Darker Days
16 Longe dos olhos, perto do coração.
Pip estava demorando mais do que o previsto.
Não era incomum que algumas almas tardassem mais do que outras; na verdade, que demorassem já era esperado, visto que, se estavam no limbo, é porque precisavam se curar, e isso levava tempo.
O problema realmente era esperar que tudo se resolvesse. Sem uma data de previsão ainda e sem saber o estado da alma, a preocupação corrói o indivíduo que o aguarda por inteiro, parecendo até levá-lo à beira da insanidade. Paciência era o único jeito, mas todos tem seu limite.
Damien tentava se distrair se enfiando de cabeça no trabalho. Quanto mais trabalho fizesse, mais tempo livre teria para passar com Pip quando ele chegasse. Essa estava sendo sua estratégia, a qual, até agora, estava se mostrando bem eficiente. Ele não comia, não dormia, não tirava intervalos, só passava o dia todo sentado em sua cadeira — e, ocasionalmente, na cama — preenchendo os formulários de entrada, analisando os perfis dos recém mortos e até ouvindo as reclamações dos moradores do inferno de vez em quando. Como anticristo, as coisas que os mortais faziam para sobreviver não passavam de trivialidade para ele, então não chegava a passar mal por passar tempo demais acordado.
Em compensação, ele chegava a passar mal por esperar demais.
Damien não tinha muita companhia no castelo fora seus criados, raramente escutava alguma voz que não fosse sua própria ou os gritos vindos de fora. Durante os últimos meses que passou em South Park, ele se acostumou com fazer seu trabalho enquanto ouvia Pip murmurar coisas sobre a lição de casa. Ter que trabalhar com tamanho silêncio o rodeando muitas vezes se tornava demais, e Damien falhava em cumprir seu serviço.
Ele só queria poder vê-lo de novo.
Às vezes ele não aguentava, e precisava se distanciar no trabalho para extravasar as mágoas. Damien não saía do quarto o dia inteiro durante esses dias. Ele não podia ver nada com as lágrimas enchendo seus olhos, por mais que ele se pressionasse para conseguir terminar seu trabalho.
Aqueles dias não eram tão comuns, visto que o anticristo sempre colocava muito esforço e afinco em seu trabalho, apenas parando algumas vezes durante a noite.
Mas aquele não era um daqueles dias.
Veio absolutamente do nada, enquanto Damien estava preenchendo o registro de um rapaz mandado ao inferno por assassinato, divórcio e traição, condenando-o ao nono círculo. De repente, sua visão começou a nublar e suas mãos ficaram tensas sem razão alguma, e Damien só teve tempo de esconder seu livro com seus poderes antes de começar a chutar a mesa. Aquilo seguiu por algum tempo, o anticristo apenas chutando a mesa com toda a força que podia, até as lágrimas se tornarem fortes demais para ele conseguir ver qualquer coisa. E Damien desabou no chão.
Ele absolutamente odiava Deus com todas as suas forças.
Ao enxugar suas lágrimas pela milésima vez naquela tarde, Damien percebeu que não teria como realizar seu trabalho daquela forma, e acabou saindo para dar uma volta.
Sempre que estava se sentindo assim, seus pés acabavam o levando para a casa dos Pirrup, as únicas pessoas que podiam compartilhar de sua dor, e dessa vez não foi diferente.
Damien bateu na porta e cumprimentou Georgina com um sorriso antes de ser guiado para dentro.
Eles tinham se aproximado muito nos últimos anos. Damien nunca imaginou que se tornaria próximo de um dos residentes do inferno como se tornou daquela família. Ambos compartilhavam de muitos interesses comuns, até além da conexão que tinham com Pip, e Georgina também tinha muitas observações interessantes sobre o inferno que eram muito valiosas para o anticristo.
Ele havia contado para Georgina e Phillip sobre a condenação de Pip poucos meses depois de receber a notícia de que ele estava no limbo. Era inevitável que o assunto surgisse alguma hora, pois todos estavam preocupados com ele, mesmo quando tinham tantas outras coisas para falar.
— Você tem certeza de que ele está bem? — Georgina perguntou uma hora, mantendo a cabeça baixa para seu chá.
— O limbo é um lugar seguro. — Damien assegurou mais uma vez. — O único lugar entre o céu e o inferno que ninguém pode interferir. Ele está lá pra se curar de tudo que aconteceu, pra poder seguir em frente.
— Deveria demorar tanto assim? Logo vão fazer três anos.
Damien não podia dizer que não entendia. Também sentia muita falta de Pip. Seu jeito animado e positivo era o ponto alto de todos os seus dias e ele daria tudo para poder passar só um minuto ao seu lado de novo. Mas, infelizmente, aquilo estava longe do controle dele.
— É um processo demorado. A alma precisa de tempo para se recuperar e cada uma tem o próprio ritmo para isso. Não podemos apressá-lo e nem falar com ele enquanto isso. É uma área completamente isolada, apenas para as almas perturbadas e feridas.
Ouvir o anticristo dizer aquelas palavras machucava Georgina de maneiras que apenas uma mãe poderia entender. Enquanto ela estava presa naquele lugar, seu filho estava sofrendo da superfície sem ninguém para ajudá-lo. Ela não podia evitar de se culpar.
— Meu pobre Phillip. Deve ter sofrido muito para estar demorando tanto.
Esse era um aspecto lógico. Quanto mais tempo a alma levava para sair do limbo, mais ela precisava de recuperar dos sofrimentos em vida. Era tudo uma questão de proporção, e a de Pip não estava muito favorável ao tempo.
Damien suspirou, juntando as mãos no colo.
— Tudo que podemos fazer é ser pacientes. — disse ele.
Georgina assentiu e sorriu na direção do anticristo.
— Muito obrigado por tudo que está fazendo por nossa família, Damien. Significa muito para mim e meu marido que nosso filho se recupere logo.
Um sorriso encheu os lábios de Damien.
— É o mínimo que eu poderia fazer.
Era sempre a mesma coisa. Georgina sempre agradecia quando Damien os vinha visitar, oferecendo-o chá e um abraço por tudo que estava fazendo por sua família, inclusive os manter informados da situação de Pip e visitá-los para saber mais sobre eles.
E, embora o anticristo não demonstrasse, aquilo era difícil para ele também.
Não havia um único lugar para onde ele ia que não o lembrasse de Phillip. Não havia um único dia em que ele não pensasse em Phillip. Ele sentia falta de seu abraço, sua voz, seu sotaque, seu sorriso, seus olhos brilhantes, sua aura divertida e positiva, seu jeito educado. E absolutamente tudo parecia lembrá-lo disso.
Toda vez que Damien passava pelo parque, ele pensava o quão melhor seria se ele estivesse passeando por lá junto a Pip. Os corredores de seu castelo, tão longos, pareciam o lugar perfeito por onde Pip sapatearia quando estivesse feliz. Seu quarto o fazia imaginar como seria acordar todos os dias ao lado de Pip. A biblioteca do castelo o fazia lembrar de todos os livros que Pip adorava ler em seu tempo livre.
Não havia um lugar em que ele passava que não o fazia pensar no quão melhores seriam se Pip estivesse com ele.
A pior parte de saber que alguém está no limbo é esperar por essa pessoa. Nunca se sabe quando ela vai voltar ou como está sua situação.
E Damien já não aguentava mais esperar.
(...)
Damien acordou com uma tremenda dor de cabeça. Ele chorou mais uma vez antes de dormir, embora de forma bem mais silenciosa.
É por isso que ele não dormia quando estava no inferno. Aquilo só servia para o deixar mais estressado do que já estava.
Como sempre, a primeira coisa que fez pela manhã após acordar foi abrir o arquivo de Pip, como vinha fazendo a tantos anos. Era um hábito, apenas para ver se algo mudou e se tinham uma estimação de quando ele chegaria. Geralmente não tinha nada, apenas o contínuo espaço vazio. Por isso Damien arregalou os olhos ao ver a data do presente dia marcada ao fim da folha.
Ele chegaria hoje.
Suas mãos começaram a tremer e ele disparou para os outros arquivos, buscando os registros dos mortos do dia anterior.
Como sempre, eram muitas pessoas, as buscas seriam árduas. Mas, em algum lugar, no meio daquela multidão, estava Pip.
Encontrada uma nova energia, Damien se apressou para fazer toda sua rotina diária o mais rápido possível e logo obrigou os empregados a apressarem o tour e as apresentações.
Aquilo não era comum de acontecer, mas não era contra as regras próprias de Damien que certos eventos acontecessem mais cedo.
As almas do limbo apareciam junto com todas as outras almas, como se tivessem acabado de morrer. Na hora do tour, em que o guia apresentava todos os círculos e regiões do inferno, eles eram separados do restante do grupo e dados atenção especial, pois estavam atrasados em relação ao tempo que morreram.
Aquela medida era relativamente nova. Antes, as almas que morriam eram levadas diretamente ao inferno, sem qualquer interrupção. Porém, como não eram muitos os psicólogos bons que iam ao inferno, Damien foi forçado a modificar essa política em razão de evitar conflitos desnecessários em seu reino, o que vinha acontecendo com mais e mais frequência.
O anticristo aguardou pacientemente até o momento da apresentação, o qual, sob sua ordem, aconteceu mais cedo.
Quando finalmente chegou sua introdução, Damien foi recebido com olhares assustados e desconfiados, o que já era de se esperar, afinal ele era o anticristo.
Ele rapidamente escaneou sua plateia cativa, mas não conseguiu encontrar Pip de primeira. Eram pessoas demais, muitas almas pecadoras, e só isso era o bastante para que seus sentidos não funcionassem direito. Pecadores o deixavam nauseado.
Durante um movimento de cabeça no meio de seu discurso, no entanto, ele os viu. Aqueles olhos azuis cativantes que tão facilmente grudavam sua atenção. Por apenas um segundo, ele os viu, mas, quando piscou, já os tinha perdido novamente.
Seu coração parou em seu peito, assim como sua voz, mas ele logo regressou com seu discurso e as instruções para os novos moradores do inferno.
Damien nunca foi muito demorado em seus discursos, os achava uma perda de tempo, por isso tudo acabou tão rápido, bem mais rápido do que quando seu pai governava. Para sua sorte naquele dia, isso o permitiu procurar por Pip enquanto os demais seguiam os guias turísticos para conhecer mais do inferno.
Demorou, mas o anticristo finalmente o conseguiu avistar; longe de todos, escondido entre os últimos adultos que seguiam para o tour.
Ele estava separado do grupo, sentado no chão, sozinho, com uma mão sobre o queixo e de olhos fechados, quase dormindo. Seus cabelos loiros, agora em seu comprimento original, caíram sobre seus olhos com a inclinação de seu corpo.
Ele estava ali, em seu domínio, a apenas alguns passos de distância.
A cada passo que Damien dava, mais fortes ficavam seus batimentos cardíacos, chegando a ecoar em seu ouvido. Ele não o tinha visto a quase três anos, é óbvio que ficaria nervoso, e ele estava diferente também, diferente de quando o deixou na Terra.
Uma vez que parou a sua frente, Pip abriu completamente os olhos e os ergueu em sua direção. Damien o encarava de cima enquanto ele estava praticamente jogado no chão, cansado e sem saber o que fazer, um tanto como quando se reencontraram, com exceção de todos os machucados que ele tinha pelo corpo. Agora ele estava inteiro.
Damien soltou a respiração trêmula e forçou um sorriso com o canto dos lábios, tentando com todas as suas forças não chorar.
— Hey.
Pip sorriu ao ouvir a voz de Damien mais uma vez, mas não respondeu.
Isso também era esperado, considerando o quanto o britânico parecia cansado.
— Como você está? — o anticristo continuou a pequena conversa.
Antes que Pip pudesse sequer considerar responder, um bocejo escapou de seus lábios. Voluntário ou involuntário, ele não sabia.
Foi embaraçoso por parte de Pip, que acabou corando de vergonha, mas ao menos fez Damien rir.
— Eu já entendi. Vem cá.
Da melhor forma que conseguiu, o anticristo colocou seu braço por debaixo do de Pip e puxou-o para seu colo estilo noiva, apoiando suas pernas com o braço livre e tendo o pescoço enlaçado pelos braços finos do britânico, que já repousava a cabeça em seu ombro.
Ele tinha um olhar tão cansado que dava até dó. Olheiras chamavam a atenção debaixo de suas pálpebras e seus lábios estavam rachados, secos. Pobre Pip. Mesmo depois de tanto tempo de descanso, ainda não era o bastante. Nunca seria o bastante.
Após acomodar o britânico em seus braços, Damien seguiu a caminhada para casa.
Ele não precisava necessariamente ir andando até seu castelo, poderia facilmente usar seus poderes. Mas, em realidade, ele só queria uma desculpa para poder continuar com Pip nos braços. Tantos anos sem vê-lo e ele continuava exatamente igual. Ele na verdade tinha ganhado um peso considerável desde a primeira vez que o carregou assim. Isso era bom. Ele gostava de pensar que teve um impacto significativamente positivo na vida de Pip; seria bom para compensar a forma como deu as costas para ele quando tinha oito anos.
Todos tinham que pagar por seus pecados, até mesmo o anticristo. Quer goste ou não, Pip agora era sua responsabilidade, e garantir que ele tivesse uma boa vida após a morte em seu reino.
— Aguenta só mais um pouquinho. Logo, logo você pode voltar a dormir, tá bom? — Damien sussurrou no ouvido de Pip ao percebê-lo se contorcer em seus braços, ambos os olhos fechados.
Quando chegaram ao castelo, Damien imediatamente colocou Pip em sua cama, e o menor caiu no sono rapidamente.
Ele passou o dia inteiro dormindo, e o anticristo ficou o tempo todo ao seu lado. Ele não fez nada, apenas encarou o britânico enquanto o mesmo dormia, tão pacificamente. Exatamente como era quando estava vivo.
Ele estava ali. Ele estava bem.
Damien sentiu várias vezes o aperto em seu peito subindo para seus olhos, provocando as lágrimas que por ali queriam escorrer. Ele conseguiu resistir, não gostaria de acordá-lo com seus soluços e choradeira sem motivo. Ele poderia fazer o bastante disso quando ele acordasse. Por hora, só gostaria de aproveitar a aura calma que Pip tinha ao seu redor.
Infelizmente, ele também tinha coisas a fazer além de observar Pip dormir, e, após sem querer dormir ao seu lado, chegando até a passar o braço ao seu redor e o envolver em uma conchinha, Damien decidiu tomar um banho para afastar seu cansaço. Ele precisava voltar com a cabeça no lugar para continuar seu trabalho. Independentemente de Pip estar ali ou não, isso não tirava seus deveres como anticristo e advogado de Deus, e ele tinha que cumpri-los se quisesse um mínimo de salário naquela porcaria de mundo.
Ele só precisaria mover um pouco sua mesa de trabalho.
Enquanto estava no banho, imerso pela água gelada que escorria por seu corpo, Damien finalmente se deixou soltar. Seus ombros chacoalharam e as lágrimas escorreram pelo canto de seus olhos, misturando-se com a água do chuveiro. Ele escondeu o rosto entre as mãos e se permitiu soluçar alto, o som abafado naquele espaço confinado. Ele não podia fazer isso no quarto sob o risco de acordar Pip, mas ali, isolado, ele podia finalmente liberar aqueles sentimentos que tanto o afligiam.
Ele passou mais de dois anos sem ver Pip. Não era apenas uma questão de distância física, mas também existencial. Aqueles anos foram completos desastres e o anticristo nunca se sentiu tão perdido antes. Ele fez seu trabalho como se fosse um robô, pois não havia emoção alguma em seu peito. Era como se ele realmente tivesse perdido Pip naquele momento, e estava sozinho mais uma vez. Pip deixou um buraco em seu peito quando partiu, e houve dias em que Damien temia nunca mais vê-lo outra vez.
Ele definitivamente entendia os mortais agora.
Mas ele estava ali agora. Pip estava em seu reino, em seu castelo, dormindo em sua cama. Ele só precisava sair do chuveiro para vê-lo.
E foi o que Damien fez.
Após se enxugar, o anticristo amarrou a toalha na cintura e voltou para o quarto para buscar uma roupa limpa. Tentou fazer menos barulho possível, pois Pip ainda estava dormindo quando ele entrou mais uma vez ali.
Damien abriu o guarda-roupa e dedilhou com cuidado os cabides em busca de algo confortável para usar em casa. As roupas eram todas as mesmas, algumas mais macias que outras, mas tinham o mesmo caráter: preto. Absoluto preto.
Talvez ele devesse dar uma variada em seu vestuário algum dia desses. Branco talvez combinasse com ele.
— Damien.
O anticristo pulou ao som da voz, quase deixando sua toalha cair, e se virou para encarar a cama.
Pip tinha os olhos completamente abertos, como se o sono tivesse evaporado em pleno ar. Ele o encarava sem uma expressão visível no rosto, mas o brilho azul de seus olhos parecia julgá-lo de tal forma que o jovem anticristo não podia evitar de corar e se encolher.
— Você está acordado. — Damien murmurou, tentando esconder a tremedeira em sua voz.
O britânico continuou o encarando com a mesma intensidade, sem dizer mais nada.
Era estranho, pois parecia que Pip ainda estava assimilando as informações, como um computador antigo. Os segundos passavam e ele simplesmente o encarava, como se esperasse alguma coisa dele.
Damien realmente não sabia o que dizer ou fazer. Ele foi pego de surpresa, pois não esperava que Pip fosse acordar justamente quando ele abaixasse a guarda, especialmente quando ele tinha acabado de sair do chuveiro.
Pip olhou ao seu redor com aqueles olhos arregalados e expressão neutra, de um jeito quase assustador.
— Essa não é sua casa. — disse ele em tom monótono.
— Na verdade, é sim. Só não a que você conhecia antes. — Damien respondeu.
O britânico permaneceu quieto por um segundo, seus olhos olhando ao seu redor para, só então, voltá-los ao anticristo.
— Nós estamos no inferno? — foi a primeira pergunta carregada de emoção que Pip fez desde que abriu a boca.
— Estamos, Pip. Estamos. — Damien respondeu, vendo como o britânico então suspirou. Ele pareceu estranhamente aliviado ao ouvir aquela informação.
— Quanto tempo eu fiquei dormindo? — ele perguntou, sentando.
— Hoje, algumas horas. Desde a sua morte, dois anos.
Pip arregalou os olhos em espanto e deixou o lençol cair de seus ombros.
— Dois anos?!
Damien assentiu.
— Contando com os meses, você deve ter vinte e um anos, agora.
Ou ele teria se não estivesse morto.
Aí estava algo interessante sobre o inferno: eles permitiam a passagem temporal. Claro, as coisas funcionavam diferente por lá, mas, enquanto fosse desejável à uma alma, ela cresceria como se ainda estivesse ligada à um corpo humano. Apesar de não ser necessário, ainda era possível, especialmente para aqueles de menor idade.
Pip parecia completamente desorientado, seu espanto tomando conta completa de seu corpo. Era informação demais para processar!
— Dois anos… — ele se virou para Damien. — E você esperou por mim todo esse tempo?
Damien assentiu mais uma vez, como se a resposta fosse óbvia. Mas Pip pareceu se sentir ainda pior.
— Eu sinto muito, Damien. Eu não queria ter demorado tanto.
— Não peça desculpas por algo que não é sua culpa, já falamos sobre isso. — Damien o dispensou com a mão.
— Sim, há dois anos atrás!— Pip protestou e franziu o cenho.
Apesar de indignação na voz do britânico, Damien riu e abaixou a cabeça. Não consegui levá-lo a sério daquela forma.
E Pip provavelmente não conseguia levar ele a sério usando apenas uma toalha ao redor da cintura.
— Ah, merda. Perdão, eu não estou vestido de forma muito apropriada pra ocasião.
Pip riu e reclinou-se na cabeceira da cama.
— Está tudo bem. Eu não sou exatamente contra.
O anticristo franziu o cenho, sem nenhuma malícia verdadeira, e abriu a boca em “o”
— Pip, você literalmente acabou de chegar.
Percebendo seu comentário inadequado, o britânico levou as mãos aos lábios.
— Isso é um problema? Eu te deixei desconfortável?
Damien rapidamente negou com a cabeça e tentou não rir. Ele tinha sentido falta daquele jeito bobo de Pip. Tanta falta.
— Não, de forma alguma. Eu só não quero te cansar logo agora que você acabou de acordar.
Pip soltou ar pelo nariz e abaixou ligeiramente a cabeça.
— Eu posso realmente me cansar se estou morto?
Damien deu de ombros.
— Eu não sei. As casas têm quartos aqui, e também temos um ciclo de dia e noite, mesmo sem ter sol. Às vezes até fica escuro.
Pip piscou algumas vezes e murmurou para si mesmo.
— Que estranho. Um estranho interessante.
Damien tinha que concordar. Mesmo depois de tanto tempo morando no inferno, ele ainda não se acostumou com todas aquelas bizarrices que a lógica do universo inventou.
Pip piscou algumas vezes em meio ao silêncio e, sem mais nenhuma resposta do anticristo, suspirou.
— Então… Quanto tempo você vai ficar parado aí ao invés de vir aqui e me beijar?
Damien arregalou os olhos em surpresa, mas riu e caminhou para a cama, sentando-se ao lado do britânico, puxando-o assim que chegou para um beijo nos lábios.
Seu corpo automaticamente enrijeceu e sua respiração parou. A mão de Pip subiu por seus cabelos, parando em sua nuca, e o puxou pra mais perto para aprofundar o beijo. Seus olhos já estavam fechados, assim como os deles, mas era como se Damien pudesse ainda sentir a forma como aquele azul o penetrava e irradiava cor no abismo que crescia no fundo de seu peito.
Damien sentia como se estivesse beijando Pip pela primeira vez.
Uma das mãos do britânico, um pouco menores que a dele, lentamente dedilhou a pele de seu tronco, até sua cintura, e começou a acariciar o osso lateral com o polegar. Não tinha malícia em seu gesto, apenas adoração e afeto, igual a quando ele estava vivo.
Pip, Pip, Pip. Não tinha a menor ideia de como esses pequenos gestos deixavam o jovem anticristo completamente louco e sedento por ele.
As mãos de unhas pontudas agarraram a cintura de Pip com firmeza, as pontas pressionando levemente sobre a pele branca envolvida em tecido vermelho e branco por baixo. Por mais que Damien tentasse se controlar, cada mínimo movimento da boca do britânico e de seus dedos o trazia mais e mais perto do limite.
Ele queria clamá-lo. De novo e de novo. Ele queria tanto que não podia nem colocar em palavras. Damien estava diante de um Pip completamente novo. Por mais que a roupa, o jeito de falar e a forma fossem as mesmas, ele podia dizer que ele não era, conseguia ver em seus olhos. O brilho azul é mais profundo, Damien não podia ver mais aquele desvio pecador que os impregnava antes, seu cabelo voltou a como era antes do incidente com a tesoura, apenas alguns centímetros acima dos ombros e todos os fios com a mesma medida, simétrico, suas mãos não tremem e seguram seu cabelo com firmeza, sua aura irradia uma luz que não irradiava antes, como se ele estivesse verdadeiramente brilhando. A diferença era imperceptível para almas mortais, para olhos mortais, mas Damien conseguia vê-lo; ele podia ver Pip claro como o dia. E ele o queria.
Seus lábios se separaram quase que de forma despercebida e a distância era quase nula, e Damien se aproveitou daquela distância para reclinar-se sobre Pip e reclamar seus lábios em um beijo curto.
Apenas o contato de lábio sobre lábio, mas Damien o fez repetidas vezes, beijando Pip freneticamente e com entusiasmo, por mais que seu rosto não o demonstrasse.
Por Deus, ele não o beijava a dois anos e ainda parecia conhecer aqueles lábios como a própria casa.
Damien parou apenas por um segundo para respirar e logo voltou a se aproximar do britânico, o qual permanecia estático, embora com a respiração descompassada.
— Pra que lado fica o banheiro? — o britânico perguntou em voz baixa, quando Damien se aproximava para beijá-lo novamente.
O anticristo parou no lugar e abriu os olhos, confuso.
— Por que essa pergunta agora?
Pip deu de ombros.
— Você acabou de tomar banho e está tão cheiroso, Damien. Eu me sinto fedido perto de você.
O anticristo riu e logo levou a mão à boca.
Pip sabia que ele não se importava com aquelas coisas — além de que o tempo no limbo não influenciava em nada a forma como suas roupas estavam, apenas sua essência. Entretanto, se ele se sentiria melhor assim, Damien não estava em posição de discutir.
— Última porta no fim do corredor. Tem toalhas de reserva no armário debaixo da pia.
— Obrigado. — Pip rapidamente agradeceu e se levantou. O britânico parou de andar ao chegar na porta e se virou para Damien mais uma vez. — Oh! Está tudo bem se eu pegar algumas das suas roupas emprestado, certo?
Pergunta estranha, mas ok.
— Está, mas, por que? Suas roupas não estão boas?
— Estão, mas eu tenho usado a mesma coisa por dois anos, devem estar nojentas. Além do mais, elas não têm o seu cheiro. — o britânico cruzou os braços e inflou as bochechas como uma criança pequena.
Damien mais uma vez riu.
— Por que você está tão intrigado com cheiros?
Pip abriu a boca e franziu o cenho, indignado, como se a resposta para aquela pergunta devesse ser óbvia.
— Seu shampoo tem cheiro de Jasmin! Você não pode me culpar!
Damien riu e seguiu Pip com os olhos enquanto o mesmo deixava o quarto.
Ele já não sentia mais vontade de chorar. Já tinha despejado tudo que precisava no banho. Agora tudo que lhe restava era matar a saudade que sentiu de Phillip.
O britânico voltou dez minutos depois, sem toalha ao redor da cintura, e roubou algumas peças de roupa que Damien tinha no armário. Acabou optando por uma blusa preta macia de manga longa, calças da mesma cor, também folgadas e macias, e um par de meias brancas, e é claro que ele fez questão de pedir para o anticristo o emprestar uma cueca também, ao que ele não se opôs de forma alguma.
— Melhor agora? — Damien perguntou à Pip quando ele terminou de se ajeitar.
O britânico abriu um sorriso e levou as mangas largas da blusa para a frente do rosto, se esfregando nelas.
— Eu amo usar suas roupas. Elas são tão quentinhas e aconchegantes.
Sorrindo, Damien se levantou da cama, também já vestido, e andou para o lado de Pip.
— Ficam bem em você. — disse ele ao levar uma mão à bochecha do britânico.
Em um segundo, Pip foi puxado para os braços de Damien e seus lábios pressionados contra os dele. Ele retribuiu o contato com facilidade, deixando que Damien o puxasse para cima e o girasse junto a ele pelo quarto.
Pip não imaginava que ele estivesse fazendo de propósito. Em sua cabeça, ele estava apenas muito feliz em vê-lo. O que o fazia se sentir ainda mais culpado por ter ficado longe por tanto tempo. Se não fosse por ele, Damien não teria passado por toda a preocupação e desespero de esperar por seu retorno. Ainda mais por dois anos!
Contudo, mesmo com aqueles sentimentos negativos o invadindo, a culpa de Pip era rapidamente substituída pela felicidade que estar ao lado de Damien o proporciona.
Sua consciência podia estar dormindo pelos últimos dois anos, mas sua alma com certeza sentiu a falta de Damien. A sensação de não beijá-lo há anos era tão real que é como se ele realmente estivesse desperto durante todo aquele tempo que passou longe. E ele estava finalmente matando a saudade.
Ao separarem os lábios, Damien manteve Pip preso por debaixo dos ombros, seus cabelos caindo a frente de seus olhos e seus pés acima do chão. Eles sorriam um para o outro, e Damien resistiu muito à tentação de devorá-lo mais uma vez.
— Quer que eu mostre o lugar pra você? — ele ofereceu ao invés disso, e Pip assentiu com um largo sorriso em seu rosto.
Apesar de o castelo ser grande, na verdade não tinha nada de muito interessante para ver. Damien mostrou a Pip onde estavam a cozinha, banheiro e quartos, o básico que toda casa precisava, para só então levá-lo à parte da biblioteca. Como já era esperado, Pip ficou maravilhado com a quantidade de livros que tinha ali, e fez um juramento ali mesmo de ler todos eles por todo o tempo que ficasse no castelo de Damien.
Ao terminarem o tour, o casal sentou-se no sofá para assistir à um filme, com Pip encostado no ombro de Damien.
Era uma sensação boa, como se os últimos dois anos tivessem sido nada mais que simples pesadelos e delírio coletivo. Pip estava seguro e tranquilo, do mesmo jeitinho de antes, bem ao lado de Damien. O anticristo não pediria nada mais. Apesar de ainda ter raiva dos anjos que o rejeitaram pura e simplesmente porque o odiavam, de certa forma ele tinha que agradecer por terem mandado Pip para o inferno.
O britânico se encolheu durante um jumpscare em particular — o que tinha acontecido várias vezes, já que eles estavam vendo um filme de terror -, mas não em razão de medo. Ele sentou mais para cima no sofá, sua coxa encostada na de Damien, e o deu um suave beijo na bochecha.
— Eu te amo. — ele sussurrou ao som de gritos e corpos sendo dilacerados.
Droga, ele estava deixando resistir muito difícil.
— Eu também te amo. — Damien respondeu e beijou Pip no canto da boca.
O britânico sorriu e, por Deus, Damien esqueceu o quão rápido seu coração conseguia disparar com aquele sorriso.
— Posso desligar a TV?
Damien negou com a cabeça, com um sorriso no rosto, e, com um gesto de mão, desligou o aparelho.
No mesmo segundo, sem tirar os olhos de Pip, agarrou-o pelos ombros e o beijou profundamente. Pip soltou uma leve risada entre seus lábios quando Damien o virou e puxou para seu colo. O anticristo aconchegou a cabeça de Pip por cima de seu braço e o prendeu entre as pernas e o peito.
Ao fim dos beijos, que arrancaram umas boas risadas do britânico, Damien tirou o braço de debaixo da cabeça de Pip e o apoiou em suas coxas. Uma mão se alojou em seus cabelos, ocupando-se com acariciar seus belos cabelos loiros, e a outra descansava em sua barriga, próximo da cintura.
Pip sorria enquanto encarava o teto, sem dizer nada e nem pensar em muita coisa relevante. Ele apenas suspirava e deixava os dedos de Damien conduzirem suas sensações e pensamentos.
O anticristo não se atrevia a dizer nada, podia facilmente ver como Pip, mesmo depois de tanto tempo, ainda estava cansado. Muita coisa aconteceu nos últimos anos, mesmo com Pip descansando por dois. Seu espírito podia estar curado de toda aquela tortura e tormento, mas sua mente demoraria para se acostumar com a ideia de uma nova vida, especialmente depois de dois anos desacordado.
— Eu preciso comer? — o britânico de repente perguntou, encarando os olhos carmim de Damien com seus azuis.
O anticristo mordeu o interior da bochecha e murmurou por um segundo.
— Você precisa. Eu não.
— Oh… — Pip murmurou e voltou a encarar o teto. — … É possível morrer de novo?
Uma sessão de perguntas, é claro. Típico de Pip; o britânico sempre teve uma natureza bem curiosa.
— É possível, mas você só acaba voltando pra cá. A não ser que você morra de forma nobre, então você vai pro céu.
— Oh.
Damien estava se segurando para não começar a dar risada. Por tudo que era mais maldito, Pip era muito mais do que ele merecia.
Ele se inclinou para baixo e capturou os lábios de Pip em um rápido beijo, que fez o menor sorrir. Apenas um toque, mas que já significava tanto.
— Olha, você precisa de tudo que um corpo normal precisa. — Damien disse ao voltar à posição original. — Se você não comer, beber ou acabar se dando um tiro, vai morrer.
Não era tão difícil de entender a lógica, mas era difícil entender de onde veio aquela lógica. Damien já desistiu há muito tempo.
Pip soltou o ar pesado pelo nariz e pendeu a cabeça na direção dos toques da mão de Damien. Seus dedos gelados massageavam sua nuca e ajeitavam os fios bagunçados, como se dançassem em seu couro cabeludo. Pip poderia facilmente dormir com aquele incentivo.
Abrindo os olhos, Pip ergueu as mãos para o teto. Seus olhos azuis as observavam com um brilho estranho, como se elas fossem estranhas.
As mangas negras da blusa ficaram folgadas ao redor dos pulsos, dando a impressão de ser muito grande — ou Pip ser muito pequeno. Suas unhas eram pequenas e redondas, cabendo perfeitamente em seus dedos magros. Suas mãos eram pequenas demais para sua idade, assim como o resto do corpo, como consequência da má nutrição. Pip era mais baixo que os demais, mais fraco, menos desenvolvido. Muito mais cansado. Suas mãos pareciam geladas ao mesmo tempo que estavam aquecidas, e ele não sabia se gostava disso ou não.
— Isso é meu corpo ou minha alma? — o britânico perguntou, ainda encarando a pele branca.
Por um minuto, perdurou o silêncio. Damien apenas intercalava o olhar entre as mãos de Pip e sua expressão neutra e levemente curiosa. Sua mão continuava a acariciar os cabelos do loiro com ternura, com movimentos suaves e relaxados. Aquele assunto não era tão simples de tratar, então ele tentou deixar o namorado o mais relaxado possível.
— Essa é sua alma. Seu corpo físico continua na Terra, mas a alma tem todas as propriedades físicas que o corpo tem; por isso você pode morrer.
Pip murmurou, fingindo entender. Aquele assunto era complicado, mas ele aprendeu a não questionar.
Damien tomou as mãos de Pip entre as suas e pressionou múltiplos beijos sobre a costa dos dedos. Deixou a esquerda de lado por um segundo e concentrou a atenção dos beijos na direita; abaixou a manga da própria blusa, expondo a pele de seu braço e seguiu com os beijos por ali. Sua boca percorreu toda e casa uma das linhas do que, em vida, seriam as veias do britânico, aqueles canais de transporte tão abusados quando Pip ainda estava vivo.
Já não havia vestígios do que aconteceu. Nenhum sinal dos pontos, dos hematomas ou do sangue. Ainda estava ali, Damien sabia, o efeito daquele ataque e tudo que se seguiu depois, e levaria tempo para que Pip se recuperasse por completo, mas era bom que ele não precisasse mais se atormentar com a visão daquilo o tempo todo.
A alma de Pip ainda estava machucada. Mesmo uma eternidade no limbo não seria o suficiente para que ele se curasse. O limbo serve para amenizar o sofrimento da alma, dar à ela tempo para descansar, mas ele não curava tudo. Era para isso que Damien o manteria debaixo de suas asas. Enquanto ele estivesse ao seu lado, ele faria de tudo para que o britânico fosse bem acolhido em sua casa, e não hesitaria em banhá-lo em beijos na primeira oportunidade que aparecesse.
Damien não conseguia se conter. Ele passou mais de dois anos esperando por Pip, para poder amá-lo novamente. Ele sentiu sua falta, mais do que admitiria para qualquer outro par de ouvidos que não os dele, e a ansiedade de se afogar nele de novo crescia mais e mais com cada beijo que depositava em sua pele. E também há aquele maldito lado que herdou de seu pai; aquela vontade incontrolável de corromper as almas puras, trazê-las para seu lado e jogá-las em seu domínio. Aquele não era seu trabalho, por isso podia conter aqueles desejos, mas isso não quer dizer que aquela vontade não se manifestava de outras formas.
Pip era a alma mais pura que Damien já recebeu no inferno. Mesmo aqueles que viviam na área residencial pecaram em vida, mas Pip conseguiu manter uma ficha mais limpa do que todos ali.
E Damien o queria. Ele o queria tanto que chegava a doer. A meta presença de Pip ali o excitava de uma forma que ninguém jamais conseguiu e conseguirá em toda a eternidade.
A cada beijo por seu braço, até chegar a seus lábios, ele o queria mais, e os dedos de Pip que subiam por suas costas não ajudavam em nada.
Damien mudou a própria posição, se colocando por cima de Pip, e o prendeu entre o sofá e seu corpo. Ele atacava seus lábios, faminto por mais, e o britânico retribuía com a mesma intensidade.
Dois anos. Dois malditos anos longe disso, e tudo culpa daqueles malditos e imundos mortais. Se Damien os visse novamente, os condenaria ao fogo eterno por tudo que fizeram a Pip.
Contudo, por hora, o anticristo não se deixaria levar por aquilo. Se passaram dois anos, dois anos sem Pip, e ele queria aproveitar todo o tempo que tinha com ele agora.
As arfadas, entre os beijos, mal eram o suficiente para poderem respirar antes que se beijassem novamente. Os dedos de Damien, entrelaçados aos de Pip, mantinham seu braço ao lado de sua cabeça. Eles estavam completamente perdidos, entregues àquela dança entre suas bocas e língua, quente e sedutora. O mundo externo parecia cada vez mais isso: externo, como se eles não pudessem ouvi-lo.
Mas, como foi provado pelo barulho de um toque na porta, esse não era o caso.
Damien largou imediatamente de Pip, murmurando um breve xingamento, e se levantou, seguido pelo britânico que endireitou a postura e desviou o olhar, como se nada tivesse acontecido.
A porta da sala se abriu e um dos demônios, servos do pai de Damien, adentrou a sala.
— Mestre Damien? — ele chamou pelo anticristo.
— Sim?
— Chegou uma carta pra você, meu Lorde. — disse e estendeu um retângulo branco em sua direção. — É de lá de cima.
Damien soltou um suspiro audível. Não é possível que ele não poderia ter um segundo de sossego sem que Deus jogasse alguma merda para cima dele.
— Eu já volto. — ele murmurou para Pip e o deixou para trás para tomar a carta das mãos do serviçal, o qual deixou o cômodo no mesmo instante.
O anticristo parou para analisar o envelope por um segundo. Não havia nenhum tipo de selo de importância ou qualquer outro papel que indicasse um documento urgente. Não era uma pasta e muito menos algo que precisasse colocar em seu livro. Na verdade, não parecia passar de uma simples carta.
Usando uma de suas unhas, Damien rasgou delicadamente o papel de cima e abriu o envelope, tirando de lá um papel dobrado na metade, nada formal.
Ao desdobrá-lo, Damien não encontrou nenhum selo, notificação ou assinatura pomposa que indicava mais trabalho para ele fazer. Não. O conteúdo da carta não passava de uma reles linha. Nenhum documento ou intimação. A carta simplesmente dizia, sem maiores discussões ou questionamentos:
“Não diga que eu nunca te dei nada.
— D.”
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