Daylight
34 Capítulo 33
Notas iniciais
Edward
Nós não levamos Emerald para visitar a mãe naquele dia. Nem no próximo.
Na verdade, eu a levei para conversar com uma psicóloga infantil quando, cinco dias depois, Tanya ainda flutuava entre poucos momentos de consciência e muitos de inconsciência total. Os médicos diziam que era normal, que era algo que ela precisava para se recuperar de lesões tão extensas — perna quebrada, costelas fraturadas, a pancada na cabeça, além da viagem de volta, mas isso não me ajudava.
Meu próprio psiquiatra se mostrou bastante necessário quando a pressão daquela situação toda ficou grande demais e eu me vi tendo sinais de abstinência. É, quem diria que o senhor eu não sou um viciado passaria meses limpo e teria vontade de cheirar uma carreira inteira quando as coisas ficaram difíceis.
A ironia não tornava aquilo menos humilhante.
Talvez porque, durante muito tempo, eu tivesse me agarrado a definições que me eram convenientes: eu não era viciado porque não usava todos os dias. Não era viciado porque tinha parado. Não era viciado porque conseguia trabalhar, cuidar da minha filha, aparecer em compromissos e parecer razoavelmente bem em fotos tiradas por pessoas escondidas atrás de carros.
Eu não era viciado porque o viciado era sempre alguém pior do que eu.
Então passei uma madrugada inteira sentado no chão do quarto, com a porta trancada, o telefone na mão e o nome de um fornecedor que eu não chamava havia meses piscando no histórico de mensagens, tentando convencer a mim mesmo de que querer muito não era a mesma coisa que fazer.
Tecnicamente, não era.
Na prática, a distância entre as duas coisas parecia pequena o suficiente para me aterrorizar.
Não liguei.
Esse detalhe deveria ter me feito sentir vitorioso. Não fez. Fiquei apenas exausto, envergonhado e com uma raiva absurda de mim mesmo por ainda existir uma versão na minha cabeça capaz de sugerir que aquilo ajudaria.
Como se uma linha branca sobre qualquer superfície lisa fosse melhorar Tanya no hospital, Emerald perguntando pela mãe, Bella grávida, meus pais tentando nos manter inteiros e a imprensa circulando a nossa vida como urubus.
Não ajudaria, e eu sabia.
O problema era que saber nunca tinha sido a minha maior dificuldade. Minha maior dificuldade sempre fora continuar sabendo quando o pânico começava.
Na manhã seguinte, antes que Emerald acordasse, liguei para meu psiquiatra.
Ele atendeu no terceiro toque e, durante dois segundos, quase desliguei por vergonha. Depois pensei em Bella. Não como motivo para ser melhor, porque esse era outro tipo de peso injusto para colocar sobre ela. Pensei no rosto dela quando dizia que não queria viver de coisas que eu sentia e não dizia.
Então disse tudo, incluindo a certeza infantil de que, se eu conseguisse desligar meu corpo por algumas horas, talvez pudesse voltar a funcionar como se nada tivesse acontecido. Meu psiquiatra não pareceu surpreso e isso me irritou mais do que deveria.
— Você esperava que eu dissesse o quê, Garrett? — perguntei, sentado no chão, com as costas contra a porta do armário.
Do outro lado da linha, ele respirou com calma suficiente para que eu quisesse arremessar o telefone contra a parede.
— Eu esperava que você ligasse antes de fazer qualquer coisa. Foi o que aconteceu.
— Então isso é bom?
— É um começo.
Eu ri sem humor.
Começos, aparentemente, eram a minha especialidade naquele mês. Eram muitos começos para alguém que mal conseguia terminar uma xícara de café sem receber uma ligação do hospital.
Ele alterou minha medicação naquela mesma manhã, marcou uma consulta presencial para o dia seguinte e me fez prometer, com a voz firme de quem sabia exatamente o pouco valor de uma promessa feita em meio à crise, que eu apagaria os contatos antigos do celular e entregaria a lista de pessoas que ainda poderiam me facilitar uma recaída.
Não para Bella ou para minha mãe. Para ele.
— Você precisa de apoio — disse. — Mas não de uma plateia.
Aquilo ficou na minha cabeça.
Eu tinha um público para cada versão de mim. O artista funcional, o pai dedicado, o homem recém-separado, o ex de Bella Swan que todos fingiam não observar, o filho que Esme ainda queria proteger do mundo, o paciente que dizia as coisas certas para o psiquiatra e omitia todo o resto.
Buscar apoio era diferente.
Provavelmente, era dizer a Bella que eu estava mal sem esperar que ela me consertasse.
Foi o que fiz naquela noite.
Não com todos os detalhes. Não porque quisesse esconder, mas porque havia uma diferença entre ser honesto e despejar algo bruto demais no colo de uma mulher que ainda lidava com as próprias questões, a exposição iminente e o medo legítimo de confiar em mim.
Ela estava na minha cozinha, comendo uma torrada pura porque os enjoos tinham voltado no fim da tarde, usando outra camiseta minha — essa agora oficialmente escolhida porque eu disse que gostava quando ela as usava — quando contei.
Bella ouviu em silêncio.
— Você usou alguma coisa? — perguntou.
A pergunta veio baixa, sem acusação. Mesmo assim, doeu.
— Não.
Ela assentiu uma vez.
— Mas quis.
— Sim, e muito.
A honestidade deixou a cozinha mais fria.
Bella apoiou a torrada no prato e passou as mãos pelo rosto. Por alguns segundos, achei que ela fosse se levantar, pegar as coisas e ir embora. Não a culparia. Havia limites para a quantidade de caos que uma pessoa podia aceitar em nome de um amor. Mas ela ficou.
— Você falou com seu médico? — assenti. — Tem um plano?
— Temos. Amanhã tenho uma consulta com ele e já alteramos minha medicação para ajudar com a crise.
Ela respirou fundo, com os olhos presos nos meus.
— Eu preciso saber quando essas coisas acontecerem, Edward.
— Eu sei.
— Preciso saber quando existe risco real, porque também estou entrando nessa vida com você.
Meu peito apertou.
— Eu não quero que isso vire sua responsabilidade.
— Não vai virar — A resposta veio rápida. — Mas também não aceito estar em uma relação onde todo mundo sabe que há um incêndio menos eu.
Fiquei em silêncio.
Bella pegou a torrada outra vez, mordeu um pedaço pequeno e fez uma careta.
— Isso está horrível.
— Quer outra coisa?
— Quero que você não mude de assunto fingindo que está cuidando de mim — Eu quase sorri. Quase. — E quero água.
Peguei um copo. Ela bebeu metade antes de continuar.
— Obrigada por me contar.
— Você está com raiva?
— Estou com medo, Edward.
A sinceridade dela me atravessou de um jeito mais eficiente do que qualquer bronca.
Foi assim que Bella me apoiou.
Não me salvando, não me perdoando por antecipação, não transformando meu medo em algo central em sua vida. Apenas ficando ali, firme o bastante para não desviar o olhar e cuidadosa o suficiente para não confundir minha vulnerabilidade com uma absolvição.
Eu precisava disso mais do que gostaria de admitir.
Nos cinco dias depois do aniversário de Emerald, nossa vida tornou-se uma sucessão de pequenas contenções. Algumas eram médicas. Outras, emocionais. A maioria era logística.
Tanya acordava por períodos curtos e irregulares. Às vezes abria os olhos, parecia tentar reconhecer o quarto e voltava a apagar antes de formar uma frase inteira. Em outras, respondia a comandos simples, apertava os dedos da enfermeira, movia a mão quando chamavam seu nome. Havia momentos em que parecia consciente o suficiente para sofrer, e isso talvez fosse o pior.
Os médicos diziam que era esperado. Eu aprendi a odiar essa palavra.
Era esperado que sentisse dor. Esperado que se confundisse. Esperado que apagasse. Esperado que perguntasse coisas sem conseguir sustentar as respostas. Esperado que o corpo economizasse energia. Esperado que a recuperação não fosse linear.
Nada daquela palavra tornava mais suportável olhar para a mãe da minha filha tentando voltar a existir dentro do próprio corpo.
Eu agora queria levar Emerald. Queria que Tanya ouvisse a voz da filha e encontrasse nela alguma coisa para puxá-la de volta. Queria dar à minha filha a prova de que a mãe ainda existia, que não era apenas uma palavra dita por adultos com expressões cuidadosas.
Também queria protegê-la da visão de Tanya presa a aparelhos, roxa em lugares que Emerald não entenderia, frágil de uma forma que nenhuma criança deveria precisar processar.
Por isso a psicóloga.
Seu nome era Carmen e ela tinha uma sala cheia de brinquedos. Emerald entrou desconfiada, agarrada ao meu pescoço, e depois de cinco minutos estava sentada no tapete tentando colocar um estetoscópio de brinquedo em um urso.
Ouvi enquanto ela explicava que, aos dois anos, Emerald não precisava de detalhes. Precisava de previsibilidade, palavras simples e adultos que não prometessem o que não podiam controlar.
— Ela não vai compreender a gravidade clínica — disse a psicóloga. — Mas compreende a ausência, a mudança de rotina e a tensão. Se a visita acontecer, ela deve saber antes que a mamãe está machucada, que está dormindo muito e que há máquinas ajudando o corpo dela. Não usem metáforas como “descansando” se isso puder fazê-la ter medo de dormir.
Anotei mentalmente cada palavra. Depois anotei no celular também, porque meu cérebro não era confiável naquela semana.
— E se Tanya acordar durante a visita? — perguntei.
— A reação de vocês será mais importante que a dela. Se os adultos entrarem em pânico ou demonstrarem choque, Emerald vai associar aquilo ao medo. Se for um momento calmo, mesmo emocional, ela tende a seguir o tom de vocês.
Calmo.
Eu quase ri.
Não porque fosse engraçado, mas porque a ideia de permanecer calmo caso Tanya abrisse os olhos diante da nossa filha parecia uma daquelas tarefas impossíveis. A psicóloga também sugeriu que preparássemos Emerald com brincadeiras como bonecas indo ao hospital, um ursinho machucado que precisava de curativo, e a palavra “mamãe” repetida sem que todos ao redor ficassem tensos como se uma sirene tivesse tocado.
Nós fizemos tudo isso.
O mundo do lado de fora, por outro lado, não tinha misericórdia nenhuma.
Os boatos, que já tinham se espalhado com força na primeira semana, ganharam outro tom quando Tanya não fez nenhum post nas redes sociais no aniversário da filha. Claro que as pessoas iam perceber. Eu me culpei por não ter pensado nisso antes de eu mesmo postar um storie em que minha filha aparecia.
A legenda tinha sido simples. Dois anos da minha vida inteira. Um coração branco. Nada sobre Tanya, nada sobre a festa, nada que entregasse quem estava no apartamento ou o que aconteceria depois.
Então a internet fez o que a internet fazia: notou o silêncio.
Nenhuma foto antiga. Nenhum texto emocionado. Nenhum repost do meu story. Nenhuma daquelas publicações bonitas que ela costumava fazer sempre para Emerald, com fotos em preto e branco, frases em inglês e russo e uma capacidade irritante de parecer espontânea mesmo quando eu sabia que havia levado quarenta minutos escolhendo cada elemento.
Nada, porque Tanya estava em uma cama de hospital, acordando e apagando em intervalos irregulares, com o corpo ainda tentando compreender que sobrevivera. Mas o mundo não sabia disso.
O mundo sabia apenas que Edward Cullen havia postado a filha fazendo aniversário e que Tanya Denali, ex-companheira e mãe da criança, não tinha dito uma palavra. No fim do dia, já havia perfis montando teorias.
Alguns diziam que Tanya estava punindo Emerald por estar com minha família. Outros diziam que a separação tinha sido mais feia do que anunciamos. Havia quem sugerisse que a guarda estava em disputa, quem afirmasse que Tanya tinha abandonado a filha para viajar a trabalho e quem, em um exercício particularmente criativo de crueldade, escrevesse que talvez a maternidade nunca tivesse sido prioridade para ela.
Li essa última frase parado no corredor do hospital, com um café frio na mão, a poucos metros do quarto onde Tanya dormia ligada a aparelhos.
Por um instante, tive vontade de quebrar o celular. Não que aquilo resolvesse. Nada se resolvia com objetos quebrados. Eu tinha aprendido isso tarde demais, mas aprendido.
Kate viu minha expressão antes que eu guardasse o aparelho. Ela estava sentada numa das poltronas da sala de espera, os cotovelos apoiados nos joelhos, o rosto pálido e os cabelos presos de qualquer jeito. Nos últimos dias, Kate parecia ter envelhecido anos. Ou talvez fosse apenas a primeira vez que eu a via sem a armadura polida que sempre usava em público.
— O que foi? — perguntou.
Suspirei e entreguei o telefone. Kate leu em silêncio, mas não terminou. No meio da terceira postagem, bloqueou a tela e a colocou virada para baixo.
— Vou matar alguém.
— Entra na fila.
Ela fechou os olhos.
— Ela odiaria isso.
— As especulações?
— A ideia de não ter postado no aniversário da Emerald.
O peito doeu de uma forma específica, familiar e inútil.
Tanya não era uma mãe perfeita. Nenhum de nós era. Nós tínhamos viajado mais do que gostaríamos, perdido momentos importantes, discutido sobre trabalho, agenda, cansaço e prioridades. Ainda assim, Tanya era a mãe e amava Emerald de um jeito que não precisava ser provado para estranhos.
E eu tinha dado a eles um buraco para preencherem com qualquer monstruosidade que achassem mais interessante.
— Eu devia ter pensado antes de postar — murmurei.
Kate abriu os olhos.
— Você postou sua filha no aniversário dela, não causou a crueldade das pessoas.
— Facilitei para eles.
— Não se dê tanta importância. Eles teriam encontrado outra coisa.
Bella, quando contei, ficou em silêncio por alguns segundos.
Ela estava na minha casa naquela noite, sentada na ponta da bancada da cozinha, usando uma camiseta minha amarrada na cintura e uma legging preta. Tinha um prato com maçã cortada ao lado, porque era uma das poucas coisas que o estômago dela aceitava depois das seis nesta semana. Jake estava deitado aos seus pés, como se a tivesse seguido até lá apenas para demonstrar desaprovação ao meu piso.
Mostrei algumas mensagens.
— Quanta gente horrível — disse por fim.
Ela devolveu o celular e passou a mão pela barriga, um gesto que fazia com frequência agora, às vezes sem perceber.
A curva estava cada dia menos imaginária. Ainda discreta, mas cada dia mais real. Visível para mim, para ela, para meus pais, até para Alice, que tinha voltado para Washington e só nos via por chamada de vídeo. Em pouco tempo, não haveria uma camiseta minha capaz de manter aquilo em segredo.
— Não dá para responder tudo.
— Não.
— Mas também não dá para fingir que não machuca.
Ela disse aquilo olhando para o prato, não para mim. A maçã começava a escurecer nas bordas, esquecida desde que mostrei as mensagens. Jake, aos pés dela, soltou um suspiro pesado, como se também estivesse decepcionado com a humanidade.
– Especialmente porque Emerald vai crescer e ver tudo isso um dia.
Meu estômago se contraiu.
Eu ainda não tinha pensado naquela parte. Ou tinha pensado e empurrado para algum canto menos urgente da cabeça, junto com todas as outras coisas que eu não conseguia resolver sem perder a capacidade de respirar.
Bella passou a mão pela barriga outra vez.
— A gente acha que está lidando com o agora, mas tudo fica registrado.
A frase permaneceu na cozinha.
Tudo fica registrado.
Stories apagados. Manchetes. Fotos na porta do hospital. Comentários de pessoas que jamais precisariam olhar Emerald nos olhos. O silêncio de Tanya no aniversário da filha. Minha tentativa desajeitada de celebrar uma criança enquanto a mãe dela flutuava entre consciência e inconsciência.
— Talvez precisemos falar alguma coisa — eu disse.
Bella levantou os olhos.
— Sobre Tanya?
— Sobre o acidente. Sobre ela estar em recuperação. Nada sobre detalhes médicos, nada sobre nós, só o suficiente para tirar dela essa culpa absurda pelo silêncio.
Bella pensou por alguns segundos.
— Acho justo.
— Você acha?
— Acho. Não resolve tudo, mas protege o que precisa ser protegido agora.
— E o que protege você?
A pergunta saiu antes que eu pudesse decidir se deveria fazê-la.
Bella ficou imóvel por um instante. Depois soltou uma risada pequena, triste.
— No momento? Suas camisetas.
Meu olhar desceu para o nó na lateral da peça que ela usava. O tecido escondia a barriga se a pessoa não soubesse para onde olhar. Eu sabia, então parecia impossível não ver.
O primeiro comunicado saiu no dia seguinte, curto e cuidadoso. Informava que Tanya havia sofrido um acidente grave durante uma viagem internacional, que estava em recuperação em Los Angeles e que a família pedia privacidade, especialmente em relação a Emerald.
A nota diminuiu parte da monstruosidade, embora não acabasse com ela. Algumas pessoas se desculparam, outras fingiram que nunca tinham dito nada. Muitas apenas trocaram de assunto com a mesma facilidade com que haviam destruído uma mulher inconsciente no dia anterior.
Dois dias depois, Carmen autorizou que preparássemos Emerald para uma visita.
Falamos que ela poderia levar um brinquedo, mas que não poderia subir na cama, puxar os fios ou ficar brava se a mamãe dormisse.
Emerald parecia compreender e não compreender ao mesmo tempo, que era provavelmente a única forma possível de uma criança de dois anos atravessar algo tão grande.
Na noite anterior à visita, ela colocou curativos em três bonecas, um dinossauro e um garfo, porque tinha assistido Toy Story.
— Galfinho dodói — explicou, muito séria.
— Coitado do garfinho — Bella respondeu, sentada no tapete ao lado dela. — Mas vamos cuidar dele.
Bella não iria ao hospital conosco. Ela queria ir por mim, eu queria que ela fosse por mim. E justamente por isso ela não iria. O que não significava que fosse fácil.
No dia seguinte, Emerald escolheu levar o coelho.
Não a boneca nova do aniversário, não o cachorro de pelúcia que minha mãe tentara oferecer, nem qualquer brinquedo limpo e aceitável para entrar em um hospital. O coelho tinha uma orelha amassada, uma mancha na pata e cheiro de neném.
Minha filha só sabia que veria a mamãe e isso já era grande o bastante.
Minha mãe foi conosco no carro. Meu pai dirigiu e eu fui atrás, ao lado da cadeirinha, porque Emerald segurava o coelho com uma mão e minha camiseta com a outra, como se quisesse garantir que nada desapareceria antes que chegássemos.
— Mamãe? — perguntou pela terceira vez, quando paramos no farol.
— Vamos ver a mamãe — respondi.
Kate nos esperava na área reservada da UTI. Tinha os olhos vermelhos e o cabelo preso em um coque, mas se abaixou imediatamente quando viu Emerald.
— Oi, Emmie.
Emerald escondeu o rosto no meu pescoço por um segundo antes de olhar de novo.
— Oi Kaki.
Kate riu e chorou ao mesmo tempo.
Carmen apareceu pouco depois. Não entraria conosco, mas queria ver Emerald antes. Agachou-se diante dela, falou com voz calma, perguntou sobre o coelho e repetiu as regras de forma simples.
— A mamãe está na cama. Você pode falar com ela, pode mandar beijo, mas não pode puxar nada, combinado?
A enfermeira nos levou até a porta do quarto. Minha mãe permaneceu do lado de fora com Kate e Carmen e meu pai ficou um pouco mais afastado, com sua postura de médico e pronto para entrar se fosse chamado.
Antes de abrir a porta, Esme segurou meu rosto com as duas mãos.
— Olhe para ela — sussurrou.
— Para Tanya?
— Para sua filha, querido. Ela vai te dizer o que precisa.
Engoli em seco. Minha mãe beijou minha testa e depois a de Emerald.
— A vovó estará aqui.
— A vovó aqui — Emerald repetiu.
— Aqui mesmo.
Entrei.
O quarto parecia mais silencioso naquele dia, ou talvez eu estivesse ouvindo menos. Os monitores ainda marcavam ritmos constantes, havia tubos, fios, curativos e a luz fria que fazia todos parecerem mais pálidos, doentes. Mas Tanya, apesar de estar sem a sedação mais pesada, permanecia de olhos fechados, o rosto machucado e imóvel, a perna imobilizada sob o lençol.
Emerald ficou rígida no meu colo e senti seus dedos apertarem minha camiseta. Por um segundo, o medo tentou tomar conta de mim com uma força tão brutal que quase dei meia-volta.
Então olhei para ela, como minha mãe pediu.
Ela não chorava, não sorria. Apenas olhava para Tanya, tentando encaixar a imagem diante dela à palavra mamãe. Eu precisava mostrar a ela como agir naquele quarto.
— Oi, Tanya — falei baixo. Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Trouxe a Emerald para te ver.
A enfermeira ajustou uma cadeira próxima da cama, indicando que ali era o limite de onde eu poderia chegar. Sentei-me com Emerald no colo, a uma distância segura dos equipamentos. Carmen tinha recomendado que ela não fosse colocada no chão. No colo, ela teria onde buscar segurança se a cena se tornasse grande demais.
— Mamãe dodói — Emerald murmurou.
— Sim, meu amor.
Eu mantive os olhos em Tanya.
Nada. A ausência de resposta foi um tipo específico de crueldade.
Não para Emerald, talvez. Para ela, a mãe estava dormindo. Pessoas dormindo não respondiam.
Para mim, cada segundo sem reação parecia uma falha. Como se eu tivesse levado minha filha até ali, atravessado todos aqueles corredores, preparado palavras pequenas para uma dor imensa, e Tanya talvez nem soubesse.
— Conte para a mamãe quantos anos você fez, amor — pedi, em voz baixa.
Emerald endireitou o corpo um pouco.
— Dois.
E mostrou a mão inteira, outra vez.
Apertei os olhos por um instante, segurando uma risada quebrada.
— Ainda estamos trabalhando nisso.
Então os dedos de Tanya se moveram. Foi tão pouco que achei que tivesse imaginado, mas a enfermeira se aproximou imediatamente.
— Tanya, consegue me ouvir? — chamou.
Emerald percebeu, claro, e ficou imóvel no meu colo.
— Mamãe?
Os olhos de Tanya se mexeram sob as pálpebras. Primeiro um tremor, depois uma tentativa lenta, pesada, como se abrir os olhos exigisse uma força absurda.
E então ela abriu.
Não foi como em um filme. Ela abriu os olhos aos poucos, confusa, desfocada, assustada com a luz e com o próprio corpo. Mas abriu.
Todo o ar saiu dos meus pulmões.
Tanya olhou primeiro para o teto, depois para a enfermeira, depois para mim. Não houve reconhecimento imediato. Ou talvez houvesse, mas estava soterrado demais pela dor e pelos remédios para alcançar seu rosto.
Então seus olhos encontraram Emerald. A mudança foi pequena, mas havia ali um reconhecimento ancestral que eu jamais seria capaz de alcançar. Era a mãe encontrando sua cria.
E eu conhecia Tanya há muito tempo. Conhecia a forma como o rosto dela se movia antes do choro, o modo como os olhos ficavam mais claros quando ela tentava segurar as emoções. Vi tudo isso atravessá-la.
A boca dela se moveu, tentando emitir algum som. A enfermeira inclinou-se um pouco.
— Devagar.
Tanya tentou erguer a mão, mas não conseguiu. Os olhos permaneceram em Emerald.
— Em…
Foi quase nada. Uma voz rouca, frágil, arranhada pela falta de uso, mas foi o nome dela. Emerald olhou para mim e apertou o coelho contra o peito.
— Mamãe!
Uma lágrima escorreu pela lateral do rosto de Tanya. Emerald levantou a mão outra vez, abrindo todos os dedos.
— Eu fiz dois!
Tanya piscou devagar, o que me fez questionar se ela tinha entendido. Não sei o quanto a mente dela compreendia o tempo, que o aniversário tinha passado, que havia um vestido rosa em alguma foto no meu celular, que passamos dias tentando preencher sua ausência sem permitir que Emerald sentisse o peso daquilo.
Mas seus olhos continuaram na nossa filha. E, naquele momento, isso era o bastante.
— Ela fez dois anos — falei, minha voz falhando apesar de todo o treino. — E comeu bolo no café da manhã.
Eu sabia que o tempo estava acabando.
Tanya já parecia exausta. Emerald começava a ficar inquieta no meu colo, não assustada exatamente, mas confusa com a intensidade das coisas, com o fato de a mãe estar ali e não pegá-la no colo, não beijá-la, não falar como antes.
— Vamos deixar a mamãe dormir mais um pouco, está bem?
Emerald franziu o rosto.
— Não, papai.
Meu coração se partiu mais uma vez.
— Eu sei que você quer ficar, mas ela precisa descansar.
— Mamãe casa?
Fechei os olhos por meio segundo. A pergunta era simples demais, a resposta, não.
— A mamãe precisa ficar aqui com os médicos hoje.
Emerald olhou para Tanya, que olhou para mim naquele instante.
Havia confusão nos olhos dela. Dor também. Mas, por trás de tudo, uma compreensão mínima pareceu atravessar o rosto dela quando viu Emerald começar a se inquietar.
— Diga tchau para a mamãe.
— Um beijo, mamãe!
Ela mandou um beijo no ar. Tanya piscou, e mais uma lágrima escorreu.
— Te… — A voz dela quebrou. A boca tentou formar o resto, mas o corpo não acompanhou.
Não precisava. Talvez Emerald não entendesse, mas eu entendi.
Contrariando as orientações médicas, me abaixei na altura da cama, para murmurar algo que só Tanya ouviria.
— Ela sabe. Estou me certificando disso.
Levantei com cuidado, mantendo Emerald segura no colo. A enfermeira já se posicionava perto da cama, falando com Tanya em voz baixa, explicando que ela precisava descansar, que Emerald estava bem, que todos estavam ali.
Na porta, minha filha virou o rosto para dentro e acenou.
— Tchau, mamãe.
Saí do quarto antes que minhas pernas desistissem.
Kate estava em pé assim que a porta se fechou. Minha mãe também. Carmen observava Emerald, não os adultos, como se continuasse trabalhando.
— Ela acordou? — Kate perguntou.
Eu não consegui responder, minha garganta parecia trancada. Emerald respondeu por mim, com a naturalidade devastadora de quem não entendia a dimensão do que dizia.
— Falei com a mamãe!
Minha mãe me abraçou primeiro, depois envolveu Emerald, tomando cuidado para não apertá-la demais. Meu pai aproximou-se, tocou minha nuca por um segundo e olhou através da porta fechada como se precisasse conter o impulso de entrar.
Carmen falou com Emerald em voz baixa, e ela respondeu tudo com frases curtas, algumas certas, outras pela metade, e depois encostou a cabeça no ombro de Esme.
— Ela está cansada — Carmen disse.
Eu também, mas mais do que isso. Eu me sentia vazio.
— Mãe — falei, a voz estranha até para mim. — Você pode ficar com ela um minuto?
Esme olhou para o meu rosto e não perguntou nada.
— Claro, querido.
Passei Emerald para o colo dela. Minha filha protestou segurando uma mecha do meu cabelo antes de ceder.
— Papai?
— Eu já volto.
Ela olhou para mim, séria, e daquela vez eu sabia que precisava cumprir rápido.
Caminhei pelo corredor sem olhar para trás. Não fui para a sala de espera, nem para a área reservada para familiares. Entrei no primeiro banheiro individual que encontrei, tranquei a porta e apoiei as duas mãos na pia.
O espelho devolveu um homem pálido, de olhos vermelhos, cabelo bagunçado e expressão de quem não tinha a menor ideia do que estava fazendo.
Abri a torneira, apoiei a testa no espelho frio e tentei respirar.
Eu tinha ficado calmo por cinco minutos. E agora, longe de todos, sem minha filha no colo, sem enfermeira, psicóloga, mãe, pai ou qualquer pessoa precisando que eu mantivesse a expressão certa, meu corpo finalmente entendeu a dimensão daquilo tudo.
Tive dois segundos antes de me virar e vomitar todo meu almoço no vaso. Tudo que eu tinha conseguido manter sob controle durante aquele curto período, agora saía de mim de uma forma violenta e humilhante.
Quando não havia mais nada, permaneci ali, com a testa apoiada no braço e a respiração quebrada, ouvindo a água da torneira continuar correndo na pia. O som parecia absurdamente alto. Tudo parecia absurdamente alto agora que eu não precisava mais fingir calma.
Eu tinha conseguido, essa deveria ser a parte importante. Eu tinha levado minha filha até o quarto da mãe, mantido a voz baixa, traduzido o mundo em palavras pequenas, tirado Emerald de lá antes que o momento se tornasse grande demais para ela.
Ainda assim, ajoelhado no chão, eu não me sentia bem sucedido. Eu me sentia destruído.
Apoiei uma mão no piso frio e tentei me levantar, mas minhas pernas não colaboraram de primeira. O espelho acima da pia me devolveu em pedaços: pele pálida, olhos vermelhos, lábios sem cor, a camiseta amassada no ponto em que Emerald tinha segurado com força.
Lavei a boca, o rosto, as mãos. A água fria fez pouco para me devolver a mim mesmo.
As lágrimas vieram sem aviso. Não tentei impedir.
Apenas chorei em silêncio, uma mão cobrindo a boca para que ninguém do lado de fora ouvisse, a outra procurando o celular no bolso com uma urgência quase cega. Bella atendeu no segundo toque.
— Edward?
Eu não respondi imediatamente, não consegui. Do outro lado da linha, ouvi um movimento rápido, talvez ela se levantando.
— Edward, o que aconteceu?
Fechei os olhos. A voz dela quase me derrubou de vez.
— Ela acordou.
Houve silêncio.
— Bella, ela acordou quando Emerald estava no quarto. Ela disse o nome dela.
Apoiei-me na pia, chorando de uma forma que já não tinha qualquer dignidade.
— Edward…
— Eu fiquei calmo. — Não sei por que aquilo saiu. Talvez porque fosse a única parte que eu precisava que alguém soubesse. — Eu consegui. Fiz o que a Carmen disse. Não chorei na frente dela, não assustei a Emerald, eu consegui tirar ela de lá quando precisava, mas agora eu…
— Agora você pode sentir — Bella disse.
Aquilo me deu permissão de uma forma que eu não sabia que estava esperando. Deslizei até o chão do banheiro, com as costas contra a porta, exatamente como naquela madrugada em que quase liguei para outra pessoa por outro motivo completamente diferente.
Dessa vez, liguei para Bella.
— Ela está bem? — perguntou depois de alguns segundos.
— Acho que sim. Ela está cansada, está com a minha mãe agora.
Fechei os olhos.
Do outro lado da porta, ouvi passos passando pelo corredor. Vozes baixas. A vida do hospital continuando indiferente ao fato de que a minha tinha acabado de mudar de eixo outra vez.
— Eu queria que você estivesse aqui — confessei.
A frase saiu com culpa antes mesmo que eu pudesse apará-la. Bella não respondeu imediatamente.
— Eu sei. Esse momento vai chegar.
Fechei os olhos, e as lágrimas vieram de novo. Mais suaves dessa vez.
— Edward, ela acordou. Isso já é mais do que você esperava. Então respire, lave o rosto, pegue sua filha e venha para casa.
Casa.
A palavra encontrou um lugar dentro de mim que ainda estava em construção.
— Está bem.
— E não diga “está bem” só para encerrar a ligação.
Sorri, mesmo chorando.
— Eu nunca conseguiria encerrar uma conversa com você.
— Gostei dessa resposta.
Fiquei mais alguns segundos ouvindo sua respiração antes de desligar.
Lavei o rosto na pia do banheiro, uma, duas, três vezes, até que o homem no espelho parecesse minimamente capaz de voltar para o corredor. Ainda parecia destruído, mas não mais perdido. Quando abri a porta, minha mãe estava a poucos metros, com Emerald no colo.
Ela não perguntou onde eu tinha ido, apenas olhou para mim com aqueles olhos que viam tudo.
— Pronto? — perguntou.
Olhei para minha filha.
— Papai voltou.
A frase, pequena e simples, quase me derrubou outra vez. Aproximei-me e beijei sua testa.
— Voltei, meu amor.
Ela tocou meu rosto com a mãozinha quente.
— Mamãe acordou.
A frase não tinha mais a empolgação do primeiro instante. Agora parecia uma repetição, uma tentativa pequena de manter a informação no lugar.
Respirei. Só mais cinco minutos.
— A mamãe acordou mesmo.
Emerald sorriu um pouco, cansada, e apoiou a cabeça em mim quando a peguei no colo.
— Bewa?
Pensei em Bella, usando minha camiseta cinza, esperando por nós.
— A Bella está em casa — respondi. — Vamos encontrá-la.
No caminho até o carro, Emerald permaneceu no meu colo. Minha mãe tentou pegá-la para que eu pudesse respirar, mas ela agarrou minha camiseta com força e murmurou “papai” de um jeito que encerrou a discussão.
Então a carreguei pelos corredores, pelo elevador, pela garagem onde os seguranças nos cercaram. Do lado de fora, os fotógrafos ainda estavam lá, mas não chegaram perto o suficiente para que Emerald percebesse. Ela estava cansada demais, o rosto escondido no meu pescoço, o coelho preso entre nós.
Dentro do carro, Emerald resistiu à cadeirinha por vinte segundos, depois cedeu, exausta, e segurou meu dedo enquanto afivelei o cinto. Antes mesmo de sairmos do estacionamento, os olhos dela começaram a fechar.
Peguei o celular no bolso e escrevi uma mensagem para Bella.
De: Edward Cullen
Estamos a caminho.
De: Bella Swan
Estarei te esperando em casa.
Por anos, eu tinha confundido amor com intensidade, perda, urgência e a necessidade constante de provar alguma coisa. Naquele momento, amor parecia muito mais simples.
E casa não parecia mais um lugar onde eu me esconderia, mas sim um lugar para onde eu poderia voltar.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava mesmo voltando.
Fale com o autor