Das Tor
1 Capítulo 1 - Der Anfang
Minha cabeça dói. Estou deitada num chão frio e minha visão está embaçada, levemente entrando em foco. Pelo que vejo, estou no meio do nada. Num campo aberto, e a grama ao meu redor aparenta estar chamuscada.
Assim que me levanto, sou atingida por uma forte tontura. Algo não está certo... Mas eu não consigo me lembrar o que exatamente. Mas não, é isso; Eu não consigo lembrar de quase nada.
Não me lembro de como diabos fui parar alí. Não me lembro do que eu tinha feito ou de quem eu conhecia, as únicas coisas que me lembro são meus dados básicos, como meu nome e minha idade — não tenho idéia nem de onde vim. O sol estava á pino e eu parecia estar no meio de uma clareira, a árvore mais próxima estava a vários metros de distância.
Tentei procurar algum lugar próximo, seguindo longe das árvores. Depois de muito andar — bem, muito para alguém que acabou de acordar com amnésia — encontrei o que parecia ser uma estrada. Cingido por uma floresta, havia um caminho suntuoso de areia batida, das árvores que um dia cresceram por ele hoje restava apenas um cotoco. A medida que andava, o som dos pássaros começava a ser abafado pelo som da água corrente e de pessoas falando. Corri o mais rápido que meus pés calejados permitiam até chegar num vilarejo.
Era simples, para dizer o mínimo. Pessoas andavam para lá e para cá despreocupadamente, carregando pães ou verduras — devia ser um dia de feira. Algumas usavam sapatos de pele, mas a maioria andava descalça. Todos pareciam muito amigáveis em seus trajes de algodão e pele de animais, exceto pelas armas que a maioria carregava. Continuei a andar, encarando tudo com uma curiosidade indiscreta, nunca havia visto tantas etinias diferentes em um só lugar — os diversos tons de ruivo misturados com as dezenas de cabelos loiros e negros, lisos ou cacheados, foi o que mais me chamou atenção. Todos pareciam se conhecer e cumprimentavam-se, alguns até paravam para conversar. As lojas tinham seus produtos dispostos em prateleiras para o público observar e tocar livremente, e acabei tão distraída observando os outros que acabei esbarrando em alguém e caindo com o impacto.
Quando olhei para cima preparada para receber xingamentos, ouvi uma risada leve. A mulher devia ter uns trinta e cinco, era bastante alta e sua pele era de um tom oliva. Os olhos eram grandes e calorosos. O cabelo era tão preto que chegava a parecer azul.
Ela me ofereceu a mão e eu aceitei, levantando-me. Sorri-lhe e agradeci, batendo no vestido maltrapilho para tirar o excesso da areia.
- Obrigada. E, hum, desculpa. Eu estava meio distraída. Não sou daqui, sabe?
- É... Deu pra perceber. É falta de educação encarar assim, sabia?
Ela apontou e eu enrubesci.
- Ah.. Hã, de novo, desculpa, eu não sabia...
Comecei a cuspir desculpas até ser cortada pelo riso dela.
- Foi só uma piada. Você não parece ser dos arredores...
Ela comentou.
- É porque não sou mesmo. Se importa de me dizer onde estou?
Devo ter soado um pouco grossa, mas ela ergueu as sobrancelhas e respondeu de qualquer jeito.
- Em Asgard.
Esperava que talvez o nome acordasse alguma memória na minha mente, mas quando percebi que não ia rolar, me senti idiota por sequer ter considerado a possibilidade.
- Qual é o teu nome?
Ela perguntou, sem me dar a chance de sair discretamente.
- Hum, Cassandra. E o seu?
- Yushi. Entã...
Ela parecia prestes a perguntar mais alguma coisa quando uma voz interrompeu-a. Um grito a distância que chamava pela mãe, apressando-lhe a voltar para casa. Sem despedir-se, Yushi virou-se e seguiu na direção da sua filha — que, pelo menos de longe, era muito parecida com ela. Tomei sua partida como uma brecha para andar ainda mais pela cidade.
Logo minha barriga roncou e aqueles pães pareciam cheirar cada vez mais, porém eu não tinha nem uma única moeda comigo, e, como descobrir ao levar um tapa e ouvir vários impropérios, era horrível furtando. À medida que anoitecia as pessoas começaram a ir para casa. Resignei-me em me apoiar em uma parede e, sentada, tentar adormecer.
Com os olhos já fechados, ouvi alguém me chamar.
- Então Cassandra não tem casa. Você meio que esqueceu de mencionar isso mais cedo, sabe? Eu desconfiei por causa das suas roupas mas não quis ser rude.
Identifiquei a pessoa pela voz, e ofereci-lhe um meio sorriso, como quem diz “o que eu posso fazer?”.
- Aposto que também não jantou, não é mesmo?
Meu estômago roncou em resposta, o que meio que me envergonhou. Ela me ofereceu a mão, e eu aceitei. Depois de me levantar, ela se virou, começando a andar e eu, que não tinha nada melhor para fazer, a segui.
Menos de dez minutos depois ela estava abrindo a porta de uma casa não muito grande, iluminada por lamparinas á querosene. Em uma mesa de jantar estava a garota que a chamou mais cedo, eram muito parecidas, porém a pele da mais nova era mais clara e o nariz era mais achamorrado que o da mãe, levemente adunco. Percebi três cadeiras, o que parecia um convite para eu me juntar, então sentei e comi. Comi tão rápido que não senti o gosto da comida, na verdade só me importava em calar a fome gritante, parecia haver séculos desde minha última refeição. Enquanto jantava, começou a cair uma chuva forte, e agradeci mentalmente á Yushi por ter me tirado da rua.
A garota que sentava na minha frente não escondeu a surpresa ao observar meu comportamento, seu garfo parado no ar á caminho da boca. Levantei uma sobrancelha para ela e continuei a comer. Um tempo depois, quando todos já haviam acabado de comer e algumas poucas palavras foram trocadas entre as três, Yushi coloca um travesseiro e um cobertor de pele de algum animal em cima do sofá. Parecia estranho alguém oferecer sua casa para uma estranha dessa maneira.
- Não que eu não esteja agradecida mas... Por que está fazendo isso?
- Porque... Porque eu já estive na sua situação, eu desejei de verdade que alguém me ajudasse mas isso não aconteceu.
Depois da última frase ela saiu do aposento, me deixando sozinha para ouvir o barulho da chuva e dos trovões.
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