um dos papéis li apenas uma frase que fez reacender as minhas esperanças, e esquecer, de tudo, que aconteceu nas últimas dez horas:

Todos os sobreviventes se abriguem na montanha Pão de açúcar, estamos isolados, aqui a epidemia não entra! Protegemos vocês!

Notas finais
Pode-se encontrar a felicidade mesmo nas horas mais escuras, se a pessoa se lembrar de ascender a luz. - J. K. Rowling (Harry Potter)
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