Daylight

32 Capítulo 31


Edward

Minha mãe me conhecia melhor que ninguém. Nos últimos dias, eu vinha desviando das perguntas capciosas dela, das insinuações sobre meu relacionamento com Bella, sempre dando a entender que sabia de algo, só para ver o que eu deixaria escapar.

Claro, ela atingiu parte do objetivo quando conseguiu obter a informação de que eu — ainda — não tinha conseguido consertar as coisas.

Entretanto, eu não esperava encontrar Bella no meu apartamento, conversando com Esme, no meu sofá. Meu primeiro pensamento foi o que aconteceu agora?

Não que Bella pudesse adicionar mais um problema à pilha crescente de preocupações que não cessavam, mas exatamente pelo contrário: ela não apareceria aqui se estivesse tudo bem.

O pânico de que algo estivesse errado com ela ou com o nosso filho me atingiu como um soco no estômago no instante em que passei pela porta. Mas não havia urgência médica, apenas o cansaço compartilhado e aquela cumplicidade dolorosa que nos unia no centro do furacão.

Depois de colocar Emerald na cama, o silêncio no apartamento era tão denso que eu podia ouvir a minha própria pulsação nos ouvidos.

Encontrei Alice na sala, recolhendo suas coisas e as de Bella, mas Bella não estava à vista.

— Fugindo sem se despedir? — perguntei.

Alice ergueu uma sobrancelha.

— Você parece desapontado comigo.

— Estou cansado demais para entrar nesse jogo, Alice.

— Que pena. Eu não estou.

Revirei os olhos. Toda doçura que Alice tinha empregado com Emerald mais cedo parecia ter ido embora. Ela nunca deixaria de ser assim, não comigo, pelo menos.

— Onde ela está?

— Cozinha — apontou com a cabeça.

A luz do cômodo estava acesa, mas eu não esperava encontrar Bella e minha mãe abraçadas. As duas se separaram no exato momento em que entrei e percebi que algo estava diferente. Não estranho, mas apenas diferente.

Minha mãe tinha os olhos brilhando, Bella também, e eu conhecia as duas o suficiente para saber que aquilo não era coincidência.

— Certo — falei devagar. — O que aconteceu?

— Boa noite para você também, Emerald já dormiu? — minha mãe respondeu.

— Mãe…

— Edward Anthony.

Bella abaixou a cabeça por um segundo, claramente tentando esconder um sorriso, o que só piorou minha situação.

— O que aconteceu? — repeti.

— Tivemos uma conversa.

— Certo, e? Eu acabei de passar o dia inteiro no hospital, então me ajudem aqui.

Minha mãe sorriu e meu olhar foi para Bella.

— Você quer me contar?

Ela imediatamente ficou interessada demais na bancada da cozinha. Traidora.

A risada dela foi pequena, mas estava ali, e aquilo, por algum motivo, me deixou absurdamente feliz. Minha mãe observou a troca inteira com uma satisfação que eu definitivamente não precisava testemunhar.

— Vocês estão do mesmo lado agora?

— Sempre estivemos, Edward. Você sempre soube da minha preferência entre as suas namoradas.

Eu sabia, porque minha mãe era transparente quando falava sobre Bella. Nos últimos dez anos ela deve ter sido uma das líderes do fã clube Bella Swan, e não estou dizendo apenas no quesito namoradas de Edward Cullen. Não, ela assistia a todos os filmes, curtia todas as publicações em redes sociais e, se pudesse, estaria na primeira fileira aplaudindo cada estreia. Em contraponto, ela mal curtia as publicações de Tanya nas redes sociais, por exemplo, a não ser que Emerald estivesse presente.

Não que minha mãe fosse uma sogra ruim. Ela passava bem longe disso, na verdade. Nunca a ouvi dizer um A contra nenhuma das minhas namoradas nem as tratar com algo menos que sua educação impecável. Ela só… Gostava mais de Bella.

— Isso é zero reconfortante, mãe.

Voltei a olhar para Bella e percebi que ela estava limpando os cantos dos olhos, o que foi perturbador. O que minha mãe poderia ter feito que a deixaria assim?

— Olha, eu não planejava contar hoje, mas sua mãe montou a armadilha perfeita — ela sorriu e as duas trocaram um olhar cúmplice.

Ah!

— Você contou o que eu imagino que tenha contado? — não consegui evitar sorrir também.

— Ah, parem com isso, vocês dois! — minha mãe irrompeu. — Não precisam mais ficar se comunicando em códigos na minha frente!

Ela revirou os olhos, mas continuava sorrindo. E isso me fez perceber que, pela primeira vez desde a notícia do acidente, todos nós estávamos sorrindo.

— Não pensem que eu não tenho minhas reservas quanto à forma como essa relação começou, mas vocês dois são adultos e sabem exatamente o que estão fazendo.

Foi Alice quem interrompeu o momento, aparecendo na moldura da porta.

— Toc, toc. Desculpe interromper esse lindo momento em família, mas precisamos ir, Bella.

A voz dela trouxe de volta tudo o que, por alguns minutos, parecíamos ter conseguido esquecer. O hospital, Tanya, as incertezas e a estranha situação em que estávamos presos. O sorriso de Bella diminuiu, e ela assentiu antes mesmo de olhar para a amiga.

— Claro, já estou indo.

A rapidez da resposta me incomodou. Talvez porque, um segundo antes, ela estivesse sorrindo para mim. Talvez porque vê-la no meu apartamento, conversando com minha mãe e pertencendo àquele ambiente com uma naturalidade que nunca havia desaparecido por completo, tivesse criado em mim uma sensação perigosa de normalidade. Por alguns minutos, parecia que ela deveria estar ali. E agora, ela estava pronta para ir embora como se ficar nunca tivesse sido uma possibilidade.

Alice entrou na cozinha e o olhar que dirigiu a mim não foi exatamente hostil, mas carregava a cautela de quem estava preparado para intervir ao menor sinal de perigo. Ela sempre foi assim comigo.

Mesmo anos antes, quando nós ainda estávamos juntos, Alice observava cada gesto meu como se esperasse descobrir uma intenção oculta. Depois do primeiro término, a desconfiança havia se transformado em certeza. Eu era alguém capaz de machucar Bella, portanto Alice jamais voltaria a baixar completamente a guarda perto de mim. Não podia culpá-la por isso.

— Eu posso levar você — falei.

Bella me olhou, surpresa.

— Não precisa.

— Eu sei que não preciso, mas eu quero.

Alice apertou os dedos ao redor da alça da bolsa, mas permaneceu em silêncio. Era uma escolha deliberada: ela estava deixando Bella responder, embora sua postura dissesse que não hesitaria em fazê-lo por ela caso fosse necessário.

— Já está tarde — Bella argumentou. — Você teve um dia difícil e precisa descansar.

— Eu não vou descansar.

Não disse aquilo para provocar preocupação, embora tenha sido exatamente o que aconteceu. A testa de Bella se franziu, e seu olhar percorreu meu rosto como se apenas naquele instante percebesse o quanto eu estava cansado.

Provavelmente parecia pior do que imaginava.

Desde o acidente, dormir tinha se tornado um luxo. Quando conseguia fechar os olhos, o telefone tocava, Emerald acordava ou minha mente voltava ao momento em que recebi a notícia. No entanto, naquele instante, não era a exaustão que importava.

Era a possibilidade de Bella atravessar aquela porta e voltar a colocar entre nós a distância que eu não sabia como reduzir.

Minha mãe passou a mão pelo braço dela.

— Você não precisa ir, querida. Ainda é cedo.

Não era. Eu sabia, Bella sabia e minha mãe certamente sabia. Mas Esme não parecia preocupada com a credibilidade da desculpa. Ela estava feliz. Não apenas contente ou aliviada. Feliz de uma maneira que eu não via desde quando ela chegou. Seus olhos ainda brilhavam por causa da conversa com Bella, e de vez em quando seu olhar descia, discretamente, para o ventre dela.

Minha mãe nunca tinha sido boa em esconder o que sentia.

— Eu não quero atrapalhar — Bella disse.

— Você não está atrapalhando — respondi antes que minha mãe pudesse fazer isso.

Bella voltou a olhar para mim e havia alguma coisa em sua expressão que não consegui compreender completamente. Uma mistura de hesitação e cansaço, como se parte dela desejasse acreditar em mim, enquanto a outra reunia razões para não fazer isso.

— Edward, você acabou de voltar do hospital. Emerald está dormindo. Seus pais provavelmente também precisam descansar…

— Não use minha mãe como desculpa. Ela ficaria acordada até o amanhecer planejando o quarto do bebê se alguém permitisse.

— Edward — minha mãe protestou, embora o sorriso a traísse.

Bella soltou uma risada baixa.

— Ela não falou sobre o quarto.

— Ainda.

— Eu apenas mencionei que guardei algumas coisas suas — Esme explicou, dirigindo-se a Bella.

As duas continuavam sorrindo, e eu teria feito qualquer coisa para prolongar aquele momento.

Até então, a gravidez tinha existido em um espaço protegido entre Bella e eu. Havia exames, consultas e conversas difíceis, mas ainda era algo nosso, mantido distante do restante da família e do caos.

Agora minha mãe sabia e sua alegria parecia ter aberto uma porta que nenhum de nós estava preparado para atravessar.

Bella também percebeu. Eu soube porque sua expressão mudou quando olhou para Esme.

— Eu não deveria ter contado hoje — ela murmurou.

Minha mãe franziu o cenho.

— Por que não?

— Por causa de tudo o que está acontecendo.

— Uma coisa não anula a outra, Bella.

Ela pronunciou aquelas palavras com cuidado, como se soubesse que qualquer movimento brusco poderia fazer Bella recuar.

— Nós estamos todos preocupados com Tanya. Estamos assustados por Emerald e por tudo o que ainda não sabemos. Mas isso não significa que não possamos amar esse bebê ou ficar felizes porque ele está vindo. Você não está tirando nada de ninguém ao nos dar uma notícia feliz.

Bella apertou os lábios. Eu conhecia aquela expressão, era a forma como ela tentava controlar as próprias emoções quando não queria chorar diante de outras pessoas.

— Eu sei — respondeu, embora sua voz dissesse o contrário. — Só parece errado.

— Não é. Esse bebê já é amado. E você é amada. Nada do que está acontecendo muda isso, está bem?

Esme olhou para mim ao dizer aquilo, como se soubesse que Bella não era a única que precisava ouvir.

Desde que soubera do acidente, cada pensamento sobre nosso filho vinha acompanhado de culpa. Eu me sentia dividido entre dois mundos que não deveriam competir entre si, mas que pareciam disputar espaço dentro de mim o tempo todo.

Minha mãe a abraçou novamente, e Bella correspondeu de imediato. Não havia desconforto entre elas. Nenhuma distância causada pelos anos em que estivemos separados. Esme a acolheu como se nunca tivesse deixado de fazer parte da família, e talvez, para minha mãe, ela realmente nunca tivesse deixado.

Quando se separaram, minha mãe manteve as mãos nos braços de Bella por mais alguns segundos, como se ainda não estivesse pronta para soltá-la. Bella parecia igualmente relutante em se afastar, mas enxugou o rosto assim que percebeu que todos a observávamos.

— Desculpe — murmurou.

Ela olhou para Alice, e vi o instante exato em que a realidade voltou a alcançá-la.

— Eu preciso ir — disse, embora sua voz não carregasse nenhuma vontade verdadeira de partir.

— Não precisa — respondi.

Bella voltou o rosto para mim.

— Edward…

— Fique.

A palavra saiu antes que eu pudesse organizar um argumento mais cuidadoso.

Minha mãe não conseguiu esconder a satisfação. Alice, por outro lado, ficou imediatamente atenta. Não hostil, mas pronta para se certificar de que Bella não seria pressionada a tomar uma decisão apenas porque todos ao redor queriam a mesma coisa.

— Está tarde, e tenho certeza que Emerald te convidou para o aniversário dela amanhã. Não faz sentido ir para casa e voltar daqui a poucas horas.

Era uma justificativa prática, mas ninguém naquela cozinha acreditou que fosse o verdadeiro motivo. Eu queria que Bella ficasse porque não queria vê-la atravessar aquela porta.

Queria conversar com ela. Precisava conversar com ela, sem uma consulta nos esperando, sem o telefone interrompendo e sem a possibilidade de que ela usasse a distância física para fugir de tudo o que existia entre nós.

Bella olhou para Alice.

— E o Jake?

— Eu vou para casa cuidar dele — Alice respondeu.

— Você não precisa fazer isso, eu posso…

— Bella, eu consigo alimentar seu cachorro sem supervisão — interrompeu. — Ele vai passar a noite comigo, comendo petiscos escondido enquanto finjo que não percebo que ele subiu no sofá.

O silêncio que se seguiu fez com que minha mãe desviasse o olhar, fingindo interesse em alguma coisa sobre a bancada. Bella respirou fundo antes de levantar o rosto e seus olhos encontrarem os meus. Meu coração reagiu antes que eu conseguisse controlar.

— Bem, então eu vou. E você sabe usar um telefone, não é, Bella?

A última parte veio acompanhada de um olhar significativo. Bella também compreendeu. Se mudasse de ideia, ligaria. Se precisasse sair, Alice voltaria.

Eu não gostava da ideia de que Bella pudesse querer escapar no meio da noite, mas entendia por que Alice precisava garantir que ela ainda tivesse aquela possibilidade.

Minha mãe, entretanto, mal conseguia se conter. Parecia que ela estava pronta para fazer uma festa do pijama.

— Esme, deixe-os respirar — A voz do meu pai surgiu no corredor antes que ele aparecesse, ainda secando os cabelos com uma toalha.

Minha mãe ignorou o comentário e se voltou para Alice.

— Você não quer ficar também? Podemos nos ajustar aqui.

— Obrigada, mas alguém precisa cuidar do Jake.

Além disso, não havia exatamente onde acomodá-la. Meus pais já ocupavam o quarto de hóspedes, Emerald estava no próprio quarto e eu não permitiria que Bella dormisse no sofá. Não que aquela fosse uma discussão existente, ela dormiria comigo.

A constatação não veio acompanhada de dúvida. Não depois de tudo o que já havia acontecido entre nós, e certamente não quando ela carregava nosso filho.

Alice pegou o casaco e se despediu dos meus pais antes de segurar as mãos de Bella.

— Uma mensagem e eu chego aqui em dez minutos.

As duas lançaram olhares para mim, embora tivessem significados diferentes. O de Alice, era de aviso.

— Eu acompanho você até a porta — falei.

Alice pareceu considerar a oferta antes de assentir. Deixamos Bella com meus pais e atravessamos a sala. Assim que nos afastamos o bastante, ela diminuiu o passo.

— Se ela sair daqui com um fio de cabelo fora do lugar, eu vou começar a maior campanha de difamação da história contra você, entendeu? — disse.

— Não precisa me ameaçar, Alice. Eu não farei nada que possa machucá-la.

— Eu ouvi isso outras vezes, Edward. Você nunca tem a intenção, nunca quer fazer, e o resultado é sempre o mesmo. Estou te avisando, será a última vez.

Parei perto da porta, bloqueando a passagem dela.

— Qual é a diferença agora?

— A diferença é que agora ela não está sozinha. Ela sabe o quanto seria fácil perdoar tudo só porque ainda te ama, dormir ao seu lado e acordar amanhã fingindo que os últimos dias não aconteceram. Ela quer fazer isso, acredite em mim. Mas eu estou cansada de ver minha amiga subir até um ponto cheio de esperanças só para ser jogada lá de cima.

Não havia crueldade no tom de Alice. Apenas uma sinceridade difícil de ouvir.

— Não vou fingir que as coisas têm sido fáceis, mas nada mudou, Alice. Eu ainda quero tudo que queria há alguns dias.

— Espero que sim. Ela precisa que você a escute, Edward. Não que encontre uma resposta perfeita ou tente resolver tudo por ela, só escute o que ela disser e não faça promessas que não poderá cumprir.

Eu poderia ter discutido, mas ela não estava errada. Alice abriu a porta, porém hesitou antes de sair e me observou por mais alguns segundos.

— Cuide dela.

E saiu antes que eu pudesse responder.

Quando voltei para a cozinha, meu pai já recolhia algumas coisas enquanto minha mãe explicava para Bella que tinha comprado apenas uma quantidade razoável de enfeites para o aniversário. Havia pelo menos quatro sacolas encostadas perto da porta. Meu pai colocou uma mão nas costas dela, interrompendo a contagem.

— Vamos terminar de arrumar as coisas e deixar os dois conversarem.

Bella ficou tensa por apenas um segundo, mas foi o suficiente para que eu percebesse. Minha mãe também percebeu, embora tivesse a delicadeza de não comentar.

— Nós estaremos no quarto — disse. — Se Emerald acordar, podemos cuidar dela.

A rotina havia mudado desde que meus pais chegaram, mas Emerald se adaptara melhor do que eu. Eles estavam presentes quando ela acordava, durante as refeições e nas intermináveis tentativas de fazê-la dormir. Ainda assim, nas últimas noites, ela acordava chorando por mim ou por Tanya.

— Boa noite, querida — minha mãe disse, beijando o rosto de Bella. — Estou feliz por você ficar.

— Eu também — respondeu.

Bella e eu ficamos sozinhos na cozinha. Não havia mais Alice pronta para intervir, nem minha mãe ocupando cada pausa com a felicidade que mal conseguia conter. Ainda havia três pessoas dormindo ou se preparando para dormir a poucos metros de nós, mas, pela primeira vez naquela noite, parecia que Bella e eu tínhamos espaço para conversar. Ela apoiou as mãos na bancada e começou.

— Alice falou com você — Não era uma pergunta. — Ela ameaçou alguma parte importante do seu corpo?

— Só a minha reputação.

Bella fechou os olhos.

— Eu vou matá-la.

— Ela só está preocupada com você.

— Eu sei.

Bella respirou fundo e olhou na direção do corredor. Por um momento, pensei que verificaria Emerald, mas ela permaneceu onde estava.

— Essa é a parte que eu não consigo explicar sem parecer completamente sem amor próprio. Por mim, seria fácil — continuou. — Eu ficaria aqui. Dormiria com você, acordaria amanhã e ajudaria a montar o aniversário da Emerald. Deixaria sua mãe falar sobre planos para o bebê e fingiria que nós simplesmente voltamos para o ponto em que deveríamos estar.

A imagem surgiu na minha mente com uma clareza dolorosa.

— Isso é o que você quer? Então por que está dizendo que não pode?

— Porque querer não apaga o que aconteceu, Edward. Eu sinto que estávamos caminhando na direção correta, mas os últimos dias fizeram com que déssemos vinte passos atrás.

Minha primeira reação foi me defender. Eu quis dizer que estava fazendo o melhor que conseguia, mesmo que aquilo ainda parecesse insuficiente para todos ao meu redor.

Mas então, me lembrei das palavras de Alice. Ela precisa que você a escute. Respirei fundo e permaneci onde estava.

— Por que você sente que voltamos vinte passos? — Apoiei as mãos na bancada, mais para impedir que fizesse algum gesto estúpido do que por necessidade. — Eu não estou discordando. Só quero entender.

A tensão nos ombros dela diminuiu quase imperceptivelmente, mas foi perturbador perceber o quanto Bella estava preparada para uma discussão. Para que eu a interrompesse, explicasse, corrigisse ou transformasse os sentimentos dela em uma acusação contra mim.

— Não quero que pense que é porque me sinto ameaçada pela Tanya — começou. — Eu estou preocupada com ela. Não quero que Emerald cresça sem a mãe e nunca, em nenhuma circunstância, pediria que você tratasse isso como se não fosse importante.

— Eu sei.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Você diz isso, mas eu não acho que sabe.

A frase doeu, embora não houvesse agressividade na voz dela.

— Nós estávamos chegando na conversa quando você recebeu a ligação — disse. — Tínhamos estabelecido quase que uma rotina, algo que parecia que ia funcionar e, de repente, Tanya estava em uma sala de cirurgia do outro lado do mundo.

Quando colocado daquela forma, parecia ainda mais absurdo.

— Eu sei que você precisava ir embora — continuou. — Não existe uma versão dessa história em que eu esperaria que você ficasse comigo enquanto a mãe da sua filha podia morrer. Mas, no instante em que aquilo aconteceu, nós desaparecemos.

Franzi o cenho.

— Eu falei com você todos os dias desde então.

— Sobre Emerald, sobre os médicos, os exames, a transferência e o hospital.

— Era o que estava acontecendo.

— Eu sei, Edward — repetiu, mais firme. — Esse é o problema. Você acha que, porque existia uma emergência maior, todo o resto deixou de existir.

Abri a boca, mas ela ergueu uma mão.

— Por favor, apenas me escute. Eu passei semanas com medo de perder esse bebê. Então você apareceu e disse que queria ficar, que queria participar, que nós daríamos um jeito. E eu acreditei em você — A voz dela falhou na última frase. — E então aconteceu alguma coisa terrível, e eu voltei a ser a pessoa que fica te esperando.

Não havia raiva no rosto dela. Eu preferiria que houvesse.

Raiva seria mais fácil de enfrentar do que aquela tristeza, aquela exaustão, contida, como se Bella tivesse passado dias tentando convencer a si mesma de que não tinha o direito de sentir nada.

— Você não me pediu para esperar — continuou. — Provavelmente nem percebeu. Mas, de repente, eu estava outra vez naquele lugar em que preciso entender tudo. Preciso ser paciente porque você está passando por alguma coisa, preciso não fazer perguntas e não esperar nada porque, se eu esperar, estou sendo egoísta.

— Você não é egoísta.

— Eu me senti assim.

Aquilo encerrou qualquer resposta que eu pudesse dar. Não importava o que eu pretendia. Não importava que eu jamais tivesse olhado para Bella e pensado que ela era egoísta por precisar de mim. Era assim que ela havia se sentido.

E, mais uma vez, eu tinha deixado que minhas intenções servissem como desculpa para um resultado que a machucava.

— Eu achei que estava protegendo você — admiti. — Você estava passando por tudo isso com a gravidez, então aconteceu o acidente, começou a imprensa, o hospital… Eu não queria arrastar você para mais uma crise.

— Mas essa decisão não era sua.

A resposta veio imediata.

— Eu queria evitar que você…

— Essa decisão não era sua — repetiu. — Você sempre faz isso, Edward. Decide sozinho que eu preciso ser protegida e, quando percebo, você já reorganizou a minha vida sem me perguntar nada.

Fiquei em silêncio.

Nos últimos meses, eu aparecia quando precisava dela e desaparecia quando a minha realidade se tornava complicada demais. Não porque não a amasse, mas porque amá-la parecia me dar o direito de decidir o que seria melhor para ela. O pior era que, em algum nível, eu sempre havia acreditado nisso.

— Você tem razão — falei.

Bella piscou e a surpresa no rosto dela quase me fez sentir vergonha.

— Eu tenho?

— Tem — Passei a mão pela nuca. — Eu fiz isso. Não só agora. Faço isso desde sempre.

Talvez fosse a primeira vez que eu não tentava convencê-la de que a minha intenção deveria importar mais do que a dor que causei.

— Eu não queria desaparecer — falei depois de algum tempo. — Depois do acidente, quero dizer. Eu não percebi que estava fazendo isso outra vez e, sei que não muda nada, mas preciso que saiba que não deixei de pensar em você. Ou no bebê.

Bella apertou os braços ao redor do corpo.

— Pensar não é estar presente.

— Eu sei.

Ela soltou lentamente o ar, como se estivesse esperando que eu voltasse atrás, acrescentasse alguma condição ou finalmente perdesse a paciência.

— Eu não sei como fazer tudo isso — continuei. — Não sei como ficar no hospital esperando Tanya acordar, cuidar da Emerald, não deixar meus pais preocupados, responder às pessoas, continuar trabalhando e estar presente para você da forma que precisa. Eu achei que conseguiria dividir tudo em partes. Resolver uma emergência e depois voltar para a próxima. Então, por favor, me diga o que eu faço.

Bella fechou os olhos.

— Eu não posso ensinar você a ser meu parceiro. Você precisa querer ser.

— Eu quero saber o que você precisa agora — corrigi. — Não como uma lista permanente de instruções. Só agora.

Ela demorou para responder.

— Preciso que você não decida por mim. Se alguma coisa acontecer, me conte. Se você estiver assustado, diga. Se precisar ir embora, diga por quê e quando acha que conseguirá falar comigo outra vez. Não me deixe tentando interpretar três palavras em uma mensagem para descobrir se você ainda quer estar aqui.

Meu peito apertou.

— Eu ainda quero.

— Eu sei disso esta noite. Mas preciso saber nos dias ruins também.

— Está bem.

— E não diga apenas “está bem” porque quer encerrar essa conversa.

— Eu não quero. Ainda temos muito a dizer.

Era verdade. A conversa doía, mas a ideia de Bella ir embora sem dizer tudo era muito pior. Ela me observou por alguns segundos antes de desviar os olhos.

— Então continue falando.

Passei a mão pela nuca, tentando organizar tudo que vinha pensando desde que entrei naquele apartamento e a encontrei no sofá com a minha filha. Desde antes, na verdade. Desde a primeira noite em que Emerald adormeceu na casa dela e Bella ficou parada na porta do quarto, observando-a como se aquela cena despertasse alguma coisa que ela não estava pronta para nomear.

— Eu não achei que estávamos apenas passando o tempo — continuei. — Não levei Emerald para a sua casa durante quase duas semanas porque precisava de alguém para cuidar dela. Não apareci todas as manhãs porque você estava grávida e eu tinha decidido cumprir uma obrigação.

Bella apertou os lábios.

— E o que era, então?

A pergunta não tinha uma resposta simples, mas, pela primeira vez, eu não queria usar a falta de uma palavra perfeita como desculpa.

— Era o começo.

— De quê?

— De nós.

Os olhos dela encontraram os meus novamente.

— Você disse isso com muita facilidade.

— Não foi fácil chegar até aqui.

— Não estou falando desta conversa. Estou falando da palavra.

— Nós?

Bella assentiu.

— Era isso que tornava tudo tão confuso. Você estava ali. Chegava cedo, levava meu café da manhã, perguntava como eu tinha dormido. Emerald espalhava brinquedos pela sala e você reclamava porque eu não tinha nada decente na geladeira. Nós jantávamos juntos, colocávamos sua filha na cama, conversávamos sobre o bebê… — Um sorriso breve apareceu em seus lábios, mas desapareceu quase imediatamente. — Parecia uma vida.

— Era uma vida, Bella.

Talvez fosse aquilo que eu não tinha entendido durante os últimos dias. Para mim, a crise tinha interrompido uma rotina. Para Bella, poderia ter provado que aquela rotina só existia enquanto nada mais urgente exigisse minha atenção.

— Quando recebi a ligação, não deixei de querer aquilo — falei. — Não deixei de querer você ou de pensar que estávamos construindo alguma coisa. Eu apenas não soube como continuar enquanto tudo ao redor desmoronava.

— Então você parou.

Não havia sentido em negar. Eu não tinha terminado o que quer que tivéssemos, não tinha retirado nada do que disse sobre o bebê ou decidido que não queria mais aquela possibilidade. Mas tinha colocado tudo em silêncio, como se sentimentos pudessem permanecer perfeitamente preservados até que eu tivesse tempo de voltar para buscá-los.

— Achei que conseguiria retomar de onde paramos — admiti.

Bella soltou uma respiração que parecia quase uma risada, mas não havia humor nela.

— Como se eu fosse ficar exatamente no mesmo lugar, te esperando outra vez. E é disso que estou falando, Edward. Para você, aqueles dias continuaram existindo porque sabia o que sentia. Eu só tinha o que conseguia ver.

— Eu estava aqui.

— Fisicamente, talvez. Em mensagens sobre médicos e Emerald. Mas nós não estávamos mais conversando. Você não perguntou se eu estava com medo, se estava dormindo ou se tinha voltado a sangrar.

Meu estômago se contraiu.

— Você voltou a sangrar?

— Não.

Soltei o ar que nem percebera estar segurando. Bella me observou, e uma espécie de tristeza passou por seu rosto.

— Sinto muito.

Ela assentiu, mas não disse que estava tudo bem. Não estava.

— Eu não precisava que você passasse horas ao telefone comigo — continuou. — Não precisava que saísse do hospital para vir segurar minha mão. Só precisava saber que nós ainda existíamos dentro da sua cabeça.

— Existíamos o tempo todo.

— Mas você não disse, Edward. E eu não consigo viver de coisas que você sente e não diz.

Assenti lentamente.

— Então eu vou dizer.

Bella ergueu uma sobrancelha.

— Agora?

— Agora. Amanhã. Nos dias ruins, como você pediu.

Ela ficou em silêncio.

— Não estou falando apenas do bebê — continuei. — É claro que quero ser pai dele. Quero participar de todas as consultas, quero saber se você está dormindo, se está comendo e se sentiu alguma coisa diferente. Quero estar presente quando ele nascer e em tudo que vier depois. Mas não quero uma relação administrativa com você.

— Administrativa? Que escolha de palavras é essa?

— Consultas compartilhadas, calendário de visitas e mensagens sobre fraldas.

Bella tentou esconder um sorriso.

— Você está pulando muitas etapas.

— Eu sei. Ainda assim, não é isso que quero.

— Então o que você quer?

A pergunta veio outra vez, mas agora eu sabia que “você” não seria suficiente.

— Quero acordar e saber que posso ir até a sua casa sem precisar inventar uma justificativa, ou até mesmo acordar ao seu lado lá. Quero que Emerald continue espalhando brinquedos na sua sala e que nosso filho cresça sabendo que a irmã sempre fez parte da vida dele. Quero jantar com você quando o dia for comum, não apenas aparecer quando alguma coisa estiver desmoronando.

Bella permaneceu completamente imóvel.

— Quero discutir sobre a sua geladeira vazia e ouvir você reclamar porque estou tentando controlar tudo. Quero ir às consultas sem entrar por portas diferentes. Quero poder segurar sua mão em público sem calcular quem pode estar olhando.

— Isso não vai ser simples.

— Eu sei.

— A imprensa vai destruir nossa vida.

Nós dois sabíamos como funcionaria. Cada vez que Bella e eu estivemos no mesmo lugar nos últimos anos seria transformada em evidência de alguma coisa. Pessoas que nunca tinham entrado em uma sala conosco explicariam quando nos apaixonamos, quando traímos, quando mentimos e quem havia destruído qual casamento.

— Vão descobrir que estou grávida logo e vão calcular quando aconteceu.

Meu peito se contraiu, e ela não precisava explicar.

Se qualquer informação sobre nós surgisse enquanto Tanya continuava inconsciente, a história seria construída antes mesmo que tivéssemos a oportunidade de dizer uma palavra. Eu seria o homem que apareceu publicamente com outra mulher enquanto a mãe da filha estava em um hospital. Bella seria culpada pelo fim de um relacionamento que já tinha acabado antes da gravidez. A realidade não teria qualquer importância diante de uma narrativa melhor.

— Mas isso não pode ser uma desculpa para continuarmos escondidos indefinidamente.

— Não será.

— Não preciso de uma publicação amanhã ou de uma foto nossa estampada por aí para provar alguma coisa. Só não quero que, quando começarem as perguntas, você aja como se eu fosse um problema que precisa ser administrado.

— Você não é um problema.

— Nossa situação será.

— Nossa situação é complicada. Não é a mesma coisa.

Bella me analisou, tentando encontrar alguma fragilidade na resposta.

— E o que pretende dizer quando perguntarem?

— A verdade.

— Qual delas? Temos muitas.

— Que Tanya e eu já estávamos separados e que isso não é uma informação nova. Nós anunciamos antes do acidente.

Bella apoiou o quadril contra a bancada.

— Isso não vai impedir que transformem tudo em uma história diferente.

— Não.

A separação tinha sido anunciada. Havia uma declaração cuidadosamente escrita, aprovada por duas equipes de assessoria e publicada o suficiente para que ninguém pudesse alegar desconhecimento. Tanya e eu já não vivíamos juntos. Emerald passava os dias comigo enquanto ela viajava, e não existia qualquer plano de reconciliação antes de o telefone tocar na casa de Bella.

E, ainda assim, eu sabia que fatos raramente eram suficientes quando havia uma narrativa melhor disponível.

— Vão dizer que o acidente aproximou vocês — Bella continuou. — Que você voltou a cuidar dela, que está no hospital todos os dias… Não estou dizendo que deveria deixá-la sozinha.

Bella continuava me olhando com aquela expressão cautelosa, como se esperasse que eu interpretasse qualquer insegurança dela como um pedido para abandonar Tanya em uma cama de hospital.

— Sei disso — respondi, mais calmo. — Você nunca faria isso.

— Eu não quero que você finja indiferença para provar alguma coisa para mim, isso seria cruel. Só não quero abrir um site e descobrir que todos decidiram que o acidente reuniu a família perfeita.

Meu peito apertou.

Aquela não era uma possibilidade absurda. Já havia fotografias minhas entrando e saindo do hospital, notas especulando o que teria acontecido. Nenhuma das imagens mostrava meus pais cuidando da minha filha, as ligações com a família de Tanya ou o fato de eu voltar para casa sozinho todas as noites.

Uma legenda podia transformar qualquer coisa em outra.

— Se escreverem isso, estarão errados.

— As pessoas acreditam em coisas erradas o tempo todo.

— Mas nós sabemos a verdade.

Bella soltou uma risada sem humor.

— É fácil dizer isso quando não é seu corpo que vai começar a anunciar uma segunda versão da história em algumas semanas.

Meu olhar desceu involuntariamente para a barriga dela. Ainda era discreta, eu conseguia perceber porque sabia e porque a ideia do nosso filho ocupava minha cabeça desde o momento em que Bella me contou. Para o restante do mundo, ainda não havia nada.

— Quando descobrirem a gravidez, vão voltar para a data da separação — disse ela. — Vão contar semanas, analisar fotos, descobrir onde estávamos e com quem. E vão concluir que você estava comigo enquanto ainda estava com Tanya.

A cozinha ficou silenciosa.

Aquela era a parte que qualquer declaração cuidadosamente elaborada tentaria contornar. Nossas separações eram públicas agora, mas o que existia entre nós tinha começado antes delas. Poderíamos dizer que os relacionamentos já estavam terminados e que nenhum de nós tinha abandonado uma relação feliz por uma aventura. Tudo isso seria verdade.

Também seria uma tentativa de tornar nossas escolhas mais bonitas.

— Não precisamos mentir — falei. — Mas também não devemos contar cada detalhe da nossa vida a pessoas que não conhecemos.

— Como funciona essa diferença?

— Não vamos entregar datas, mensagens e uma lista de todas as vezes em que estivemos juntos para satisfazer a curiosidade de alguém.

Bella arqueou uma sobrancelha.

— Nossos assessores vão querer uma cronologia conveniente.

— Então vão se decepcionar.

— Os dois?

— Profundamente.

Ela tentou esconder um sorriso.

— E qual seria a verdade que podemos dizer?

Pensei antes de responder.

— Que nossos relacionamentos anteriores terminaram. Que as separações foram anunciadas antes do acidente. Que Tanya continua sendo a mãe da minha filha e que estou acompanhando a situação porque a família dela está fora do país e porque não permitiria que enfrentasse isso sozinha.

Bella assentiu lentamente.

— E sobre nós?

— Que estamos esperando um filho.

— Só isso?

— E que estamos juntos.

As palavras saíram antes que eu pudesse medir o impacto delas. Bella ficou completamente imóvel.

— Estamos?

A pergunta não pareceu uma recusa. Pareceu susto.

— Eu quero estar.

— Você falou como se já estivesse decidido.

— Então estou fazendo outra vez, decidindo por você. Desculpe — falei. — Não deveria ter dito dessa forma.

Bella desviou os olhos para a bancada.

— Eu não disse que não quero.

Meu coração reagiu de imediato, mas me obriguei a permanecer em silêncio, ela precisava terminar.

— Só não sei quando deixamos de estar tentando descobrir o que fazer e passamos a estar juntos.

— Você quer que eu peça formalmente?

Bella me lançou um olhar que dizia que eu estava a segundos de arruinar tudo.

— Não faça piada.

— Eu não deixei de querer estar com você — continuei. — Não houve um momento no hospital em que eu olhasse para Tanya e pensasse em voltar para o que tínhamos. Eu quero que ela acorde. Quero que se recupere e volte a ser mãe da Emerald, porque não sei por quanto tempo consigo continuar sendo a pessoa que responde por tudo.

— Você não precisa justificar querer que ela fique bem.

— Eu sei. Mas preciso deixar claro que cuidar dela não muda o que quero com você.

Bella respirou fundo.

— E o que você quer comigo?

— Uma vida — Dessa vez, falei sem desviar. — Não apenas porque você está grávida. Não apenas porque é mais fácil transformar o que vivemos em uma história bonita. Eu quero continuar o que começamos antes da ligação. Quero fazer isso direito.

— Direito é uma palavra ambiciosa para nós.

— De uma forma menos errada, então.

Ela riu, apesar de tentar impedir.

— Isso parece mais realista.

— Quero acordar na sua casa sem precisar fingir que fui até lá por causa de Emerald. Quero participar das consultas, mas também quero jantar com você quando não houver nada relacionado ao bebê para discutir. Quero que possamos sair pela porta da frente.

O pequeno sorriso desapareceu.

— Isso vai levar tempo, não podemos aparecer juntos enquanto Tanya continua inconsciente.

— Concordo.

Bella me observou com atenção, talvez esperando que eu interpretasse aquilo como uma tentativa de recuar.

— Mas não quero que isso se transforme em segredo outra vez — acrescentou.

— Não vai.

— Qual é a diferença?

— Esperar por respeito à situação dela é diferente de negar você. Nossos pais podem saber. Nossos amigos podem saber. As pessoas importantes para nós não precisam fingir que não existe nada. Só não vamos transformar o pior momento da vida de Tanya no anúncio do nosso relacionamento.

Bella considerou a resposta.

— Isso parece justo.

— E quando ela estiver estável, quando a família dela estiver aqui e quando nós tivermos conversado com Emerald da forma que for possível conversar com uma criança de dois anos, decidimos como lidar com o restante.

— Juntos?

— Juntos.

Ela apertou os lábios.

— Você sabe que não poderemos controlar a forma como descobrirem.

— Não completamente.

— Pode vazar antes que estejamos preparados. Alguém pode me fotografar saindo de uma consulta, ou perceber minha barriga, ou uma das pessoas que já sabe pode falar.

— Então vamos nos preparar para isso.

— Como?

— Primeiro, contamos para as pessoas que precisam ouvir de nós.

Bella olhou na direção do corredor.

— Seu pai.

— Amanhã, se você quiser.

— Sua mãe provavelmente já está procurando berços, de qualquer forma.

Bella sorriu e eu não consegui evitar sorrir junto.

— E depois?

— Rosalie e Alice já sabem. Emmett provavelmente, só não disse nada.

A normalidade daquela conversa era quase absurda. Estávamos discutindo a ordem em que contaríamos sobre nosso filho enquanto Tanya permanecia inconsciente em um hospital e minha filha dormia esperando uma festa com a mãe no dia seguinte.

Ainda assim, talvez fosse aquilo que Bella havia pedido: não permitir que uma emergência anulasse todo o restante.

Eu sabia que palavras não seriam suficientes para recuperar tudo que tinha quebrado. Ainda assim, aquela noite não era sobre provar o futuro inteiro. Era sobre escolher o próximo passo sem deixar que o medo escolhesse por nós.

— Vai ser muito ruim — ela disse.

— A imprensa?

— Tudo. A imprensa vai encontrar fotos antigas. Vão falar do meu casamento, da sua relação com Tanya, daquela festa, das viagens, de todas as vezes que estivemos no mesmo evento. Vão entrevistar pessoas que mal nos conhecem.

— Não estou oferecendo apenas ficar ao seu lado quando der errado — expliquei. — Estou dizendo que quero estar com você antes, durante e depois. Nos dias em que não houver fotógrafos, médicos, assessores ou uma crise para resolver.

Aproximei-me mais um passo.

— Quero voltar para sua casa amanhã depois do aniversário. Quero continuar levando seu café, mesmo que agora você tenha decidido que o cheiro de muffins é insuportável. Quero que Emerald continue chamando seu quarto de hóspedes de quarto dela. Quero saber qual foi a primeira coisa que você pensou quando acordou e discutir porque você se recusa a tomar as vitaminas no horário certo.

— Eu tomo as vitaminas.

— Quando alguém coloca na sua frente.

Bella riu, e o som aliviou alguma coisa dentro de mim.

— Você quer retomar de onde paramos.

— Quero continuar. Não voltar como se nada tivesse acontecido.

— Existe diferença?

— Agora sabemos o que estamos fazendo.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Sabemos?

— Sabemos o que queremos fazer. É um avanço.

Bella passou as mãos pelos braços, mas o gesto já não parecia uma proteção. Parecia que tentava conter toda a emoção que aquela conversa despertava.

— Eu quero isso também — admitiu.

Meu coração acelerou.

— Aqueles dias foram a primeira vez em muito tempo que minha casa parecia uma casa — continuou. — Não apenas o lugar onde eu dormia entre um trabalho e outro. Emerald ocupava tudo. Você ocupava tudo.

— Isso parece uma reclamação.

— Mas eu gostava — A última palavra quase não passou de um sussurro. — Eu gostava de acordar sabendo que vocês apareceriam. Gostava de ouvir Emerald no corredor, de encontrar suas coisas no meu banheiro e até de você criticar minha geladeira.

— Ela era bem ruim.

— Edward.

— Desculpe.

Bella balançou a cabeça.

— Eu comecei a imaginar como seria quando o bebê nascesse.

Meu peito apertou de uma forma quase dolorosa.

— E como seria?

— Barulhento, desorganizado. Com Emerald tentando entrar no berço, Jake roubando brinquedos e Alice e Rosalie aparecendo sem avisar.

— Isso vai acontecer independentemente de qualquer coisa.

— Provavelmente.

Um sorriso surgiu lentamente em seu rosto.

— Parecia uma família.

— Porque era uma.

— Ainda não.

— O que falta?

A pergunta a deixou séria.

— Escolher — ela disse.

— Eu escolho você.

— Não dessa forma.

— Como, então?

Bella respirou fundo.

— Não quero uma declaração enorme feita no meio de uma noite emocional. Quero saber que amanhã, quando você receber outra ligação do hospital, isso ainda será verdade. Quando Tanya acordar, quando Emerald estiver assustada, quando sua equipe disser que estar comigo agora é péssimo para sua imagem.

— Vai continuar sendo verdade.

— E quando eu estiver com medo, irritada e desconfiada?

— Também.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu não quero que você prometa que será perfeito.

— Não seria uma promessa minimamente crível.

— Quero que prometa que não vai decidir sozinho que desistir é melhor para mim.

A frase me atingiu no centro do peito. Era exatamente o que eu tinha feito mais de uma vez. Transformara meu medo em sacrifício e esperava que Bella reconhecesse amor no abandono.

— Eu prometo não decidir por você.

— Mesmo que ache que está me protegendo?

— Principalmente nesse caso.

Permaneci em silêncio enquanto ela pensava.

Não havia como saber quanto tempo passou. Alguns segundos, talvez um minuto inteiro. Meu celular permanecia quieto no bolso, o apartamento estava silencioso e, pela primeira vez em dias, eu não sentia que precisava correr para resolver alguma coisa antes que fosse tarde.

Bella estava ali, eu também. E aquela decisão pertencia aos dois.

— Eu quero tentar — disse finalmente.

Meu coração bateu tão forte que tive certeza de que ela conseguia ouvir.

— Tentar o quê?

Bella estreitou os olhos.

— Não faça isso.

— Preciso ouvir claramente. Estamos trabalhando a comunicação.

Ela soltou o ar, mas havia um sorriso pequeno ameaçando surgir.

— Quero tentar ter uma vida com você.

As palavras permaneceram entre nós.

Não eram uma absolvição, não apagavam as pessoas que havíamos machucado, as mentiras que contamos ou o fato de que o mundo ao redor continuava desmoronando. Ainda assim, eram mais do que eu tinha acreditado que receberia naquela noite.

— Eu também quero — respondi.

— Sem usar o bebê para nos obrigar a continuar se percebermos que não funciona.

A possibilidade doeu, mas assenti.

— Nosso filho terá os dois pais, independentemente do que acontecer conosco.

— E Emerald não pode ser colocada no meio.

— Nunca.

Ela me observou atentamente.

— Estamos de acordo. Então, qual é o plano?

— Amanhã contamos para meu pai. Depois do aniversário, conversamos com nossos assessores sobre como lidar com a gravidez caso alguma informação apareça antes que estejamos preparados.

— E sobre nós?

— Nós continuamos.

— Como?

— Como estávamos fazendo. Só que falando.

Bella soltou uma risada.

— Parece simples quando diz assim.

Aproximei-me até que restasse pouco espaço entre nós, mas não a toquei.

— Posso fazer uma pergunta?

— Você fez várias esta noite.

— Posso beijar você?

Os olhos dela desceram para minha boca antes de voltarem aos meus.

— Isso não encerra a conversa.

— Eu sei.

— Não significa que está tudo perdoado.

— Também sei.

— E não quero que use um beijo para evitar qualquer assunto difícil daqui para frente.

— Vou precisar encontrar outro método, então.

Bella tentou conter o sorriso.

— Pode, Edward. Me beije de uma vez.

Toquei seu rosto antes de me inclinar, dando tempo suficiente para que recuasse. Ela não recuou.

O beijo foi lento, quase cuidadoso demais para nós. Não havia a urgência dos encontros escondidos, o medo de sermos interrompidos ou a sensação de que precisávamos condensar meses de saudade em alguns minutos.

Bella segurou minha camisa, e minha outra mão encontrou sua cintura. Quando nos afastamos, ela manteve a testa encostada na minha.

— Vai ser difícil — murmurou e respirou fundo. — Mas eu quero conseguir.

E, naquele momento, não importava que ainda não soubéssemos como contar ao mundo, como Tanya reagiria quando acordasse ou quantas versões da nossa história seriam inventadas.

Tanya e eu já estávamos separados há meses.

Bella e eu já tínhamos começado alguma coisa.

O acidente não mudava nenhuma dessas verdades, embora tornasse todas elas mais difíceis de administrar.

Eu continuaria indo ao hospital porque Tanya era a mãe da minha filha, porque sua família ainda estava longe e porque abandonar alguém naquela situação nunca seria uma opção.

E continuaria com Bella porque era o que eu queria. Não quando a crise terminasse ou quando a imprensa permitisse.

Agora.