Daylight

25 Capítulo 24


Edward

O sol estava alto no céu quando saí do estúdio. O relógio marcava duas e quinze, tínhamos feito imagens ao ar livre e, ao final das cenas marcadas para o dia, eu precisava mais que nunca de um banho. E eu também não queria encontrar Tanya coberto de suor, sujo de terra e com folhagem no cabelo.

Antes de entrar no chuveiro, chequei o celular, esperando que Bella tivesse dito mais alguma coisa. Nada. A última mensagem dela havia sido antes do meio-dia, quando estava à caminho da consulta.

Em teoria, eu precisava me preparar para conversar com Tanya. Na prática, meu cérebro parecia incapaz de permanecer em qualquer assunto por mais de trinta segundos antes de voltar para Bella deitada naquela cama, tentando fingir coragem enquanto me dizia que os médicos ainda não conseguiam afirmar a viabilidade da gravidez.

Viabilidade.

Eu odiava aquela palavra. Como se existisse alguma possibilidade daquilo não ser real.

Eu tinha pouco menos de uma hora antes de encontrar Tanya. Vesti a primeira roupa minimamente aceitável que encontrei e peguei o celular da cama antes mesmo de procurar as chaves.

Nada. Nenhuma mensagem nova de Bella.

Meu peito apertou imediatamente.

O horário da consulta já tinha passado fazia tempo. Talvez ela estivesse dormindo. Talvez estivesse cansada demais para falar. Talvez estivesse tentando proteger a própria sanidade ficando longe do telefone.

Ou talvez alguma coisa tivesse dado errado.

A ideia entrou na minha cabeça com violência suficiente para me fazer parar no meio do quarto.

Não.

Se tivesse acontecido alguma emergência, Alice teria ligado, não teria?

Sim, ela definitivamente teria.

Me apeguei àquela constatação enquanto pegava o carro e dirigia até o apartamento de Tanya. O caminho era curto e eu nem precisava ter usado o carro, mas a direção era algo que costumava distrair minha cabeça e, naquele momento, eu precisava de uma distração.

Ao estacionar, meu celular tocou, quase como se tivesse sido programado. Atendi imediatamente.

— Como foi?

Nem um “oi”. Nem qualquer tentativa de normalidade. Alice soltou um suspiro curto do outro lado.

— Vocês dois estão ansiosos demais nessas últimas quarenta e oito horas.

— Alice, por favor.

— Certo, certo. A consulta foi melhor que a primeira.

O ar saiu dos meus pulmões antes que eu percebesse que estava prendendo a respiração.

— Melhor como?

— O hematoma continua lá, então repouso ainda é obrigatório. Mas não aumentou, o que é ótimo, e os batimentos do bebê melhoraram.

Fechei os olhos no banco do motorista.

Obrigado.

Não sabia exatamente para quem estava dedicando aquilo. Deus, acaso, destino, biologia, qualquer entidade responsável pelo fato de ainda existir um coração batendo.

— Ainda existe risco de perda — Alice continuou, objetiva. — A médica foi bem clara sobre isso. Mas hoje foi um resultado bom, estamos nos aproximando mais de um diagnóstico de sucesso.

Era ridículo como aquelas duas palavras tinham se tornado suficientes para reorganizar meu sistema nervoso inteiro.

— E Bella? — perguntei mais baixo.

Ouvi uma porta abrindo ao fundo.

— Cansada, enjoada, irritada por precisar de repouso e com a cabeça explodindo pela abstinência de nicotina. Então, considerando a personalidade dela, acho que isso conta como estabilidade. Ela quer te ver.

A ligação terminou alguns minutos mais tarde, depois que Alice me fez prometer que não faria nenhuma besteira e que estaria lá assim que pudesse. Ela também explicou que a consulta demorou mais que o esperado por conta dos exames adicionais que a obstetra de Bella decidiu realizar na própria clínica, e esse foi o motivo para não ter ligado mais cedo.

Tranquei o carro e entrei no elevador tentando organizar as situações na cabeça. A primeira: Bella e o bebê estavam bem, por enquanto. Isso precisaria bastar. A segunda: Tanya, por melhor que estivesse agindo nos últimos tempos, ainda era uma mulher que estava enfrentando uma separação, que tinha sido causada por mim. Eu precisava agir de acordo com meu papel. E terceiro: agora, além de Emerald, eu tinha mais um filho.

Essa constatação me fez rir, e eu ainda estava rindo quando Tanya abriu a porta. Erro.

Ela me olhou da cabeça aos pés antes mesmo de abrir espaço para eu entrar.

— Ou você finalmente enlouqueceu ou acabou de receber uma notícia muito estranha — A risada morreu rápido demais na minha garganta e ela arqueou uma sobrancelha imediatamente. — Certo. Então definitivamente foi a segunda opção.

O apartamento estava silencioso, organizado, com música baixa vindo de algum lugar e uma mamadeira pela metade esquecida sobre a bancada, que quebrava um pouco a aparência artificialmente adulta daquele espaço.

Tanya fechou a porta atrás de mim.

— Emerald não dormiu no horário de sempre, é óbvio. Pedi que a Claire a levasse ao parque — comentou enquanto caminhava para a sala. — Então podemos falar sem que ela interrompa.

Sentei na poltrona à frente dela enquanto Tanya puxava o iPad da mesa de centro.

— Minha assessora quer soltar o comunicado antes que alguém publique fotos suas entrando e saindo de casa em horários estranhos e isso crie uma história que saia do controle.

Assenti e ela continuou, abrindo um documento para mim.

— A versão padrão continua funcionando melhor. “Separação amigável”, “compromisso conjunto com a criação da nossa filha”, “respeito mútuo”, blá blá blá, essas coisas que estamos acostumados a ler.

Eu deveria estar prestando atenção, mas meu olhar caiu automaticamente no celular sobre a mesa. Tanya acompanhou o movimento sem comentar imediatamente e depois voltou os olhos para a tela.

— Você está me assustando um pouco — comentou casualmente. — E olha que eu já te vi se sair bem em premiere ruim, acidentes de set e aquela entrevista conduzida por um influencer que mal te conhecia. Quer falar sobre o que está te distraindo?

Passei a mão pela nuca.

— Estou em uma semana complicada.

— Isso tem a ver com Bella?

O nome veio rápido demais para que eu tivesse tempo de esconder completamente a reação. Erro de novo.

Tanya soltou um pequeno “hm”, como alguém confirmando uma suspeita. Não havia hostilidade imediata ali, mas também não havia simpatia. Era só uma observação.

— Edward — ela disse depois de alguns segundos. — Nós já terminamos. Você não precisa parecer um adolescente culpado porque se importa com ela.

A frase me atingiu num ponto particularmente inconveniente porque era verdadeira. Eu desviei os olhos para o celular outra vez e o silêncio se estendeu por alguns segundos.

Tanya me estudou com mais atenção agora, o tipo de atenção que ela costumava usar antes de decidir alguma estratégia.

— Ela está bem?

A pergunta não tinha preocupação de verdade, era mais prática. Como alguém tentando medir o tamanho de um problema antes de decidir como lidar com ele.

— Está — respondi depois de um segundo. — Só… Passando por algumas coisas.

Tecnicamente verdade.

— Essa foi a resposta mais evasiva que você já deu na vida.

— É o que posso te oferecer agora.

A resposta veio rápida demais, mas Tanya apenas assentiu, absorvendo a informação sem me pressionar.

Do lado de fora, a cidade seguia funcionando em velocidade normal enquanto meu sistema nervoso operava num eixo completamente diferente. Tanya apoiou o tablet no colo antes de falar outra vez.

— Eu não vou fazer um interrogatório, Edward. Honestamente? Não tenho energia suficiente para isso nesse momento da minha vida. — Ela cruzou as pernas. — Mas preciso saber de uma coisa: isso vai virar um problema público?

A pergunta me pegou desprevenido pela precisão. Consequências, sempre as consequências. Passei a mão pelo rosto lentamente.

— Não se eu puder evitar.

Ela me observou por um instante.

— Ótimo, porque a única coisa que realmente me interessa agora é impedir que nossa filha cresça no meio de um circo.

A culpa veio forte e limpa. Pela primeira vez desde que tudo começou a implodir, eu conseguia enxergar a situação de fora: separação, imprensa, Bella, tensão pública, e agora algo que claramente estava me deixando emocionalmente instável. Uma combinação perigosa.

Tanya suspirou e apoiou a cabeça no sofá.

— Olha, minhas perguntas não significam que eu virei a presidente do fã-clube da Bella de repente. Há um mês eu ainda queria arrancar os olhos dos dois. — A boca dela quase se curvou num sorriso sem humor. — Mas ressentimento exige uma quantidade de energia que eu simplesmente não tenho mais. Então vamos fazer isso direito. Emerald merece pelo menos esse esforço coletivo.

Não consegui responder, mas ela continuou.

— Minha assessora preparou três versões. A primeira é a “somos melhores amigos e pais evoluídos”. A segunda é a “pedimos privacidade neste momento delicado”. E a terceira basicamente assume que vamos fugir para um país isolado e desaparecer.

— Tentador.

— Concordo. Infelizmente, existem contratos que ainda precisam ser cumpridos.

Ela me entregou o tablet e li os primeiros parágrafos sem realmente absorver as palavras. Algo sobre respeito mútuo, carinho construído ao longo dos anos, compromisso compartilhado com Emerald.

Tudo correto e tudo absurdamente distante da minha cabeça naquele momento. Tanya percebeu quase imediatamente.

— Edward — Levantei os olhos. — Finja por cinco minutos que sua vida fora daqui não está pegando fogo em múltiplas frentes e me ajude a decidir se “continuaremos unidos como família” soa artificial demais.

Soltei o ar pelo nariz.

— Soa.

— Obrigada, eu também acho. Parece uma legenda de casal que vai anunciar briga judicial daqui dois meses.

Apesar de tudo, uma risada curta escapou de mim. Passei a mão pelo rosto, finalmente tentando me concentrar no texto.

— Talvez algo mais simples funcione melhor.

— Certo. Então menos “jornada compartilhada de amor e crescimento” e mais “não estamos mais juntos, mas seguimos comprometidos com nossa filha”.

— Bem melhor.

Ela digitou mais algumas linhas.

O silêncio que se instalou depois disso não era confortável exatamente, mas também não era hostil. Tinha alguma coisa cansada nele. Como dois adultos tentando administrar os destroços com o mínimo possível de danos colaterais. Depois de alguns segundos, Tanya falou sem levantar os olhos da tela:

— Você sabe que, depois do divórcio dela, vão associar vocês dois de novo no segundo em que isso sair — Meu corpo ficou mais tenso imediatamente. — Relaxa, não estou te acusando de nada. Estou falando de imprensa e de internet, o inferno coletivo de sempre.

Ela tinha razão. Assim que o comunicado fosse público, Bella inevitavelmente voltaria para a narrativa, mesmo que ninguém tivesse prova nenhuma de nada. O simples histórico bastava.

— Vocês já conversaram sobre isso?

A pergunta veio casual demais para ser realmente casual. Escolhi as palavras com cuidado.

— Não muito.

Bella tinha coisas mais urgentes para sobreviver naquele momento do que especulação pública.

— Então conversem muito logo — Franzi o cenho e ela deu de ombros antes de continuar. — Edward, vocês podem decidir o que quiserem sobre relacionamento, reconciliação, ou qualquer outra categoria problemática em que vocês existam. Mas alinhem a parte prática antes que o TMZ faça isso por vocês porque eu realmente não quero minha filha em manchetes nojentas daqui três meses.

Daqui três meses Bella estaria no segundo trimestre.

A percepção atravessou meu corpo de forma rápida e brutal e Tanya observou minha expressão mudar. Os olhos dela estreitaram só um pouco, o suficiente para me deixar imediatamente alerta. Ela me encarou por dois segundos longos demais antes de decidir conscientemente não seguir aquela linha de raciocínio.

Em vez disso, voltou ao tablet.

— Certo. Vamos fechar isso hoje e liberar amanhã cedo. Quanto mais controlado sair, menor a chance de inventarem versões piores.

Ela me mostrou a nova versão do texto:

“Após muito diálogo e reflexão, decidimos seguir caminhos separados. Continuamos unidos no compromisso de criar nossa filha com amor, estabilidade e respeito mútuo. Pedimos privacidade neste momento para que nossas famílias possam atravessar essa transição de forma tranquila.”

Li duas vezes.

— Parece honesto.

— Vindo de nós? Um milagre.

Uma risada breve escapou de mim outra vez. Tanya me observou em silêncio por um instante antes de apoiar o tablet de lado.

— Você sabe qual é a parte mais estranha disso tudo? — Ela inclinou a cabeça levemente. — Nós estamos lidando melhor separados do que lidávamos juntos.

Era verdade. Havia menos tensão ali agora do que nos últimos meses inteiros de relacionamento, menos esforço, menos fingimento. Só duas pessoas cansadas e tentando ser honestas.

— Sinto muito por isso.

Tanya sustentou meu olhar por um momento antes de responder:

— Eu também. Mas sentir muito não muda o fato de que já estava acabado antes de admitirmos.

Silêncio outra vez, até que meu celular vibrou sobre a mesa.

Meu coração reagiu antes da minha cabeça. Tanya viu, mas apenas desviou os olhos como alguém que já entendeu mais do que gostaria.

— Olha, eu sei que não posso esperar que sejamos melhores amigos daqui para frente, especialmente com tudo que aconteceu, mas eu realmente quero que essa nossa relação funcione, pelo bem da Emerald, então espero que você saiba que pode contar comigo se precisar de algum apoio.

A frase me atingiu de um jeito inesperadamente honesto. Não era uma tentativa de reconstruir intimidade, mas demonstrava responsabilidade. Adultos tentando não destruir completamente a única parte inocente da história.

— Eu sei. Obrigado.

Ela sorriu e, por um instante, parecia de novo com a Tanya de anos atrás. Antes dos problemas, antes do uso exagerado de qualquer coisa que nos distraísse, antes de trazer uma criança para o meio da nossa confusão.

Apesar de tudo, o ambiente tinha ficado mais leve. Não leve de verdade, mas menos cortante. Como se tivéssemos finalmente atravessado a pior parte da conversa sem explodir nada irreparável.

— Ah, e já que estamos oficialmente entrando na fase “pais separados funcionalmente organizados”, preciso alinhar uma coisa com você. — Meu corpo tensionou automaticamente outra vez, ela percebeu e fez uma careta. — Relaxa, Edward, pelo amor de Deus. É só agenda.

Ela desbloqueou a tela do celular e conferiu alguma coisa rapidamente antes de continuar.

— Tenho uma campanha para gravar daqui um mês. Vamos fazer imagens na Jordânia e depois no Marrocos.

— Quanto tempo?

— Uns dez dias. Talvez doze. Volto antes do aniversário da Emerald.

Fiz a conta mentalmente sem perceber. Daqui a um mês Bella provavelmente estaria entrando na décima primeira ou décima segunda semana.

— E você quer que eu fique com ela?

— Eu preciso que você fique com ela para manter a rotina o mais estável possível, então, sim. Se você dissesse que não pode, eu teria que fazer um escândalo.

Aquilo me arrancou um sopro curto de riso.

— É uma ameaça?

Ela só levantou a sobrancelha para mim e balançou a cabeça.

— Você é um bom pai, Edward. Mesmo que não tenha sido um bom marido.

A frase me atingiu num lugar inesperadamente vulnerável, porque eu não me sentia particularmente competente em nada naquele momento. Nem como pai, nem como homem, e muito menos como alguém remotamente capaz de proteger as pessoas que amava.

Antes que eu respondesse, ouvimos o som abafado do elevador chegando ao andar, depois passinhos correndo pelo corredor. Tanya olhou na direção da porta e suspirou.

— E lá vem o furacão Emerald.

A porta se abriu quase no mesmo instante.

Claire entrou primeiro e, atrás dela, Emerald vinha andando rápido demais para as próprias pernas curtas, como se estivesse sendo puxada pelo entusiasmo.

— Devagar, Emmie — Claire avisou, rindo baixo. — Devagar.

Mas não adiantou.

— Papai!

A palavra veio alta, urgente, como se tivesse sido guardada o dia inteiro.

Ela correu até mim. Ou tentou, pelo menos, já que no meio do caminho tropeçou no próprio pé, recuperou o equilíbrio e continuou com ainda mais pressa. Tudo em trinta segundos.

Eu me agachei e ela praticamente se jogou contra mim. O impacto foi pequeno, mas cheio de certeza.

— Oi, amor — falei, a voz saindo mais baixa do que eu queria.

Ela segurou meu rosto com as duas mãos imediatamente, como se estivesse conferindo se eu ainda era real.

— Você tá aqui — disse, simplesmente.

— Estou aqui.

Ela assentiu como se isso resolvesse uma grande dúvida interna. Atrás dela, Claire parou na entrada da sala, ofegante e divertida.

— Ela passou o caminho inteiro dizendo que ia ver o pai, em looping.

Tanya soltou uma risada alta e Emerald ignorou completamente os adultos, encostando a testa no meu ombro por meio segundo.

— Eu comi um lanche, papai! — anunciou.

Claire tossiu uma risada.

— Comeu no sentido de “metade do lanche foi negociado com sucesso”. A outra metade está na mochila pronta para ir para a geladeira.

Emerald virou o rosto para ela imediatamente e franziu o nariz como se isso fosse uma injustiça do tamanho do universo. Eu ri baixo, sem conseguir evitar.

Ela então levantou os braços e pediu colo, onde se encaixou imediatamente, como se já soubesse exatamente onde pertencia.

— Você tá quentinho — disse, encostando a bochecha no meu pescoço. — Fica comigo, papai?

Meu peito apertou.

— Claro que fico. Mas preciso ir embora assim que escurecer, tudo bem?

Ela pareceu pensar nisso com cuidado e então assentiu. Como se isso resolvesse o mundo, encostou a cabeça de novo no meu ombro até começar a se mexer, inquieta.

— Desenho — anunciou de repente, já começando a escorregar do meu colo.

Eu a segurei um pouco mais.

— Calma.

— Quero ver desenho, papai — repetiu, urgente.

Ela já estava praticamente se contorcendo no meu colo, como se o corpo não conseguisse acompanhar a pressa da própria ideia.

— Ela descobriu hoje de manhã que pode escolher o desenho — explicou Claire.

Eu soltei uma risada curta, finalmente a colocando no chão, e fui conduzido até o sofá da sala de tv. Ela se aconchegou comigo como se aquela fosse a situação mais natural do mundo.

— Qual desenho? — perguntei.

Ela ficou séria por um segundo, como se estivesse tomando uma decisão de Estado.

— Bluey!

— Boa escolha.

Tanya apareceu na porta, cruzando os braços.

— Ah, ótimo. Finalmente algum programa infantil que não me faz querer atravessar a janela. Não aguentava mais aquela Peppa Pig.

Emerald já estava mexendo no controle, concentrada demais para participar da conversa.

— Achei! — anunciou, orgulhosa.

A abertura começou e ela imediatamente relaxou contra mim como se aquilo completasse algum ritual importante do dia.

— Qual é o seu favorito? — perguntei enquanto Emerald apontava para a tela como se eu nunca tivesse visto aquilo na vida.

— Bingo.

— O mais bagunceiro. Identificação! — Tanya comentou.

Emerald virou o rosto imediatamente para a mãe.

— Bingo é bebê.

— Você também é bebê — Tanya respondeu.

Ela franziu o nariz, ofendida de verdade.

— Não sou.

Eu escondi o sorriso no cabelo dela.

— Claro que não, você é uma menina grande.

Isso pareceu satisfazê-la e ela então segurou minha mão distraidamente enquanto assistia, os dedos apertando e soltando sem perceber. Em algum momento, encostou a cabeça no meu peito de novo.

— Papai?

— Oi, amor.

— Você vai dormir comigo?

A pergunta era simples, casual, mas meu corpo inteiro ficou um pouco mais atento. Olhei para Tanya rapidamente, quase por instinto, e ela deu de ombros.

— Não me olhe assim. Ela me perguntou isso ontem também.

Emerald esperou resposta, paciente do jeito que só crianças conseguem ser quando o mundo delas depende de uma confirmação simples.

— Eu fico até você dormir — respondi depois de um segundo. Ela aceitou sem drama e voltou a assistir.

O silêncio que se instalou depois disso não era vazio. Era cheio da trilha de Bluey, de respiração pequena encostada em mim, de uma mão segurando minha camiseta como se aquilo fosse uma âncora. Em algum momento, Emerald bocejou e tentou ignorar.

Falhou.

— Não tô com sono — murmurou imediatamente, já com a voz mais mole.

Tanya soltou uma risada.

— Clássico. Quer dizer que ela já vai dormir.

— Não vou — insistiu Emerald, sem força nenhuma.

Mas o corpo dela já estava cedendo contra mim, relaxando aos poucos. Passei a mão devagar nas costas dela.

— Tudo bem, você pode dormir. Eu continuarei aqui.

Ela não respondeu, mas ficou quieta e ainda tentou lutar mais alguns segundos, olhando fixamente para a TV como se Bluey fosse importante demais para abandonar no meio.

Até que não foi mais. A cabeça dela caiu de leve no meu peito e ficou. O episódio continuou passando baixinho, mas o som da sala pareceu distante de repente.

Olhei para baixo e ela já estava dormindo. Completamente entregue, como se o mundo nunca tivesse sido uma coisa difícil. Passei a mão devagar pelo cabelo dela, sem pensar muito.

E, pela primeira vez em horas, não pensei em comunicado, nem em imprensa, nem na conversa que ainda teria naquela noite.

Só naquele pequeno corpo dormindo contra mim e no fato simples e assustador de que, independente de tudo o que ainda estava quebrado lá fora, isso aqui ainda existia.