Daylight
28 Capítulo 27
Bella
Às duas da manhã em Los Angeles, médicos no Marrocos ainda circulavam pelos corredores discutindo exames, pressão intracraniana e protocolos de estabilização enquanto Edward recebia ligações encostado na bancada da minha cozinha com o rosto de alguém que estava tentando permanecer funcional por pura força de vontade.
Eu não dormi.
Ele também não.
Em algum momento depois da meia-noite, nós finalmente conseguimos convencer Emerald a permanecer dormindo no quarto. Depois disso, minha casa mergulhou naquela quietude estranha de madrugada onde qualquer som parecia importante demais.
A culpa me atingiu em ondas confusas naquela noite.
Parte de mim sofria por Edward. Outra parte sofria por Emerald. Outra parte sofria até por Tanya, porque ninguém merecia acordar, se acordasse, num hospital após um acidente daquele tamanho.
E existia ainda a pior parte de todas: a parte egoísta e horrível que observava Edward atravessar aquele inferno enquanto permanecia na minha casa, usando minha cozinha, dormindo no meu sofá entre uma ligação e outra, e percebia que talvez tragédias aproximassem pessoas de maneiras perigosas.
Às quatro da manhã, encontrei ele sentado sozinho no escuro da sala, olhando fixamente para o celular apagado nas mãos.
— O voo deve sair em algumas horas.
Edward virou o rosto na minha direção então, como se tivesse percebido exatamente a direção dos meus pensamentos.
— Não vou deixar ninguém transformar isso em culpa sua.
Meu coração tropeçou irritantemente.
— Edward—
— Estou falando sério.
Sustentei o olhar dele por alguns segundos antes de desviar, porque havia intensidade demais ali para quatro da manhã. Porque meu corpo inteiro ainda reagia àquele homem de maneiras ofensivas. Porque eu estava grávida dele e vulnerável e aquilo parecia uma combinação criada especificamente para destruir o que restava da minha dignidade.
Mas Edward parecia determinado a não me deixar ir e eu percebi exatamente o que ele estava fazendo. E não fiz nada para evitar.
Ele colocou o celular sobre a mesa de centro devagar, sem tirar os olhos de mim nem por um segundo. A sala estava quase completamente escura, iluminada apenas pela luz fraca que entrava da varanda, desenhando sombras cansadas no rosto dele.
Meu coração batia rápido demais.
Talvez porque o homem que eu amava estivesse sentado sozinho às quatro da manhã tentando segurar a própria vida pelas mãos enquanto a mãe da filha dele atravessava um oceano inconsciente. Ou talvez porque Edward Cullen sempre tivesse sido minha maior fraqueza.
— Vem cá.
Meu corpo reagiu antes da parte racional do cérebro conseguir protestar.
Caminhei até o sofá quase em câmera lenta e sentei ao lado dele, deixando alguns centímetros de distância entre nós numa tentativa patética de preservar qualquer ilusão de autocontrole. Edward observou aquilo por aproximadamente dois segundos antes de segurar minha mão.
— Estou tão cansado de sentir que tudo pode desaparecer o tempo inteiro.
As palavras atingiram diretamente o lugar mais vulnerável dentro de mim.
Eu as entendia perfeitamente. Passei semanas vivendo aterrorizada com exames, sangramentos e ultrassons. Aterrorizada com a ideia de amar tanto alguma coisa a ponto de o universo perceber e decidir arrancá-la de mim.
Edward ergueu a mão livre devagar e tocou meu rosto, com cuidado, como se ainda estivesse esperando que eu me afastasse. Mas eu não me afastei.
Meu corpo inteiro ainda reconhecia aquele homem como casa, mesmo depois de todo o estrago.
Os dedos dele deslizaram pela minha bochecha lentamente e meu coração batia tão forte que chegava a ser irritante.
Eu deveria ter interrompido aquilo. Deveria ter lembrado a nós dois que estávamos vulneráveis, assustados e emocionalmente destruídos demais para tomar qualquer decisão importante às quatro da manhã.
Mas então Edward encostou a testa na minha e foi o fim da minha resistência.
Fechei os olhos imediatamente, soltando o ar quando senti a respiração dele tão perto da minha.
— Se você quiser que eu pare, eu paro — murmurou.
A frase deveria ter me feito sentir no controle mas, em vez disso, só piorou tudo.
Ele estava me dando escolha, estava sendo gentil. E eu ainda o amava tanto que chegava a ser ofensivo para todas as outras pessoas do mundo. E, honestamente, talvez eu tivesse perdido aquela batalha muito antes daquele momento.
Então fui eu quem fechou a distância.
O beijo começou devagar, quase hesitante, como se nós dois estivéssemos tentando lembrar como fazer aquilo sem destruir tudo outra vez.
Mas no segundo em que a boca dele se moveu de verdade contra a minha, alguma coisa dentro de mim simplesmente desmoronou.
Saudade. Uma saudade tão violenta, quase física.
Edward soltou um som baixo contra minha boca e segurou meu rosto com as duas mãos, me puxando para mais perto como se também estivesse perdendo o controle lentamente. Minhas mãos agarraram a camiseta dele quase por instinto.
Aquilo era uma ideia terrível.
O mundo estava desmoronando ao nosso redor.
Mas naquele instante, sentada no escuro da minha sala enquanto o homem que eu amava me beijava como se estivesse tentando se convencer de que eu ainda era real, absolutamente nada pareceu mais importante.
Edward aprofundou o beijo por um segundo, esquecendo por completo onde terminava o medo e começava a necessidade.
E eu odiei o quanto aquilo fazia sentido.
O quanto ele ainda encaixava em mim de forma tão natural que parecia absurdo termos passado meses fingindo o contrário.
A mão dele deslizou devagar para minha nuca, e eu senti meu corpo inteiro reagir antes mesmo de conseguir pensar.
Era perigoso, familiar demais. Era tudo o que eu tinha tentado evitar e, ao mesmo tempo, tudo o que eu tinha sentido falta.
Edward recuou só o suficiente para encostar a testa na minha, respirando pesado. Os olhos dele abriram e havia algo ali que me desarmou mais do que o beijo.
Alívio. Como se, por alguns segundos, ele tivesse parado de cair.
— Bella… — a voz saiu quebrada.
Meu coração ainda batia rápido demais.
Eu deveria me afastar, eu sabia disso. Deveria colocar distância entre nós antes que aquilo virasse mais uma coisa complicada em um dia que já estava muito complicado.
Mas minhas mãos ainda estavam na camiseta dele e o mundo lá fora ainda parecia distante demais para importar.
— Isso não resolve nada — murmurei, mais para mim do que para ele.
Edward soltou uma risada baixa, sem humor.
— Eu sei, mas você não pode negar que foi bom.
Nenhum de nós se afastou, nem um centímetro, e ficamos assim por alguns segundos longos demais, respirando o mesmo ar e tentando lembrar como funcionar em qualquer outra frequência que não fosse essa.
E então ouvimos a voz sonolenta e completamente alheia ao apocalipse que vinha do cômodo ao lado.
— Papai?
Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta e Edward fechou os olhos por um segundo, encostando a testa na minha como se estivesse tentando não rir nem desmoronar ao mesmo tempo.
— Salvos por dois anos de idade — ele murmurou.
Antes que eu conseguisse responder, ele já tinha se afastado o suficiente para parecer minimamente composto. Emerald apareceu na entrada da sala, esfregando os olhos com uma mão e segurando o coelho de pelúcia com a outra.
— Não consigo dormir — anunciou com a autoridade de quem estava apresentando um problema enorme.
Edward passou a mão pelo rosto rapidamente e se agachou na altura dela.
— O que aconteceu, amor?
Emerald apontou para mim como se eu fosse parte da solução.
— Quero dormir com a Bewa.
Engoli em seco.
Ela caminhou até nós com passos lentos e se encostou no meu joelho sem cerimônia, como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo para parar, e qualquer resquício do que tinha acontecido segundos antes pareceu ainda mais irreal.
Meu coração apertou imediatamente e, na expressão de Edward, o que estava claro era o conflito: o impulso de corrigir versus aceitar aquele pedido.
Abaixei na altura dela.
— Emmie, por que você saiu do quarto?
Ela deu de ombros, como se fosse uma pergunta que não fazia sentido. Ótimo. Minha vida inteira parecia estar sendo administrada por coincidências perigosas. Respirei fundo.
— Você não deveria ter saído sozinha — pontuei, com toda paciência que consegui. — Está escuro no corredor, você precisa chamar o papai ou a Bella quando isso acontecer, tudo bem?
Ela piscou lentamente.
— Mas você não tá lá.
A lógica dela era simples demais para ser derrotada e devastadora demais para ser ignorada. Edward soltou uma risada curta pelo nariz, sem humor.
— Tudo bem, vamos lá dormir. Juntas.
Emerald abriu os braços imediatamente e veio para o meu colo, se acomodando como se sempre tivesse sido assim. Ela soltou um suspiro longo, satisfeito, e encostou a cabeça no meu ombro sem resistência nenhuma.
Edward ficou parado por um instante, nos observando, e algo na expressão dele mudou — não sumiu, não resolveu, mas recuou.
Ali, naquele momento, não havia espaço para mais nada: nós, o que ainda não tinha nome, os problemas do dia. Só havia espaço para aquela garotinha e sua dificuldade para dormir.
Caminhei com ela no colo até o quarto, percebendo como a casa inteira parecia mais silenciosa agora.
Coloquei seu corpinho na minha cama com cuidado, puxando o cobertor enquanto ela já se acomodava sem esforço nenhum, como se tivesse pertencido ali desde sempre.
Me deitei ao seu lado e ela segurou minha mão por um segundo.
— Bewa fica.
Era quase um sussurro.
— Fico, claro que fico — respondi.
Ela relaxou imediatamente e, em menos de um minuto, estava dormindo de novo. Eu fiquei ali parada por um tempo, observando a respiração dela desacelerar, sentindo o peso do dia inteiro finalmente chegar ao meu corpo.
Quando Edward apareceu na porta, com o cobertor dela nas mãos, parou ao ver a cena. Nós dois sabíamos que qualquer coisa dita ali seria demais.
E por alguns segundos, tudo o que existia entre nós dois foi reduzido a uma criança dormindo entre decisões que ainda não estavam prontas para serem tomadas.
Ele se aproximou e se acomodou ao nosso lado, mas não me beijou de novo. Eu não me afastei.
Mas também não fizemos nada além de ficar ali, até finalmente sermos alcançados pelo sono.
A luz da manhã pintava o quarto, tornando-o um espaço quase etéreo. Limpo, calmo, tranquilo.
Foi uma pena que aquela tranquilidade não tivesse durado mais que cinco minutos depois que abri os olhos, porque no segundo em que minha consciência voltou completamente, a realidade caiu em cima de mim como um piano que despencou de uma boa altura.
Tanya. Acidente. Hospital. Imprensa.
E o fato de que Edward Cullen estava dormindo na minha cama outra vez.
Emerald ainda estava entre nós dois, espalhada na horizontal como se fosse dona do espaço inteiro do colchão. O cabelo dourado ocupava metade do travesseiro e uma das pernas pequenas estava perigosamente atravessada sobre o abdômen do pai.
Edward dormia profundamente pela primeira vez em horas, com uma das mãos repousando perto da filha como se mesmo inconsciente ainda precisasse garantir que ela estava ali.
Parecia uma manhã qualquer de uma vida que nunca existiu de verdade. Era tão fácil imaginar que aquele era o começo de alguma coisa.
Fechei os olhos por um instante e as lembranças voltaram com uma nitidez ofensiva. A mão dele no meu rosto. A testa encostada na minha. A voz rouca dizendo que pararia se eu quisesse. E eu, que aparentemente tinha construído todas as minhas defesas com papel molhado, atravessando a distância entre nós como se nunca tivesse havido motivo algum para mantê-la.
Toquei os lábios com a ponta dos dedos antes que pudesse impedir.
Eu tinha beijado Edward.
Não apenas beijado. Eu tinha me agarrado a ele como se isso fosse necessário para conseguir respirar. E o pior era que eu não conseguia me arrepender.
Eu queria. Queria muito acordar tomada por uma clareza moral impecável, sentar na cama, apontar para a porta e dizer que aquilo não poderia se repetir. Que a noite anterior tinha sido um erro nascido do medo, da exaustão e da tragédia. Que nós dois estávamos vulneráveis demais para confundir conforto com amor.
Mas seria mentira. Eu não tinha confundido nada, nem ele.
Emerald se mexeu entre nós, resmungando alguma coisa, e empurrou o pé contra a barriga de Edward. Ele franziu a testa ainda dormindo, murmurou algo e passou a mão nas costas dela.
Eu odiava o quanto essa versão dele me afetava.
Edward como pai parecia atravessar todas as camadas de raiva que eu ainda tentava manter intactas. Não porque anulasse o que ele fez, não porque transformava aquela dor em perdão, mas porque mostrava uma parte dele que eu sabia ser real. Uma parte constante, devotada e inteira.
E eu queria acreditar que essa parte também poderia existir para mim.
Foi esse pensamento que me fez sair da cama.
Devagar, para não acordar Emerald, deslizei para fora. Quando olhei de volta, Edward estava com os olhos abertos, me encarando do outro lado da cama, ainda meio perdido de sono, com o rosto amassado contra o travesseiro.
— Bom dia — ele murmurou, com a voz rouca.
Meu corpo reagiu de forma humilhante àquele tom.
— Não sei se existe alguma coisa boa nele ainda.
A expressão dele mudou e o sono desapareceu quase por completo quando a realidade o atingiu.
— Alguma notícia?
Balancei a cabeça.
— Não desde a última ligação.
Ele respirou fundo, como se tivesse acabado de lembrar onde estava, quando estava, por que estava. Seu olhar foi imediatamente para Emerald, depois para mim, depois para o celular sobre a mesa de cabeceira.
— Quanto tempo eu dormi?
— Algumas horas. São quase dez da manhã agora.
— Você dormiu?
— O suficiente para cometer o erro de acordar.
A boca dele quase se curvou, mas não chegou a ser um sorriso.
Emerald resmungou outra vez, virou de lado e enfiou o rosto no travesseiro dele. Edward passou os dedos pelos cabelos dela de forma tão delicada que meu coração fez um salto estúpido dentro do peito.
— Eu deveria ter ido para o sofá — ele disse, baixo.
Lá estava. O arrependimento. Cruzei os braços, porque precisava fazer alguma coisa com as mãos.
— Edward, não.
— Eu só ia dizer que sinto muito.
Soltei uma risada sem humor.
— Por qual parte exatamente?
Ele ficou em silêncio e eu me arrependi da pergunta no mesmo instante, mas não a retirei. Talvez porque parte de mim quisesse que ele respondesse. Talvez porque parte de mim precisasse ouvir se o beijo já estava sendo colocado na mesma categoria de todas as coisas pelas quais ele se desculpava.
Edward olhou para Emerald antes de falar, como se precisasse se lembrar de manter a voz baixa.
— Não pelo beijo.
Meu coração tropeçou. Eu realmente precisava ver um cardiologista.
— Eu sinto muito pelo contexto. Por ter deixado você carregar mais uma coisa minha, por ter transformado sua casa em um lugar onde você precisou cuidar de mim, dela, de tudo. Mas não sinto muito por ter beijado você.
Fiquei imóvel enquanto a frase entrava em mim devagar, encontrando todos os lugares errados. Eu deveria ter dito que ele não tinha esse direito, que era egoísta falar aquilo naquela manhã, com Tanya entre a vida e a morte e Emerald dormindo entre nós. Que nós não podíamos nos permitir esse tipo de coisa agora.
Mas a verdade era que uma parte horrível de mim queria ouvir exatamente aquilo. Queria saber que não tinha sido só medo. Que não tinha sido só Edward procurando qualquer coisa para segurá-lo enquanto tudo ameaçava cair.
— Isso não torna as coisas menos complicadas — falei.
— Eu sei.
— Então por que dizer?
Edward passou a mão livre pelo rosto, cansado de um jeito que ia muito além da falta de horas de sono.
— Porque eu passei tempo demais mentindo para você por omissão. Sobre o que eu sentia, sobre o que eu queria, sobre o que eu estava disposto ou não a enfrentar. Eu não quero fazer isso de novo.
A raiva veio rápido, como uma faísca. Não de forma explosiva, mas incrivelmente familiar.
— Essa sinceridade tardia não é uma virtude, Edward.
Ele absorveu as palavras sem se defender.
— Você tem razão.
Era quase irritante o quanto ele vinha ficando bom em não reagir do jeito errado. Eu queria discutir com o Edward antigo, queria que ele tentasse justificar alguma coisa, que dissesse que era tudo mais difícil do que eu entendia, que me desse uma desculpa para empurrá-lo para longe.
Mas ele não fazia isso. Ele só ficava ali, com a culpa exposta e o amor estampado no rosto, tornando minha vida infinitamente mais difícil.
Antes que eu pudesse responder, o celular dele vibrou na mesa e o som atravessou o quarto como um corte. Edward se moveu imediatamente, pegando o aparelho antes que tocasse uma segunda vez. Emerald se mexeu com o barulho, mas não acordou completamente.
O nome na tela não apareceu para mim, mas eu soube pela expressão dele.
— Kate?
Fiquei parada. O quarto, que segundos antes parecia íntimo demais, voltou a ser exatamente o que era: um lugar temporário em meio a uma emergência. Edward caminhou até a janela, passando a mão pelo cabelo.
— Sim, estou ouvindo.
A voz de Kate era baixa demais para que eu entendesse as palavras, mas entendi a reação dele. Meu estômago afundou.
— Mas ela está estável?
Emerald escolheu essa hora para abrir os olhos.
— Papai?
Edward virou imediatamente, a expressão tentando se recompor com uma velocidade que quase me partiu o coração.
— Shh, ele está falando ao telefone, mas já volta para ficar com você — me aproximei dela.
Ela sentou na cama, ainda sonolenta, com o cabelo completamente bagunçado. Olhou para mim, depois para o pai, depois para o celular.
— Mamãe?
Edward não conseguiu responder rápido o suficiente, então me sentei ao lado dela na cama e toquei seu joelho, tentando trazê-la de volta ao assunto sem assustá-la.
— A mamãe ainda está com os médicos, lembra?
Emerald franziu a testa. A lembrança parecia existir em algum lugar nebuloso, misturada ao sono e à falta de compreensão. Ela olhou para Edward de novo. Ele estava ouvindo Kate, mas seus olhos estavam presos na filha, e havia tanto desespero ali que precisei respirar fundo.
— Entendi — ele disse ao telefone. — E a transferência?
Pausa.
— Certo. Me avise assim que confirmarem. E os pais dela? — Outra pausa. — Não, não vamos falar com imprensa nenhuma. Nada.
Emerald se aproximou de mim, encostando a lateral do corpo na minha. Passei o braço ao redor dela antes de pensar se deveria. A ligação terminou alguns segundos depois, mas Edward permaneceu de pé junto à janela, segurando o celular com força demais.
— Ela precisou de uma cirurgia durante a madrugada — disse, enfim.
Meu coração desceu para o estômago.
— Os médicos encontraram uma hemorragia interna. O impacto causou sangramento em um órgão, ou perto dele, não entendi todos os detalhes. Eles precisaram operar para conter a perda de sangue, mas deu certo.
— Isso é bom, certo?
Ele assentiu, mas o movimento foi quase mecânico.
— É, é bom — Mas nada no rosto dele parecia aliviado. — Eles ainda estão preocupados com o trauma na cabeça.
Emerald se apertou contra o meu peito.
— A mamãe vem?
Edward fechou os olhos por meio segundo e vi o instante exato em que ele percebeu que não sabia como responder. Não porque não quisesse, mas porque não havia resposta que ela pudesse entender.
— A mamãe precisa ficar no hospital mais um pouco, amor — ele disse, se aproximando da cama e se agachando diante dela. — Mas tem muita gente cuidando dela.
Emerald olhou para ele por alguns segundos longos e, então, seu lábio inferior tremeu com o choro que estava se iniciando.
— Quero a minha mamãe.
Edward desmoronou. Ele não chorou, mas alguma coisa nele cedeu, e isso foi quase pior.
— Eu sei — ele sussurrou, puxando-a para o colo. — Eu sei, amor. Eu também queria que ela estivesse aqui.
As palavras eram tão sinceras, mas não da forma que me machucaria antes. Ele não falava como um homem dividido romanticamente entre duas mulheres, mas como o pai da filha de Tanya. Como alguém que tinha compartilhado anos, uma casa, uma criança, uma vida. Como alguém que, mesmo separado, ainda estava ligado a ela por uma história que não podia simplesmente ser apagada.
Senti uma vergonha súbita da minha própria confusão, por ter ousado transformar aquela noite em algo sobre nós enquanto Emerald chorava pela mãe. Levantei da cama, desesperada para me afastar.
— Vou preparar alguma coisa para o café da manhã.
Edward olhou para mim.
— Bella, você não precisa—
— Eu preciso.
Saí antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Na cozinha, sozinha, apoiei as duas mãos na bancada e respirei fundo. Meu corpo inteiro parecia feito de nervos expostos.
Abri a geladeira e encarei os potinhos de comida de Emerald que Edward tinha guardado no dia anterior como se eles fossem uma metáfora particularmente cruel.
A filha dele estava na minha cama.
O medo dele estava por todos os lados da minha casa.
E o bebê dele estava dentro de mim.
Segurei a borda da pia, tentando não chorar. Eu não era uma vítima daquela situação. Tanya estava sedada em um hospital, entre a vida e a morte. Emerald queria a mãe. Edward estava preso em uma corrente de responsabilidades, culpa e terror que eu nem sabia como nomear.
Mas eu também estava ali, completamente sem saber qual era o meu lugar.
A chaleira começou a apitar, embora eu não me lembrasse de tê-la ligado. Desliguei o fogo rápido demais e fechei os olhos quando uma tontura leve me atingiu.
Quando finalmente olhei para trás, Emerald estava no colo de Edward, com o rosto escondido no pescoço do pai. O cabelo dela parecia ainda mais claro contra a camiseta escura dele. Quando ela se virou para mim, seus olhinhos estavam vermelhos, mas ela não chorava mais.
Edward olhava para mim de um jeito que me fez querer atravessar a cozinha e abraçá-lo de novo. Exatamente por isso, permaneci onde estava.
— Você precisa comer também — ele disse.
Soltei uma risada curta.
— Impressionante como você consegue lembrar disso no meio de um desastre.
— Lembrar de você não é difícil.
Emerald se mexeu no colo dele, salvando-nos pela segunda vez em poucas horas.
— Banana, Bewa?
— Banana — concordei, agradecida por qualquer assunto que envolvesse fruta e não o colapso da minha vida.
Peguei uma banana da fruteira e a entreguei a Edward. Ele descascou com uma mão, numa habilidade que eu só podia atribuir à prática paterna, e ofereceu pedaços pequenos para Emerald.
Ela comeu em silêncio, ainda grudada nele.
A cena dos dois era bonita.
Comigo, a cena era horrível.
— Eu vou para casa daqui a pouco — A frase deveria ter me aliviado. Em vez disso, me atingiu de um jeito idiota. Edward percebeu. É claro que percebeu. Mas não comentou. — Preciso de um banho, pegar documentos, falar com meu advogado e organizar as coisas de Emerald. Se Tanya for transferida nas próximas vinte e quatro horas, vai ser um caos. Mas eu não queria ir embora sem falar com você.
Meu estômago se fechou.
— Sobre o…?
Emerald mastigava banana entre nós como se aquela conversa fosse perfeitamente adequada para o café da manhã, e eu não queria plantar nenhuma semente na cabeça dela. Edward olhou para a filha, depois para mim.
— Sobre tudo, mas principalmente sobre o que acontece agora.
Apertei os dedos contra a bancada.
— Agora você vai para casa, resolve o que precisa resolver, cuida da sua filha e espera notícias.
— Bella.
— É isso que acontece agora, Edward.
Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Ele me encarou por alguns segundos.
— E nós?
A pergunta quase me destruiu, porque havia uma parte de mim que queria responder: nós esperamos. Mas havia outra parte, mais cansada e mais lúcida, que sabia que não dava para separar tudo com tanta facilidade.
A vida não criava capítulos limpos. Ela jogava acidente, gravidez, desejo, medo, culpa e amor na mesma manhã e esperava que alguém conseguisse fazer sentido daquilo.
— Nós não vamos decidir nada hoje — falei.
Emerald terminou a banana e encostou a cabeça no ombro dele de novo, exausta. O dia mal tinha começado e ela parecia tão cansada quanto nós.
— Ela precisa se manter na rotina — falei, olhando para a menina.
Edward assentiu.
— Você está certa.
— Isso está ficando irritante.
Dessa vez, ele quase sorriu.
— O quê?
— Você concordar comigo o tempo todo.
Havia algo devastadoramente íntimo em conseguir conversar assim no meio de tanto caos. Talvez porque, apesar de tudo, Edward ainda fosse a pessoa com quem eu mais sabia brigar. E talvez amar alguém fosse isso também: conhecer tão bem o contorno da ferida que você sabia exatamente onde não tocar, mesmo quando queria.
O olhar dele caiu por um segundo para minha barriga antes de voltar ao meu rosto. Ela ainda não aparecia, mas meu sumiço dos eventos, minhas consultas discretas, Edward entrando e saindo da minha casa. Tudo que até então eram peças soltas começaria a formar uma imagem para qualquer pessoa suficientemente interessada em lucrar com ela.
Apoiei a mão no ventre de forma inconsciente.
— Eu prometo que vou proteger vocês.
A frase deveria me confortar, mas naquele instante, só me assustou. Promessas de Edward sempre vinham embaladas em boas intenções e consequências imprevisíveis.
— Não prometa o que você não controla — falei, mais baixo.
Ele engoliu em seco.
— Então eu prometo que vou tentar fazer diferente dessa vez.
Tentar era menos bonito do que prometer. Menos heróico. Menos Edward Cullen tentando carregar o mundo nas costas e se destruindo no processo. Mas talvez fosse mais honesto.
Aproximei-me devagar e toquei a mão de Emerald, ainda repousada contra o peito dele.
— Leve-a para casa antes que as coisas saiam do controle.
Edward assentiu.
— Você vai ficar bem?
Quase menti. Quase disse que sim automaticamente, como fazia sempre. Mas talvez eu também precisasse tentar fazer diferente.
— Não sei, mas vou ligar para Alice, vou comer alguma coisa. E vou tentar dormir depois.
Ele observou meu rosto como se quisesse memorizar a resposta, talvez porque soubesse o esforço que tinha me custado admitir aquilo, então se aproximou, ainda com Emerald no colo, e por um segundo achei que fosse me beijar.
Meu corpo inteiro prendeu a respiração, mas Edward apenas encostou os lábios na minha testa. Um toque breve. Cuidadoso.
Ainda assim, meu coração reagiu como se fosse muito mais.
— Eu te ligo mais tarde — ele disse.
Dessa vez, quando ele saiu, a casa não pareceu apenas silenciosa. Pareceu maior. Grande demais para mim, para Jake, para o bebê e para todos os sentimentos que eu estava tentando manter organizados em compartimentos impossíveis.
Fiquei parada depois que a porta se fechou, ouvindo o som distante do carro dele se afastando. Então encostei a testa na madeira fria e finalmente deixei uma lágrima cair.
Só uma. Depois outra.
Jake veio até mim e apoiou o focinho na minha perna, silencioso de um jeito que quase parecia compreensão.
— Eu sei — sussurrei, passando a mão pela cabeça dele. — Eu também não sei o que estamos fazendo.
Meu celular vibrou no balcão da cozinha. Por um instante, achei que fosse Edward, e meu coração reagiu antes de mim, estúpido e esperançoso.
Mas era Alice.
De: Alice Brandon
Você está acordada? Edward me ligou.
Estou pegando o primeiro voo.
Fechei os olhos, é claro que ela viria. Alice era pequena, furiosa e absolutamente incapaz de manter distância quando alguém que amava precisava de ajuda. E eu, naquele momento, estava grata por isso.
De: Bella Swan
Acordada, por pouco.
Vem, eu preciso me apoiar em algo.
Que horas você chega? Vou chamar a Rosalie, ela precisa saber.
A resposta veio quase imediatamente.
De: Alice Brandon
Amiga, você está grávida e precisando de mim. Eu cruzaria esse país a pé, se fosse necessário.
Embarco daqui 1h e chego às 18h.
Respirei aliviada, como se tivesse arrancado um enorme peso das costas. Por mais que eu amasse a ideia de passar um tempo com Edward e Emerald, as últimas horas tinham sido tão cansativas. Certamente, tudo que tinha acontecido não estava na minha programação.
E então apoiei uma das mãos na barriga. Ainda era discreta, praticamente invisível para o mundo. Mas, para mim, parecia ocupar tudo.
— Está tudo bem — murmurei para o bebê, mesmo sem ter certeza de que era verdade.
A frase ficou suspensa no ar.
E, naquele momento, talvez fosse o máximo que eu pudesse oferecer a nós dois.
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