Daylight

22 Capítulo 21


Edward

Há um mês, eu havia voltado para o meu apartamento como um homem quebrado. Não apenas pelo corte ainda latejante na minha testa, mas também pelas palavras que Bella proferiu. De alguma maneira, elas doíam mais que ter sido atingido por um copo de vidro na cabeça.

A percepção dela de que eu a tinha colocado no lugar de amante foi uma dura realização. Na minha ingenuidade, esse não era e nunca tinha sido o papel dela, mas ao ouvi-la repetir o que Tanya disse, uma parte do meu cérebro começou a gritar que algo ia se partir a qualquer momento.

E, no final das contas, as duas estavam certas. Eu era o errado que tinha estragado tudo com as duas.

Quando saí da casa de Bella naquela noite, desesperado por algum consolo, terminei parado dentro do carro, em uma ligação telefônica. Acordei minha mãe, que estava do outro lado do oceano, no meio da madrugada londrina, em busca de um conselho que pudesse resolver magicamente todos os problemas.

Eu fodi com tudo, mãe. Perdi tudo e vou perder minha filha também.

O problema era que Esme Cullen não era uma mulher condescendente. Depois de me ouvir balbuciar e engasgar com as palavras, ela brigou comigo de uma forma que jamais tinha feito antes.

— Edward Anthony Cullen, escute aqui. Você não vai acordar sua mãe no meio da madrugada, contar o que acabou de me contar e esperar que eu fique quieta e passe a mão na sua cabeça. Como você pode ter feito isso com a mãe da sua filha? Além disso, como pode ter colocado a Bella, de todas as mulheres, nessa situação? Por tudo que é sagrado, Edward, eu te criei muito melhor que isso!

Do outro lado da linha, fiquei em silêncio como não ficava desde criança. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque qualquer tentativa de defesa soaria tão ridícula quanto era. Minha mãe não me deu espaço para isso mesmo assim.

— Você quer saber o que vai acontecer agora? — ela continuou, com aquela voz firme que sempre usava quando eu estava prestes a fugir de alguma verdade. — Nada vai ser simples. Não vai existir caminho em que você saia ileso disso, Edward, porque não existe versão dessa história em que você não tenha ferido alguém. Talvez fira sua filha também, se continuar agindo como um covarde.

Fechei os olhos e apoiei a cabeça no banco do carro.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. Saber não é se sentir culpado às quatro da manhã, chorando no telefone, é agir como um homem adulto. É assumir o fim do que precisa acabar, dizer a verdade onde ela precisa ser dita e parar de usar sua confusão como desculpa para manter todo mundo preso no mesmo inferno que você criou.

As palavras dela atravessaram alguma coisa em mim com precisão cruel. Porque era verdade, eu tinha transformado meu caos em algo sistemático, e todos ao redor de mim vinham pagando o preço.

— E, escute bem — ela disse, mais baixa agora, o que tornou tudo pior. — Se você ama Bella como eu acho que ama, então a última coisa que pode fazer é mantê-la nesse lugar. Ninguém merece ser o segredo sujo da vida de outra pessoa.

A frase ficou em algum lugar entre minha garganta e meu estômago, ácida, impossível de engolir sem sentir a queimadura.

— O que eu faço? — perguntei, e odiei o quanto aquilo ainda soava infantil.

Minha mãe soltou um suspiro curto. Quando respondeu, já não havia raiva, só exaustão.

— A verdade. Você faz a verdade, Edward. Ainda que ela chegue tarde, ainda que destrua coisas. Especialmente porque vai destruir coisas. E depois você suporta as consequências sem colocar a si mesmo no centro da tragédia.

Nós ficamos em silêncio por alguns segundos. Do lado de fora do carro, a rua estava vazia, molhada de uma garoa recente, Los Angeles silenciosa de um jeito que quase nunca era. Eu conseguia ouvir minha própria respiração, irregular demais.

— Eu estraguei tudo — falei, mais para mim do que para ela.

— Talvez — minha mãe respondeu. — Mas homens estragam coisas o tempo todo. A diferença entre um canalha e um homem decente costuma aparecer no que ele faz depois.

Depois disso, ela não desligou imediatamente. Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha, como se estivesse reorganizando a própria irritação em algo mais útil, mais prático, que também era muito a cara dela.

— E, por favor, Edward, vá a um hospital dar pontos nesse corte.

Olhei meu reflexo apagado no vidro do carro. O sangue já tinha secado em partes, repuxando a pele da testa, e a dor latejava numa pulsação abafada e constante que eu vinha ignorando desde que saí da casa de Bella.

— Não deve ser tão grave assim.

Minha mãe soltou um som de absoluta incredulidade.

Não discuta comigo. Você já fez estrago suficiente em uma noite. Não transforme isso numa cicatriz desnecessária porque está com vontade de sofrer em paz.

Aquilo me calou pelo mesmo motivo que todo o resto tinha me calado: ela estava certa.

Fiquei mais alguns segundos com o celular ainda na mão, olhando para o nada, até que finalmente dei partida no carro. Não fui para casa. Segui direto para o pronto-atendimento, um desses hospitais onde você paga o suficiente para ninguém transformar minha testa aberta em manchete de site de celebridades antes do amanhecer. O médico confirmou o que Bella também tinha me dito sem hesitar: eu precisava de pontos.

Sentei naquela maca estreita com cheiro de antisséptico enquanto uma enfermeira limpava o corte. Levei quatro pontos e uma recomendação pouco otimista sobre inchaço, hematoma e a possibilidade de a cicatriz ficar aparente por algum tempo, o que me pareceu quase justo.

Saí de lá perto do amanhecer com um curativo na testa, uma receita para analgésicos e a sensação exata de que tinha conseguido transformar minha vida num amontoado de consequências e agora, elas estavam visíveis.

Algumas horas depois, Tanya me mandou uma mensagem pedindo que eu fosse ao apartamento para conversarmos. O tom era outro. Não mais gentil, exatamente, mas mais lúcido.

Quando abriu a porta e me viu com os pontos na testa, ela ficou imóvel por um segundo. Os olhos desceram direto para o curativo, depois voltaram ao meu rosto, e alguma coisa nela cedeu. Ela fechou os olhos por um instante curto, respirou fundo e se afastou para eu entrar. A sala estava arrumada demais, como se tivesse tentado impor ordem ao ambiente para compensar o desastre da noite anterior. Não havia objetos fora do lugar, nem vidro no chão, nem qualquer traço visível do que aconteceu. Emerald ainda dormia.

Tanya permaneceu de pé por alguns segundos antes de falar de novo.

— Eu não vou fingir que você não merecia ouvir tudo o que ouviu ontem — disse, sem me encarar direito. — Mas aquilo... Eu sinto muito. Eu perdi o controle.

Assenti, porque não havia muito o que fazer com aquela admissão além de recebê-la.

O silêncio entre nós foi tenso, mas não explosivo. Tanya parecia exausta demais para gritar de novo, e eu já não tinha energia para reabrir a mesma guerra. Então tivemos, enfim, a conversa que deveria ter acontecido antes de tudo ultrapassar o ponto do retorno.

Por alguns segundos, nenhum de nós falou.

— Eu não vou pedir desculpas fingindo que isso melhora as coisas — ela disse, por fim. — Não melhora em nada. Eu continuo furiosa. Continuo humilhada. Continuo achando tudo isso uma merda. Mas... — os olhos dela subiram até a minha testa outra vez. — Eu sei o que fiz ontem.

— Que bom que a clareza te iluminou.

Ela soltou um riso sem humor.

— Você consegue ser insuportável até quando está sendo razoável.

Quase sorri, mas a expressão morreu antes de nascer. Tanya percebeu mesmo assim e revirou os olhos, irritada com a própria tentativa involuntária de normalidade.

— Eu não estou tentando ser engraçada, Edward.

Ela respirou fundo outra vez, como se precisasse lembrar ao próprio corpo que gritar não era mais uma opção.

— Não acredito que você esteja facilitando para mim.

— Não estou facilitando. Só não vou transformar isso em outra guerra se você também não quiser.

Houve um novo silêncio. A casa inteira parecia suspensa naquela trégua estranha.

— Eu não quero uma guerra. Sei que disse isso no outro dia, mas não é o que eu quero. Então vamos falar do que importa — Tanya continuou. — Nós dois sabemos que o que quer que exista entre você e Bella não é uma coisa recente. Talvez eu não soubesse a extensão, mas eu sabia o suficiente. E você mentiu para mim.

Não era uma pergunta, nem uma acusação nova, era só um fato. Ela ficou me olhando por um instante, depois desviou o rosto.

— Edward, eu estou falando sério. Você já saiu daqui, mas isso não significa que as coisas estejam resolvidas só porque você não está mais dormindo neste apartamento. — Ela passou a mão pelo cabelo. — Eu não quero continuar vivendo nessa zona cinzenta em que estamos “separados”, mas ainda improvisando tudo em volta da Emerald como se o resto fosse se acomodar sozinho.

— Eu sei.

— Então vamos definir o que é fixo e o que não é. Eu não quero depender do seu humor, da sua culpa ou da sua disponibilidade para entender como minha vida com a minha filha vai funcionar.

Assenti devagar.

— Tudo bem. Eu posso providenciar para que o apartamento seja seu, se é o que você quer.

Tanya ficou em silêncio por um segundo, me olhando com uma atenção difícil de interpretar. Não parecia surpresa exatamente. Parecia cansaço.

Ela cruzou os braços, mas a postura já não tinha a agressividade de antes. Era mais proteção do que ataque agora.

— Eu vou ficar com o apartamento por enquanto porque a Emerald já está instalada aqui. O quarto dela está aqui, a rotina dela está aqui, as atividades dela continuam perto daqui. Não faz sentido arrancá-la de novo de um lugar estável porque nós dois fomos incompetentes, mas não quero que você confunda isso comigo aceitando migalhas. Não estou.

O silêncio que veio depois não era confortável, mas ao menos não parecia prestes a explodir a qualquer segundo. Tanya passou a mão no próprio braço, distraída, como se só então estivesse sentindo o frio da sala ou o peso da noite anterior.

— O que você quer fazer em relação à Emerald?

Tanya soltou o ar devagar, como se estivesse esperando aquela pergunta e, ao mesmo tempo, não quisesse ter que respondê-la ainda.

— Por enquanto, quero que ela durma aqui a maior parte da semana até entender melhor como isso vai funcionar. Você pode vê-la e levá-la quando quiser, óbvio, mas quero saber onde ela vai estar, com quem, e quero que, se você não puder cumprir alguma coisa, me diga antes. Não depois.

— Eu consigo fazer isso.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Consegue mesmo?

Assenti e Tanya sustentou meu olhar por um instante, testando o peso da frase, como se quisesse descobrir se eu acreditava nela ou se estava apenas dizendo o que parecia adequado.

— Ótimo — respondeu, enfim.

Baixei os olhos por um segundo e passei a mão na perna do jeans, um gesto automático, inútil.

— Você está certa, sabe? Eu não vou discordar que ela merece ser protegida no meio de tudo isso.

Ela soltou uma risada curta, sem humor.

— Isso está ficando irritante.

— O quê?

— Você concordar comigo em tudo. Eu tinha me preparado para te odiar mais hoje.

— Ainda dá tempo.

Tanya me olhou, exausta, e um quase sorriso apareceu e morreu rápido demais no rosto dela.

— Não me faça rir. Ainda estou muito brava com você para isso.

Houve um intervalo pequeno, e depois ela respirou fundo antes de continuar:

— Agora, sobre a Bella — Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Nada dramático, só um enrijecimento automático no maxilar, um alerta pequeno e imediato. Tanya percebeu. — Viu? É exatamente isso. Você nunca teve essa reação comigo.

Não havia muito o que fazer com aquela observação. Mentir teria sido grotesco.

— Tanya—

— Não, eu não estou pedindo uma desculpa, só estou constatando um fato — Ela desviou o olhar por um instante. — E, honestamente, prefiro lidar com fatos agora.

Esperei enquanto ela respirava fundo mais uma vez.

— Eu não quero que a Emerald seja inserida nessa situação pelas bordas, como se as crianças fossem cegas ou estúpidas, porque isso já sabemos que ela não é. Mas também não vou aceitar que a minha filha crie intimidade com uma mulher da qual eu não sei absolutamente nada sobre o papel dentro dessa configuração. Ela é o que? A madrasta? Uma amiga do papai? Alguém que vai tentar ocupar meu lugar?

A pergunta ficou entre nós por um instante. Eu pensei em fugir por qualquer versão que me poupasse de dizer em voz alta uma coisa que ainda estava em desordem até dentro de mim. Mas já tínhamos passado do ponto das respostas confortáveis.

— Eu não sei te dar uma definição simples, mas posso te garantir que ela nunca vai tentar ocupar seu lugar.

— Então vocês estão juntos? — insistiu.

— Não. Eu só… Não sei onde estamos agora.

Tanya piscou, como se a resposta não fosse o que ela esperava.

— Eu não vou fingir que isso não atinge algum nível da minha autoestima — continuou, agora olhando para a janela, não para mim. — Não só pela traição, mas pela obviedade dela.

Não respondi, não havia boa resposta para isso. Tanya virou o rosto de novo para mim.

— Mas eu vou te dizer uma coisa que não é por generosidade, é só pragmatismo. Se existe uma outra vida esperando você do lado de fora dessa relação, então vá para ela inteiro quando for. Não me arraste para isso, nem a Emerald. Não fique usando a nossa filha como a última ponte entre quem você foi comigo e quem quer ser com ela.

As palavras vieram limpas, sem a dissimulação costumeira dela. Justamente por isso doeram mais.

— Eu não faria isso.

Ela inclinou a cabeça de leve.

— Já fez, Edward. Não talvez de propósito, mas fez. Você passou meses tentando desmontar uma vida enquanto ensaiava outra. Não repita isso na etapa seguinte.

Fiquei em silêncio porque, de novo, ela tinha razão. Do corredor veio um pequeno som, sonolento, familiar demais. Nós dois olhamos naquela direção ao mesmo tempo. Tanya passou a mão pelo rosto.

— Ela vai acordar. Você quer vê-la antes de ir?

A pergunta me pegou desprevenido não pelo conteúdo, mas pelo fato de existir. Tanya estava se provando muito mais adulta do que eu naquele momento.

Seguimos pelo corredor em silêncio. No quarto, Emerald já estava acordada, sentada na cama com o cabelo amassado de sono e o fiel coelho de pelúcia preso entre os braços. Quando me viu na porta, o rosto pequeno se iluminou num reconhecimento tão imediato que meu peito apertou.

— Papai!

Acenando para Claire, no sofá, fui até ela e a peguei no colo, sentindo o corpo morno se encaixar em mim como se tivesse sido feito para isso. Emerald encostou a cabeça no meu ombro por um segundo e depois se afastou o suficiente para tocar com os dedos curiosos o curativo na minha testa.

Ela franziu a testa, estudando meu rosto. Depois tocou de novo o curativo, mais leve dessa vez, e fez um carinho desajeitado na lateral do meu rosto.

Aquele gesto quase me desfez ali mesmo.

Olhei por cima da cabeça dela e encontrei Tanya perto da cômoda, assistindo à cena em silêncio. Havia dor no rosto dela, mas não era mais só a dor da mulher traída. Era alguma coisa mais ampla e pior: a percepção exata de que, apesar de tudo, nós ainda pertencíamos um ao outro através daquela criança, mesmo quando todo o resto já tinha ruído.

Emerald apontou para a minha testa outra vez.

— Papai caiu? — perguntou, agora olhando para a mãe como se precisasse de confirmação.

Tanya fechou os olhos por um segundo tão breve que talvez só eu tenha percebido.

— O papai se machucou, amor — respondeu, controlada. — Mas já está cuidando disso.

Emerald pareceu aceitar. Apoiou a bochecha no meu ombro de novo, satisfeita o suficiente com a versão que lhe tinha sido dada. Minha mão subiu automaticamente para as costas dela, sentindo o tecido macio do pijama sob a palma, a respiração calma, a realidade inteira condensada naquele peso leve no meu braço.

Foi ali que a dimensão do resto se apresentou com mais nitidez.

Não haveria um único momento de ruptura. Haveria dezenas. Pequenos deslocamentos, pequenos lutos, pequenas cenas administráveis que, juntas, formariam o fim de uma vida e o começo de outra. E eu teria que aguentar todos eles.

Depois de alguns minutos, Tanya se aproximou.

— Ela precisa tomar o café da manhã.

A frase era prática, mas gentil o suficiente para ser entendida como limite. Beijei o cabelo da minha filha e a entreguei de volta, sentindo a perda do peso dela no mesmo instante.

Emerald protestou com um som baixo.

Tanya e eu nos entreolhamos por um segundo. Foi ela quem desviou primeiro.

— Tudo bem — disse, por fim. — Você pode ficar.

Seguimos os três para a cozinha em silêncio. Quando entramos, encontramos a mesa já parcialmente posta. Claire havia seguido com a rotina enquanto nós estávamos ocupados demais lidando com nossos problemas; havia um prato com frutas cortadas, uma torrada já pronta ao lado da cafeteira e o copo infantil separado na bancada.

Tanya colocou Emerald na cadeirinha e se aproximou da bancada para verificar o que a babá tinha deixado preparado. Eu permaneci alguns segundos de pé, sem saber exatamente onde me encaixar naquela cena que, por tanto tempo, tinha sido natural e agora parecia pertencer a uma versão anterior da minha vida.

Foi Emerald quem decidiu por mim, naturalmente. Ela ergueu o braço na direção da mãe e anunciou, muito séria:

Coa.

Tanya virou o rosto para ela.

— O que é coa, amor?

Coa! — repetiu, agora apontando para a própria cabeça com mais impaciência, como se a dificuldade de interpretação dos adultos fosse um problema recorrente.

Demorei um segundo para entender e então olhei para Tanya.

— Maggie deu uma coroa para ela na festa.

Tanya soltou o ar pelo nariz, num quase-riso e Emerald bateu a mão pequena na bandeja da cadeira.

Coa!

— Tudo bem, princesa — Tanya disse. — Vamos procurar a sua coroa.

Ela se afastou na direção da sala, chamando Claire consigo. Emerald me olhou como se quisesse ter certeza de que eu acompanhava a operação, e eu me aproximei da cadeirinha só para passar os dedos de leve pelo cabelo amassado dela.

— Você acordou muito exigente hoje.

Tanya voltou menos de um minuto depois com a pequena tiara numa mão e aquela expressão de quem já tinha aceitado que a manhã seguiria sob regras que não eram dela. Emerald abriu um sorriso imediato quando a viu.

— Aí está sua coroa — Tanya disse, encaixando-a com cuidado entre os fios bagunçados do cabelo. — Satisfeita?

Emerald levou a mão até a cabeça, verificou a presença do objeto e então assentiu, seríssima.

— Perfeito, agora coma seu café da manhã, princesa bonita.

Eu me servi de café por impulso, embora já estivesse frio, e fiquei observando Emerald bater a colher no próprio pratinho com a atenção absoluta de quem acreditava estar realizando uma tarefa importante. Tanya limpou o canto da boca dela com um guardanapo e empurrou mais um pedaço de banana para perto.

Por um instante pequeno e absurdo, aquilo quase pareceu uma manhã comum. Talvez esse fosse o pior tipo de dor: a que ainda permitia pequenos momentos de normalidade sem devolver nada do que os sustentava antes.

Fui até Emerald antes de sair. Me abaixei na altura dela e beijei sua testa. Ela segurou meu rosto por um instante, mãos pequenas e ainda um pouco pegajosas de café da manhã, como se quisesse confirmar de perto que eu continuava ali.

— O papai vai embora agora, mas eu volto, tá bom?

Ela assentiu e se esticou para retribuir meu gesto, dando um beijo babado na minha testa.

— Tchau, papai.

— Tchau, amor.

Nos dias seguintes, Tanya e eu começamos a organizar, de forma finalmente concreta, aquilo que já estava quebrado havia tempo demais. Não houve grande cena final. Só uma sequência cansativa de ajustes, silêncios, limites e concessões mínimas. Tanya ficou menos explosiva depois daquela manhã, o que não significava que estivesse menos ferida. Apenas que a dor dela tinha mudado de forma. A minha também.

Bella não voltou a me procurar. Eu também não fui atrás dela.

Não porque não quisesse. Querer, aliás, continuava sendo o problema. Mas porque, pela primeira vez, obedeci ao limite que ela tinha colocado e tentei fazer ao menos uma coisa certa antes de aparecer de novo carregando mais caos na porta dela.

Um mês se passou desse jeito. Um mês sem Bella.

Eu me mantive ocupado porque a alternativa era pensar.

Trabalho. Reuniões. Roteiros. Provas de figurino. Uma entrevista que precisei remarcar por causa dos pontos na testa e do hematoma que, por alguns dias, deixou meu rosto com a aparência de alguém que tinha perdido uma briga feia.

Por fora, talvez até parecesse que eu estava conseguindo. Por dentro, havia só a falta.

A ausência de Bella não se comportava como dor aguda. Se comportava como uma reorganização silenciosa de tudo em torno de um vazio que continuava onde ela deveria estar. Eu pensava nela em intervalos banais e ofensivos: ao parar num semáforo, ao ouvir uma música ruim demais no rádio, ao passar por um café qualquer e lembrar do primeiro encontro, ao ver uma mulher de cabelo castanho passeando com um cachorro enorme.

Eu obedeci ao que ela tinha pedido.

Não voltei. Não liguei. Não escrevi.

Então, numa sexta-feira à tarde, meu celular vibrou sobre a mesa da produção.

Eu estava entre uma cena e outra, ainda com metade do figurino e o rosto retocado em camadas de maquiagem suficientes para esconder o resquício final do corte na testa. O nome dela na tela me atingiu com tanta violência que por um segundo não reagi, como se a visão pudesse ser uma invenção do meu cansaço.

Abri a mensagem sem respirar direito.

De: Bella Swan

Preciso te ver hoje. Não é algo para falar por telefone.

Alguma coisa tinha acontecido. Não havia espaço naquela frase para saudade, recaída ou imprudência banal. Aquilo era outra coisa. Levantei antes mesmo de terminar de pensar.

— Preciso sair — falei para alguém, sem explicar o suficiente para parecer educado. Não esperei objeção.

Dirigir até a casa dela foi um borrão. Minhas mãos estavam no volante, meus olhos na rua, meu pé obedecendo aos semáforos, mas o resto de mim já tinha ido na frente, invadindo a casa dela em pânico, procurando sinais antes de encontrá-los. O trânsito daquela cidade, sempre insuportável, adquiriu uma crueldade nova quando tudo em mim só queria chegar logo.

Quando entrei na rua, já era fim de tarde. Estacionei na frente do portão e fiquei parado por meio segundo, olhando para a fachada da casa como se ela pudesse me preparar para o que viria.

Saí do carro e atravessei o caminho até a porta sentindo o próprio coração bater em algum lugar errado do corpo. Toquei a campainha uma vez só.

Os segundos até ouvir passos do outro lado foram curtos, mas suficientes para que eu entendesse que estava mais nervoso do que em qualquer estreia, coletiva ou première da minha vida inteira.

A porta se abriu e, por um instante, todo o resto perdeu o foco.

Bella estava com a pele mais pálida do que eu já tinha visto. Os olhos estavam inchados como se ela tivesse chorado por horas. Atrás dela, Alice apareceu por um segundo no meu campo de visão. Isso só confirmou que eu não estava exagerando.

Entrei.

Jake apareceu primeiro, farejando meu jeans com a severidade de um segurança. Depois recuou, como se tivesse decidido que eu podia ficar, embora não estivesse contente com isso.

Havia um copo de água pela metade na mesa de centro, uma manta dobrada sobre o sofá, remédios demais por ali para serem coincidência. Alice se levantou da poltrona.

— Vou fazer um café — disse, numa transparência tão forçada que, em outra situação, teria sido quase engraçada.

— Você odeia café à tarde — Bella respondeu, antes de conseguir evitar.

Alice lançou a ela um olhar que deixava claro que não era hora.

— Hoje vou abrir uma exceção.

E desapareceu em direção à cozinha, nos deixando sozinhos na sala.

Fiquei de frente para Bella sem saber qual distância seria menos errada. Ela também não parecia saber onde colocar o próprio corpo. Havia alguma coisa frágil nela, apesar da postura ereta, do queixo erguido e do esforço muito nítido para não parecer frágil de forma alguma.

— O que aconteceu? — perguntei, por fim.

A pergunta saiu baixa. Controlada. Cautelosa.

Ela sustentou meu olhar por um segundo e então apontou para o sofá.

— Senta.

Obedeci sem discutir. Não porque estivesse calmo. Mas porque, naquele momento, algo em mim já sabia que ela estava prestes a alterar a estrutura do meu mundo.

Bella ficou de pé por um instante mais longo e quando finalmente escolheu a poltrona à minha frente, fez isso devagar demais. E foi ali, vendo o cuidado de cada movimento, que alguma coisa dentro de mim começou a gritar.

Eu esperei.

Ela contou sobre a ida ao hospital e baixou os olhos por meio segundo antes de voltar a me encarar.

— Eu estou grávida, Edward.

O mundo parecia ter desviado do eixo. E esse mesmo mundo entrou em algum tipo de alerta para destruição quando ela continuou falando e contou sobre o dia anterior.

Era a realização de um sonho antigo. Era o meu pior pesadelo.

Meu corpo reagia antes da minha cabeça conseguir organizar qualquer coisa útil. Eu estava inquieto sob a necessidade absurda de fazer alguma coisa, qualquer coisa, que compensasse o fato de que eu não podia voltar vinte e quatro horas no tempo e refazer tudo direito.

Mas não havia como refazer nada. Havia só o agora.

E o agora era Bella caminhando na minha frente em direção ao quarto, mais devagar do que o normal, com uma rigidez que denunciava o esforço por trás de cada passo.

Quando entramos no quarto, meu olhar varreu o espaço com rapidez, como se houvesse alguma informação escondida ali que eu ainda não tivesse considerado. Ela parou ao lado da cama e, por um instante, pareceu hesitar.

— Deita — eu disse, mais baixo do que pretendia.

— Você sempre foi mandão assim ou eu que não tinha percebido?

Havia cansaço na voz dela, mas também alguma coisa familiar o bastante para me fazer quase sorrir. Quase.

— Sempre fui. Você só ignorava.

Ela soltou um suspiro que passou perto de uma risada, mas não chegou lá. Ainda assim, deitou, ajustando-se com um cuidado que parecia excessivo para alguém tão acostumada a se negligenciar.

Eu fiquei de pé por um segundo a mais do que o necessário, porque a distância entre nós, agora, não era física. Aproximar-me significava assumir um lugar que eu ainda não sabia se ela estava disposta a me deixar ocupar.

Mas me afastar… Me afastar não era uma opção. Não mais.

Dei a volta na cama e me sentei na beirada, mantendo espaço suficiente para não invadir, mas perto o bastante para deixar claro que eu não iria embora tão facilmente.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Você está com dor? — perguntei.

— Um pouco. O que me incomoda mais é a dor de cabeça.

Não era a resposta completa. Mas era o que ela estava disposta a dar. Eu assenti, aceitando o limite.

Grávida.

A palavra voltava, mas agora vinha acompanhada de imagens que eu não tinha autorizado. Pequenas demais, indefinidas demais, perigosas demais.

Engoli em seco, passando a mão pela nuca, tentando manter o foco em algo concreto.

— Quando você repetirá os exames?

— Tenho uma consulta amanhã, mas repito os exames em alguns dias.

Eu precisava de algo mais específico que isso.

— Quantos dias, Bella?

— Exames de sangue a cada dois dias para acompanhar a evolução da gravidez, um ultrassom na próxima semana e o resto depende do que acontecer.

Ela ia me enlouquecer com as respostas evasivas.

— Você realmente não quer falar sobre isso, não é?

Bella fechou os olhos e balançou a cabeça em negação.

Eu passei a língua pelos dentes, contendo a resposta áspera que me subiu à garganta. Não era raiva dela, não exatamente. Era raiva daquela sensação insuportável de estar sempre chegando tarde demais. Como se eu estivesse condenado a receber as informações importantes quando o dano já tinha sido feito e tudo o que me restasse fosse administrar os destroços.

— Certo — eu disse, embora não estivesse certo de porra nenhuma.

Ela abriu os olhos, como se esperasse resistência, insistência, alguma reação maior do que aquela. Eu também esperava isso de mim mesmo. Esperava alguma explosão, algum colapso, qualquer coisa que estivesse à altura do tamanho do que ela tinha acabado de colocar entre nós.

Mas eu só conseguia olhar para ela deitada naquela cama, com a aparência frágil de um jeito que me deixava desconfortavelmente atento a cada pequena mudança no rosto, na respiração, no jeito como ela mantinha uma mão na barriga sem parecer perceber.

Grávida.

Ainda soava irreal. Não como uma fantasia — essas eu já tinha enterrado há anos — mas como um fato grande demais para caber dentro de mim de uma vez só. Havia medo misturado com uma felicidade bruta, quase vergonhosa. Uma felicidade que eu não sabia se tinha o direito de sentir enquanto ela estava ali, cansada, falando de exames e riscos. Meu estômago se revirou.

Bella não tinha passado por aquilo completamente sozinha. Alice estava com ela. Tinha ouvido, visto, segurado as pontas, feito as perguntas certas — ou pelo menos as possíveis. E ainda assim, a constatação não me ofereceu conforto. Só desenhou melhor o tamanho da minha ausência.

Alice estava lá. Eu não.

— Edward… — ela chamou, quase como se conseguisse ler o que se passava na minha mente naquele momento.

— Não — interrompi, baixo. — Está tudo bem. Eu só…

Mas não terminei. Porque não estava tudo bem, e nós dois sabíamos.

Respirei fundo e me obriguei a voltar para o concreto, para aquilo que importava mais do que meu desconforto.

— Alice ficou com você o tempo todo? — perguntei.

Bella assentiu uma vez.

— Ficou. Ela dormiu aqui — ela bateu a mão no espaço vazio na cama.

Refleti sobre aquilo mais uma vez.

— Então… Como está a Emerald?

Apesar de tudo, sorri. Era claro que ela sabia exatamente qual assunto abordar para me distrair do que quer que ela acreditasse que estava me perturbando.

— Cada dia mais geniosa. Minha mãe disse algo sobre eu ter tido a sorte de ter uma filha que antecipou o terrible two, mas a minha impressão é que está na fase do teste. Claro, ela continua sendo amorosa, pedindo colo sempre que possível, aprendendo mil novas palavras por dia, mas quando decide que vai nos testar… É a missão mais importante da vida dela.

Bella riu, e aquele som pareceu iluminar um espaço dentro de mim que estava na escuridão desde o dia em que ela me mandou ir embora. Até Jake, que estava deitado no tapete, se levantou e apoiou a cabeça na beira da cama, olhando para a dona.

— E você? — ela perguntou, sem olhar diretamente para mim. — Como está sobrevivendo à fase?

— Com algum esforço — inclinei a cabeça, pensativo. — Eu tenho a impressão de que passo metade do tempo tentando ensinar limites e a outra metade admirando o fato de que ela não aceita nenhum deles sem questionar. Ela se tornou uma pequena argumentadora.

A risada de Bella ecoou pelo quarto agora e, mais uma vez, senti como se algo dentro de mim estivesse sendo consertado.

Foi breve. Pequeno. Quase indecente, considerando todo o resto.

Mas bastou.

Porque ali, no meio do medo, da distância de um mês inteiro e da possibilidade concreta de perder tudo antes mesmo de entender o que era esse tudo, Bella ainda conseguia rir. E eu ainda conseguia reconhecer naquele som alguma coisa que me orientava.

Ela continuava com uma das mãos pousadas perto da barriga, e ver o gesto me atingia de novo toda vez, como se meu cérebro se recusasse a se acostumar com a imagem.

Grávida.

Ainda era um fato grande demais.

— E o que é “repouso”, exatamente? — perguntei. — Porque, vindo de você, repouso pode significar qualquer coisa.

Bella soltou um sopro pelo nariz.

— A médica disse repouso relativo, o que é vago.

Passei a mão pela nuca.

— Então vamos tornar menos vago. Você não vai trabalhar nos próximos dias.

Ela virou o rosto na minha direção.

— Ah, não?

— Não.

— Edward...

— Não estou pedindo autorização para mandar na sua vida — falei, mais baixo. — Só quero ajudar.

— Tudo bem. Esse é o máximo que consigo argumentar hoje.

Houve um novo silêncio. Bella encostou no travesseiro e fez uma careta quase imperceptível. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça e eu já estava em cima da cama antes de perceber.

— Onde dói?

Ela pareceu irritada por eu notar.

— No mesmo lugar. Acontece quando eu me movo, já estou quase acostumada.

Eu assenti, mas a resposta não me tranquilizou o suficiente para ser útil.

— Você mediu o sangramento?

Ela riu outra vez.

— Medir como, exatamente? Em mililitros?

— Você sabe o que eu quero dizer.

Bella virou o rosto para o teto.

— Está mais leve do que ontem, se essa é uma resposta que te agrada. Você vai me interrogar até a próxima semana?

— Talvez até a próxima consulta.

Isso fez a boca dela tremer de leve, perto demais de um sorriso. O quarto voltou a cair num silêncio mais denso, dessa vez fui eu quem quebrou.

— Você contou para mais alguém?

Ela demorou um segundo.

— Não. Só Alice sabe.

Aquilo me atingiu de um jeito estranho, como se me desse a dimensão da solidão que essa notícia ainda ocupava.

— E você não queria me contar por telefone.

— Não.

— Por quê?

Bella soltou o ar devagar.

— Porque se você reagisse mal, eu preferia saber olhando para a sua cara.

Fiquei olhando para ela por um segundo a mais do que devia. Bella percebeu, claro que percebeu. A expressão dela mudou de leve, não em recuo, mas em atenção.

— O quê? — perguntou.

Passei a língua pelos dentes antes de responder.

— Você continua linda mesmo parecendo que vai me mandar para o inferno a qualquer momento.

Então seu rosto voltou a ficar sério.

— O fato de eu estar aqui, falando com você, deixando você ficar no meu quarto, fazendo piada… — Ela engoliu em seco. — Nada disso significa que o resto entre nós foi resolvido só porque existe um bebê agora.

As palavras eram necessárias e, ainda assim, doíam.

— Eu sei.

Bella me observou como se tentasse decidir se eu estava mesmo entendendo ou apenas concordando para manter a paz.

— Eu acredito que você queira estar aqui — disse, por fim. — E eu acredito que esteja falando sério quando diz que vai ficar. Mas isso não muda o fato de que eu ainda não sei o que fazer com a sua presença sem sentir medo.

Meu maxilar travou por um segundo.

— Você tem medo de mim?

— Não. — A resposta veio rápida. — Tenho medo do que acontece comigo quando eu acredito em você.

Eu a encarei em silêncio, porque qualquer resposta pronta ali soaria pequena demais diante da brutalidade exata daquela verdade.

O silêncio seguinte foi interrompido por Alice, que bateu duas vezes na porta antes de aparecer com a cabeça para dentro. Ela entrou trazendo uma bandeja com chá, água, torradas e um comprimido.

Bella fez uma cara ofendida o suficiente para quase parecer bem.

— Eu já comi um sanduíche.

— Horas atrás — Alice rebateu.

Bella tomou o comprimido em silêncio, mastigou as torradas com a má vontade de uma criança contrariada e bebeu um pouco de água. Alice assistiu a tudo com os braços cruzados, como uma supervisora cruel e eficiente.

— Viu, foi tão difícil assim? — perguntou.

— Você me humilha com regularidade impressionante.

— Estou cuidando de você. É meu dom.

Alice pegou a bandeja vazia e então voltou os olhos para mim outra vez.

— Ela precisa dormir — disse, sem qualquer cerimônia.

— Alice — Bella começou, ofendida.

— Não, você precisa mesmo. Está com a cara péssima desde ontem.

Bella recostou a cabeça no travesseiro, exausta demais até para rebater a ofensa.

— Você não tem nem um pouco de doçura.

Ela se aproximou da cama e ajeitou o cobertor sobre Bella. Depois olhou para mim.

— Vou fazer algumas ligações e depois volto. Se ela tentar levantar para qualquer coisa que não seja o banheiro, impeça. Se ela disser que consegue descer a escada sozinha, não acredite. Se ela quiser pegar notebook, celular ou resolver qualquer coisa de trabalho, tire da mão dela.

— Alice — Bella repetiu, agora com metade da energia.

— Estou sendo muito razoável, na verdade.

E saiu antes que Bella pudesse protestar de novo.

Fiquei sentado na beira da cama enquanto a respiração dela ia mudando aos poucos de ritmo. Ela ainda abriu os olhos duas vezes, como se quisesse se certificar de que eu continuava ali. Na segunda, a mão dela deslizou pelo lençol até parar perto da minha.

Eu olhei para aquele pequeno espaço entre nossos dedos como se fosse um campo minado.

— Você pode segurar — disse.

O ar pareceu mudar de densidade.

Encostei minha mão na dela com cuidado suficiente para parecer que eu estava tocando uma coisa sagrada ou quebrada. Talvez as duas. Bella não reagiu com choque nem recuou, apenas entrelaçou os dedos aos meus uma única vez.

Ficamos assim em silêncio.

O quarto tinha aquela luz do fim da tarde descendo para a noite. Jake deitou mais perto da cama, com o focinho sobre as patas, como um guarda-costas. Da cozinha vinha o ruído distante de Alice abrindo armários e fingindo que estava nos dando privacidade. A mão de Bella na minha era pequena e fria demais.

Grávida.

A palavra voltou outra vez, mas agora não veio sozinha. Veio com um tipo de esperança que eu quase tinha vergonha de admitir a mim mesmo. Veio com a imagem impossível de alguma coisa que ainda não existia o suficiente para ser segura e, mesmo assim, já tinha alterado tudo.

Eu não sabia o que vinha depois.

Não sabia como consertar o que tinha quebrado entre nós. Não sabia se teria espaço para estar ao lado dela da forma que gostaria. Não sabia se eu estava autorizado a sentir felicidade enquanto ainda havia a ameaça concreta de perda pairando sobre cada exame futuro. Não sabia se Bella voltaria a confiar em mim. Não sabia se eu seria capaz de chegar inteiro até o fim disso sem estragar alguma coisa de novo.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu sabia de uma coisa com uma clareza quase brutal: eu não queria fugir.

Bella adormeceu com os dedos ainda entre os meus e eu permaneci ali mesmo depois, imóvel o suficiente para não acordá-la, olhando para o rosto dela, para a sombra dos cílios na pele pálida, para o traço exato da exaustão que não a deixava em paz nem dormindo.

Em algum momento, Alice apareceu na porta outra vez e parou ao ver a cena. Ela não disse nada, só me encarou por um segundo longo, como se medisse alguma coisa em mim que eu mesmo ainda não sabia nomear.

No fim, ela assentiu e foi embora.

A noite caiu devagar do lado de fora e eu continuei sentado na beira daquela cama, de mãos dadas com a mulher que ainda não sabia o que fazer comigo e com tudo direcionando para o pequeno milagre aterrorizante que existia, frágil e invisível, entre nós.

Talvez o amor não fosse suficiente para salvar o que tínhamos destruído. Talvez nem chegasse perto.

Mas, naquela noite, pela primeira vez, não me pareceu impossível que alguma coisa nova pudesse crescer entre nós.