Darkness Feed
69 Tem alguma coisa que os faz ficarem iguais.
Nathan bate a unha curta do indicador repetidamente, a quase dez minutos.
— Mas ele disse talvez. — digo com a mão por cima da sua. Não era para ser um gesto fofo. Era para que ele parasse de bater o dedo na mesa.
— Por isso mesmo. — Ele cruza os braços, se jogando no encosto do sofá e colocando os braços firmes sobre o colo. — Ele disse talvez. Considerou a ideia de que ele está bêbado... Ou drogado?
O encaro com uma cada séria.
— Se é assim. Ele está drogado o tempo todo se eu considerar todos as vezes que usou essa desculpa.
— Exatamente. — diz ele.
- Só tem um jeito de saber. Ligue para a Meg, peça para que ela venha até aqui, fale com o John e vamos ver se eles acabam no chuveiro como você prometeu para ela.
- Ela só disse que qualquer um dos moradores da colônia são inteligentes e têm os papeis. Nada mais.
- Você quer ver seu pai feliz.
- Ele não parece me querer feliz.
- Por isso ele te sedou e ligou para que eu viesse? Nathan. — Seguro seus pulsos. — Entenda. John quer que você fique bem. Se ele não quisesse, teria deixado você com os comprimidos dentro daquele carro. Não teria parado você e trazido você para casa.
- Ele... — Nathan suspira. — Você... Pode ter razão... Mas eu não sei. Meu pai não parece muito interessado na Meg.
- Olha aqui. — John passa pela porta do quarto esfregando os olhos. — Eu concordei que passassem a noite aqui porque você acha que vai morrer e você quer ficar com ele. E eu disse que precisava conversar amanhã. Amanhã! — berra ele. — Calem a boca! Não me importo com...
— Não termine a frase. — Nathan levanta o dedo.
— Então calem-se e se beijem um pouco. Ou durmam! Mesmo achando estranho Nathan se controlar mas enfim... Eu preciso mesmo dormir.
— Porque não usa o sedativo que você usou em mim? — diz Nathan.
— Só tem efeito de meia hora. — rosna John. — É sério. Vão para o carro.
— Pai!
— Para o carro. Agora!
Nathan estala a língua e puxa meu braço.
Seguro o telefone e andamos até o carro.
Sento no banco e cruzo as pernas e não hesito em começar a rir.
— Seu pai te expulsou de casa? — Volto a rir e ele me encara seriamente
— Porque está com o telefone? — Ele apoia a cabeça no volante e me encara com o canto dos olhos.
Suspiro e ligo a luz do carro.
— Estou certa de que não vai ligar para a Meg, — Encaro o telefone com os olhos estreitos, não conseguindo ver os botões apagados. — então eu vou.
- Sabe o número? — Ele ri e me encara.
— Último número discado. — Encaro o telefone, atrás do botão.
Ele começa a rir e se recosta no banco.
— Eu não confiaria. — Ele se ajeita no banco. — Pode acabar falando com uma das...
— Ok. — digo e jogo o telefone no painel do carro, escutando o barulho do plástico contra o painel e a risada de Nathan. Suspiro e o encaro. — Acha que John e Meg podem ficar juntos?
— Acho difícil. — Ele bate com os dedos no volante. — Meu pai provavelmente gosta da Meg, mas ele não perdoa fácil assim. Eu não perdoaria...
- Mas você me perdoou.
- Não me lembro de você ter pedido desculpas. — Ele ri e me encara. — Ele não perdoaria.
— Mas se... — Ele olha para mim com o canto dos olhos e fico quieta, sabendo que acabaremos gritando um com o outro.
— Mas se o que? — Ele pergunta confuso. — Porque parou de falar?
— Agora já sei quando uma discussão vai começar e tomar um assunto mais sério do que Meg e seu pai.
— Olha. — Ele suspira. — Sei que não quer falar sobre isso e que isso vai acabar em uma briga mas eu não vou parar de perguntar até que me conte... O que aconteceu para você ser jogada dentro da adega com um pedaço da coxa faltando e sem a blusa?
— Nathan... Sério. Não quero falar sobre isso e muito menos discutir com você. Então é melhor parar.
— Desculpa por eu ter ido. Eu vi que do jeito que deixei as coisas fez parecer que eu fui embora porque você gritou comigo.
— É. Pareceu sim. — murmuro com a testa emcostada no vidro.
— Desculpa. — Ele beija minha bochecha. — Fale alguma coisa. Olhando para mim, se não for pedir de mais.
Encaro seus olhos.
— Posso pedir uma coisa?
— Claro.
— Não morra.
**
- Ei! — Jon bate com uma chave no vidro do carro. — Porque estão com o telefone ai?
- Bom dia pai. — Nathan solta um grunhido, esfrega os olhos e o encara. — O que foi? Não conseguiu dormir?
- Consegui. Vocês calaram a boca. Saiam daí. — Ele abre a porta do carro e saímos. — Então, senhor eu estou morrendo como se sente?
Nathan dá de ombros.
- Bem, eu acho. — Ele revira os olhos.
- Ah é? — John pergunta e finca o braço de Nathan com uma seringa, fazendo-o gritar. — Que bom. Continuaremos com o tratamento.
- Ai. Isso arde. Parece que minhas veias estão queimando.
- Não era para isso estar acontecendo. — John olha preocupado para o braço de Nathan. Os dois se entreolham e John dá um tapa na cabeça de Nathan. — Deixa de frescura e vai fazer o café.
- Não sabe fazer o café? — Nathan encara John andar até a casa e segura o braço, balançando-o algumas vezes.
- Preguiça e sabedoria são coisas distantes. — John levanta a mão e movimenta o dedo de costas, como se estivesse falando com Nathan.
- Posso? — pergunto.
- Pode. — Ele suspira.
- Vocês são iguais.
- É. Só que eu tenho discalculia. — Ele coloca as mãos dentro dos bolsos e andamos até a casa.
Encaro John andar de um lado para o outro, cantarolando baixinho uma música qualquer.
Tem alguma coisa.
John tem alguma coisa que o faz pensar que Nathan é capaz de resolver aquelas contas sozinho.
- John.
- Shannon. — diz John abrindo as portas de um armário grande á procura de alguma coisa.
- Posso perguntar uma coisa?
Os dois se entreolham e me encaram.
- Pode falar. — John pisca algumas vezes.
- Você tem discalculia?
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