Daylight
35 Capítulo 34
Bella
O tempo, como sempre fazia, passou.
Eu continuava trabalhando — em casa, na maioria das vezes — fazendo exames semanalmente, acompanhando menções ao meu nome na imprensa e nas redes sociais e fazendo posts que mostravam cada vez menos o meu corpo. Em pouco tempo, não haveria uma peça no meu guarda roupa capaz de manter aquilo em segredo.
Talvez por isso eu tenha começado a evitar espelhos de corpo inteiro.
Eu ainda me olhava o suficiente para escolher roupas, prender o cabelo, conferir se o rosto parecia menos cansado antes de uma chamada de vídeo ou se a blusa era larga o bastante para sobreviver a uma saída rápida sem gerar uma teoria nova na internet.
Mas havia sempre um segundo em que meu olhar descia e ali estava: era pequena se comparada ao que ainda viria, mas cada dia menos negociável. Não era mais só inchaço, não era mais uma ilusão causada pelo ângulo, não era mais algo que apenas Edward percebia porque conhecia cada linha do meu corpo.
Por algumas semanas, conseguimos manter tudo em um equilíbrio instável. Tanya melhorava aos poucos, primeiro com conversas curtas, depois com horas mais longas de consciência. A perna ainda imobilizada, as costelas ainda limitando cada movimento, o rosto menos marcado a cada dia, embora alguns hematomas parecessem se recusar a desaparecer. Ela já conseguia ficar sentada por períodos breves, com travesseiros atrás das costas, reclamando da comida do hospital e passando mais tempo com Emerald.
No começo, por poucos minutos. Depois por mais tempo, sempre acompanhada de Edward, às vezes de Esme, porque Carlisle tinha voltado para casa. Tanya lia livros infantis com a voz fraca, deixava Emerald colocar adesivos nos lençóis e chorava quase sempre que a filha ia embora.
Eu não ia. Não porque Tanya tivesse pedido que eu ficasse longe, mas simplesmente porque não parecia hora. Até que, em uma terça-feira de chuva fina, Emerald decidiu que era a hora.
— Bewa vai — ela disse, muito séria, em pé no meio da sala, segurando o coelho pela orelha.
Edward, que tentava colocar o tênis nela havia quase cinco minutos, ficou imóvel.
Esme ergueu os olhos da bolsa onde guardava lencinhos, água, uma muda de roupa e outras trezentas coisas que uma visita de quarenta minutos ao hospital aparentemente exigia.
Eu estava perto da cozinha, usando novamente uma camisa de Edward, dessa vez aberta sobre uma regata branca e uma legging preta, cortesia da aula de pilates de mais cedo. A camisa era grande o suficiente para cobrir minha barriga se ficasse fechada.
— A Bella não vai hoje, amor — Edward respondeu, retomando o tênis.
Emerald franziu a testa.
— Bewa vai.
— Você vai ver a mamãe hoje, Emmie.
— Com a Bewa.
A insistência não tinha camadas. Ela não compreendia problemas de adultos, manchetes ou o fato de que minha simples entrada naquele hospital poderia causar um estrago maior que o acidente em si. Para Emerald, eu era apenas alguém que fazia parte da sua rotina. Alguém que lia o mesmo livro três vezes, brincava, dividia pedaços de banana com ela e deixava Jake ser usado como travesseiro.
Edward olhou para mim. Era uma pergunta silenciosa com muitas respostas possíveis.
— Eu posso esperar do lado de fora — falei.
— Bella… Não se sinta obrigada porque ela pediu.
— Não me sinto.
Era quase verdade. Eu me sentia uma série de coisas, e obrigação talvez fosse a menor delas. Sentia medo, principalmente, mas também havia uma parte de mim que sabia que aquilo precisaria acontecer em algum momento.
Tanya era a mãe da irmã do meu filho. E Emerald, com seus dois anos recém-completos, não entendia por que adultos complicavam tanto a presença de alguém que ela queria ao lado.
— Se for demais, eu fico na sala de espera — continuei. — Ou vou embora. Não precisa ser uma grande coisa.
Edward soltou uma respiração curta, quase uma risada sem humor.
— Nada nessa família consegue não ser uma coisa grande.
Esme, com muita sabedoria, fingiu que não ouviu. Edward ainda me observava.
— Você tem certeza?
Olhei para Emerald, que estava tentando colocar o tênis no coelho.
— Não.
A honestidade fez a boca dele se curvar de leve.
No carro, Emerald pediu “Bewa aqui” e eu fui ao lado dela, porque ninguém naquela família parecia disposto a negar qualquer pedido naquela fase. Ela passou boa parte do caminho apontando carros, repetindo cores e tentando convencer o coelho a beber água. Eu respondia quando necessário, mas minha mente estava no hospital.
Quando chegamos, a entrada estava mais tranquila do que nas semanas anteriores. Ainda havia fotógrafos na rua, mas menos. A recuperação de Tanya continuava sendo pauta, mas já não tinha o mesmo gosto de urgência pública. Tragédias também tinham prazo de validade para quem as consumia de fora. Para quem vivia dentro delas, não.
A rotina do hospital já era familiar para eles. Para mim, tudo parecia novo. O cheiro de limpeza, o som dos passos no piso, o elevador que subia devagar demais.
Tanya estava em um quarto maior agora, fora da UTI, embora ainda monitorada de perto. Havia flores sobre uma mesa, cartões perto da janela e desenhos de Emerald presos na parede com fita adesiva.
Eu não estava ali para provar maturidade, bondade, força ou qualquer virtude. Eu estava ali porque Emerald pediu. Porque meu filho crescia dentro de mim e aquela família, por mais complicada que fosse, já não poderia ser organizada sem considerar todas as suas partes.
Tanya estava sentada na cama, apoiada por travesseiros. Ainda parecia frágil, mais magra, com o cabelo preso em uma trança sobre um ombro, a pele pálida sob a luz do quarto. Mas estava consciente e quando Emerald entrou, ela sorriu.
Eu permaneci perto da porta, não por muito tempo. Apenas o suficiente para que o quarto se ajustasse a mim e eu a ele. Esme entrou e ficou ao meu lado. Kate, sempre presente, sentou-se perto da janela. Edward se manteve entre a cama e Emerald, atento aos fios, aos movimentos bruscos, ao cansaço de Tanya.
Tanya sustentou meu olhar por mais alguns segundos, como se houvesse muitas perguntas, mas nenhuma energia suficiente para colocá-las no mundo. Depois voltou a atenção para Emerald, que tentava explicar que o coelho tinha machucado a pata, a orelha e talvez o cabelo, embora coelhos de pelúcia não tivessem cabelo.
A visita seguiu melhor do que eu esperava. Ou talvez eu tivesse esperado tão pouco que qualquer estabilidade parecesse um milagre. Emerald mostrou adesivos e Tanya deixou que ela colocasse um no dorso da sua mão.
Sentei-me apenas quando Esme me lançou um olhar que misturava preocupação e ordem. A cadeira ficava próxima à parede, distante o bastante da cama para que eu não parecesse tentar ocupar um espaço que não era meu.
Tanya não parecia hostil. Cansada, sim. Às vezes confusa com a velocidade das frases de Emerald, às vezes frustrada por não conseguir acompanhar a filha como queria. Mas não hostil, e talvez por isso eu tenha relaxado.
— Emmie, por que você, o papai e a vovó não vão buscar um lanche para o coelhinho? — ela sugeriu, depois de um tempo.
— E a Bewa!
— Não, a Bella vai ficar aqui para conversar com a mamãe.
Prendi a respiração por um momento mas, afinal, eu não tinha me colocado naquela situação?
— Tudo bem — respondi.
Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Edward não pareceu convencido, mas assentiu e saiu com a filha. Kate passou por mim sem hostilidade, mas com uma rigidez que me lembrou que, mesmo quando Tanya não parecia me odiar, isso não significava que todos ao redor dela tinham recebido o mesmo aviso.
Talvez fosse isso que tornava tudo mais difícil. Se Tanya estivesse furiosa, se me olhasse com ódio, se dissesse qualquer coisa cruel, eu poderia me defender ou aceitar a agressão como parte previsível da minha presença ali. Mas ela apenas continuou sentada na cama.
— Olha, não vou dizer que sou sua maior fã ou que estou dando pulos de alegria com a sua presença aqui, mas não sou hipócrita nem cega, Bella.
Tanya olhou para as próprias mãos sobre o lençol. Havia marcas de acesso, hematomas já amarelados e um adesivo pequeno de estrela que Emerald tinha colado ali minutos antes. Ela passou o polegar perto do adesivo sem tocá-lo de verdade, como se aquilo fosse precioso demais para arriscar descolar.
— Minha filha ama você — disse. — E eu talvez já soubesse disso há muito tempo e não quisesse ver. Aquele dia, no aniversário da Maggie? Ela literalmente correu na sua direção.
Não havia acusações naquela frase, mas eu senti que ela estava falando de um lugar ferido.
— Eu também a amo, Tanya.
Ela fechou os olhos por um segundo e quando abriu, parecia muito mais cansada que antes.
— Antes do acidente, Edward me contou que vocês estavam juntos e pediu minha permissão para que vocês três convivessem. Então eu acordo e descubro que, para além daqueles dias, você continuou cuidando dela e isso me assustou terrivelmente. Não porque eu ache que ela não está segura, mas porque isso escancarou o quanto você a ama.
— Tanya, eu só…
— Não, me deixe terminar. Não diga que só ajudou ou qualquer outra bobagem desse tipo. Eu sei que a maioria das pessoas não faria o mesmo, e sei que eu definitivamente não faria se fosse o contrário. Ela tem uma babá, tem os avós e, graças a Deus por Esme e Carlisle porque a minha mãe não se dignou a sair da Rússia, mas você estava lá e por isso, eu tenho que agradecer.
— Não precisa…
— Preciso — interrompeu outra vez. — E odeio precisar, mas preciso.
Fiquei quieta.
— Obrigada por cuidar da minha filha quando eu não pude.
Eu sentia muitas coisas naquele momento. Uma exaustão acumulada, uma culpa que não era exatamente culpa, um amor que eu não sabia onde colocar e uma gratidão dolorosa por Tanya conseguir dizer aquilo mesmo quando claramente a machucava. Senti as lágrimas caírem antes que pudesse impedir.
— Eu teria cuidado de qualquer forma — respondi.
Tanya assentiu.
— Eu sei, é por isso que estou agradecendo.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Ainda desconfortável. Ainda cheio de coisas não ditas. Mas havia nele uma espécie de reconhecimento. Não amizade, não perdão, nem paz. Nada tão simples. Apenas duas mulheres olhando para a mesma criança de lugares completamente diferentes e entendendo, talvez, que o amor por Emerald não precisava ser uma disputa para ser assustador.
Ela respirou fundo, e o movimento pareceu cansá-la.
— Eu não consigo falar sobre todo o resto hoje — Meu corpo ficou rígido antes que eu pudesse impedir. — O que aconteceu antes foi grande demais para ser ignorado.
Os olhos dela ficaram presos no meu rosto por um segundo longo demais. Por um instante, tive a sensação desconfortável de que ela já sabia de alguma coisa. Tanya podia estar frágil, mas não era cega, e já tinha passado por uma gestação, ela podia muito bem reconhecer os sinais.
Então a porta se abriu alguns centímetros, e a cabeça de Emerald apareceu primeiro.
— Mamãe?
Edward apareceu logo atrás, com um pacote pequeno de biscoitos em uma mão e o coelho na outra.
— O coelho rejeitou a maçã e aceitou biscoito.
Emerald entrou depressa.
— Coelho comeu, mamãe!
— Comeu? — Tanya perguntou, enxugando discretamente o rosto com a ponta dos dedos. — E ele gostou?
— Sim!
Edward ficou perto da porta, atento a mim de uma forma que tentei não demonstrar que percebi. Esme apareceu atrás dele e, ao ver meus olhos úmidos e o rosto de Tanya, entendeu o suficiente para não perguntar nada.
Emerald então, mais uma vez sem compreender os problemas dos adultos, se virou para mim.
— Bewa, colo.
Edward se mexeu imediatamente.
— Emmie…
— Está tudo bem — falei.
Talvez não, mas eu queria que estivesse.
Ela caminhou até mim, segurando o coelho pela orelha. Quando me abaixei para pegá-la, a camisa de Edward que eu usava fechada subiu levemente. Emerald, impaciente, agarrou a barra da blusa de baixo para se equilibrar e puxou o tecido com uma força surpreendente para alguém tão pequena.
— Colo, Bewa.
A camisa escorregou um pouco mais quando me inclinei para ela. O tecido, antes solto, marcou a curva da minha barriga de um jeito impossível de ignorar.
Senti o silêncio antes de entender. Edward parou no meio do movimento e Tanya, que segundos antes sorria para Emerald, ficou completamente imóvel.
Terminei de levantá-la no colo por reflexo. Ela se encaixou contra mim, alheia a tudo, apoiando as pernas justamente sobre a minha barriga para se acomodar melhor.
Não havia mais como fingir.
Meu primeiro impulso foi puxar a camisa de volta, cobrir, negar com um gesto o que já estava evidente. Mas minha mão se moveu tarde demais, e quando tocou a curva do meu abdômen, confirmou mais do que escondeu.
Tanya ergueu os olhos lentamente até os meus.
A conversa sobre Emerald ainda pairava entre nós, frágil, dolorida, quase sagrada. E agora havia outra coisa no quarto. Outra verdade. Uma que talvez devesse ter sido dita sentada, com preparo, sem Emerald no meu colo e sem Tanya tendo que descobri-la assim.
Edward deu um passo à frente.
— Tanya, eu…
Ela levantou a mão, fraca, mas suficiente para interrompê-lo. Os olhos dela não saíram de mim.
— Você está grávida.
Não foi uma pergunta.
Tanya olhou para Emerald no meu colo, para as perninhas dela sobre minha barriga, e depois novamente para mim.
Não havia fúria no rosto dela. Ainda não.
Havia choque. O tipo de compreensão que chega antes da emoção conseguir escolher uma forma.
— Uau. Vocês foram rápidos — disse, sarcástica.
— Mamãe, olha!
Tanya fechou os olhos. Quando os abriu, havia lágrimas acumuladas, mas sua voz saiu controlada.
— Oi, meu amor.
— Eu no colo da Bewa.
— Estou vendo.
A frase tinha uma camada que Emerald não compreenderia. Eu compreendi.
Tanya respirou fundo, como se a dor nas costelas fosse mais fácil de suportar do que qualquer outra.
Emerald bocejou no meu colo, completamente alheia ao fato de que todos os adultos tinham acabado de se reorganizar para continuarem firmes ao redor dela.
— Emmie e o coelho vão nanar — murmurou.
— Acho que o coelho está cansado, não é? — Tanya disse, encontrando a própria voz. — Eu também estou.
— Acho que precisamos encerrar por hoje — Esme disse com delicadeza.
Emerald protestou um pouco quando Edward estendeu os braços, mas foi para ele depois que Tanya prometeu que ela poderia visitar outra hora. A promessa era pequena o bastante para ser segura.
Edward esticou a filha para que ela pudesse beijar a bochecha da mãe.
— Tchau, mamãe.
Tanya sorriu para ela.
— Tchau, amor da minha vida.
Eu me levantei, ajeitando a camisa sobre o corpo. O gesto era inútil agora mas, ainda assim, eu precisava dele para não sentir que estava completamente exposta.
Saímos do quarto em silêncio. No corredor, o ar parecia frio demais. Emerald apoiou o rosto no ombro de Edward, sonolenta, o coelho preso entre os dois
— Bella, eu…
Balancei a cabeça. Não ali. Não naquele corredor. Não com Emerald exausta no colo dele e Tanya atrás da porta.
— Depois — falei.
A palavra saiu baixa, mas era o máximo que eu conseguia oferecer sem desmoronar. Edward assentiu, embora a dor no rosto dele quase me fizesse voltar atrás e segurar sua mão.
Dentro de mim, nosso filho continuava existindo com a mesma inocência absoluta de antes. Pequeno demais para saber que tinha acabado de se tornar visível, pequeno demais para carregar as dores que os adultos já colocavam ao redor de sua chegada.
Mas, pela primeira vez, eu entendi de verdade que uma coisa podia ser inocente e ainda assim machucar alguém quando aparecia no meio dos destroços.
E talvez fosse essa a verdade mais difícil de todas.
Quando chegamos de volta ao apartamento, Emerald já dormia.
Ela tinha apagado no carro antes mesmo de sairmos do estacionamento do hospital, com o coelho preso entre o corpo pequeno e o cinto da cadeirinha, e assim passou o caminho todo, com o rosto virado de lado e úmido de suor por causa do sono pesado. Edward a carregou para dentro sem acordá-la.
Nenhum de nós mencionou, até então, o que tinha acontecido.
Às vezes, eu achava que o mais cruel da vida adulta era justamente isso: a possibilidade de duas coisas serem verdadeiras ao mesmo tempo. Edward não tinha planejado que Tanya descobrisse daquela forma. Eu não tinha planejado que meu corpo fosse exposto naquele quarto. Nenhum de nós queria machucá-la e, ainda sim, machucamos.
Quando ele voltou, parecia ter tomado uma decisão.
— Eu sei que prometi não fazer nada por você, mas acho que está na hora de contarmos para a Emerald sobre o bebê. Você está com quatro meses e, logo, todo mundo vai saber.
— Contar para ela também não é nos colocar sob risco de exposição? E se ela contar para alguém? — perguntei, buscando desculpas para algo que eu nem sabia se devia.
— Para quem ela contaria, linda? — Não deixei de notar que ele estava usando o apelido que tinha ficado restrito a poucos momentos. — Ela só convive com cinco pessoas, e isso inclui a mãe e a babá, que já sabem.
Ele estava certo. Edward olhou para o corredor, na direção do quarto da filha.
— Agora?
Eu respirei fundo. Meu corpo inteiro queria dizer não, mas não havia mais um motivo bom para esperar além do meu medo.
— Quando ela acordar — respondi.
Esme voltou da cozinha com um copo de água para mim e outro para ele. Não disse nada durante alguns segundos, apenas nos entregou os copos e permaneceu ali, entre nós, como se soubesse que qualquer excesso de cuidado poderia nos fazer quebrar.
— Querem que eu fique? — perguntou.
Olhei para Edward.
— Acho melhor sermos nós dois — falei.
Esme assentiu, sem parecer magoada.
— Não tentem explicar demais.
Foi a única orientação que deu antes de se afastar para o quarto.
Enquanto Emerald dormia, Edward e eu sentamos no sofá da sala, afastados por alguns centímetros que pareciam existir menos por falta de vontade e mais por excesso de cuidado. O apartamento estava quieto demais. No chão, os blocos coloridos continuavam espalhados perto da mesa, um livro de animais estava aberto de cabeça para baixo. Havia uma meia de Emerald presa entre as almofadas, e um adesivo de estrela colado no braço da poltrona.
Eu fiquei olhando para o adesivo por tempo demais. Tanya tinha um igual na mão.
— Bella — Edward chamou.
— Sim?
— Eu sinto muito.
Fechei os olhos por um instante. Eu tinha dito que não queria ouvir desculpas, mas talvez ele precisasse dizer mesmo assim.
— Eu sei.
— Não só por hoje.
Olhei para ele. Edward estava inclinado para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, e parecia cansado de uma forma que não tinha a ver apenas com o hospital. Cansado de ser a pessoa que precisava entrar e sair de quartos carregando notícias incompatíveis entre si.
— Por ter deixado isso chegar até aqui — continuou. — Por esperar que existisse algum momento em que não machucaria ninguém.
— Eu também esperei.
— Não é a mesma coisa.
— Talvez não. Mas eu também estava lá, Edward — Ele me encarou. — Nós dois traímos a Tanya, nós dois somos os responsáveis.
A frase pareceu atingi-lo com força.
— Eu queria proteger você.
Quase sorri, mas não havia humor suficiente.
— Eu sei. Esse costuma ser o começo de muitos problemas nossos.
Dessa vez, quando a mão dele procurou a minha no sofá, eu deixei. Os dedos dele se encaixaram nos meus, sem pedido de perdão disfarçado de carinho. Apenas contato. Apenas a confirmação de que eu ainda estava ali.
E ele também.
Emerald acordou pouco mais de uma hora depois, nos avisando ao começar a chamar pelo pai em uma voz sonolenta, como se ainda decidisse se valia a pena acordar completamente. Edward levantou imediatamente, mas parou no meio do caminho e olhou para mim.
— Vem?
Assenti e seguimos juntos pelo corredor. Antes de entrar, tirei a camisa dele e fiquei só com a minha.
No quarto, Emerald estava sentada na cama, com o cabelo amassado de um lado, segurando o coelho pelo pescoço. Quando nos viu, sorriu, ainda meio dormindo.
— Papai.
— Oi, amor.
Ele sentou na beirada da caminha, e ela se arrastou para o colo dele sem muita coordenação. Emerald levantou a cabeça e estendeu uma mão para mim.
— Bewa aqui.
Sentei na cama do outro lado, deixando espaço entre nós. Emerald, naturalmente, ignorou qualquer noção de espaço e se inclinou para tocar a minha camisa.
— Colo.
Nós dois respiramos fundo.
— Antes do colo, a gente quer te contar uma coisa — ele disse.
A frase era simples, mas meu coração bateu como se ele tivesse anunciado algo diante de uma plateia. Emerald olhou para ele, depois para mim.
— Coisa?
— Uma coisa que ainda é bem pequenininha — falei.
Ela pareceu gostar da palavra.
— Pequenininha — repetiu, sorrindo.
Edward sorriu, mas sua mão estava tensa sobre o cobertor.
— Tem um bebê crescendo na barriga da Bella.
Emerald ficou imóvel por dois segundos, depois olhou para minha barriga. Não como Tanya olhou, com dor ou compreensão, apenas curiosidade.
— Onde?
Peguei a mãozinha dela com cuidado e coloquei sobre o pequeno volume.
— Aqui.
Emerald olhou para a própria mão, depois para o pai, procurando alguma confirmação.
— Na Bewa?
— Na Bella — ele respondeu, com a voz baixa. — O bebê está crescendo na barriga dela.
Ela franziu a testa, tentando encaixar aquela informação em alguma categoria conhecida. Edward levou a mão até minha barriga também, mas parou antes de tocar, como se não quisesse tomar o momento dela.
— O bebê ainda é bem pequenininho — explicou. — Vai crescer devagar.
Emerald olhou para ele com a seriedade de quem estava ouvindo uma instrução importante.
— O bebê nana na barriga da Bewa?
— Sim, ele dorme igual a você — falei, porque parecia uma resposta possível.
Ela considerou aquilo, então levantou a minha blusa com uma rapidez que quase me fez rir e morrer de susto ao mesmo tempo.
— Emmie, o que você está fazendo? — Edward perguntou, tentando não soar alarmado.
— Quer ver — ela explicou, como se fosse óbvio, e tocou minha barriga com a ponta dos dedinhos. — Bebê aqui.
— Isso — Edward engoliu em seco antes da próxima frase. — É o bebê da Bella e do papai.
A frase fez Emerald levantar o rosto.
— E meu?
— O bebê vai ser da nossa família — ele continuou, pronunciando cada palavra devagar. — Vai ser seu irmãozinho ou sua irmãzinha.
As palavras claramente não significaram muito e ela não pareceu satisfeita.
— Meu bebê?
Olhei para Edward, e dessa vez fui eu quem respondeu.
— Você pode amar o bebê e me ajudar a cuidar dele.
Emerald pareceu considerar aquilo uma solução aceitável. Imediatamente, ela pegou o coelho e o apertou contra a minha barriga.
— Oi, bebê.
As lágrimas vieram tão rápido que não consegui esconder. Edward cobriu a boca com a mão, desviando o rosto por um segundo.
Emerald não percebeu. Ou, se percebeu, não se importou. Para ela, aquilo era simples. Havia um bebê escondido na barriga da Bella. O coelho precisava conhecê-lo. Problema resolvido.
— Oi — sussurrei.
— Bebê da Bewa come biscoito?
Uma risada escapou de mim no meio do choro.
— Ainda não.
— Leite?
— Só depois que sair daqui.
Ela franziu a testa, sem entender.
— Bolo?
Edward riu de verdade dessa vez, embora os olhos ainda estivessem molhados.
— Ainda não, amor. Por enquanto, ele não come.
Emerald, parecendo profundamente decepcionada pelo bebê, apoiou o coelho no meu colo e finalmente se arrastou para mim. Edward me ajudou a acomodá-la de um jeito que não pressionasse minha barriga, e, dessa vez, não me irritei com o cuidado. Havia algo quase sagrado em como ele movia a filha entre nós, atento ao corpo dela, ao meu corpo, ao bebê pequeno demais para entender que tinha acabado de ser apresentado à irmã.
Emerald encostou a cabeça no meu peito.
— Bewa bebê.
— Sim — murmurei. — A Bella tem um bebê.
Ela bocejou.
— Papai bebê.
— Sim, também é o bebê do papai — Edward disse, a voz rouca.
— Emmie grande.
— Muito grande. Você já tem dois anos.
O quarto ficou quieto.
Não havia compreensão total. Não havia uma cena perfeita, nem uma reação que pudesse ser colocada em palavras adultas. Emerald não entendeu cronologia, laços, futuro ou a complexidade de ganhar um irmão.
Ela entendeu o que podia e, por enquanto, aquilo precisava bastar.
Emerald piscou, já quase dormindo de novo, mas se sobressaltou com algo.
— Bebê dodói?
Ah.
— Não — respondi rápido, suavizando a voz em seguida. — O bebê está bem, e eu também.
Ela fechou os olhos por um segundo, satisfeita com a sequência de garantias. Edward se inclinou e beijou a testa dela.
Emerald aceitou a notícia, porque as verdades dela ainda eram feitas de presença, colo e vozes calmas.
Ela adormeceu alguns minutos depois, metade no meu colo, metade apoiada em Edward, o coelho prensado contra minha barriga como um guardião pequeno e torto.
Ninguém se moveu por um tempo e nós dois parecíamos ter medo de quebrar alguma coisa.
A mão de Edward encontrou a minha sobre o cobertor, ao lado do corpo adormecido da filha. Nossos dedos se entrelaçaram e ele os levou até os lábios, beijando os nós.
A imprensa ainda existia. Minha barriga continuaria crescendo. Emerald faria perguntas de formas inesperadas, em lugares inadequados, provavelmente na frente de pessoas despreparadas. Edward e eu ainda teríamos que decidir como contar ao resto do mundo antes que o mundo contasse por nós.
Mas aquela verdade, pelo menos, já tinha sido entregue a quem mais importava.
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