Das Linhas E Dos Risos

1 Das linhas e dos risos (capítulo único)


Mordeu o lábio inferior com tanta força que o rasgou. Sentiu o sabor ferroso do líquido quente e vermelho na ponta da língua e concluiu que talvez tivesse sido demais – não se importou, porém, pois ainda era agradável.

Um fino véu d’água cobria seus cabelos castanhos. O corpo cansado repousava sobre o chão ainda quente do dia e as costas desnudas adaptavam-se aos poucos à aspereza do piso.

Ergueu os olhos e encarou a Lua, cujo brilho escondia-se por entre as nuvens. Como que num gesto de decepção, desviou o olhar e cerrou as pálpebras, Respirou fundo e sentiu o ar úmido invadir seus pulmões com violência. Engasgou no instante seguinte.

A garoa parecia querer perfurar sua pele, tão gelada que estava. Arrepios percorriam seu corpo constantemente. As pontas dos dedos começavam a arroxear e os bicos dos seios a entumecer.

Virou-se e colocou-se deitada com as costas para cima. O calor que restava no piso a aqueceu levemente. O chão ecoava intensamente as batidas um pouco descompassadas do coração e isso a fazia lembrar de que era orgânica, viva, humana.

A noite desdenhou dela. Continuava fria e cortante, como se desejasse testá-la. A garota suspirou pesadamente e deixou as pálpebras se encostarem. Não queria, mas precisava, e precisava tanto que assim ficou. Uma semi-luz brilhou no fundo de seus olhos e ela entendeu, por fim, a grande piada. Riu-se por dentro, pois já não tinha forças para fazê-lo externamente. Sentiu dor ao perceber que um músculo do canto da boca tentava contrair-se, talvez para rabiscar um sorriso. Tentou afastar a sensação e sua mente, então, pareceu esvaziar-se, como se um pequeno furo tivesse sido aberto e por ele escoassem todos os pensamentos, memórias e sentimentos.

E escoavam depressa. E quando a última gota quis cair, demorou. O fio de consciência que restava parecia amarrado à essência do que ela era. Arrebentou-se.

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