Edward

Abri a porta do apartamento tentando não fazer barulho demais, um gesto inútil, considerando que Tanya sempre parecia saber a hora exata em que eu cruzava a entrada.

— Até que enfim — sua voz ecoou da sala, seca. — Você sumiu.

Fechei a porta com o pé, ajustando Emerald no colo. Ela cochilava, mas a mãozinha estava agarrada na gola da minha camiseta como se ainda estivesse brincando.

— Saí para caminhar, precisava esfriar a cabeça — respondi baixo, passando direto pela sala em direção ao quarto.

— Caminhar onde, exatamente? Liguei no seu celular três vezes e você não atendeu nenhuma.

Ignorei o tom de cobrança. Ignorei, porque se respondesse, seria com raiva e Emerald ainda estava em meus braços.

Deitei minha filha no berço improvisado, cobri suas pernas com o lençol fino e fiquei ali por alguns segundos, observando sua respiração lenta e tranquila. Tão inocente, tão distante daquilo tudo.

Fechei a porta antes de voltar para a sala. Tanya estava em pé agora, de braços cruzados, com o celular na mão, como se estivesse se preparando para exibir uma lista de reclamações.

— Você podia ao menos ter avisado — disse, ainda sem levantar a voz.

Tanya nunca gritava, e esses eram os momentos em que ela era mais perigosa.

— Eu precisava de um tempo. Esse apartamento está insuportável. Eu estou sufocado aqui.

— Engraçado, porque eu também estou incomodada, mas não saio por aí sumindo.

Suspirei, passando a mão pelo rosto. A exaustão física era quase tão grande quanto a emocional.

— Incomodada? Nós só estamos aqui por insistência sua! — A frase saiu mais agressiva do que eu gostaria. — Não sumi, Tanya. Só saí para caminhar com a minha filha. É pedir muito?

Ela me analisou por um segundo, os olhos estreitos como se tentasse decifrar alguma coisa.

— Onde você estava?

Aquilo não era uma pergunta inocente. Era uma armadilha.

— No café da outra esquina, aquele que tem mesas do lado de fora. A Emmie viu um cachorro e quis brincar. Só fiquei ali um tempo com ela.

Tanya arregalou os olhos.

— Espera. Você deixou ela brincar com um cachorro desconhecido?

— Ele estava com a dona, era calmo. Não tinha risco nenhum.

— Edward, ela tem um ano e meio! Você sabe o quanto essas coisas podem ser perigosas? E se ela fosse mordida? E se esse cachorro tivesse alguma doença? Que tipo de pai…

— Tanya! — minha voz saiu mais firme do que eu pretendia — Nada aconteceu. Ela ficou feliz. Só isso.

Ela balançou a cabeça, incrédula.

— Você realmente precisa rever seus limites quando está com ela. Isso é irresponsabilidade.

Limites. Fiquei em silêncio e, por um instante, cogitei dizer a verdade. Dizer que não era um estranho, que era Bella quem estava sentada ali e que tudo dentro de mim virou do avesso por trinta minutos. Mas não falei, porque dizer isso seria acender um pavio que já vinha sendo aquecido há meses.

— Você que o diga sobre irresponsabilidade — apontei para o cigarro aceso na mão dela, dentro de casa. Nós já tínhamos conversado inúmeras vezes sobre isso — Ela precisava se distrair fora dessas paredes. Eu precisava. Só isso.

— Tem algo que eu deveria saber? — ela disse, estreitando ainda mais o olhar.

Encarei Tanya por um tempo longo demais. Ela vestia uma jaqueta de treino cara que provavelmente só tinha usado para gravar stories, já que a maquiagem estava perfeita para aquela hora da manhã. O celular ainda na outra mão, como se estivesse pronta para fazer um registro a qualquer momento.

Eu poderia dizer muita coisa. Que nós vivíamos como colegas de quarto. Que só nos tocávamos com interesse físico. Que paramos de conversar sobre o que importa muito antes de mudar para cá. Que talvez o amor nunca tivesse existido de verdade.

Mas tudo o que eu disse foi um não. Ela me encarou mais um pouco, depois assentiu devagar.

— Ótimo. Porque depois de amanhã tem aquele brunch que fomos convidados, onde vão anunciar a nova embaixadora da marca. Você vai, né?

Claro. O brunch. Os contratos. As fotos de família ensaiadas. As legendas com duplo sentido.

Assenti.

— Vou, não prometi?

E me odiei um pouco mais por isso, especialmente quando ela sorriu e saiu, enquanto eu fui na direção do quarto para buscar Emerald, que tinha começado a choramingar.

Agora ela dormia no meu colo, com a cabeça afundada no vão entre meu ombro e o peito. Jake, o cachorro da Bella — não acredito que ainda lembro o nome — tinha deixado sua marca no dia. Ela não parava de sorrir desde então. E eu também… não conseguia parar de pensar.

Tanya estava trancada no quarto, como sempre fazia depois de qualquer atrito. A casa inteira parecia um set: frio, silencioso e cenográfico. Peguei o celular e abri o aplicativo de mensagens. O número ainda estava salvo, claro que estava.

Obrigado por hoje. Acho que eu precisava disso mais do que percebi.

E a Em te adorou. Ela não para de falar “au au” e bater palminhas. 🐾

A mensagem foi entregue. Lida, talvez. Mas nenhuma resposta veio. E com o passar dos minutos, doeu mais do que eu estava preparado para admitir. Fechei os olhos, recostado no sofá. A cabeça voltou no tempo com uma facilidade quase cruel.

Bella, rindo deitada no tapete da sala, com os pés frios enfiados de propósito entre os meus, só pra me irritar. Bella, lendo um roteiro em voz alta e imitando meu sotaque. Bella, usando minha camiseta enquanto cozinhava. Bella, chorando quando ganhou o primeiro prêmio importante da carreira. Bella, sussurrando que me amava enquanto adormecia, como se fosse um segredo. Bella, saindo de um restaurante escoltada por seguranças para tentar se proteger dos fotógrafos. Bella, me beijando durante uma festa como se não se importasse com mais ninguém ali além de nós dois.

Mas depois vieram os outros flashes.

Bella chorando ao dizer que não sabia mais quem era quando estava comigo. Bella tentando me alcançar enquanto eu já tinha ido embora. Bella desconfiando de mim sempre que eu me atrasava para voltar para casa. Bella dormindo virada para o outro lado. Bella que não era mais a minha Bella.

E com razão. Porque eu a traí, mais de uma vez. Porque eu fui um idiota. Porque eu prometi o mundo e entreguei inseguranças, abandono e silêncio.

O pior é que, mesmo enquanto fazia tudo aquilo, eu a amava. Só não sabia como fazer isso. Não sabia amá-la do jeito que ela merecia. Eu era um garoto tentando bancar o homem, enquanto ela já carregava o peso de mil coisas que eu fingia não ver.

E quando ela devolveu a traição, me contou entre lágrimas, raiva e vergonha. Tentou justificar, assim como eu tinha feito antes. Disse que só queria provar que também podia.

E eu tentei entender. Realmente tentei. Até disse que perdoava e que poderíamos tentar mais uma vez, mas tudo já estava tão desgastado, tão quebrado… que no fim, nada do que eu disse impediu que ela saísse daquilo com mais dor do que merecia.

Porque fui eu quem começou, fui eu quem abriu a primeira rachadura. Ela só caiu no buraco que eu mesmo cavei. E mesmo depois de tudo, ela ainda tentou. Tentou fazer dar certo. Tentou me perdoar. Mas eu via nos olhos dela, toda vez que me olhava no silêncio, que alguma coisa tinha se perdido.

E talvez tenha sido isso que nos destruiu: perceber que o amor ainda existia, mas que já não era suficiente. E talvez por isso tenha doído tanto vê-la hoje.

Vê-la ali, com o cachorro deitado aos pés e aquele olhar que não me pertencia mais. Aquele sorriso contido, aquele silêncio entre uma frase e outra. A Bella de hoje era uma versão que eu não conhecia. E, ao mesmo tempo, era ela. Toda ela. E por trinta minutos, me senti com vinte e poucos de novo, como se nada tivesse acontecido, como se ainda tivéssemos uma chance.

Peguei o celular. Toquei na conversa com Bella. A última mensagem ainda estava lá. Nada. Nenhuma curtida, nenhuma resposta. Mas eu sabia que ela tinha lido. A Bella que eu conhecia nunca deixaria algo assim passar em branco.

A Bella que eu machuquei talvez deixasse.

Respirei fundo, afundei o corpo no sofá e fechei os olhos. Era inevitável, os flashes voltaram, como um filme antigo passando em alta velocidade.

O primeiro olhar em que senti que algo tinha mudado. As palavras não ditas.

O dia em que ela descobriu, e do som que saiu da garganta dela. Não foi um grito. Foi um gemido de dor, como se tivesse engolido o mundo inteiro.

E depois… o silêncio. Os dias em que ela ficou em casa, mas parecia não estar. E o olhar no rosto dela quando me contou sobre a própria traição não era de revanche, era de derrota. Como se tivesse se perdido no caminho tentando me alcançar. Fechei os olhos com força, tentando afastar as imagens. Mas era inútil.

Nós dois fomos tempestade. Fomos caos. Mas, às vezes, penso… se talvez, com tempo, espaço e a dose certa de verdade, ainda pudéssemos ser um céu limpo.

Apertei o celular nas mãos, mas não escrevi mais nada. Não ainda.

Observei Emerald dormindo no meu colo e questionei que tipo de homem eu era por cogitar imaginar uma vida com outra mulher enquanto minha filha estava ali e a mãe dela no quarto ao lado.

Com a respiração calma, as bochechas redondas e suspirando levemente no sono, ela não fazia ideia do que se passava dentro de mim, e ainda assim, era o que me mantinha inteiro.

Talvez amanhã Bella respondesse. Ou talvez não. Mas o que aconteceu hoje já tinha mudado alguma coisa em mim. E, eu esperava, nela também.



x~x~x~x~x

Emerald estava no berço, com uma das mãos fechadas em punho e a outra aberta sobre o travesseiro, como se tivesse acabado de largar um brinquedo invisível. Eu fiquei ali um tempo, ela era a única parte do meu dia que me fazia sentir… real.

Levantei com cuidado para não acordá-la e fechei a porta do quarto devagar. No corredor, a luz da TV estava acesa, e o som baixo de uma série qualquer preenchia a sala. Tanya estava no sofá, com as pernas esticadas, mexendo no celular. O cigarro eletrônico soltava uma nuvem doce no ar — melhor que o cigarro tradicional de mais cedo, mas ainda sim, ruim por ser dentro de casa.

— Ela voltou a dormir? — perguntou, sem tirar os olhos da tela.

— Sim, só precisava trocar a fralda.

Peguei uma garrafa de água na cozinha e voltei, sentando na ponta oposta do sofá. Ela me olhou de relance, medindo alguma coisa na minha expressão.

— Você está quieto.

— Só cansado — dei de ombros.

Ela se ajeitou no sofá, virando o corpo na minha direção, deixando o robe de seda cair um pouco no ombro. Era quase automático: nós dois sabíamos o que fazer para acionar o outro.

— Podíamos subir — ela sugeriu, num tom que não era bem convite, nem provocação. Mais um… hábito.

— Não hoje — respondi. — Amanhã tem seu brunch cedo, lembra?

Ela deu um sorriso breve, daqueles que não chegam nos olhos, e voltou a puxar o cigarro.

— Você anda estranho, Edward.

— Estranho como?

— Estranho… distraído. Com a cabeça em outro lugar.

Quis rir. Não era outro lugar, era outra pessoa. Mas engoli a resposta e estiquei a mão para pegar o controle remoto, trocando para qualquer coisa que não mostrasse gente feliz.

A verdade é que Tanya e eu éramos bons no papel de casal funcional. Transávamos quando dava vontade. Saíamos juntos quando um dos dois precisava reforçar a imagem. Tínhamos um estoque de coisas ilícitas para quando queríamos esquecer o tédio. Mas, fora isso, éramos só… dois adultos dividindo teto e responsabilidades, como colegas de quarto com benefícios eventuais.

Ela sabia que o relacionamento estava acabado. Eu também. Mas era confortável o bastante para não mexermos nas peças. Eu não queria o trabalho de desfazer essa vida, e ela não queria abrir mão do que vinha com estar comigo.

O celular vibrou no meu bolso, e por reflexo, puxei para ver. Nada dela. Só uma notificação de e-mail. Suspirei, apoiando a cabeça no encosto. Talvez fosse melhor assim. Talvez Bella não respondesse mesmo.

Tanya mudou para um reality show, e eu fiquei olhando para a tela sem registrar nada. Era mais fácil me deixar anestesiar pelo som ambiente do que pensar no que realmente importava.

— A marca confirmou o briefing do post do brunch — disse, ainda sem olhar para mim — Mas quer que você apareça na foto.

— Achei que era conteúdo de maternidade.

— E é. Mas a ideia é que seja um momento com a família — ela deu um meio sorriso — Você, eu e Emmie. Ela estará de costas, é claro.

Assenti, mesmo sentindo o nó familiar se formar no estômago. Fotos ensaiadas, sorrisos milimetricamente calculados, legenda com frase que ela escolheria, e mais uma rodada de comentários sobre como éramos “a família perfeita”.

A verdade é que eu já sabia exatamente como seria: ela escolheria o cenário, a roupa da Emerald, o meu ângulo. E eu entraria no jogo, como sempre.

Ela esticou as pernas, encostando os pés nas minhas coxas, como se marcasse território.

— A gente podia aproveitar depois e almoçar fora. Só nós dois.

Pensei por alguns segundos, não porque estivesse animado com a ideia, mas porque não sabia se tinha energia para a farsa que vinha depois.

— Vamos ver como estamos amanhã — respondi, e isso pareceu bastar.

Voltamos ao silêncio.

Na TV, alguém chorava e gritava com outra pessoa num cenário falso. Tanya riu baixo, e por um instante, fiquei tentando lembrar a última vez que a vi rir de verdade. Não por convenção social, não por estar encenando para a câmera, mas porque realmente achou algo engraçado. Não consegui.

Ela largou o celular ao lado, se inclinou um pouco e apoiou o queixo na mão.

— Você ainda está com aquela cara… distante. — seus olhos me analisavam como se tentassem atravessar minha pele — É Londres? Você sente falta?

Respirei fundo. Não era Londres. Não exatamente. Mas era mais fácil responder o que ela queria ouvir.

— Sinto. É lá que nossas famílias estão.

— Eu não sinto! — ela sorriu orgulhosa — Aqui é onde as coisas acontecem, vai ser ótimo para nós, você vai ver.

Não respondi. Eu sabia que, para ela, Los Angeles era sinônimo de oportunidades, festas, visibilidade. Para mim, era só mais um cenário bonito para um papel que eu não sabia mais se queria interpretar.

O programa terminou, e a tela ficou preta por alguns segundos antes de aparecer a sugestão para o próximo episódio. Tanya se levantou, alongando os braços acima da cabeça.

— Vou subir. Se mudar de ideia… — Ela deixou a frase suspensa, com um olhar que podia ser tanto convite quanto teste.

— Boa noite, querida.

Ela deu um sorriso curto, virou-se e sumiu na escada.

Fiquei ali sozinho, ouvindo o barulho da água correndo no banheiro lá em cima. Peguei o celular mais uma vez, sem nem pensar, e abri nossa última conversa — que, na verdade, não existia. Só a minha mensagem para Bella, solta, sem resposta. Meu indicador ficou parado sobre o teclado por alguns segundos, mas fechei o aplicativo antes que fizesse alguma besteira.

Não era hora. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria esperar que a hora chegasse. Eu queria criar a oportunidade.

Subi para o quarto depois de desistir de me distrair com algo na televisão. Tanya já estava deitada, mexendo no celular e não me olhou quando entrei.

Tirei a camisa e fui até a cômoda pegar uma calça de moletom. Passei pela cama e Tanya esticou a mão para me tocar de leve na cintura, quase automática, como quem cumpre um protocolo de intimidade. Era um gesto conhecido… mas que, com Bella, nunca tinha sido automático. Ela me segurava como se fosse me perder se me soltasse.

Deitei ao lado de Tanya. Ela virou para me encarar, o rosto já meio coberto pelo travesseiro.

— Ainda cansado? — perguntou.

— Sim.

Ela fez um carinho breve no meu peito e depois virou de costas, ajeitando o cobertor.

Fechei os olhos e, por um instante, imaginei outra cena: Bella deitada na mesma posição, mas puxando minha mão para passar por cima da cintura dela. O calor da pele, o jeito que ela ficava inquieta até eu encontrar um ponto confortável para nós dois. A respiração que se ajustava à minha.

Abri os olhos, encarando o teto. A comparação veio sozinha, como sempre. Não era justo. Não era certo. Mas era inevitável.

Lembrei do jeito que Bella me beijava de repente, mesmo no meio de uma conversa. Ou do como ela ria quando eu tentava manter o controle, e só piorava, porque ela sabia exatamente como me fazer perder. Com Tanya, tudo era mais calculado. Um jogo de luz, câmera, ação e não apenas no sentido figurado.

Passei a mão pelo rosto, tentando afastar as imagens, mas elas vinham em ondas: a cozinha no fim da noite, as pernas dela na bancada, o gosto de vinho e cigarro, a maneira como ela me olhava depois, como se o mundo fosse só aquilo, só nós dois.

E então, inevitavelmente, o outro lado. O silêncio depois das brigas. O jeito que ela se encolhia na cama para se afastar de mim. A frustração de querer me aproximar e, ao mesmo tempo, não saber se queria mesmo ser perdoado.

Olhei para Tanya dormindo ao meu lado, perfeitamente imóvel. Nenhuma ponta de mágoa, nenhum traço de alegria verdadeira. Apenas o conforto frio de duas pessoas que sabem que não vão embora, mas não porque se amam, e sim porque não têm para onde ir.

Apoiei o braço na testa e respirei fundo. Eu sabia que não ia conseguir dormir tão facilmente.