Daylight
29 Capítulo 28
Edward
Quando Emerald finalmente adormeceu no meu colo, já era fim de tarde.
O desenho ainda passava na televisão, embora ela tivesse parado de prestar atenção havia quase uma hora. A cabeça dela estava encaixada logo abaixo do meu queixo, com uma das mãos segurando a gola da minha camiseta como se, mesmo dormindo, precisasse garantir que eu não desapareceria.
Eu não me movi. Meu último movimento, na verdade, tinha sido para dizer a Claire que ela poderia ir para casa e que eu ligaria se precisasse dela de novo.
Meu braço estava dormente. Minhas costas doíam. Havia uma xícara de café frio esquecida na mesa de centro e três mensagens não respondidas no celular ao meu lado. Ainda assim, permaneci exatamente onde estava, respirando contra os cabelos dela, porque Emerald tinha chorado duas vezes desde que chegamos em casa e, em ambas, a primeira palavra foi mamãe.
Eu não sabia quantas vezes uma criança podia partir o coração de alguém em um único dia.
— Mamãe dodói — ela tinha repetido mais cedo, como se aquela fosse uma frase que precisava ser testada várias vezes até fazer sentido.
E eu, que deveria ter respostas para ela, só conseguia dizer a mesma coisa.
— É, amor. A mamãe fez dodói no trabalho, mas os médicos estão cuidando dela.
Palavras inúteis quando se tinha menos de dois anos e o mundo ainda deveria ser organizado em coisas simples: fome, sono, colo, beijo, banho, Bluey.
Emerald faria dois anos em menos de uma semana.
O pensamento veio do nada e me atingiu com uma força desproporcional.
Tanya vinha planejando a festa havia semanas.
Não uma festa pequena, porque Tanya nunca soube fazer nada pequeno quando se tratava da filha. Ela tinha mandado referências, escolhido uma paleta de cores, discutido com alguém sobre o formato do bolo e me enviado uma quantidade absurda de imagens de decorações com borboletas, fadas e flores cor-de-rosa.
Eu tinha reclamado do exagero, disse que Emerald ficaria feliz com balões, bolo e meia dúzia de crianças filhas dos nossos amigos.
Tanya respondeu com uma mensagem de voz de quase três minutos explicando que a segunda festa de aniversário da nossa filha não era uma reunião casual de adultos com bolo no canto da mesa e que eu podia cuidar da playlist se quisesse me sentir útil.
Eu não tinha respondido.
Agora, olhando para Emerald dormindo contra mim, senti uma culpa tão idiota quanto inevitável.
Tanya podia ser muitas coisas. Difícil. Orgulhosa. Exaustiva em sua necessidade de controlar cada detalhe. Mas os últimos meses me provaram e evidenciaram, a cada dia, que ela amava nossa filha com uma ferocidade que eu jamais poderia negar. Por Deus, ela tinha até começado a fazer terapia e tratamentos para seu vício em remédios para dormir, dentre todas as coisas.
E talvez, naquele momento, em algum hospital do outro lado do mundo, ela estivesse inconsciente sem saber se ainda chegaria a tempo para a festa que planejou.
Meu celular vibrou na mesa, o som abafado contra a madeira. Olhei para a tela sem pegar o aparelho de imediato.
Minha mãe.
Eu já tinha avisado meus pais durante a madrugada, quando Londres ainda começava o dia e eu mal conseguia organizar uma frase sem sentir que tudo estava escapando das minhas mãos. Em menos de vinte minutos, os dois decidiram que viriam para Los Angeles.
Não pediram permissão. Apenas informaram.
O voo deles devia ter pousado naquele momento.
Peguei o celular com cuidado para não acordar Emerald e atendi em voz baixa.
— Oi, mãe.
— Acabamos de desembarcar — ela disse, sem cumprimento. A voz estava firme demais, o que significava que provavelmente vinha chorando até poucos minutos antes. — Seu pai está tentando descobrir se conseguimos sair do aeroporto mais rápido, de alguma forma. Você está em casa?
— Estou.
— E Emerald?
Baixei os olhos para minha filha.
— Dormindo no meu colo.
Minha mãe soltou uma respiração audível.
— Ela sabe?
A pergunta fez meu peito apertar.
— O que uma criança de quase dois anos consegue saber.
Houve silêncio do outro lado. Atrás dela, ouvi a voz baixa do meu pai falando com alguém, provavelmente um comissário ou atendente, porque Carlisle Cullen era incapaz de entrar em qualquer situação de crise sem tentar simplificá-la.
— Você comeu alguma coisa? — minha mãe perguntou.
Quase ri. Era absurdo como pessoas que nos amavam sempre voltavam ao básico, como se alimentação pudesse ser uma âncora contra tragédias.
— Um pouco.
— Edward.
— Mãe.
— Não comece comigo. Estive presa em um avião pelas últimas horas e isso é péssimo para o meu temperamento.
Dessa vez, eu ri de verdade. Um som baixo, sem alegria, mas real. Emerald se mexeu contra meu peito, incomodada, e passei a mão pelas costas dela.
— Desculpe, amor — murmurei.
Minha mãe ouviu.
— Ela está muito assustada?
Olhei para o rosto da minha filha. Mesmo dormindo, havia uma tensão pequena entre suas sobrancelhas, como se o corpo dela ainda não tivesse decidido se podia relaxar.
— Ela está confusa e muito carente. Pergunta pela Tanya e pela Bella o tempo todo.
Minha mãe ficou em silêncio por meio segundo. Apenas meio segundo, mas conhecendo Esme Cullen, foi o suficiente.
— Bella estava com você?
Encostei a cabeça no sofá e fechei os olhos.
— Estava.
— E ela ajudou com Emerald?
— Sim.
A palavra parecia pequena demais porque Bella tinha feito muito mais do que ajudar.
Bella tinha se ajoelhado diante da minha filha e encontrado palavras quando eu não consegui. Tinha segurado Emerald quando ela acordou no meio da madrugada. Tinha tocado minhas costas enquanto minha vida abria uma nova rachadura. Tinha me beijado no escuro e depois me olhado pela manhã como se nenhum de nós soubesse onde colocar aquilo.
Mas meus pais não sabiam dessa parte.
Eles sabiam apenas que, meses antes, eu tive um envolvimento com Bella. Sabiam que terminou mal. Sabiam que eu voltei diferente depois disso, mais silencioso, mais irritado comigo mesmo, mais destruído do que estava disposto a admitir.
Não sabiam que eu ainda a amava. Ou talvez soubessem, porque os pais tinham um talento inconveniente para enxergar aquilo que tentávamos esconder.
— Ela está bem? — minha mãe perguntou.
A pergunta me atravessou.
— Acho que sim.
— Você acha?
Abri os olhos.
— Não posso falar por ela.
— Não, suponho que não.
Havia algo cuidadoso na voz dela. Não era julgamento, porque minha mãe sempre foi gentil demais para isso. Mas havia preocupação, uma cautela materna que eu reconhecia bem.
— Mãe, eu não consigo falar sobre Bella agora.
— Eu não pedi que falasse, só perguntei se ela estava bem.
— Ela está lidando com uma situação que não deveria ser dela.
Minha mãe suspirou.
— Edward, poucas situações na vida pertencem a uma pessoa só.
Não respondi porque odiava quando ela dizia coisas simples demais para serem contestadas.
Emerald abriu os olhos de repente, ainda pesados de sono, e ergueu o rosto para mim. Ela piscou lentamente, olhando ao redor como se tentasse lembrar onde estava.
— Vovó?
Meu coração apertou de novo. Ela tinha ouvido a voz da minha mãe.
— Sim, amor. É a vovó.
Coloquei o telefone no viva-voz, perto dela.
— Oi, meu anjo — minha mãe disse, e sua voz quebrou quase imperceptivelmente.
Emerald encostou a bochecha no meu peito outra vez.
— Vovó vem?
— Estou indo te ver, meu amor. Eu e o vovô.
— De avião?
— Isso, eu vim de avião.
Emerald pareceu processar aquilo com lentidão, ainda meio dormindo.
— A mamãe vem com a vovó?
Minha mãe ficou muda. Apertei Emerald um pouco mais contra mim.
— A mamãe ainda precisa ficar com os médicos — respondi antes que minha mãe precisasse tentar. — Lembra?
O lábio inferior dela tremeu.
— Mas eu quero a mamãe.
Fechei os olhos. Não havia nada no mundo que eu odiasse mais do que não poder dar à minha filha exatamente o que ela pedia naquele momento.
Eu ouvi minha mãe chorar do outro lado. Um som minúsculo, sufocado, que ela tentou esconder imediatamente.
— Estamos torcendo para a mamãe melhorar e voltar logo — falei.
Emerald não entendeu a resposta. Ainda assim, aceitou meu abraço, porque eu era o pai dela e, para ela, isso ainda significava alguma coisa inabalável.
Pelo menos por enquanto.
— Vou deixar você cuidar dela — minha mãe disse, com a voz mais baixa.
— Espero vocês aqui.
— Sim, filho. Devemos chegar em cerca de uma hora. Edward?
— Sim?
— Você não precisa fazer tudo sozinho até chegarmos.
Olhei para Emerald, para a tela apagada da televisão, onde Bluey tinha parado havia algum tempo, esperando que alguém apertasse o play e percebi que, na verdade, eu não sabia, mas estava tentando aprender.
A ligação terminou e a casa voltou ao silêncio.
Emerald não voltou a dormir completamente, mas ficou quieta no meu colo. Era raro vê-la assim. Minha filha era uma criança em constante movimento, riso alto, pernas pequenas correndo pela casa com um senso de direção duvidoso. Mas naquele dia ela parecia contida, como se tivesse percebido que alguma coisa grande demais tinha entrado na nossa vida e ainda estivesse tentando entender onde aquilo ficava.
— Vamos comer alguma coisa? — perguntei.
Ela balançou a cabeça contra mim.
— Banana.
— Banana de novo? Você e Bella vão falir a indústria de bananas.
Emerald levantou a cabeça ao ouvir o nome dela.
— Bewa?
Meu peito apertou.
— A Bella está na casa dela.
— Bewa vem?
A pergunta parecia simples. Não era.
— Não agora.
Ela franziu a testa.
— Depois?
Passei o polegar pela bochecha dela.
— Talvez.
Talvez era outra palavra que eu começava a odiar.
Levei Emerald para a cozinha no colo, porque ela se recusou a descer. Descasquei uma banana com uma mão, cortei em pedaços desiguais e coloquei em um prato infantil que Tanya tinha comprado porque combinava com uma tigela, um copo e uma colher que ninguém usava.
Ela, sentada na bancada, comeu dois pedaços antes de empurrar o prato na minha direção.
— Não quer mais?
Ela balançou a cabeça.
— No colo.
Peguei-a de novo.
Meu celular tocou antes que eu conseguisse sair da cozinha e a visão do nome de Kate na tela fez meu estômago afundar automaticamente. Atendi de imediato.
— Edward, você pode falar?
Olhei para Emerald, que encostou a cabeça no meu ombro.
— Sim.
— Os médicos acabaram de nos atualizar aqui, ela segue estável.
Fechei os olhos.
Estável.
A palavra não era boa o suficiente para aliviar, mas também não era ruim o suficiente para destruir. Então me agarrei a ela.
— Ainda estão mantendo a sedação. A pressão intracraniana não piorou nas últimas horas, o que eles consideram positivo. Mas continuam cautelosos, não querem fazer previsões.
— E a transferência?
— Ainda em avaliação. A equipe de transporte está pronta, mas eles só autorizam se ela permanecer estável por mais algumas horas.
Apoiei uma das mãos na bancada.
— Então pode ser hoje?
— Pode, mas também pode ser amanhã.
— E as fraturas?
— Vão tratar depois que a parte neurológica estiver mais segura. A perna vai exigir cirurgia, mas não é prioridade agora.
Meu cérebro parecia uma mesa cheia de papéis que alguém tinha jogado para o alto. Kate continuou falando sobre as ações práticas, mas minha cabeça estava longe. Quando desligamos, eu não sabia se ela tinha dito algo importante nos últimos cinco minutos.
Emerald tocou meu rosto.
— Papai triste.
Não era uma pergunta dessa vez. Forcei uma respiração.
— Estou um pouco triste sim, amor.
Ela franziu a testa, pensativa, e então se inclinou para beijar minha bochecha com a boca suja de banana.
— Agora feliz?
Meu coração quebrou de uma forma tão silenciosa que ninguém além de mim ouviu. Segurei-a contra o peito e beijei seus cabelos.
— Sim, muito feliz — menti.
Ela aceitou isso também, porque ainda acreditava que o mundo podia ser consertado com beijo. E eu, pela primeira vez em muito tempo, não tentei decidir a vida inteira de uma vez.
Apenas segurei minha filha.
Ela estava ali. Eu estava ali. Por enquanto, isso precisava bastar.
Algumas horas depois, meu apartamento já não parecia mais exatamente meu.
Minha mãe tinha essa habilidade de ocupar espaços em silêncio, mas ainda assim alterar completamente a sensação deles. Em menos de vinte minutos depois de chegar, ela tinha tirado a jaqueta, colocado uma chaleira no fogo e me olhado pelo menos quatro vezes como se estivesse tentando decidir se eu precisava comer, dormir ou ser desmontado e remontado do zero.
Meu pai, por outro lado, estava sentado à mesa da cozinha com o notebook aberto, os óculos na ponta do nariz e uma expressão concentrada como alguém que estava consultando voos, hospitais e horários internacionais. Ele tinha falado com dois médicos em Londres, um em Los Angeles e outro que, pelo que entendi, conhecia alguém no Marrocos.
Carlisle Cullen nunca entrava em pânico, ele resolvia o que estava a seu alcance. Eu invejava isso mais do que deveria.
Emerald estava no tapete da sala, de pijama limpo, sentada entre minha mãe e uma pilha de blocos coloridos. Ainda parecia cansada, mais quieta do que de costume, mas pela primeira vez desde que saí da casa de Bella, não estava grudada em mim como se eu fosse desaparecer no segundo em que ela piscasse.
— Vovó faz — ela exigiu, empurrando um bloco azul para minha mãe.
Esme pegou a peça com solenidade.
— Claro. Uma torre azul?
— Azul e alta!
Emerald assistiu com a seriedade de uma arquiteta supervisionando uma obra importante.
Era estranho ver meus pais ali. Não porque eles não tivessem estado presentes antes. Eles sempre foram. Quando Emerald nasceu, minha mãe chegou ao hospital em tempo recorde e chorou mais do que Tanya na primeira vez que a segurou. Meu pai ficou sentado ao lado do berço por quase uma hora, em silêncio, como se estivesse estudando um milagre.
Meu celular vibrou na minha mão. O movimento foi tão rápido que meu pai ergueu os olhos antes mesmo que eu desbloqueasse a tela.
Mas não era a Kate com notícias.
De: Bella Swan
Como a Emerald está?
Olhei para minha filha, concentrada na torre em construção e apontando quais eram os próximos blocos a serem adicionados.
De: Edward Cullen
Melhor.
Ainda pergunta pela mãe, mas se acalmou quando meus pais chegaram.
A resposta veio alguns segundos depois.
De: Bella Swan
Que bom.
E como você está?
Era ridículo como duas palavras podiam ser mais perigosas do que qualquer declaração. Bella não perguntou por educação. Se perguntou, era porque queria a resposta verdadeira.
Pensei por um segundo no que poderia dizer.
Estou esperando alguém me ligar para dizer se a mãe da minha filha vai acordar? Não. Estou tentando não lembrar que beijei você ontem porque, se eu lembrar, talvez eu volte correndo? Pior ainda. Estou com medo de que tudo isso exploda e te leve junto? Provavelmente ela já tinha pensado nisso. Estou com saudade, embora tenha saído da sua casa há poucas horas, o que é patético até para mim? Muita pressão.
De: Edward Cullen
Cansado, mas melhor com eles aqui.
Não era mentira, mas também não era a verdade completa.
De: Bella Swan
Não esqueça de se alimentar.
Nada de comer as sobras das bananas da Emerald e achar que conta como refeição!
E me avise se tiver notícias.
Sorri sem perceber, mas minha mãe percebeu. Quando levantei os olhos do celular, ela ainda equilibrava blocos na torre, mas parte de sua atenção estava em mim.
— Bewa? — Emerald perguntou, apontando para o aparelho na minha mão.
Minha mãe olhou para ela, depois para mim.
— O que foi, meu amor?
Engoli em seco antes de responder.
— Sim, era a Bella no telefone.
Ela pareceu satisfeita com a resposta e voltou aos blocos. Minha mãe, naturalmente, não.
— Ela tem perguntado muito pela Bella? — perguntou em voz baixa, enquanto encaixava o bloco amarelo no topo da torre.
Suspirei.
— Sim, mãe. Ela pergunta bastante.
Emerald bateu palmas quando a torre não caiu.
— Alta!
— Muito alta — Esme concordou, sorrindo para ela. Depois olhou para mim outra vez. — Elas se aproximaram?
A pergunta era simples. A resposta, não.
— Sim.
Emerald tentou colocar outro bloco sozinha e derrubou metade da torre. Por um segundo, pareceu à beira do choro. Esme reagiu rápido, colocando uma das peças em sua mão.
— Tudo bem. A gente constrói de novo.
Algumas coisas podiam ser reconstruídas. Torres de blocos. Rotinas. Talvez até uma festa infantil com decoração cor-de-rosa.
Outras, eu ainda não sabia.
Meu celular vibrou novamente.
— Edward, os médicos autorizaram a transferência.
Por um segundo, não consegui responder. A frase parecia boa, eu sabia que era boa. Mas meu corpo, exausto demais para confiar em qualquer coisa, não conseguiu transformá-la em alívio imediato.
— Autorizaram? — repeti, como se talvez tivesse entendido errado.
— Sim. Ela permaneceu estável nas últimas horas, os sinais vitais estão respondendo bem e a equipe acredita que a remoção é possível com suporte médico completo.
Possível.
— Quando?
— Estão organizando agora. Se nada mudar, ela deve sair nas próximas horas.
Meu pai se levantou lentamente da mesa, atento a cada palavra que conseguia captar da minha parte da conversa.
— Quantas horas de voo? — perguntei.
— Com escala técnica e a equipe médica monitorando tudo, pode levar bastante. Não é como um voo comercial, Edward. Eles precisam garantir que haja suporte durante todo o trajeto e que a condição dela se mantenha estável.
Fechei os olhos por um instante.
Claro que não era simples. Nada naquele dia seria simples.
— Existe risco dela piorar durante o voo?
— Existe risco em qualquer transferência de paciente crítico — ela respondeu. — Eles só autorizaram porque acreditam que os benefícios superam os riscos. Aqui ela está recebendo cuidados, mas em Los Angeles terá a equipe dela, especialistas de confiança e a família por perto.
Olhei para Emerald. Ela não entendia palavras como paciente crítico ou transferência, mas entendia meu tom de voz.
— Edward, eles querem saber se você estará no hospital quando Tanya chegar.
A resposta não deveria ser difícil, mas minha filha estava a três metros de mim, assustada e presa à uma rotina que tinha sido remendada às pressas. Meus pais tinham acabado de chegar de outro continente. Bella estava sozinha, esperando que eu resolvesse meus problemas para poder tomar as decisões sobre nós dois. E eu continuava tendo apenas um corpo.
— Sim — respondi, antes que pudesse pensar demais. — Eu vou. Assim que houver um horário mais concreto, me avise. Não quero ficar no hospital por horas se ela ainda estiver no ar.
— Eu sei. Vou te mandar atualizações por mensagem. Decolagem, previsão de chegada, qualquer mudança.
— Como ela está agora?
— Sedada, estável o suficiente para a transferência. Ainda grave.
Assenti, embora Kate não pudesse ver. Minha cabeça tentou transformar aquilo em uma lista.
— Edward? — Kate chamou, mais baixo.
— Estou aqui.
— Tem outra coisa, alguns jornalistas já sabem que houve um acidente. Não temos muito tempo antes que algo saia.
Meu estômago se fechou.
— Eles sabem que é a Tanya?
— Alguns provavelmente já sabem. Até agora não vi nada publicado, mas isso pode mudar a qualquer momento.
Quando a ligação terminou, permaneci parado com o celular na mão. O apartamento inteiro parecia suspenso.
Meu pai foi o primeiro a se aproximar.
— A transferência foi autorizada?
Assenti. Ele soltou o ar devagar, como se estivesse organizando riscos invisíveis diante de si.
— Isso é positivo.
— É?
Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia, mas meu pai não se ofendeu.
— Sim. Não significa que não há risco, mas se autorizaram o transporte, é porque há estabilidade suficiente para considerar que ela pode suportar a viagem.
— Kate disse que ela continua grave.
— Grave e estável não são opostos, filho.
Passei a mão pelo rosto. Eu odiava como frases médicas podiam ser tranquilizadoras e inúteis ao mesmo tempo.
Minha mãe se levantou do tapete com Emerald no colo. Eu nem tinha percebido quando minha filha passou para os braços dela.
— O que aconteceu? — Esme perguntou, embora já tivesse entendido o suficiente.
— Tanya será transferida para cá.
Emerald ergueu a cabeça imediatamente.
— Minha mamãe?
A pergunta atravessou a sala como uma lâmina.
— Ainda não.
Seu lábio inferior tremeu.
— Quero a mamãe agora.
Meu coração se partiu outra vez, no mesmo lugar, quando ela começou a chorar de novo. Era um choro baixo, cansado, quase sem força. Como se também estivesse exausta de pedir a mesma coisa e receber respostas que não resolviam nada. Esme a apertou contra o peito, balançando-a devagar.
— Shh, meu bem.
Ela enterrou o rosto no pescoço da avó enquanto assistimos, impotentes, seu corpo balançar com os soluços.
Quanto mais uma criança tão pequena conseguia suportar antes de começar a entender que existem dores que não se curavam com um beijo?
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