Dawn
1 Capítulo 1:
Notas iniciais
Dawn
Atrás de uma grande colina, o gigante se levantava.
O homem de cabelos platinados estava apoiado nas pilastras, seu corpo levemente estirado sobre ela. Estava contra a visão da colina verdejante onde erguia-se lá uma imensa floresta. Ele não a olhava, mas o desconforto estava implícito em seu gesto.
Havia muito, muito tempo que não subia até o maldito terraço.
Os olhos vermelhos escarlate estavam perdidos em um ponto qualquer, fitando o chão de mármore com certa indiferença. Havia uma redonda taça em sua mão pálida, o líquido dançava enquanto ele girava o pulso.
Quem o visse diria que a melancolia estava estampada ali. Diria também que aqueles peculiares olhos estariam perdidos, chutaria dizer que até mesmo aquela alma estaria perdida.
Perdida ou vazia, aquilo não o importava. Nunca havia o importado.
O vinho ainda permanecia girando apesar de ele não se mexer mais. Vladimir tentou fitar o céu onde a penumbra se dissipava. Os olhos estavam semi abertos, tentando-o olhar com talvez até mesmo com certa tediosidade.
Não era noite nem dia. As estrelas já não podiam ser mais vistas, no entanto não havia ainda a claridade da alvorada. Um longo suspiro pairou pelo ar, sendo a única pista que poderia ser analisada daquele homem.
Ele era alguém que não deixava rastros.
Alguém que não deixava vestígios de seus atos, alguém que não deixava pegadas no chão, alguém que não emanava cheiro... Alguém que não possuía uma sombra no chão.
Tempestuoso quando irritado, mas sempre sendo equilibrado. Mas ao perder a calma...
Um fraco som de vidro se estilhaçando ao chão foi ouvido. Vladimir olhou para a sua mão, procurando a origem do som.
O que viu o fez dar uma fraca risada, sendo ela semi vazia, mostrando que ele mesmo se reprovara.
A taça havia caído de sua mão, o líquido escuro deslizava sobre o chão com tranquilidade. Aquela serenidade quase doentia chegou aos olhos vermelhos em forma de ira.
Pela primeira vez depois de horas, ele saiu de sua posição inicial. Olhou para a taça quebrada e com sua bota, ele pisou no vidro. Estraçalhando os cacos para todos os lados. Quando afastou seu pé, imediatamente ele levou a mão nos olhos, o reflexo da luz doía sua visão.
O reflexo da luz.
Sendo até considerado um ato desesperado, ele virou-se para ver a grande colina, e atrás dela, o gigante se levantava.
Os vários e fracos raios solares entravam pelos corredores dos troncos das árvores. Eles mandavam a penumbra embora e clareavam a sua visão.
Vladimir engoliu seco. Depois de tantos anos, aquela era a primeira vez que via a aurora. A saliva passou raspando em sua garganta, e nela eram engolidas várias palavras e pensamentos que morriam dentro de si.
Tudo sempre estaria dentro de si.
No momento em que o sol atingiu o templo, algo dentro de si revirou. Ele sabia o que era, nunca havia escondido ou reprimido tal sensação. Porém, ela estava quieta lá, esperando a horar necessária para que pudesse, enfim, chegar.
No entanto, chegar não significava se libertar. E Vladimir podia rir com a sua frágil desgraça.
Quando um fraco feixe de luz refletiu em sua mão, o sorriso vazio voltou aos seus lábios, brincando com a sua feição como se ele mesmo fosse um idiota. Ele deixou que lá o sorriso ficasse, sabendo que hora ou outra ele morreria.
Foi quando o calor lhe atingiu. Os longos e pálidos dedos não se mexiam pelo frio, mas lá estava o calor que a luz podia lhe proporcionar.
Aquela era a melhor sensação que ela podia lhe proporcionar.
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