Daylight

33 Capítulo 32


Bella

A primeira coisa que percebi ao acordar foi que não estava na minha cama.

A segunda foi o som baixo da voz de Edward, e ele parecia… emocionado?

Mantive os olhos fechados por alguns segundos, ainda presa naquela região estranha entre o sono e a consciência, tentando entender onde estava e por que conseguia sentir o cheiro dele nos lençóis.

Não havia soluços ou qualquer som além da respiração irregular que atravessava o quarto. Ele estava sentado na beirada da cama, de costas para mim, com o celular encostado ao ouvido e uma das mãos cobrindo os olhos.

Meu corpo despertou antes que minha mente conseguisse me acompanhar.

— Sim — ele disse, a voz rouca. — Eu entendi.

Meu coração começou a bater tão forte que quase não ouvi o restante.

O quarto ainda estava escuro, iluminado apenas pela claridade fraca que vinha da tela do celular. Por alguns segundos, fiquei imóvel, tentando decidir se aquelas lágrimas significavam a pior notícia possível.

— Isso é bom, certo?

A tensão que prendia meu peito mudou de forma, mas não desapareceu. Edward ouviu a resposta em silêncio e, então, deixou escapar uma respiração trêmula, abaixando a cabeça.

— Obrigado. Qualquer mudança, por menor que seja, me ligue.

Ele encerrou a chamada, mas permaneceu na mesma posição. O celular continuava preso entre seus dedos, enquanto seus ombros subiam e desciam lentamente.

— Edward?

Ele se virou imediatamente e havia lágrimas em seus olhos, mas também alguma coisa que eu não via desde que o acidente acontecera. Alívio? Não o suficiente para transformar tudo em uma boa notícia definitiva, mas estava ali.

— Desculpe, eu acordei você?

— O que aconteceu?

Ele olhou para o celular, como se precisasse conferir se a conversa tinha realmente existido.

— Ela melhorou.

Sentei-me rápido demais e a tontura me obrigou a apoiar uma das mãos no colchão. Edward se aproximou por reflexo, segurando meu braço até que minha visão voltasse ao normal.

— Vá com calma.

— Estou bem. O que eles disseram?

Ele continuou segurando meu braço por mais alguns segundos antes de voltar a se sentar ao meu lado.

— Reduziram a sedação durante a madrugada e ela começou a responder melhor aos estímulos. Ainda não acordou, mas reagiu à voz de um dos médicos, então eles têm expectativas de que aconteça nas próximas horas.

— Isso é muito bom.

Dessa vez, Edward não desviou o rosto para esconder. Apenas ficou ali, sentado ao meu lado, permitindo que o alívio existisse sem transformá-lo imediatamente em culpa ou cautela.

— Ela vai ficar bem — falei.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu quero acreditar nisso.

Segurei sua mão sobre o colchão. Não havia qualquer desconforto em vê-lo emocionado, Tanya era a mãe de Emerald. Querer que ela acordasse não era uma ameaça ao que existia entre nós. Era apenas a resposta humana diante da possibilidade de uma criança não perder a mãe.

— O médico disse que talvez eu possa levar Emerald para visitá-la. Quer dizer, ele já vinha dizendo isso há alguns dias, mas eu não esperava que fosse tão logo…

A ideia me atingiu com força.

— Ela pode entrar na UTI?

— Por pouco tempo. Ela teria que ficar no colo, mas eles acham que ouvir uma voz familiar pode ajudar, principalmente porque ela já está reagindo a estímulos sonoros.

— Edward, isso é incrível.

Ele assentiu, mas a preocupação voltou a ocupar parte de sua expressão.

— Não sei se devo levá-la.

— Por quê?

— Ela tem dois anos. Tanya ainda está conectada a aparelhos, está machucada e provavelmente não vai responder quando Emerald falar com ela.

— Os médicos não teriam sugerido se achassem que seria prejudicial. Você pode prepará-la — continuei. — Explicar que a mamãe está dormindo porque o corpo precisa descansar, que ela não pode subir na cama, puxar nada ou esperar que Tanya converse.

Edward passou a mão pelo rosto.

— Hoje é aniversário dela.

— Talvez ela não precise ir hoje, mas… — Ele me olhou, em dúvida, e continuei. — Emerald passou os últimos dias dizendo que teria uma festa com a mãe. Ela não poderá ter isso, mas talvez possa mostrar o vestido, contar dos presentes e dizer que fez dois anos.

A expressão dele se desfez e um soluço irrompeu seu peito tão rápido que era como se tivesse perdido o controle em segundos. Ele abaixou a cabeça, apertando os olhos com as mãos, e minha única reação foi abraçá-lo, puxando-o contra mim. Edward resistiu por menos de um segundo antes de ceder, escondendo o rosto na curva do meu pescoço.

— Shh, está tudo bem.

— Desculpe — murmurou.

— Não peça desculpas por sentir.

Passei uma das mãos pelos cabelos dele, sentindo sua respiração quente contra minha pele.

Nos últimos dias, Edward tinha recebido cada notícia com a mesma cautela. Qualquer melhora vinha acompanhada de uma ressalva, qualquer possibilidade era imediatamente cercada por todas as formas como ainda poderia dar errado. Eu sabia bem como era isso.

Edward permaneceu ali, o corpo tremendo contra o meu enquanto as lágrimas escorriam quentes pelo meu pescoço. Eu continuei acariciando seus cabelos, sentindo cada soluço reverberar entre nós. O tempo pareceu se estender no quarto silencioso.

Aos poucos, ele ergueu o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, úmidos, mas havia algo diferente neles agora — uma mistura de alívio e algo mais urgente. Sem dizer nada, inclinei-me e pressionei os lábios contra os dele.

Suas mãos subiram, uma descansando na minha cintura, a outra subindo pela minha nuca. Eu me aproximei mais, sentindo o calor dele através das roupas. O beijo aprofundou-se naturalmente e o choro deu lugar a uma proximidade silenciosa, onde cada respiração compartilhada carregava o peso da esperança e da dor que ainda pairavam sobre nós. Edward encostou a testa na minha, os olhos fechados, e eu segurei seu rosto entre as mãos, traçando o contorno dos lábios dele com o polegar.

— Estou aqui — sussurrei. Ele assentiu, apertando-me com mais firmeza.

Ele deslizou a mão da minha nuca para a minha bochecha, o polegar acariciando minha pele com uma lentidão torturante. O toque era leve, como se ele temesse que eu pudesse evaporar se ele apertasse demais.

Eu não respondi com palavras. Em vez disso, puxei-o para outro beijo e minha língua buscou a dele, deixando de ser apenas um consolo para se tornar uma reivindicação. Edward soltou um gemido baixo, um som que veio do fundo da garganta, e me puxou para mais perto, eliminando qualquer centímetro de espaço entre nós.

Eu me inclinei para trás, puxando-o comigo de volta para o colchão, e ele me seguiu, posicionando-se sobre mim e apoiando o peso nos cotovelos para não me pressionar. Ele parou por um segundo, seus olhos escaneando meu rosto como se estivesse memorizando cada detalhe, cada pequena mudança que o tempo e a distância haviam causado.

— Você é tão linda... — ele murmurou, descendo os beijos para a minha mandíbula, depois para a curva do meu pescoço.

Senti um arrepio percorrer minha espinha quando ele mordeu e chupou levemente a pele sensível logo abaixo da minha orelha. Minhas mãos subiram para a nuca dele, puxando-o para mais perto, querendo sentir cada grama de sua presença. O desejo começou a queimar, transformando a melancolia em algo visceral e quente.

Suas mãos começaram a explorar meu corpo com mais confiança, deslizando por baixo da minha blusa, e cada toque era como uma promessa de redenção, um pedido de desculpas silencioso por cada dia que passamos longe.

— Eu não vou te soltar nunca mais — ele sussurrou contra meus lábios.

Eu arqueei as costas, pressionando meu corpo contra o dele em busca de contato. O desejo era mútuo, urgente, mas havia uma doçura nisso que tornava tudo mais intenso.

Sua pele ardia sob as pontas dos meus dedos, e o mundo lá fora — o hospital, a incerteza, o peso dos últimos meses — parecia desmanchar-se a cada toque. Edward deslizou a mão que estava sob minha blusa para cima, encontrando a curva das minhas costelas, e então parou, os olhos perguntando antes que ele avançasse.

— Tem certeza? — a voz saiu em um sopro, quase um pedido.

Eu respondi puxando a barra do tecido, ajudando-o a levantar a blusa sobre minha cabeça. O ar fresco do quarto tocou minha pele, mas o calor do olhar dele me envolveu como um cobertor. Ele deixou a peça cair ao lado da cama e sentou-se sobre os calcanhares, ainda por cima de mim, e seus olhos percorreram meu corpo exposto com uma lentidão devota.

— Preciso de um minuto — ele murmurou, a voz falhando. — Só... olhar para você.

Sua mão esquerda ergueu-se e pairou sobre meu seio, os dedos tremendo ligeiramente antes de finalmente tocarem a pele. Foi um contato leve, a ponta dos dedos traçando um arco e eu prendi a respiração. A sensação era familiar e ao mesmo tempo nova, como reencontrar uma música que havíamos dançado juntos há muito tempo.

Edward curvou-se e depositou um beijo no centro do meu peito. Depois outro, mais ao lado, descendo lentamente em uma fileira de beijos que provocavam arrepios em cascata. Sua mão livre encontrou minha cintura e apertou, mas logo relaxou, como se ele estivesse se lembrando de ser gentil.

Suas mãos começaram a explorar meu torso, descendo pela barriga e ele parou um instante, a palma inteira sobre o leve arredondamento que começava a se formar.

— Está começando a aparecer.

Ele pressionou um beijo ali, suavemente, e fechou os olhos. Um fio de lágrima escapou do canto do olho direito, mas ele sorriu. Eu enrolei os dedos nos cabelos dele, puxando-o para cima, e nossos lábios se encontraram em um beijo molhado de lágrimas e esperança.

— Espere — pediu, e eu obedeci, paralisada. Ele me virou de costas para ele, abraçando-me por trás, e começou a beijar minha nuca enquanto sua mão deslizava lentamente pelo interior da minha coxa. — Eu preciso te segurar, Bella. Preciso sentir que você está aqui — explicou, a respiração quente contra minha orelha.

Sua mão subiu, traçando círculos lentos até encontrar o que procurava, cada movimento calculado para construir e não para apressar. Meu corpo respondeu instantaneamente, com arrepios e gemidos abafados, e ele sorria contra minha pele, continuando seu trajeto, os dedos encontrando o calor úmido que o aguardava.

Mas ele não apressou, apenas tocou, deslizou, como se estivesse aprendendo cada curva novamente. Senti os dedos dele explorarem com uma lentidão que beirava a devoção, cada movimento acompanhado por um beijo na minha nuca, na curva do meu ombro, na ponta da minha coluna.

Eu estava ficando impaciente e pressionei as costas contra seu peito, sentindo cada músculo tenso de desejo. Minha mão encontrou a dele, guiando, pedindo mais, e ele entendeu, aprofundou o toque, e um gemido escapou dos meus lábios antes que eu pudesse contê-lo.

Edward sussurrou algo contra minha pele, mas eu não conseguia distinguir palavras — apenas sons, a respiração quente e irregular que ecoava a minha. O silêncio era preenchido pelo nosso ritmo, pelo som úmido dos lábios dele na minha nuca, pelo estalar dos meus dedos entrelaçados nos dele me tocando.

Quando sua mão deslizou pela minha barriga e se firmou em meu quadril, eu soube que ele estava pronto. Senti-o mover-se atrás de mim, o ajuste dos corpos, o contato da pele e então ele parou, como uma promessa antes do mergulho.

O silêncio se esticou, carregado de perguntas não feitas. Eu virei levemente o rosto, encontrando seus olhos no escuro, o verde escurecido brilhando com a luz fraca que entrava pela janela. Ele estava esperando e eu pressionei o quadril para trás, um movimento pequeno, mas que era a permissão que ele precisava.

Edward foi tão devagar que cada milímetro era um pensamento completo. Não era apenas contato físico, era como se cada célula do meu corpo reconhecesse a dele, como se estivéssemos nos encaixando de volta em uma forma que havíamos esquecido.

Ele parou quando me preencheu completamente. Ficamos imóveis, apenas a respiração ofegante ecoando no quarto. Eu sentia o coração dele bater contra minhas costas, forte, rápido, como se estivesse tentando alcançar o meu. Senti os lábios dele pressionarem minha nuca e uma longa exalação quente contra a pele.

Então ele começou a se mover.

Cada movimento era lento, profundo, medido pela respiração dele. Uma inspiração enquanto recuava, uma expiração enquanto entrava. Seu braço me envolvia, a mão espalmada sobre a minha barriga, como se estivesse nos segurando — a mim e ao que carregávamos. Senti cada movimento ecoar pelo meu corpo, desde o ponto de contato até as pontas dos dedos dos pés. Fechei os olhos e me deixei levar.

O ritmo cresceu aos poucos, nunca perdendo a doçura. Quando acelerava, eu sentia a pressão aumentar, o calor se intensificava, mas ele sempre recuava, encontrando um equilíbrio entre o desejo e a necessidade de prolongar aquele momento. Minha mão encontrou a dele, entrelaçando os dedos, uma âncora.

As sensações se acumulavam como ondas: o arrepio quando ele mordia suavemente meu ombro; o calor que se espalhava do meu ventre para cada extremidade; o som da respiração dele, cada vez mais irregular, abafada contra minha nuca. A tensão crescendo, cada vez mais insustentável, até que senti meu corpo se arquear, os músculos se contraindo em ondas que me envolviam completamente.

Seus movimentos se tornaram mais profundos, mais urgentes, e eu senti quando ele se entregou com um gemido longo e abafado contra minha pele, o corpo tenso e trêmulo contra o meu. Ficamos assim, envolvidos, o ritmo diminuindo gradualmente até que ele parou, ainda dentro de mim, a respiração pesada aquecendo minha nuca.

Não nos movemos por um longo tempo. Apenas deitamos, abraçados, o silêncio agora preenchido pelo barulho suave da chuva que começava a cair lá fora. Ele apoiou o queixo no meu ombro, o nariz enterrado no meu cabelo, e eu senti as lágrimas quentes e silenciosas escorrendo pela minha pele.

Não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas de alívio, de gratidão, da certeza de que, apesar de tudo, ainda estávamos aqui. Juntos.

Sua mão, ainda sobre minha barriga, acariciou o pequeno volume ali em círculos lentos. Senti o movimento dele se retirar, suavemente, e então se aninhar atrás de mim, as pernas entrelaçadas às minhas, o braço me puxando para mais perto.

— Fica — ele murmurou, a voz rouca. — Só... fica comigo.

Eu virei o corpo para enfrentá-lo, encontrando seus olhos ainda marejados. Passei as pontas dos dedos pelas marcas de lágrimas no rosto dele, e ele fechou os olhos, inclinando-se para o toque. Beijei a testa dele, depois a ponta do nariz, depois os lábios.

— Estou aqui — respondi. — Não vou a lugar nenhum.

A claridade começava a atravessar as cortinas, mas o quarto permanecia mergulhado naquele tom azulado de manhã muito cedo. O relógio sobre a mesa de cabeceira marcava pouco depois das cinco.

Ele apoiou a testa contra a minha, e ficamos assim, respirando o mesmo ar, até que o sono começou a pesar nas pálpebras dele. A chuva aumentou lá fora, tamborilando nas janelas, mas dentro do quarto havia apenas o calor dos nossos corpos e a certeza silenciosa de que, depois da tempestade, finalmente havíamos encontrado abrigo.

Acordei três horas depois, de acordo com o despertador do meu celular.

O som foi baixo, quase delicado, mas ainda assim parecia alto demais dentro do quarto silencioso. Estiquei a mão às cegas antes que ele acordasse Edward, apenas para perceber tarde demais que o celular não estava onde costumava estar na minha casa. Levei alguns segundos para lembrar que aquela não era minha cama e a camiseta contra minha pele não era minha.

Edward se mexeu atrás de mim.

O braço dele estava pesado sobre minha cintura, a mão aberta sobre minha barriga, como se tivesse permanecido ali mesmo depois de adormecer. O rosto continuava escondido entre meu ombro e meu cabelo, e a respiração dele era quente, regular, tão tranquila que quase tive pena de interromper.

Quase.

— Já? — ele murmurou, sem abrir os olhos. Sua voz estava arrastada e, inconformado, ele me puxou um pouco mais para perto. — Isso é ofensivo.

— O aniversário da sua filha não vai se organizar sozinho.

— Minha mãe está aqui. O aniversário da minha filha provavelmente já foi organizado três vezes.

Eu ri baixo, tentando não fazer muito barulho.

Apesar do alarme, nenhum dos dois se moveu de verdade. O quarto ainda estava mergulhado naquela luz azulada de manhã chuvosa. Lá fora, a chuva tinha diminuído, mas continuava batendo de leve contra as janelas, preenchendo o silêncio com um som constante e macio. O apartamento parecia suspenso antes do dia começar, como se a casa inteira prendesse a respiração por mais alguns minutos.

Pela primeira vez em muito tempo, eu não acordei com a sensação imediata de estar em queda.

Meu corpo ainda estava cansado, claro. A gravidez parecia transformar qualquer noite em uma negociação. Meus seios estavam doloridos, havia um enjoo discreto rondando o fundo da garganta, mas eu estava melhor.

Não curada do medo, não livre da ansiedade e muito menos certa de que tudo daria certo. Apenas melhor.

Talvez fossem as poucas horas de sono. Talvez fosse a chuva. Talvez fosse o sexo incrível de horas atrás. Talvez fosse Edward respirando contra minha pele e a certeza estranha de que, pelo menos naquela manhã, eu não tinha acordado sozinha. Talvez…

A mão dele se moveu sobre minha barriga, como se estivesse acordando antes do restante dele. Os dedos fizeram círculos preguiçosos por baixo da camiseta, que tinha a barra presa acima do meu abdômen, deixando exposta a pequena curva que parecia mais evidente quando eu estava deitada.

— Está mesmo aparecendo — disse, a voz ainda baixa.

Nos últimos dias, algumas roupas começaram a apertar de uma forma diferente. No espelho, depois do banho, a mudança ainda parecia tímida, fácil de ser explicada como inchaço ou cansaço. Mas ali, usando uma camiseta grande demais de Edward, deitada na cama dele, parecia ganhar outro significado.

Era nosso filho começando a ocupar espaço no mundo.

Edward levantou-se sobre um cotovelo, ainda sonolento, mas de repente muito atento. O cabelo estava completamente amassado de um lado, os olhos vermelhos pelo sono e pelas lágrimas de algumas horas antes. Mesmo assim, quando olhou para a minha barriga, havia algo tão aberto em seu rosto que precisei desviar os olhos.

— Não olhe como se eu tivesse feito alguma coisa extraordinária.

A mão dele deslizou para baixo da camiseta outra vez.

— Você está fazendo.

Aquilo não deveria ter me afetado tanto, mas afetou porque a forma como Edward me olhava agora… Ele parecia completamente encantado.

— É cedo demais para você ficar emocional — murmurei.

— Acho que perdi esse limite algumas horas atrás.

Sorri, apesar de mim mesma.

Edward se inclinou e beijou minha barriga. Foi um gesto rápido, quase tímido, como se ele ainda testasse os limites daquele novo lugar entre nós. Depois apoiou a testa ali por um segundo e fez o que já tinha feito algumas vezes quando simulamos nossa versão de família, alguns dias antes: conversou com o bebê.

— Bom dia — sussurrou.

Meu peito apertou de um jeito tão forte que precisei passar a mão pelos cabelos dele para disfarçar. Ficamos assim por algum tempo. Não muito, talvez apenas alguns minutos, mas o suficiente para que o quarto parecesse encolher ao redor de nós. Edward com o rosto sobre meu ventre, eu com os dedos em seus cabelos, a chuva do lado de fora e o resto da casa ainda distante.

Era doméstico de uma forma perigosa.

Não no sentido grandioso, como as promessas que tínhamos feito na noite anterior. Não havia ali discussões sobre imprensa, hospital ou futuro. Apenas a intimidade pequena e quase absurda de duas pessoas acordando juntas.

Edward se sentou primeiro, passando a mão pelo rosto. Parecia melhor do que antes. Cansado, ainda, mas não destruído. A notícia sobre Tanya continuava no quarto como uma luz acesa ao fundo: uma melhora real, ainda cercada de possibilidades, mas boa o bastante para mudar o ar.

Ele pegou o celular e conferiu a tela.

— Nenhuma mensagem nova.

— Vamos contar aos seus pais? — perguntei.

Edward olhou para a porta, depois para mim.

— Sim. Antes de acordarmos a Emmie.

A decisão pareceu silenciosamente mútua. Emerald tinha dois anos. Ela precisava acordar para balões, presentes e bolo, não para uma promessa que ninguém ainda podia cumprir.

Edward se levantou e foi até o armário, ainda com o cabelo amassado de sono e os movimentos lentos de quem gostaria de negociar mais alguns minutos com a cama. Eu o observei abrir uma gaveta, depois outra, procurar alguma coisa entre camisetas dobradas e cabides, até puxar uma uma camiseta para si e outra peça dobrada para mim.

— Isso serve? — perguntou, virando-se.

Era uma camiseta dele. Simples, provavelmente cara demais para ser chamada apenas de camiseta, e grande o suficiente para cobrir boa parte das minhas coxas. Olhei para a peça e depois para ele.

— Você está sugerindo que eu vá para o aniversário da sua filha usando suas roupas?

— Você já dormiu usando minhas roupas.

— Isso foi dentro do quarto.

Edward sorriu, mas não insistiu, e apenas deixou a camiseta sobre a cama. Passei os dedos pelo tecido. A verdade era que a ideia de vestir minha roupa do dia anterior me parecia muito pior.

Levantei devagar, lembrando da tontura mais cedo, e segurei a camiseta contra o corpo. Edward permaneceu atento, como se estivesse pronto para me apoiar caso eu oscilasse um milímetro, mas, para seu mérito, não se aproximou sem necessidade. Pequenos progressos.

Fui até o banheiro com a camiseta dele nas mãos e deixei a porta entreaberta por pura distração. Escondi um sorriso quando vi que a escova que eu tinha deixado ali algumas semanas antes continuava no mesmo lugar. Escovei os dentes com cuidado para evitar o enjoo, lavei o rosto e tentei prender o cabelo de uma forma minimamente apresentável.

Quando tirei a camiseta que usara para dormir, parei diante do espelho. Uma coisa era ter Edward dizendo que minha barriga estava aparecendo. Outra, era notar que, de fato, a curva estava ali. Pequena, mas mais visível naquela luz clara do banheiro. Não o suficiente para que alguém desavisado apontasse e dissesse grávida, mas o bastante para que eu soubesse.

Na noite anterior, eu tinha decidido tentar construir algo com Edward. Naquela manhã, meu corpo parecia decidido a lembrar que já havia algo sendo construído dentro de mim, com ou sem a minha permissão para sentir medo.

Vesti a camiseta dele.

O tecido caiu solto sobre meu corpo, largo nos ombros, comprido demais e carregado do cheiro que eu ainda associava a Edward de tantas formas diferentes que preferi não analisar. Fiquei me observando por alguns segundos, então puxei uma das laterais e dei um nó na altura do quadril, tentando criar alguma forma sem apertar a barriga.

Não ficou ruim.

Na verdade, ficou bom demais. Como se eu pertencesse àquele quarto, àquela manhã, àquele homem esperando do outro lado da porta.

Esse pensamento era perigoso. Também era verdadeiro o suficiente para me fazer sorrir.

Quando voltei, Edward estava diante do espelho do armário, tentando domar o cabelo com os dedos. Já tinha colocado uma camiseta escura e jeans, mas continuava descalço, com uma expressão séria demais para alguém travando uma batalha contra o próprio reflexo.

Ele me viu pelo espelho e parou.

— Não comece — avisei.

— Eu não falei nada.

Revirei os olhos, mas senti meu rosto aquecer. Edward virou-se, observando a camiseta amarrada na minha cintura, o nó improvisado, a barra ainda comprida e a forma como o tecido caía.

Ele se aproximou e, dessa vez, não tocou minha barriga de imediato. Primeiro ajeitou a manga da camiseta no meu ombro, dobrando o tecido duas vezes para que não escorregasse pelo meu braço. O gesto era tão doméstico, tão simples, que me pegou desprevenida de uma forma absurda.

— Assim fica melhor — murmurou.

Edward dobrou a outra manga com o mesmo cuidado. Seus dedos roçaram minha pele, e eu tentei ignorar o modo como meu corpo ainda reagia a toques pequenos demais para justificar qualquer coisa. Depois, ele puxou o nó da camiseta um pouco mais para o lado, longe da barriga.

— Está apertando?

— Não, estou confortável.

Ele ergueu as mãos por um segundo, como quem se rendia, mas logo apontou para o tecido.

— Só estou perguntando.

Quando levantei os olhos, encontrei seu olhar preso em mim outra vez. Não com o desejo urgente que costumava aparecer entre nós quando o silêncio ficava perigoso, mas com algo mais suave.

— O quê? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.

— Gosto de ver você assim.

— Usando uma camiseta sua mal amarrada? — brinquei.

— Aqui. No meu quarto. Em uma manhã qualquer.

A resposta me atingiu antes que eu pudesse me preparar.

Edward virou de volta para o espelho e tentou mais uma vez ajeitar o cabelo. Depois de alguns segundos, desistiu.

— Isso não vai funcionar.

Aproximei-me dele e, antes que pudesse pensar melhor, levantei a mão para arrumar uma mecha que caía na testa. Os olhos dele encontraram os meus pelo espelho, e o quarto pareceu encolher outra vez ao nosso redor.

Não era um momento grande, não deveria ser. Eu apenas estava ajeitando o cabelo dele enquanto usava sua camiseta e ouvíamos a chuva diminuir do lado de fora.

Nos últimos meses, quase tudo entre nós tinha sido intenso demais. Beijos roubados, conversas interrompidas, decisões tomadas tarde demais, encontros que pareciam existir apenas porque o resto da vida não podia ver. Aquilo, não. Aquilo era uma manhã comum tentando nascer dentro de uma vida nada comum.

Mexi na minha bolsa até encontrar uma presilha e prendi o cabelo no alto, tentando não me importar com os fios que escapavam. Edward observava pelo espelho enquanto borrifava um perfume, e meu estômago imediatamente ameaçou protestar. Ele percebeu no mesmo instante e afastou o frasco de si como se tivesse acabado de descobrir que era radioativo.

— Me desculpe, posso trocar de camiseta.

— Não precisa trocar.

— Se te deixa enjoada, preciso. Eu nem pensei nisso.

Ele já tirava a camiseta, e eu cometi o erro de olhar.

— Achei que o perfume estivesse te enjoando.

— Está.

— Seu olhar discorda.

Ele riu, vestindo outra camiseta sem perfume, e dessa vez eu tive a decência de fingir que estava ocupada ajeitando o nó da minha. Quando terminou, se aproximou por trás e parou a alguns centímetros de mim.

— Posso?

A pergunta, de novo.

Assenti e Edward colocou as mãos na minha cintura, por cima da camiseta, mantendo o toque leve. Seu polegar roçou o tecido próximo ao pequeno volume da barriga.

Ele beijou meu ombro, por cima da camiseta, e depois se afastou antes que o gesto se transformasse em algo maior. Agradeci silenciosamente por isso, mesmo que uma parte de mim tivesse vontade de puxá-lo de volta.

— Precisamos sair — falei.

Nenhum dos dois se moveu por um momento. Edward olhou para a porta, depois para mim e estendeu a mão. Dessa vez, eu segurei. Não pensei muito, porque pensar demais me faria soltá-lo antes mesmo de sair do quarto. Apenas entrelacei nossos dedos.

O corredor estava silencioso, mas a sala já mostrava sinais de vida antes mesmo de chegarmos. Havia luzes acesas, cheiro de café, algo doce no ar e o som baixo de Esme movendo objetos.

Quando aparecemos, de mãos dadas, Esme estava ajeitando guardanapos sobre a mesa. Carlisle segurava uma caneca e observava a esposa com aquele ar resignado de quem já desistira de sugerir que talvez houvesse balões suficientes.

Os dois olharam para nossas mãos.

— Bom dia — falei, tentando parecer alguém que não acabara de sair do quarto do filho deles usando uma camiseta dele.

— Bom dia, querida — Esme respondeu.

O sorriso dela era doce, simples.

— Dormiu bem?

— Dormi. Obrigada.

— Que bom. Você parece melhor.

E era verdade.

Esme olhou para Edward, provavelmente procurando nele a confirmação. O rosto dele ainda carregava os sinais da noite mal dormida, mas havia alívio ali. O tipo de alívio que não podia ser confundido com descanso.

Carlisle percebeu antes de qualquer palavra.

— Houve alguma notícia?

— O hospital ligou mais cedo — Edward começou. — Reduziram a sedação durante a madrugada e Tanya respondeu melhor aos estímulos. Ainda não acordou, mas reage aos sons. Eles disseram que, se continuar assim, existe uma expectativa real de que acorde nas próximas horas.

Carlisle fechou os olhos por um instante, respirando fundo como se organizasse a informação primeiro como médico e só depois como avô, sogro, pai de um homem exausto e parte daquela família complicada demais.

— Isso é muito bom — ele disse.

Esme atravessou a sala e abraçou o filho. Ele fechou os olhos ao ser envolvido por ela, e por um momento pareceu mais jovem. Carlisle se aproximou também, colocando uma das mãos no ombro de Edward.

Fiquei alguns passos atrás, sem saber se deveria me afastar ou permanecer. A cena era íntima, mas não me expulsava. Esme olhou para mim por cima do ombro do filho, com os olhos cheios de lágrimas, e estendeu uma das mãos.

Eu a segurei. De alguma forma, aquilo me fez parte do círculo sem que ninguém precisasse dizer.

Por alguns minutos, a notícia permaneceu ali entre nós, silenciosa, brilhando como uma chama frágil de uma vela que ninguém queria apagar. Depois Esme voltou à mesa, Carlisle pegou a câmera que já estava preparada sobre o aparador e Edward foi verificar os presentes, como se contar quantas caixas havia no chão pudesse ajudá-lo a se recompor.

Eu comi meia panqueca encostada na bancada da cozinha, porque Edward me olhou com severidade suficiente para tornar a discussão desnecessária. O enjoo recuou um pouco depois disso, e o chocolate quente que Esme colocou perto de mim parecia mais um gesto de carinho do que uma bebida.

E, ainda assim, Emerald continuava dormindo.

— Isso é inédito? — perguntei, olhando para o corredor.

Edward conferiu o horário.

— Muito. Vamos acordá-la.

Esme apagou algumas luzes da sala, deixando apenas o brilho das decorações. Carlisle posicionou-se com a câmera e eu fiquei ao lado do sofá, segurando a xícara entre as mãos para ter alguma coisa onde apoiar a ansiedade.

Edward foi até a porta do quarto da filha e, antes de abrir, olhou para mim. Foi apenas um segundo, um convite silencioso. Eu deixei a xícara sobre a mesa e me aproximei, parando ao lado dele. Não sabia exatamente qual era o meu lugar naquela manhã, mas, pela primeira vez, isso não me fez querer recuar.

Ele bateu de leve na porta antes de entrar.

— Amor?

Emerald estava sentada na cama, com o cabelo completamente amassado de um lado — igual ao do pai —, o rosto inchado de sono e o cobertor apertado contra o peito. Quando viu Edward, ergueu os braços no mesmo instante.

— Papai!

Ele a pegou no colo e beijou sua bochecha. Ela encostou a cabeça no ombro dele, ainda meio adormecida.

— Sabe que dia é hoje?

Ela piscou devagar.

— Meu aniversário.

Edward sorriu.

— Isso mesmo. Feliz aniversário, princesa.

Emerald sorriu contra o pescoço dele.

— Dois.

Ele a ajudou a levantar dois dedos, e ela ficou olhando para a própria mão com muita seriedade, como se aquele fosse um feito importante.

Então me viu e seu olhar clareou um pouco.

Bewa!

— Oi, meu bem. Feliz aniversário.

Não havia cobrança, nem surpresa elaborada, nem qualquer pensamento complexo por trás. Apenas o reconhecimento de que eu estava ali quando ela acordou. Emerald pareceu satisfeita e voltou a apoiar a cabeça no ombro do pai.

Edward a carregou até a sala onde, por um segundo, ela apenas olhou para todos os lados. Os balões no teto, os presentes ao redor do sofá, as flores, as luzes. O mundo inteiro, naquela manhã, parecia feito para ela.

— Balão rosa.

— Muitos balões — Edward respondeu.

Emerald sorriu.

— Bolo.

— Primeiro seu leite — Edward respondeu.

Ela encostou de novo no pai, aceitando a derrota apenas porque ainda estava sonolenta demais para lutar.

Nenhum de nós falou sobre hospital, médicos ou qualquer possibilidade que ainda não pudéssemos cumprir. A esperança existia, sim, mas Emerald não precisava carregar aquele peso. Naquela manhã, tudo o que ela precisava saber era que tinha dois anos, que havia balões cor-de-rosa na sala e que as pessoas ao seu redor estavam celebrando.

Quando Edward a colocou no chão, ela deu dois passos cambaleantes até mim e ergueu os braços. Peguei-a no colo e o corpo pequeno e quente se encaixou contra o meu, cheirando a sono e shampoo infantil.

— Cuidado! — Edward alertou, se aproximando rapidamente.

— Ela pesa menos que o Jake.

— Isso não me tranquiliza, Bella. Ele passaria por um lobo, tranquilamente.

Revirei os olhos para ele e voltei a focar na criança nos meus braços.

Bewa na minha festa — ela murmurou.

— Sim, eu vim para a sua festa.

Ela sorriu, satisfeita, e encostou a cabeça no meu ombro.

Às vezes, uma história começava assim: com uma camiseta dele amarrada na minha cintura, uma criança pedindo bolo antes do café da manhã, uma notícia boa guardada e a sensação frágil, quase assustadora, de que talvez ainda houvesse espaço para felicidade antes que todas as dores terminassem.

Nós comemos bolo no café da manhã, logo depois que Emerald terminou seu copo de leite. Copo, porque ela não queria mais tomar mamadeira pela manhã e absolutamente tudo era da forma que ela queria, especialmente agora. E também porque aquele não era o bolo oficial, mas uma versão fofinha de um bolo saudável que Esme insistiu em preparar.

Edward fez uma infinidade de fotos dela. Primeiro de pijama, depois com o vestido que Tanya tinha escolhido e uma coroa na cabeça. Emerald sozinha, com o pai, com os avós, com a babá e até comigo.

Depois, ela abriu os primeiros presentes: uma boneca de alguma princesa, um livro com figuras de animais e uma caixa de Lego em tamanhos grandes, que foi a escolhida para a primeira brincadeira. Ela começou a empilhar e encaixar blocos com uma velocidade feroz, como se fosse a única tarefa dela.

Edward sentou-se no chão ao lado dela. Pouco depois, Carlisle se juntou aos dois. Em algum momento, a torre deixou de ser de Emerald e virou uma competição silenciosa entre pai e avô, enquanto a aniversariante se divertia derrubando tudo.

— Caiu! — ela gritava, batendo palmas.

— Porque alguém sabotou a estrutura — Edward disse.

— Caiu — Emerald repetiu, satisfeita.

Carlisle tentou reconstruir. Ela derrubou de novo.

E, a cada vez que a gargalhada dela ecoava pela casa, eu sentia que estávamos um passo mais próximos de um desfecho feliz.