Daylight

21 Capítulo 20


Bella

Naquela noite, Alice me levou para casa, me deu remédios, água, me obrigou a comer alguma coisa e seguiu cada instrução da médica como se pudesse manter a situação inteira estável pela força da própria vigilância. Nada disso tocou o centro da coisa.

O centro da coisa era o peso.

Era como se meu corpo tivesse decidido, sem me consultar, que agora carregava duas possibilidades ao mesmo tempo: uma vida e a ameaça imediata de perdê-la. E ambas pesavam muito.

Eu tomei banho por insistência dela. Um banho cuidadoso demais para alguém que nunca tinha pensado no próprio corpo dessa forma. Tirei a roupa muito devagar, como se movimentos bruscos pudessem alterar alguma coisa dentro de mim. Os seios doloridos. O estômago instável. O cansaço profundo que parecia ter se alojado dentro dos ossos havia semanas sem que eu entendesse por quê. A cólica ainda existia, abafada pelo remédio, mas constante o suficiente para nunca me deixar esquecer.

Grávida.

A palavra continuava sem se acomodar. Batia em mim, ricocheteava, voltava. Às vezes parecia impossível, quase risível. Em outros momentos, assustadoramente concreta.

Porque agora existia uma imagem cinzenta na tela que a médica tinha apontado com cuidado demais enquanto dizia que os batimentos estavam abaixo do esperado e que precisaríamos repetir o ultrassom em uma semana.

Uma semana.

Parecia um prazo desumano para pedir que alguém continuasse funcionando normalmente.

Eu não sabia o que sentir primeiro. Medo? Choque? E, por baixo de tudo isso, havia Edward.

A simples existência dessa gravidez o convocava para dentro da cena de uma forma que eu não tinha como evitar. Mesmo ausente, mesmo em silêncio há semanas, ele estava ali agora de um jeito que eu já não podia empurrar para fora. Eu sabia que precisava contar.

Mas contar significava abrir uma porta que eu tinha fechado por escolha própria. Significava trazê-lo de volta para o centro da minha vida no exato instante em que eu ainda estava tentando entender se havia alguma coisa ali para salvar. Significava admitir, em voz alta, a existência de uma ligação entre nós mais funda e mais irreversível do que qualquer declaração, e eu mal conseguia respirar direito sem sentir o peito apertar.

Saí do banho, vesti uma roupa limpa, e fiquei alguns segundos parada diante do espelho embaçado.

Eu parecia doente.

Não só cansada ou abatida. Doente, com a pele pálida demais, os olhos inchados, a boca sem cor. Havia um tipo de fragilidade nova na minha imagem, e eu a odiei imediatamente.

Voltei para o quarto e encontrei Alice mexendo nos armários à procura de outro cobertor, como se já morasse ali. Em qualquer outro contexto eu teria implicado. Naquela noite, apenas subi na cama e me deitei ao lado dela.

Jake se deitou no tapete como se tivesse assumido um plantão de cuidador. Eu quase achei graça nisso. Quase.

— Tenta dormir — ela disse. — Me chame se precisar de algo.

Mais tarde, descobri que meu corpo estava cansado demais para descansar. Fechei os olhos, virei de lado, abracei o travesseiro, contei a própria respiração, tentei cada truque que conhecia. Nada funcionou.

A dor tinha diminuído por causa do remédio, mas não sumido. Era pior assim. Dor demais assusta; dor de menos deixa espaço para pensar. E pensar, naquela noite, era um baita esporte de autodestruição.

Em algum ponto da madrugada, fui vencida pelo desespero e chorei.

Chorei pela violência indecente daquela combinação. Eu ainda amava um homem de quem tinha me separado. Porque estava grávida dele. Porque podia perder a gravidez dele. Porque ele não sabia. Porque eu sabia. Porque meu corpo, esse traidor arrogante, tinha decidido gerar um pedacinho de futuro justamente no momento em que eu tinha desistido de pedir qualquer forma de futuro a ele.

Levei a mão à boca para não fazer barulho, mas foi inútil. Alice acordou no primeiro soluço que sacudiu meu corpo e se aproximou para me abraçar.

Cada vez que eu fechava os olhos, o medo tomava conta de mim. Primeiro tinha sido o medo da perda como uma ideia, que depois virou uma imagem que se desenhou em sangue. Uma próxima ida ao hospital. Meu corpo falhando antes mesmo de eu conseguir decidir o que faria com essa vida. O terror de que a vida tinha me dado alguma coisa só para arrancá-la em seguida com a mesma eficiência com que a tinha anunciado.

Levei a mão à barriga, procurando algo em que me segurar. Era cedo demais para qualquer vínculo racional e, ainda assim, estava lá. Isso me atravessava feito vergonha e revelação ao mesmo tempo. Meu corpo inteiro parecia orientado por uma lealdade que a minha cabeça ainda não tinha assimilado.

Alice esperou em silêncio, o que foi pior do que se tivesse perguntado mais.

— Eu nem tive tempo de entender e já sei que não posso perdê-lo — comecei, a voz saindo em pedaços. — Isso não faz sentido. Não faz sentido nenhum.

— Faz, sim.

— Não, não faz. — Passei a mão pelo rosto, irritada com as lágrimas, com meu corpo, com toda aquela situação. — Faz menos de um mês que eu mandei ele embora. Eu já estava grávida. E agora descubro isso desse jeito, e ele nem sabe.

Alice não respondeu. Continuou ali, com a mão na minha nuca, os dedos abrindo e fechando devagar no meu cabelo.

— Uma semana — murmurei. — Eles querem que eu espere uma semana inteira.

A frase saiu quase ofensiva.

Porque agora o tempo tinha adquirido uma crueldade nova: cada hora parecia capaz de mudar tudo.

Aos poucos, o choro foi diminuindo até virar um resíduo miserável de soluços espaçados e respiração dolorida. Alice me soltou apenas o suficiente para pegar um copo d’água na mesa de cabeceira.

Enquanto eu bebia, ela puxou o cobertor mais para cima, cobrindo minhas pernas e foi até o banheiro. Ouvi a porta abrir e fechar, água correndo por alguns segundos, o pequeno ruído de frascos sendo mexidos. Quando voltou, trazia uma toalha úmida. Sentei um pouco sem que ela precisasse pedir. Ela passou o pano no meu rosto com uma delicadeza que me fez querer chorar de novo.

Depois, Alice ajeitou o travesseiro atrás das minhas costas e puxou o cobertor até meus ombros. Depois apagou de novo a luz e voltou a se deitar ao meu lado, desta vez mais perto. Ficamos em silêncio por algum tempo.

Eu ouvia a respiração dela, a de Jake no chão, o ruído distante de algum carro na rua. Aos poucos, os sons da casa foram retomando contornos. A crise aguda do choro tinha passado, mas deixado para trás aquele esgotamento estranho, como se cada músculo do meu corpo tivesse trabalhado horas demais em alguma tarefa inútil.

Achei que talvez conseguisse dormir. Não consegui.

Minha mente voltou a circular pelos mesmos lugares, agora menos histérica, o que não significava melhor. Em algum momento, sem abrir os olhos, perguntei:

— Você acha que ele vai me odiar?

Alice demorou tanto para responder que pensei que não tivesse ouvido.

— Por quê?

— Por não contar imediatamente. Por eu... não saber ainda. Por ter mandado ele embora e depois aparecer com isso como se... — parei, sem conseguir organizar a própria vergonha. — Fosse algum plano. Alguma vingança.

Alice soltou o ar devagar.

— Bella, nada disso está acontecendo para você se vingar de ninguém. Está acontecendo porque adultos fazem coisas e precisam lidar com as consequências depois.

— Que visão incrivelmente romântica.

— Estou noiva de um senador. Meu limiar para a romantização já foi triturado há meses.

Isso me arrancou uma risada, pequena demais para aliviar de verdade, mas suficiente para rearranjar um pouco o ar.

Alice virou o rosto na minha direção. Mesmo no escuro, eu senti.

— Quando você falar com ele, você vai falar porque precisa. Não porque deve algo ou está se sentindo culpada. E não vai ser hoje. Hoje você precisa sobreviver à noite. Amanhã pensamos no resto.

Amanhã.

A palavra pousou em mim com um peso menos hostil do que antes. Eu ainda não suportava a vida inteira, mas talvez suportasse a próxima manhã.

A noite não melhorou. Só avançou.

Houve outros despertares curtos. Outras checagens no banheiro para ver o sangue. Outra onda de medo irracional quando a dor pareceu aumentar por alguns minutos antes de ceder outra vez. E em todas elas Alice acordou comigo ou já estava acordada. Perto do amanhecer, quando a exaustão finalmente venceu o pânico por breves intervalos, eu dormi.

Quando acordei, por um segundo inteiro, não lembrei de nada. Foi um segundo de paz tão puro que se tornou cruel assim que a memória voltou.

Eu estava grávida. De um filho de Edward.

Virei a cabeça e encontrei Alice já acordada, sentada na cama com o cabelo preso para cima e o celular na mão. Ela levantou os olhos para mim na mesma hora.

— Bom dia.

Soltei um sopro sem humor.

— Isso é contestável.

Ela largou o celular e veio até mim.

— Como está a dor?

— Melhor.

Alice saiu do quarto sem pedir permissão e voltou alguns minutos depois com torradas, chá e uma expressão que dizia claramente que eu podia reclamar à vontade, desde que comesse primeiro.

— Pode comer devagar. Depois vamos ligar para a obstetra.

O “nós” implícito na frase me atingiu de um jeito quase tão forte quanto o resto.Não porque eu não soubesse que ela estaria ali. Mas porque, pela primeira vez desde o hospital, o dia seguinte tinha deixado de parecer um abismo abstrato e começado a ter forma concreta.

Alice se sentou na poltrona à minha frente, cruzou as pernas e me observou.

— Obrigada — eu disse.

— É para isso que servem melhores amigas.

Aos poucos, o desespero não era mais a única linguagem disponível.

Passei o resto da manhã tentando obedecer à lista de Alice como se a disciplina pudesse me garantir alguma coisa.

Em algum momento, ela pegou meu celular na mesa de cabeceira e ergueu uma sobrancelha.

— Senha.

— Isso é um abuso de confiança.

— Bella, sua senha.

Ela desbloqueou, procurou os papéis da alta, encontrou o nome da clínica, ligou como se administrasse crises alheias todas as manhãs antes do café. Fiquei ouvindo o lado dela da conversa sem querer ouvir de verdade. Ela falou meu nome completo, data de nascimento, relatou o sangramento e o tal hematoma subcoriônico. Sim, o quanto antes. Sim, amanhã serve. Sim, manhã está ótimo.

A consulta ganhou hora, endereço, instruções e existência concreta antes que eu pudesse decidir se estava pronta para ela.

Alice desligou e me devolveu o celular.

— Amanhã, às dez e vinte.

Olhei para o aparelho na minha mão como se ele pudesse contestar.

— Tão rápido assim?

— Você achou que eu fosse aceitar semana que vem?

— Achei que eu teria mais tempo para assimilar.

— Tempo negado.

Aquilo me arrancou um som que quase foi riso. Quase.

A consulta amanhã significava que isso continuava. Que havia exames futuros, médicos futuros, respostas futuras.

Do outro lado do quarto, o espelho do armário refletia parte da cama e meu corpo nela, mais pálido do que eu estava habituada a ver. Doente, pensei outra vez.

Havia alguma coisa nisso que me revoltava. Eu sempre fui boa em continuar. Mesmo abatida, mesmo no pior dia, ainda havia em mim alguma reserva de força que sustentava a postura, o rosto, a articulação mínima da vida. Agora não.

Levei a mão ao ventre de novo, quase sem perceber.

Ainda era cedo demais para qualquer gesto fazer sentido. Não havia volume, nem forma, nem qualquer traço externo de mudança além da dor e da ameaça. Ainda assim, minha mão parecia saber o caminho sozinha. Isso me assustava mais do que eu gostaria de admitir.

Fomos para a sala. Jake nos acompanhou como se liderasse a operação. Sentei no sofá com uma almofada nas costas. Alice abriu só um pouco mais as cortinas, o suficiente para a casa parecer habitável sem se tornar indecentemente iluminada.

Nada estava resolvido. Nada sequer se aproximava de resolvido. Eu ainda estava grávida. Ainda em risco. Ainda apaixonada pelo homem errado. Ainda separada dele. Ainda sem saber como dizer a ele que existia, dentro de mim, a consequência mais literal e mais injusta possível de tudo o que tinha acontecido entre nós.

Ele precisava saber. Aquilo era dele também, por mais que eu odiasse admitir a extensão dessa verdade.

Perto do meio-dia, Alice me encontrou olhando para o celular outra vez.

— Há quanto tempo você está nessa posição?

Desviei os olhos da tela sem realmente soltá-la.

— Eu preciso contar.

Alice ficou quieta por um segundo. Depois se aproximou devagar e sentou na ponta da poltrona à minha frente.

— Hoje?

Engoli em seco.

— Sim.

Ela estudou meu rosto por alguns segundos, como se estivesse tentando distinguir impulso de necessidade. O problema era que, naquele momento, talvez fossem a mesma coisa.

— Você quer contar — ela disse, devagar. — Ou não consegue mais não contar?

— As duas coisas.

Alice apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Você quer que ele venha aqui? — ela perguntou.

A pergunta me atravessou inteira.

Eu queria olhar para o rosto dele quando dissesse. Queria que ele visse o meu. Queria impedir que aquela notícia virasse mais ruído entre nós. Talvez por justiça a mim mesma. Talvez porque eu ainda o amasse o bastante para não suportar entregar algo assim numa tela.

— Sim — respondi, antes que pudesse me proteger da honestidade.

Alice respirou fundo.

— Então faça o convite.

Fechei a mão em volta do telefone.

— E se ele não vier?

Ela sustentou meu olhar.

— Então você vai sobreviver a isso também.

Eu ri, mas o som saiu quebrado.

— Que resposta de merda, Alice.

— É a única coisa que posso oferecer no momento.

Baixei os olhos para o aparelho outra vez. Minha conversa com Edward continuava ali, enterrada sob semanas de silêncio. Meu polegar ficou parado sobre o teclado.

— Eu não consigo escrever isso.

— Então escreva o mínimo necessário.

Engoli em seco.

Preciso falar com você. Hoje. Pessoalmente.

Fiquei olhando para a frase. Apaguei e tentei de novo.

Precisamos conversar. É importante.

Apaguei outra vez.

— Isso é ridículo — murmurei.

Desta vez, digitei sem pensar demais.

De: Bella Swan

Preciso te ver hoje. Não é algo para falar por telefone.

Meu peito apertou tanto que precisei apoiar a mão livre no ventre por reflexo, como se meu corpo inteiro estivesse tentando se preparar para o envio.

A mensagem saiu da tela com um toque pequeno. Um risco azul. Só isso. E, ainda assim, senti como se tivesse aberto uma porta pesada demais. Fiquei olhando para o celular depois que já não havia nada a fazer nele.

O tempo depois disso adquiriu uma textura repugnante. Não passou mais em minutos, mas em verificações. Ele não respondeu nos primeiros cinco minutos. Nem nos dez seguintes.

A essa altura eu já tinha criado, descartado e recriado mentalmente três cenários diferentes. No primeiro, ele estava dirigindo. No segundo, estava com Emerald e não tinha visto o telefone. No terceiro, tinha visto e estava deliberadamente demorando a responder porque o conteúdo da mensagem anunciava catástrofe e ele precisava de um espaço para respirar antes de tocar nela.

Alice puxou o aparelho da minha mão.

— Você é uma tirana — murmurei.

— E você vai vomitar de ansiedade se continuar assim. Fique sem olhar para isso por quinze minutos.

Cruzei os braços com o máximo de dignidade que uma mulher de moletom, pálida, de repouso e à beira de um colapso podia reunir. Quinze minutos depois Alice empurrou o aparelho de volta para mim.

Meu corpo inteiro soube antes de ver. Minhas mãos ficaram frias e meu coração acelerou de um jeito ridículo, quase ofensivo. Por um segundo eu só fiquei olhando para o nome dele, para o horário da resposta, para a prova simples e devastadora de que o silêncio entre nós tinha sido quebrado.

De: E.

Estou no set, mas consigo sair agora. Onde quer me encontrar?

Li uma vez. Depois outra.

Sem perguntas, o que, de um jeito estranho, me pareceu mais Edward do que qualquer outra coisa. Ele já havia entendido que a mensagem anunciava algo sério. Já havia aceitado vir. O resto ficaria para depois.

De: Bella Swan

Na minha casa.

Enviei antes que pudesse pensar melhor e ele visualizou quase imediatamente.

De: E.

Certo.

Larguei o celular no sofá ao meu lado e Alice inclinou a cabeça.

— Ele está vindo.

Dito em voz alta, adquiriu um peso novo.

— Ótimo. Então temos trabalho — ela disse, levantando.

Franzi o cenho.

— Trabalho?

— Sim. Você precisa comer alguma coisa, talvez trocar de roupa se isso te fizer sentir minimamente mais dona de si. E decidir se quer que eu esteja aqui ou não quando ele chegar.

A última frase pairou entre nós.

Eu não tinha pensado nisso, o que era absurdo. A presença de Alice poderia me ajudar ou atrapalhar. Dependia menos dela do que da versão de mim que eu conseguiria sustentar na frente dele.

Edward estava vindo e, de repente, o dia inteiro pareceu ter sido apenas a prévia desse momento.

— Eu não sei — respondi, honestamente.

Alice assentiu como se isso fosse um ponto de partida suficiente.

— Tudo bem. Você não precisa decidir nos próximos trinta segundos.

Mas precisaria em breve.

E o simples fato de saber que em menos de uma hora eu estaria olhando para o rosto de Edward pela primeira vez desde a noite em que o mandei embora foi suficiente para fazer meu corpo inteiro mudar de eixo outra vez.

Levei a mão ao ventre, de novo. Alice viu e, dessa vez, falou.

— Um passo de cada vez, Bella.

Respirei fundo, ele vinha e agora não havia mais como adiar a vida que começaria quando eu dissesse em voz alta.

— Banho? — ela perguntou.

— Já tomei um ontem, obrigada.

Acabei obedecendo, no final das contas. Talvez porque ficar parada me deixasse mais perto do pânico e eu precisasse me ocupar. Talvez porque houvesse alguma dignidade em não receber Edward na mesma roupa em que eu tinha chorado e dormido mal.

O banho foi rápido e zero reconfortante. Saí, vesti uma calça de malha limpa e um suéter largo, tentando esconder o que não precisava ser escondido, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e fiquei alguns segundos parada diante do espelho embaçado do banheiro.

Eu ainda parecia doente. Meus olhos ainda estavam inchados, minha boca sem cor, a pele fina e em um tom pálido demais. Havia alguma coisa ferida na minha imagem, e o pior era saber que Edward veria isso. Odiei a ideia.

Voltei para a sala e encontrei Alice organizando almofadas, como se preparar o espaço pudesse oferecer alguma ilusão de ordem ao que viria. Jake me acompanhou até o sofá e deitou outra vez, atento demais para um animal que, em tese, não tinha participação no drama.

— Melhor? — Alice perguntou.

— Não.

Ela assentiu.

— Ótimo. Então estamos alinhadas com a realidade.

Alice me deu um sanduíche que eu consegui comer pouco menos da metade antes que o estômago começasse a protestar.

— Já basta — ela disse, pegando o prato antes que eu precisasse pedir.

— Você está gostando demais de mandar em mim.

— Verdade, mas hoje também estou certa.

Ela levou o prato à cozinha e voltou secando as mãos.

— Decidiu? — perguntou.

Eu sabia o que ela queria dizer. A questão pairava desde antes do banho e vinha se aproximando junto com o resto.

— Não quero ficar sozinha.

— Tudo bem.

Cruzei os braços, imediatamente sentindo o gesto pressionar demais os seios doloridos. Soltei-os de novo, irritada com meu próprio corpo por continuar me lembrando de si em pequenos detalhes humilhantes.

— Bella, você não precisa tomar a decisão perfeita. Só precisa escolher a que te deixe menos vulnerável sem te impedir de dizer o que tem de dizer.

Menos vulnerável. Quase ri. Era tarde demais para essa categoria.

Ainda assim, fechei os olhos por um segundo e tentei imaginar as duas versões da cena. Alice ali, Edward entrando e me encontrando menos exposta, mas também menos disponível para a conversa inteira. Alice fora dali, e eu sozinha diante dele com a notícia, com o rosto dele, com a memória do corpo dele, com o risco de me desorganizar no pior momento possível.

Em algum momento, perguntei à Alice que horas eram de novo e ela respondeu sem revirar os olhos, o que considerei prova de santidade. Eu mesma ergueria uma capela para a Santa Alice Brandon ao final de tudo isso.

— Dez minutos.

Meu corpo inteiro reagiu à frase.

Ajustei a postura no sofá, depois a desfiz. Cruzei as pernas, descruzei. Peguei o copo d’água, bebi um gole, apoiei-o de volta com cuidado excessivo. Jake levantou a cabeça, me avaliando.

— Para de me olhar assim — murmurei para ele.

Cinco minutos depois, a campainha tocou.

Nada no mundo me preparou para o som.

Jake levantou em um salto, latiu uma vez e correu para a entrada. Alice se levantou primeiro, olhou para mim e eu levantei também.

Minhas pernas pareciam pertencer a outra mulher, uma mais fraca. Caminhei até a entrada com Alice alguns passos atrás, a presença dela ainda ali, discreta, mas concreta.

Parei com a mão na maçaneta por um segundo curto demais para ser hesitação total e longo o bastante para admitir medo. Respirei fundo. Abri a porta.

Edward estava do outro lado com a mesma expressão que eu vinha imaginando sem sucesso desde que mandei a mensagem: sério, atento, contido, como alguém que já sabia antes de chegar que a conversa não seria fácil. Usava jeans escuros, uma camiseta azul clara e o cabelo um pouco desalinhado, como sempre. A cicatriz perto da testa já tinha fechado, mas ainda estava ali, fina e pálida, como um lembrete cruel da última vez que nos vimos.

Por um segundo, tudo em mim se organizou em torno desse detalhe. Depois ele ergueu os olhos e me viu direito.

A mudança no rosto dele foi quase imperceptível, mas eu vi. O primeiro impacto não foi reconhecimento. Foi uma avaliação, do tipo de atenção imediata que alguém dedica a uma pessoa visivelmente pior do que esperava encontrar.

Os olhos dele desceram um instante pelo meu rosto, pelo cabelo preso sem cuidado, pela pele mais pálida do que o normal, e voltaram aos meus. Havia preocupação ali agora. Nítida demais para eu suportar sem ressentimento.

Afastei-me da porta.

— Entre.

Jake o farejou com severidade antes de aceitar a presença e voltar para perto do sofá. Traidor, pensei.

Edward parou na sala, sem nada que sugerisse permanência. Tinha vindo para ouvir, não para ficar. O detalhe me atingiu com um alívio que doeu.

Alice olhou para mim. Depois para ele. Depois de novo para mim.

— Vou fazer um café — disse.

— Você odeia café à tarde — eu falei, antes de conseguir evitar.

Ela me lançou um olhar que dizia por favor, colabore.

— Hoje vou abrir uma exceção.

E foi para a cozinha.

Fiquei de frente para Edward com a súbita e ofensiva percepção de que não havia mais ninguém entre nós e aquilo.

— O que aconteceu? — perguntou, por fim.

A voz dele estava baixa. Controlada. Quase cuidadosa demais.

— Sente-se — falei.

Ele obedeceu sem discutir. Eu fiquei de pé mais um instante, porque me sentar parecia admitir uma fragilidade que eu não queria deixá-lo ver. Depois a dor no ventre me lembrou que nem tudo era sobre orgulho, e sentei na poltrona à frente.

Edward apoiou os antebraços e me olhou com atenção inteira agora.

Fechei os olhos por um segundo. Quando abri, falei direto porque qualquer desvio me destruiria.

— Fui ao pronto-socorro ontem.

Vi o impacto atravessar o rosto dele antes que ele conseguisse escondê-lo.

— Você está bem?

A mão que eu tinha apoiada no braço da poltrona começou a doer de tanto que eu a apertava.

— Neste momento, sim.

— O que isso significa?

Era agora. Eu precisava falar logo, antes que perdesse a coragem.

— Significa que estou grávida, Edward. Do seu filho.

O silêncio depois disso foi absoluto.

Edward não se mexeu e, de início, pensei que talvez ele não tivesse entendido. Mas então vi o momento exato em que a frase se fixou nele. A respiração mudou de ritmo, quase nada, mas o bastante. Seu corpo inteiro ficou ainda mais imóvel, como se qualquer movimento brusco pudesse piorar uma coisa que já tinha acabado de se tornar irreversível.

Os olhos dele não saíram do meu rosto, mas eu tive a impressão estranha de que ele tinha parado de me ver por um instante. Como se a frase tivesse aberto alguma coisa por dentro e toda a atenção dele tivesse sido arrastada para lá.

— Grávida — repetiu, baixo. Não era dúvida. Era a tentativa de alcançar a palavra por conta própria. — Você tem certeza?

A pergunta poderia ter me ofendido. Em vez disso, me pareceu quase misericordiosa. Havia perguntas piores. Havia reações piores.

— Sim.

— E por que você foi ao hospital?

Respirei fundo, mas o ar não resolveu nada. Ficou parado em algum lugar entre o peito e a garganta, inútil.

— Porque achei que estivesse doente. Estou há dias sem conseguir comer direito, e ontem acordei com uma dor que parecia uma cólica forte, Alice achou que eu precisava de atendimento porque o sangramento não era normal.

A mudança no rosto dele foi imediata. Uma contração mínima no maxilar, o olhar descendo por um segundo até a altura do meu ventre antes de voltar aos meus.

— Sangramento? Você, o… bebê… Estão bem?

Eu passei a língua pelos dentes, sentindo ainda o gosto metálico da manhã preso em algum lugar do corpo.

— Disseram que o bebê está no lugar certo. Sobre o desenvolvimento, precisamos esperar para ver como será — falei, porque aquilo parecia a forma mais simples de evitar que o pior tomasse conta do rosto dele de uma vez.

Edward soltou o ar, mas não chegou a ser alívio. Foi só uma pausa.

— E o sangramento?

— Tem sangue onde não devia, foi isso que me explicaram. É por isso que estou com dor e preciso tomar cuidado agora.

Vi o momento exato em que a palavra cuidado não foi suficiente para ele. Ele passou a mão pelo rosto, numa pressa nervosa que eu conhecia bem demais.

— O que os médicos disseram? Sem me poupar.

— Preciso de repouso e repetir os exames em uma semana. Existe um risco, mas não significa que obrigatoriamente vou… perder.

O último pedaço da frase saiu mais baixo. Edward ficou completamente imóvel.

— Perder? — repetiu, como se a palavra fosse fisicamente difícil de engolir.

Ele abaixou a cabeça por um instante, e quando levantou de novo havia uma coisa diferente nele. Medo.

— Queria conseguir explicar o que estou vendo e sentindo agora.

Franzi o cenho.

— E o que você está vendo?

Ele abriu a boca, mas demorou um segundo para conseguir responder.

— Você. Dizendo que está grávida. Dizendo que poderia tê-lo perdido ontem mesmo — A respiração dele falhou um pouco no meio. — E eu não estava aqui.

A última frase partiu a sala ao meio. Desviei o rosto.

— Isso não é sobre você.

— Não mesmo — A resposta veio rápida demais. — É sobre o fato de que você passou por isso sozinha e eu estou tentando não enlouquecer com essa informação.

Silêncio. Jake levantou a cabeça do tapete, como se até ele tivesse percebido que o ar da sala tinha mudado de densidade. Edward se inclinou para a frente, os olhos presos nos meus agora com uma intensidade quase palpável.

— Você quer esse bebê?

A pergunta veio tão direta que doeu. A resposta, também.

— Claro que sim, Edward. É tudo que eu sempre quis.

Ele passou a mão pela nuca, levantou e andou dois passos curtos pela sala antes de parar de novo, como se o espaço fosse pequeno demais para o que ele precisava organizar.

— Então nós estamos juntos nessa.

Como é?

— Você não precisa fazer isso, Edward.

Ele parou.

— Isso o quê?

— Não precisa transformar isso em algo maior do que é porque se sente culpado. — disse, agora mais baixo, mas não mais gentil. — Não precisa decidir que vai me salvar de alguma coisa.

Edward ficou me olhando em silêncio. Havia choque ainda, sim, mas o que apareceu depois dele foi mais perigoso.

— Você acha que é isso?

— Acho que você está em pânico e tomando decisões impulsivas.

A resposta dele veio tão rápido que me calou por um segundo.

— Estou em pânico porque você está grávida. Porque existe um bebê. Porque você está sangrando. Porque ontem você foi para um hospital e eu não estava lá. Estou em pânico porque a ideia de que poderia ter acontecido qualquer coisa com você e eu só teria descoberto depois está me deixando doente. — A voz dele baixou ainda mais. — Mas não confunda isso com piedade, Bella.

Meu peito apertou.

— Então com o quê eu confundo?

Ele soltou o ar pelo nariz, uma vez, com força demais para parecer calmo.

— Não confunda! Apenas aceite a verdade.

A palavra caiu entre nós com uma força que me irritou imediatamente.

— E qual seria a verdade, Edward?

Ele me encarou por um segundo longo demais. Jake se levantou, circulou devagar entre a poltrona e o sofá, e tornou a deitar aos meus pés. Quando Edward falou de novo, já não havia quase nada de polido nele.

— A verdade é que eu quero estar aqui.

Eu ri. Um som curto, sem humor.

— Claro, agora quer.

— Agora, também. E antes eu também queria, mas fui embora porque você pediu.

A resposta me atingiu com precisão demais. Eu desviei o rosto, mas ele continuou antes que eu pudesse levantar qualquer muralha útil.

— Eu sei como isso soa. Parece oportunismo. Parece que estou usando uma situação para me aproximar de você de novo. — A garganta dele se moveu num gesto seco. — E talvez uma parte de mim esteja mesmo vendo nisso uma chance de consertar as coisas, mas isso não torna menos real o fato de que eu quero estar aqui.

— Não, Edward. Você não pode simplesmente entrar aqui, ouvir isso e decidir que agora somos uma frente unida contra o universo.

Ele passou a mão pelo cabelo, desorganizando-o ainda mais.

— Estou dizendo que existe uma diferença entre o que aconteceu entre nós antes e o que está acontecendo agora.

— Eu sei disso.

— Então me deixa terminar!

A frase não veio dura, veio exausta. Recuei e esperei. Ele ficou parado no meio da sala, as mãos abertas por um segundo, vazias de um jeito que me pareceu quase ofensivo.

— Nós estamos separados — disse. — Não vou fingir que não estraguei tudo, não vou usar esta gravidez para te empurrar de volta para algum papel que você não escolheu. — Os olhos dele se prenderam nos meus. — Mas você quer esse bebê, e esse bebê é meu também, então eu estou dentro disso.

As palavras bateram em mim num lugar muito mais indefeso do que eu havia planejado permitir.

— Você fala como se fosse simples.

— Eu não acho que seja simples, acho que é o único caminho possível.

Eu balancei a cabeça, irritada com ele, comigo, com o mundo, com a forma humilhante como uma parte de mim já tinha começado a se inclinar na direção daquela certeza.

— Não quero que você fique por obrigação.

A expressão dele mudou de novo.

— Não é obrigação.

— Então o que é?

Ele me olhou com uma honestidade tão escancarada no olhar que tive vontade de mandar que parasse imediatamente.

— É você. É a chance de eu não fugir. Não estragar tudo. Não deixar você sozinha de novo.

As lágrimas vieram aos meus olhos com uma velocidade indecente. Virei o rosto imediatamente, não querendo que ele me visse daquela forma.

Que engano. Edward aproveitou esse momento para se aproximar e tocar meu rosto.

Ele encostou a ponta dos dedos no meu rosto com uma cautela quase insuportável, como se eu fosse ao mesmo tempo real demais e frágil demais para ser tocada sem risco.

Fechei os olhos por um segundo, traída pelo meu corpo antes que minha cabeça pudesse argumentar qualquer coisa útil. A mão dele permaneceu ali, imóvel, quente contra a minha pele fria, sem pedir mais do que o gesto já pedia por si só.

Abri os olhos de novo e Edward estava perto o bastante para que eu visse a exaustão acumulada no rosto dele e o medo mal acomodado atrás dos olhos. Não havia triunfo ali. Nem alívio. Nem a certeza arrogante de que tinha encontrado uma abertura. Havia só uma espécie de reverência, como se ele mesmo não soubesse exatamente o que fazer com o fato de ainda poder me tocar.

Eu deveria ter me afastado. Deveria ter dito alguma coisa cortante, útil, adulta. Em vez disso, permaneci ali, imóvel dentro da própria fraqueza, sentindo o estrago exato de ainda reconhecer o consolo nele.

Eu puxei o ar pelo nariz, tentando reorganizar alguma coisa. Não consegui. As lágrimas, ofendidas por qualquer tentativa de dignidade, vieram de vez.

A outra mão dele veio para a lateral da poltrona e ele se inclinou um pouco, devagar demais para ser impulsivo, e encostou a testa na minha.

Nada em mim estava preparado para o estrago simples daquele gesto.

Eu soltei o ar de uma vez, como se o estivesse prendendo pelo último mês. Talvez estivesse. A proximidade dele trouxe de volta coisas que eu vinha tentando manter soterradas havia semanas: o cheiro limpo da pele, a respiração quente, a memória física de uma intimidade que tinha se tornado proibida antes de deixar de ser desejada.

— Eu tive tanto medo — falei, sem saber exatamente em que momento tinha decidido admitir aquilo em voz alta.

Ele não se afastou.

— Eu sei.

— Não, não sabe.

— Sei o suficiente para me odiar por não estar aqui ontem.

A frase roçou minha pele como lixa.

— Eu não preciso que você se odeie.

— Que pena.

Apesar de tudo, saiu de mim um quase-riso, exausto e molhado de lágrimas. Edward o ouviu e a boca dele se moveu num quase sorriso.

Foi Jake quem quebrou o feitiço. Ele se levantou do tapete e enfiou o focinho entre a minha perna e a canela de Edward, exigindo atenção. Eu ri de verdade dessa vez.

Edward afastou a testa da minha só o bastante para olhar para baixo.

— Excelente timing.

Jake abanou o rabo uma vez, satisfeito consigo mesmo.

— Ele acha que está salvando a situação — murmurei.

A mão dele finalmente deixou meu rosto, mas não de imediato, como se houvesse ali alguma relutância que ele não queria transformar em pressão. Eu senti falta antes mesmo de ela desaparecer por completo, o que considerei mais uma humilhação para a coleção.

— Você precisa deitar — disse, mais baixo agora. Sem comando. Só fato.

Eu devia discutir, fazia parte do meu caráter. Em vez disso, estava cansada demais para sustentar uma oposição.

— Você tem uma obsessão por me ver na horizontal.

A boca dele tremeu de leve.

— Bem, sim. Mas não é sobre isso, suas mãos estão tremendo e acho que exigi um pouco demais de você. Por que você não deita e continuamos a conversa?

Havia cuidado na frase, como alguém que estava me observando com atenção o suficiente para notar o tremor nas minhas mãos, o cansaço já me arrastando para baixo e o ponto em que insistir em ficar pé começaria a me pôr em risco.

Edward me observou por meio segundo e então estendeu a mão.

Seguimos para o quarto com Jake nos escoltando. O silêncio entre nós não era leve, mas também não era hostil. Havia um peso nele, sim, mas um peso menos cortante. Como se, depois de toda a brutalidade das últimas horas, tivéssemos decidido baixar um pouco as armas.


Notas finais
Esses dois ainda tem um loooongo caminho a percorrer. O que vocês acham que vem aí? Até o próximo.