Dastan & Tâmina
16 Infância
Notas iniciais
Quando se é criança, a vida é um paraíso. Suas únicas obrigações dão a de se alimentar bem, dormir na hora certa e ser feliz. Brincar na chuva, tomar um banho quente em seguida. Um bolinho de cenoura com cobertura de chocolate, com um chazinho de acompanhamento caem bem.
Infelizmente, sabemos que nem todas as crianças tem a infância que merecem, sejam elas pobres ou ricas. Ao invés de diversão, estão trabalhando. Ao invés de fazer amigos, estão deixando lágrimas cair. Sim, uma lâstima.
Sei que este livro se trata de uma história de romance, mas isso não significa que não possamos tratar de assuntos que assolam nossa sociedade, mesmo que indiretamente. Até um fofoqueiro, tem consciência e coração.
Se souber de uma criança sofrendo, denuncie. Uma estrelinha não terá sua chama apagada, e o céu te agradece por isso.
O AUTOR
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Dastan não sentia inveja de Tâmina, apesar dr achar que teria motivos pra isso. Ela mostrava, dia após dia, que o que importava de verdade não era o dinheiro, e sim os gestos pequenos. Dastan não tinha dessas coisas pequenas.
Seu pai, naquele momento, estava em outro continente. Eles estavam distantes um do outro das mais diversas formas. Física, menta, psicologicamente. Eram grandes aliados nos negócios e se davam muito bem naquela área, mas sem isso, não eram nada.
Tâmina e o pai dela eram como melhores amigos, uma equipe. Estavam juntos para o que der e vier. Eram uma família.
Dastan não possuia uma lista com grandes amigos. Tâmina conseguia amigos a onde quer que fosse. E as amizades dela eram verdadeiras, as pessoas não se aproximavam dela só por interesse. Pelo menos por enquanto, até isso ele estava tirando dela.
Dastan sabia que um dia, cedo ou mais tarde, teria que assumir um conglomerado. E isso era um fato da sua vida que nunca tinha questionado, estava satisfeito com tudo. Então apareceu aquela morena de longos cabelos escuros, e ela arruinou tudo pra ele.
Ou as coisas já estavam em ruínas antes, e ele só não tinha se dado conta? Ela lhe dava uma nova visão do mundo, uma nova perspectiva. E as histórias que ela contava da sua antiga casa, achava fascinante. Morar longe da maioria das pessoas, tendo contato apenas com a natureza.
Uma vez, Tâmina perguntou a onde ele estaria se pudesse, a onde moraria se tivesse escolha. Ele não tinha respondido, agiu como se a pergunta fosse idiota. Porém, ele pensou muito nisso, e se lembrou de uma antiga babá que contava histórias sobre o deserto.
Sim, ele gostaria de viver no deserto. Quente de dia, frio de noite. Acampar em tendas, usar turbantes, olhar para as estrelas. Sem o stress do mundo real, se esquecendo de seus compromissos.
Podia ser pequeno na idade, mas era bem maduro no pensamento, tinha que ser. Lidar com grandes empresários era uma tarefa complicada, e se deixasse transparecer um traço de criança nele, por menor que fosse, perderia sua credibilidade e seriedade. Não podia permitir se mostrar vulnerâvel, seria fácil pisar nele.
Checou seu email. Nicolalis tinha anexado tabelas, listas, cronogramas e anagramas. Dastan tinha que analisar cada um dos arquivos com muito cuidado, e tinha que lidar com toda aquela pressão. O telefone tocava a cada cinco minutos.
– Steve, meu pai está receoso sobre fazer negócios com você. Não leve isso para o lado pessoal, mas fazer negócios com uma empresa que estâ sendo investigada pela polìcia, suja a nossa imagem.
E Tâmina ainda perguntava o que ele fazia demais para estar sempre ocupado. Ele senti vontade de largar tudo e ir dar um passeio. Jogar bola na rua e voltr com o dedo machucado. Andar de skate e ralar os cotovelos e os joelhos. O mais estranho era que queria brincar de casinha.
Fingir ser um pai, trabalhar o dia todo. Porém, seria um pai diferente do seu. Chegaria todos os dias em casa, na hora. Cansado, ficaria feliz de olhar para sua família e saber que todo esforço não tinha sido em vão. Trabalhar não pra si mesmo, mas para sustentar seus filhos.
Dastan achava intrigante essas brincadeiras de casinha. Achava engraçado, e realista. Um dia conseguiria isso? E iria querer? Não sabia o que fazer com esses pensamentos.
Toda a sua vida parecia ter sido planejada, e pela primeira vez, queria assumir o controle e decidir como seria e o que faria. Melhor, queria ter um pai que cuidaria dessas coisas pra ele, e que não o forçaria a nada. Um pai qur não o pressionasse.
Não, não tinha inveja de Tâmina. Ela o fez reconhecer que a vida dela era bem melhor que a dele, e Dastan preferia que fosse assim. Queria que ela brincasse, que se divertisse. Que fosse feliz e que ficasse segura.
Sabia que o melhor seria se afastar dela, mas era egoísta. Estava viciado na voz dela, em seu sorriso. Sonhava em crescer e se casar com ela. Ele aceitaria tudo o que seu pai quissesse, mas queria uma coisa em troca. Uma única coisa, e tudo valeria a pena.
Dastan daria um jeito pra concertar seus erros, faria com que ela fosse sempre feliz. Cuidaria dela, do pai dela e se tornaria alguém melhor.
Como poderia imaginar um futuro, onde a luz dela não iluminava sua escuridão?
Sabia que se Tâmina descobrisse sobre o acordo, e um dia ela acabaria descobrindo, as coisas ficariam feias e complicadas. Contudo, que escolha ele tinha?
A vida dele era monótona e cheia de falsidade. E estava trazendo ela pra esse mundo podre. Quanto tempo até as pessoas começarem a se aproximar de Tâmina, fingindo? Quanto tempo até perceberem que pra chegar nele, só precisavam chegar nela?
Ele teria que redobrar sua vigilância, teria cuidado e atenção com qualquer um que se metesse com ela.
Se lembrou da primeira vez que a viu. Uma garota sorridente, brincalhona, encharcada de água. E ele sentiu algo dentro de si. Sentiu que aquela garota traria problemas. Sentiu que aquela garota mexeria com seu cérebro. Sentiu que ela seria dele.
– Steve, eu jâ disse que a resposta é não! — Dastan afirmou, aumentando o tom da voz.
Sua cabeça latejava, seus dedos doíam de tanto digitar. Precisava de uma pausa. Assim que terminou aquela ligação e editou outro contrato por escrito, acessou as câmeras de segurança da Biblioteca de Horson.
Tâmina tinha insistido pra que ele a acompanhasse, queria que ele ficasse mais perto dela. Mal sabia ela que ele estava mais perto do que imaginava.
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