Darker Days

5 Ele não devia ter saído do quarto.


Notas iniciais
ATENÇÃO: O seguinte capítulo contém conteúdo gráfico. Discrição aconselhada.

Damien não era alguém que sorria com frequência. Estando sempre cercado de criaturas infernais e pecadores, o anticristo sempre tinha de manter a aparência séria e o olhar cínico para que pudesse julgar as almas que ali caíam sem um olhar tendencioso ou vingativo. Estava lá para entregar-lhes a justiça, não para se vingar. Na situação em que Damien se encontrava em casa, deixar-se levar pelos sentimentos era a última coisa que deveria fazer, independentemente se quem estivesse à sua frente fosse um ditador cruel ou uma garotinha vendendo biscoitos. Portanto, era quase uma anomalia no universo ver o anticristo caminhando em direção à sua casa com um sorriso largo nos lábios.

A culpa ainda mordia sua cabeça, lembrando-o de como devia ter contado à Pip que não tinha celular, o que teria evitado muita confusão, mas este sentimento estava em um nível bem menor do que as borboletas que pareciam voar em seu estômago.

Seu pai estava certo, ele realmente havia caído de joelhos por Pip.

Naturalmente, sua consciência julgava se não estava sendo muito apressado, afinal, só havia retornado há pouco mais de uma semana, muito cedo para distrair a cabeça com relacionamentos e esses sentimentos guardados, principalmente, para os mortais. Contudo, por outro lado, não gostaria de esperar até se formar ou algum evento revolucionário para poder ceder àquelas tentações tão fortes. Por um simples beijo ele já quase perdeu total controle de seu lado demoníaco, e não passou de um mísero toque de lábios! Agora, tinha todo um encontro esperando por ele no dia seguinte e ele sabia que as chances de conseguir se manter em sua típica postura formal e distante seria quase impossível, até porque isso é exatamente o oposto do objetivo de um encontro.

O anticristo estalou a língua no céu da boca, forçando-se a parar de pensar nisso. O objetivo de um encontro é justamente ver se duas pessoas ficam bem juntas, então tudo que podia fazer era esperar para que o momento chegasse. Não havia sentido em ficar nervoso por antecedência.

Com um estalar de dedos, invocou seu livro para voltar a trabalhar enquanto não chegava em casa, sua caneta deslizando pelo papel como manteiga. Embora o britânico impregnasse cada cantinho de seus pensamentos, precisava se lembrar do porque ele estava de volta à terra: para ter paz e sossego para conseguir fazer seu trabalho com mais facilidade. Se não conseguisse concluir seu objetivo, ele mesmo se condenaria ao inferno por ser tão incompetente.

Ao chegar em casa, realizou todas as tarefas com uma mão só, focado demais em seu trabalho para conseguir colocá-lo de lado apenas para realizar tarefas triviais. Subiu para seu quarto e sentou encostado na cabeceira, livro em seu colo e olhos travados nas folhas levemente desgastadas. Tinha registros dos novos habitantes do inferno, relatórios das almas com punição em progresso, almas que aguardavam o castigo e uma minúscula pilha de comentários que seus serviçais ouviram de seus inquilinos enquanto passavam ali por perto.

O coração de Damien se contraia ao encarar aqueles finos papéis. Sentia que estava falhando como governante para com aquelas pessoas. Naturalmente, tinha de se concentrar no aspecto mais urgente: as almas recém condenadas. Precisava classificá-las entre condenação justa e injusta para não correr o risco de ter demônios revoltados correndo para todos os lados por falta de controle, era uma questão de segurança e organização, tudo que tornava a vivência no inferno mais aceitável, entretanto, essa preocupação o impedia de se concentrar no bem-estar e conforto de seus inquilinos. Não conseguia ouvir sugestões e concertar coisas que estavam erradas.

A falta de espaço nunca seria um problema no inferno, independentemente de quantas almas eram condenadas diariamente. A falta de tempo, no entanto, já era outra história. Não em relação à horas e problemas relacionados, pois esse conceito não era aplicável no inferno, mas, sim, em relação às tarefas que o anticristo era obrigado a fazer. Ser o governante do inferno não era fácil, tinha muito a se fazer e Damien daria tudo por uma mão extra; Uma confiável, pois nem todo demônio era 100% leal à ele ou aprovava de seu método de reinar.

Foi quando bocejou pelo que deveria ser a terceira vez em menos de um minuto que decidiu que não estava com cabeça para lidar com todos aqueles problemas. Se se forçasse a se concentrar no trabalho sem estar completamente ciente, corria o risco de tomar uma atitude precipitada e ocasionar um desastre em meio a seu reino já tão frágil.

Com cuidado, fechou o livro, com todos os conteúdos e papéis dentro, e deixou-o no criado-mudo que tinha ao alcance de seus dedos. Depois do dia cansativo que teve, tudo que queria fazer era encostar a cabeça no travesseiro e morrer, vulgo dormir até não saber mais o que é cansaço. Chutou os sapatos do lado da cama, ignorando se eles estavam organizados ou não, e se jogou de costas no colchão, seus olhos carmim encarando o teto com tédio.

Por algum motivo, seus pensamentos pararam nas previsões bíblicas sobre o apocalipse, quando ele ascenderia sobre aquele mundo e guiaria os seres do inferno em uma batalha contra os anjos. Que coisa mais estúpida. Se tinha algo que Damien não queria fazer durante sua vida tecnicamente imortal era causar uma guerra. Ele já tinha deveres o suficiente por toda uma eternidade, não precisava acrescentar “guiar um exército em uma guerra pelo destino do universo” à sua lista.

Se algum anticristo fosse causar o apocalipse, não seria ele a fazê-lo.

Ele adormeceu imaginando, se de fato houvesse uma guerra, quais seriam as chances de Pip ficar ao seu lado.

Quando os olhos carmim se abriram novamente, já estava escuro. Entretanto, não era a escuridão da noite, um manto de segredos e esconderijos, mas sim a escuridão que antecede o nascer do sol, seus raios aos poucos se estendendo no horizonte. Damien havia dormido até o dia seguinte.

— Merda… — murmurou ao sentar-se na cama e levar a mão à testa. Sua cabeça estava latejando por não ter dormido da maneira normal. Ainda estava nas roupas do dia anterior e tinha certeza de que esqueceu de escovar os dentes.

Não levava muito tempo para fazer a higiene diária, mas seu estado mental não estava colaborando com ele hoje. Os batimentos acelerados de seu coração ecoavam em seus ouvidos, envolvendo seus pensamentos em uma neblina densa e difícil de ultrapassar, não foi à toa que ele passou direto por seus sapatos umas três vezes. Era estranho, pois nunca se sentiu tão ansioso antes. Ficar tanto tempo na terra não estava fazendo muito bem para ele nesse aspecto, mas ele sobreviveria.

Após finalmente terminar suas tarefas e se arrumar, pôs-se a caminhar em direção à escola. Ele poderia usar seus poderes ou simplesmente pegar o ônibus para chegar mais rápido, mas o anticristo sentia que deveria tomar seu tempo para chegar à seu destino, queria aproveitar o tempo que tinha para respirar o ar frio de South Park e clarear a mente dos pensamentos e vozes que se atropelavam em sua cabeça, tentando se fazer ouvidos. Quando o anticristo tinha sua mente muito ocupada, nunca era bom perturbá-lo. Ele se estressava facilmente e não hesitava em descontar sua raiva no primeiro pecador que visse pela frente, o que não era uma atitude muito madura sua e ele estava tentando trabalhar há anos. Acredite, ele era muito pior há alguns anos atrás, mas ainda tinha muito que caminhar para se tornar o tipo de advogado que almejava ser: o tipo que exalava confiança, que as pessoas temiam e respeitavam como ao próprio Deus.

Quando chegou na escola, seus cabelos negros já estavam completamente bagunçados, o vento mais forte do que o normal. Hesitaria em dizer que as mudanças climáticas eram sua culpa, embora soubesse da verdade. Com um estalo da língua no céu da boca, ajeitou os fios com uma mão enquanto a outra empurrava a porta e permitia-o entrar na escola.

Os alunos estavam relativamente mais calmos naquele dia, a maioria concentrando-se na própria vida e nas próprias tarefas. Pela primeira vez desde que voltou, Damien se sentia confortável em olhar ao redor e ver que tipo de pessoas o rodeavam. Ele podia sentir o pecado em cada um deles, uns mais do que outros, mas não chegava a ser tão nauseante quando se acostumava ao cheiro.

Dois rapazes conversavam próximos aos armários de mãos dadas, conversando livremente sobre o que quer que estivesse amolando o dia deles. O que Damien mais achou fascinante era o contraste entre os dois tipos de pecado que eles tinham no cartório. Um deles claramente se comportou pior naquela vida do que o outro, mas, ainda assim, o anticristo conseguia ver potencial escondido atrás daquele sorriso apaixonado. Era por coisas assim que ele não tinha permissão de interferir na vida daqueles mortais em qualquer forma que influenciasse seu caminho. O ponto de sua existência era testá-los e, por mais que Deus pudesse ser controverso, ele era quem mais acreditava em segundas chances. Se não fosse esse o caso, ordenaria a coleta daquelas almas no primeiro pecado cometido em vida.

Observar o desenvolvimento daquelas pessoas e vê-las aproveitando a chance de melhorar lhe dava esperança de que, no fim de tudo, talvez aquele mundo não precisasse ser destruído. Mas aquilo não cabia à ele decidir, mas, sim, aos que caminhavam sobre a terra. Eram eles que iriam mostrar ao anticristo o fruto de suas ações enquanto em vida e, só então, ele poderia dizer se o apocalipse seria necessário ou não.

Damien suspirou enquanto desviava de um rapaz que, claramente, estava andando próximo à si com a intenção de esbarrar em seu ombro. Desde as cenas que criou no refeitório nas últimas semanas, já estava claro que não era bem-vindo naquela escola, mas ele não se importava, afinal, era ao que estava destinado, de qualquer forma.

Era apenas uma pena que existiam pessoas assim que alimentavam o demônio em si que não queria nada mais que ver o mundo queimar. Tanto potencial guardado e eles resolvem usá-lo para objetivos fúteis como se colocar acima dos outros. A hipocrisia dessas pessoas lhe dava nojo.

Ignorando o ocorrido, Damien continuou a caminhar em direção ao próprio armário e suas sobrancelhas se ergueram ao ver Pip encolhido em forma de bolinha em frente ao mesmo, seus ombros subindo e descendo em movimentos rítmicos. Ele havia pegado no sono bem no meio do corredor.

O anticristo riu; de alguma forma, era fofo pensar que ele adormecera esperando por sua chegada, tanto que ele se pegou sorrindo enquanto agachava para acordá-lo. Colocou uma mão em seu braço para chacoalha-lo, mas travou no lugar ao perceber como ele encolheu quando o tocou. Era estranho, pois Damien nem chegou perto de usar força para que ele se sentisse ameaçado ou algo semelhante.

Mudando sua estratégia, colocou a mão nas costas de Pip e a outra em seu ombro, dessa vez, sim, aplicando força para chacoalhá-lo.

— Pip, acorda. — disse em voz baixa, tomando cuidado para não assustá-lo de qualquer forma.

O britânico lentamente abriu os olhos e um pequeno gemido de cansaço escapou de seus lábios, seguido de um bocejo. As chances de não ter dormido direito eram grandes para ele recorrer a dormir no meio do corredor.

— Bom dia. — murmurou com um sorriso tão doce que fez o coração de Damien dar um pulo. — Perdão, não dormi muito bem na noite passada.

O anticristo murmurou e sentou ao lado do britânico, passando um braço ao redor de seu ombro e acariciando a região com carinho.

Ele realmente devia ter tido uma noite péssima, pois tinha várias olheiras embaixo das pálpebras inferiores. Às vezes Damien se perguntava como seriam as coisas na casa de Pip; ele mencionou que morava com a prima, então provavelmente era órfão de pais. Será que ela não se preocupava com o estado de saúde do primo? Não reparava em como ele sempre voltava para casa completo de hematomas? Ou simplesmente não se importava? Do jeito que as coisas pareciam correr em South Park, a segunda não o surpreenderia se fosse verdade.

Um sorriso fraco surgiu nos lábios de Pip, seus olhos exibindo um brilho fraco entre seus fios de cabelo; ele parecia exausto.

— Você vai me fazer dormir de novo. — riu, descansando a cabeça sobre os joelhos, mas apreciava o carinho de Damien em seu ombro. Ele não estava mentindo ao dizer que dormiria novamente, realmente estava com sono, mas talvez fechar o olho apenas por um segundo não fizesse tanto mal.

Só por dois segundinhos…

Sua cabeça começou a pender para o lado e ele só percebeu o impacto com o ombro de Damien quando o sono já o havia consumido.

(...)

Quando o sinal soou, Pip nem se mexeu, completamente perdido nas terras míticas de seus sonhos. Damien arqueou uma sobrancelha enquanto acariciava os fios loiros que caíam sobre seus olhos, imaginando o que teria acontecido para que ele estivesse cansado. Obviamente não havia dormido, mas qual seria a razão? Ele se preocupava que fosse algo relacionado à escola, pois, enquanto ele, como anticristo, não precisava estudar por já deter todo o conhecimento que precisava, Pip precisava, e muito, de notas boas se quisesse ter algum tipo de futuro, e, com os professores que tinha e o diretor escroto que controlava tudo da pior forma possível, aquilo seria um verdadeiro desafio. Um desafio que talvez ele não pudesse vencer.

Suspirou pesadamente e se virou para encarar o menor adormecido. Ele estava tão aconchegado em seu ombro, como se fosse o lugar mais macio onde já dormiu. Tão fofo.

Em pouquíssimo tempo, os corredores estavam vazios, restando apenas Damien e Pip, que não mostrava nenhum sinal de que acordaria tão cedo, ao menos, se dependesse dele.

Considerando que ainda tinha muito trabalho a ser feito, ficar no corredor e evitar a aula não seria uma má ideia, visto que preencher seu livro era sua prioridade. Além do que, o britânico estava tão confortável que seria extremamente rude acordá-lo, e Damien não queria causar uma má impressão logo antes de seu primeiro encontro. Portanto, decidiu-se por deixar o loiro dormir até o momento que julgasse necessário. Poderia pegar a matéria perdida depois com um simples estalar de dedos.

O tempo foi passando e Damien não tirava os olhos de seu livro de jeito nenhum, completamente imerso em seus afazeres como novo governante do inferno. Quanto mais papéis preenchia, mais sentia que realmente podia estar falhando com eles. Fez uma nota mental de, assim que tivesse algum tempo livre, investir 100% dele em arrumar o máximo de bagunça possível. Todo tipo de coisa estava fora de ordem, em especial entre os recém chegados, desde os pecadores absolvidos até a aplicação das punições. Providências tinham de ser tomadas urgentemente e era justamente isso que o anticristo planejava quando arrancou um pedaço de papel de seu livro; escreveria uma carta para Zazul, um dos demônios mais confiáveis de seu pai, e ditaria-lhe as ordens e aplicações a serem seguidas.

Ao menos era o que entendia antes de uma figura maior entrar em seu campo de visão, sua altura fazendo sombra sobre ele e Pip.

— Posso ajudar?

Era um professor, mas ele não sabia dizer qual.

— Vocês dois não deveriam estar na classe? — questionou retoricamente o homem com os braços cruzados, mas Damien simplesmente deu de ombros como resposta. Ele não se amedrontava com ameaças dos outros, sejam eles maiores, mais velhos ou qualquer outra coisa. — Não é pra ficar nos corredores. — agora ele estava ficando impaciente, dava pra perceber pelo aumento no tom da voz. Ainda assim, nenhuma reação do anticristo. Foi só quando o homem começou a grunhir que ele tomou algum tipo de atitude; passou o braço ao redor da cintura de Pip de forma protetora. — Se vocês dois não forem pra sala agora, mando vocês pra sala do diretor e serão suspensos por uma semana! Matar aula é estritamente proibido e vocês receberão uma punição severa por isso! Talvez ele pegue leve com você por estar fazendo lição, mas ele definitivamente vai levar uma pior.

Não levou dois segundos para o professor engolir suas palavras. Travou no lugar ao ver a forma como os olhos carmim de Damien perfuravam seu ser e a mão que antes usava para escrever agora tinha fogo em sua palma.

— Eu ficaria quieto se fosse você. — ele não se sentia confortável quando tinha que ameaçar alguém, não sem a pessoa ter feito algo de errado antes, porém, naquele caso específico, não correria o risco. Depois do dia anterior, já estava ficando farto de toda a putaria que acontecia tendo o britânico como alvo principal. Não mudaria nada ameaçando um professor, mas ao menos adiaria o problema até ele ter chance de pensar em algo melhor.

Ainda encostado em Damien, Pip gemeu. A perturbação em seu sono o fez abandoná-lo completamente, fez restar apenas seus olhos fechados e a vontade de correr atrás do sono para voltar a não pensar em nada. Um gemido escapou de sua garganta e as pálpebras de seus olhos abriram, ainda pesadas com cansaço. Duas pessoas estavam discutindo, uma mais velha do que a outra, mas o barulho insistia em entrar abafado em seus ouvidos. Ele só queria voltar a dormir.

Passos se afastaram deles ao mesmo tempo que abriu completamente os olhos, os quais levaram um tempo para se ajustar à luz forte que iluminava o corredor.

— O que aconteceu? — perguntou, sonolento, seus olhos carregados com resquícios do sono que tentava puxá-lo de volta para a escuridão.

Os dedos frios de Damien acariciaram sua nuca, arrepiando-o ao mesmo tempo que deixando-o com mais sono ainda.

— Você dormiu durante o primeiro período inteiro.

Esquece, ele estava acordado.

— Ah, céus. — ergueu-se tão rápido do chão que quase teve uma queda de pressão. Se não fosse por Damien, provavelmente teria caído de cara no chão. — E você ficou aqui esse tempo todo?

Fez que sim com a cabeça, levantando logo em seguida.

— Aproveitei o tempo e a desculpa pra ficar fora da classe pra investir um pouco em meu trabalho. — disse, gesticulando para o livro de capa dura em suas mãos.

Pip murmurou.

— Com quem você estava discutindo?

— Um professor apareceu aqui, pedindo que voltássemos pra classe e parássemos de gastar espaço no corredor. — explicou.

Uma sensação ruim correu pelo corpo do britânico.

— E o que você disse?

Como se pego no pulo, o anticristo hesitou por um segundo antes de responder.

— Disse que o armário era meu, não tinha ninguém ali que precisasse de espaço e ele foi embora.

Ele propositalmente omitiu a parte em que fuzilou-o com seus olhos carmim, instaurando o medo em sua alma com o fogo de mil almas torturadas queimando em seu interior, consumindo seus órgãos de dentro para fora — metaforicamente, é claro, ele apenas colocou medo nele com seu olhar, igual uma mãe quando o filho começa a fazer birra no supermercado.

Quer ele gostasse ou não, ele se importava com a opinião de Pip sobre ele. Aquela era justamente uma das razões pela qual ele teria gostado de ficar longe de sentimentos humanos. Entretanto, a vida não era do jeito que as pessoas queriam, e isso valia até para seres vindos do inferno.

— Oh…

Antes que pudessem continuar a conversa, o sinal tocou para anunciar o fim da primeira aula. Os alunos logo apareceriam no corredor para se dirigirem às próximas classes. Preocupação encheu os olhos de Pip, visto que ele estava muito atrasado e sem humor nenhum para lidar com seja-lá-o-que que seus colegas tenham planejado para ele hoje.

— Você ainda está com sono? — Damien perguntou ao ver a preocupação em seus olhos, mas Pip abriu um sorriso seguro.

— Um pouco, mas consigo aguentar até o fim do dia.

Os olhos do anticristo tornaram ao relógio pregado acima dos armários dos alunos para ver a hora. Agora que conhecia aquela escola e o pecado que dali tomava posse, sabia que, se tardassem um minuto apenas para chegar à sala, seriam impedidos de entrar. Considerando que sua aula de história era do outro lado da escola, havia de se apressar.

— Te vejo depois então.

Pip assentiu com um sorriso terno.

Com um movimento fluido, tomou a mão dele na sua e deu um suave beijo sobre a costa. O rosto do britânico se acendeu como fogo, suas bochechas de um vermelho tão rubro a ponto de rivalizar com os olhos de Damien. Ele nunca se acostumaria com toda aquela atenção e carinho que ele lhe dava.

Então, com a última despedida dada, seguiram seus caminhos para as próximas aulas, as quais correram relativamente normais.

Durante o lanche, sentaram juntos, como o hábito já desenvolvido na última semana e, ao tocar no assunto do encontro que teriam, ficou decidido que iriam ao cinema. Não sabiam o que assistiriam, mas nenhum deles era burro a ponto de não saber que, no fim, o objetivo não era ver o filme.

Uma vez que as aulas acabaram, o britânico se apressou em sair da sala e encontrar Damien o mais rápido possível. Não podia correr o risco de ser atormentado por um de seus bullys justamente antes do seu primeiro encontro. Ele já havia de lidar com dores e cicatrizes o suficiente naquela manhã.

Talvez tenha sido sorte, ou o universo simplesmente já tinha cobrado toda a dor que exigia dele naquele dia, mas ele conseguiu chegar à saída sem problemas maiores do que atravessar o bolo de gente que corria na mesma direção.

Os olhos carmim de Damien pousaram nele assim que atravessou a porta de entrada. Ele o esperava em frente à algumas plantas no caminho de saída, observando as pessoas passarem a sua frente.

Ao avistá-lo, abriu um sorriso. E, Deus do céu, Pip nunca foi avisado que um sorriso podia fazê-lo sentir tantas coisas ao mesmo tempo.

Sem trocar muitas palavras, seguiram em direção ao cinema.

Aquele lugar tinha uma ridícula diversidade de filmes. Nenhum deles era interessante. Mas desde quando eles estavam lá para ver o filme?

Compraram os ingressos e, decidindo contra gastar mais dinheiro com comida, apenas seguiram em frente.

Contudo, Pip parou no meio do corredor antes que pudessem entrar e abriu um sorriso inocente na direção de Damien.

Por alguma razão, ele não sentiu boas vibrações naquele sorriso.

— Eu só preciso ir ao banheiro antes de sairmos. Vai ser rápido. Pode ir que te encontro lá dentro, ou perderemos os lugares. — disse antes de desaparecer dentro do banheiro, deixando o anticristo sem reação do lado de fora.

Sem mais escolhas, seguiu para os lugares marcados.

Não passou despercebido por ele que Pip demorou a aparecer, inclusive, começou a ficar preocupado com ele quando, a quinze minutos passados do filme, ele ainda não tinha chego.

Justamente quando ia se levantar e ir atrás dele, o britânico deu o ar da graça, passando de lado pelas cadeiras e sentando ao lado direito de Damien.

— Por que demorou tanto? — ele questionou, sua expressão quase invisível sob a luz fraca do cinema.

— Os banheiros estavam interditados, então tive que ir do outro lado pra ver se tinha algum liberado. — explicou e voltou o olhar para a tela, quase como se ignorasse a presença do anticristo.

Não questionar o comportamento de Pip talvez tenha sido o maior erro de Damien naquele dia.

O filme seguiu relativamente calmo. Algumas pessoas conversavam durante o filme, enquanto outras mexiam no celular, mas eles permaneceram quietos. Em algum momento, que ninguém sabia dizer qual, o britânico se sentiu confortável o bastante para apoiar a cabeça no ombro de Damien, o qual relaxou ao senti-lo encostado ali.

Contudo, quando o anticristo resolveu tomar a própria iniciativa e colocar a mão sobre o braço de Pip, tomou um susto ao sentir seu casaco molhado. Diferente de um molhado do tipo “molhou enquanto lavava a mão”, o tecido parecia estar completamente encharcado, chegando a ponto de Damien conseguir sentir o líquido escorrendo por seus dedos.

Seus sentidos entraram em alerta ao ouvir a respiração do britânico começando a pesar. Desviou o olhar em sua direção, tentando não transparecer que o estava encarando, e então percebeu um detalhe em suas mãos: ele estava tremendo.

Pip quis se dar um tapa ao sentir os músculos do corpo tensionarem e a respiração acelerar. Deus, ele não podia ficar nervoso agora, muito menos abrir espaço para outro possível ataque de pânico. Não agora.

— Pip, você está bem? — perguntou Damien, apertando sua mão.

Calafrios percorreram a espinha de Pip e seu estômago começou a revirar, desconfortável.

Por favor, não...

— Estou, só… Um pouco difícil pra respirar. — disse, embora sua voz, num golpe de traição, falhasse com cada palavra que deixava sua boca.

Depois do incidente no refeitório, Damien estava começando a reconhecer os sinais de pavor na expressão de Pip, assim como os demais sintomas que acompanharam seu ataque naquele dia. Ele não era imbecil, muito menos cego.

— Quer que eu te leve ao banheiro? — ofereceu, sua mão tocando seu braço de leve. A forma como o britânico estremeceu ao fazê-lo não passou despercebido por ele.

Ele queria falar que não. Ele queria tanto falar que não. Se eles pudessem simplesmente continuar a assistir o filme seria tão maravilhoso… Mas ele sabia que não era isso que ia acontecer.

— Quero, por favor. — disse, segurando-se ao braço de Damien com força.

O anticristo agarrou sua mão e puxou-o por entre as cadeiras, felizmente, vazias, e correram pelos corredores em direção ao banheiro, o qual estava interditado coisa nenhuma, ele reparou.

Mal chegaram e o britânico já tomou posse da primeira cabine que viu, despejando tudo que sobrou do almoço no interior do vaso de acrílico.

Seu corpo tremia, seus braços doíam, e seu coração chorava, implorando por misericórdia.

Deus, ele era um fracasso total.

— Está tudo bem. Você vai ficar bem. Respira fundo. — ouvia Damien consolá-lo enquanto continuava com o rosto sobre o vaso. Os movimentos calmantes que fazia em suas costas eram a única coisa que mantinham sua consciência ainda na realidade, pois ele podia facilmente sentir sua pressão caindo e a visão se nublar com pontinhos pretos.

Por favor, desmaiar não. — ele implorava em sua mente. — Por favor, por favor, eu não quero apagar.

Desde quando seus desejos eram atendidos ele não sabia, afinal, nunca foram. Mas, por alguma razão, ele conseguiu permanecer consciente. Por muito pouco, mas conseguiu.

Enquanto se aproximava da pia para fazer bochecho, remoía em sua mente a forma como Damien não deixou seu lado nenhuma fez, certificando-se de que ele estivesse conseguindo se manter de pé e andando.

Ele estava sendo um estorvo, não estava?

Pip sabia como Damien devia estar concentrado em seu trabalho e lá estava ele, ocupando-o com seus ataques de pânico estúpidos, presença estúpida e existência inútil.

Por que ele tinha aceitado esse encontro? Teria sido melhor para todo mundo se ele apenas tivesse voltado para casa e fizesse a lição que perdeu na primeira aula.

Esses pensamentos faziam seu corpo tremer e seus olhos lacrimejarem, além de seu controle. Ele não era do tipo que deixava suas emoções levarem a melhor, mas, por algum motivo, as coisas estavam mais difíceis para ele hoje.

O que ele fez de errado? Onde foi que errou para ser tratado daquela forma? Foi algo que ele tinha feito ou tinha algo em seu rosto que fazia o universo querer descontar toda a raiva da humanidade nele? Ele não entendia, e duvidava que algum dia chegaria a entender.

— Desculpa. — disse baixinho ao ouvir a torneira parar de derramar água na pia. — Eu não queria ter te arrastado pra fora do cinema desse jeito.

Damien franziu o cenho, descontente com a desculpa.

— Não tem porque pedir desculpas por algo que não é culpa sua. — disse ele, pouco antes de desviar o olhar para suas mãos trêmulas. Aquela questão o perturbava desde a semana passada, e, já que já se encontravam em uma situação desconfortável, por que não piorar tudo de uma vez? — O que aconteceu com o seu braço?

— Não aconteceu nada com o meu braço.

Ele devia ter esperado mais para responder. Sua voz não só saiu trêmula e aguda, óbvio sinal de que estava mentindo, como se colocou na defensiva, coisa que o anticristo não era nada a favor.

Damien franziu o cenho.

— Pip, eu não sou idiota.

— Eu não disse isso…

— Eu reparei em como você começou a tremer e suar quando eu encostei no seu braço, isso desde hoje de manhã. — o britânico mordeu o lábio inferior, evitando contato visual com o anticristo. Mesmo sabendo que encostaria em um nervo, Damien insistiu: — Me mostra seu braço.

Hesitantemente, Pip abaixou o olhar e puxou a manga de seu casaco. Seu braço, do cotovelo aos pulsos, estava coberto de papel higiênico, que, a esse ponto, já estava completamente dissolvido.

Damien engoliu em seco. Aquilo definitivamente não cheirava bem. Literalmente. Era como se algum bicho tivesse morrido ali.

Com cuidado, ele começou a remover o papel higiênico, ou melhor, o que restou dele, revelando uma pele que, dificilmente, poderia ser considerada como tal.

Dizer que ele tinha alguns hematomas seria eufemismo do eufemismo. Seu braço estava roxo, do tipo que se vê nos noticiários que mostram vítimas de abuso com detalhes gráficos e visuais. Além do roxo, havia vermelho. Vermelho do sangue que escorria pelos profundos e inchados cortes que adornavam a pele tomada por coágulos. Não tinham um padrão, era como se a pele tivesse sido rasgada por um animal selvagem em um ataque de fúria, e estavam em péssimo estado. Sangue escorria dos cortes e pingava no chão, acompanhado de pus que se acumulava nos cantos do corte aberto, este que fazia o possível para cicatrizar, porém, em vão.

Damien estava horrorizado. Ele não sabia o que dizer, como reagir, o que fazer. Nunca em sua vida, nem mesmo no inferno, tinha visto feridas tão feias e malcuidadas como aquelas.

E doía.

Doía por saber que Pip as estava carregando o dia todo. Ele estava lidando com a dor, o sangue e as infecções que definitivamente estavam se desenvolvendo ali.

Por isso sua blusa estava molhada quando ele a tocou. Ele só não conseguira ver o sangue pelo cinema estar escuro.

Merda.

Pip ainda tremia, conseguia sentir sua pele se agitando em sua mão, mas não conseguia dizer se era de dor ou constrangimento.

— Está tudo bem se eu te levar pra minha casa pra cuidar disso?

Ele queria chorar. Ele queria chorar até toda a água de seu corpo acabar e ele não sentir mais nada além da entorpecência em seus músculos.

— Sim, está.

Pip não reagiu quando Damien envolveu sua cintura com o braço e trouxe-o de encontro ao seu peito, a familiar coluna de fogo surgindo ao redor deles e ocultando tudo ao seu redor, estava ocupado demais pensando no quanto ele queria enfiar a cara no chão.

Ele devia ter sido mais cuidadoso. Ele devia ter desmarcado. Ele devia ter faltado na escola. Ele devia ter ficado no quarto quando ouviu a porta bater. Ele devia ter continuado a fazer a lição.

Ele devia ter trancado a porta.

Quando chegaram à casa de Damien, ele foi rápido em colocá-lo sentado no sofá e pegar um kit de primeiros-socorros. A parte complicada foi retirar a blusa sem rasgá-la e sem usar seus poderes. Não queria arriscar de causar mais dano ao braço de Pip usando seus poderes sem pensar, então acabou por ter que cortar a manga fora com uma tesoura. Ele simplesmente poderia fazê-lo uma nova roupa depois.

Deus, seja lá como Pip esteve tentando cuidar daquelas feridas, fez um péssimo trabalho. Ele poderia morrer se aquilo não fosse tratado da forma adequada. Os cortes estavam inchados, com pus e, absolutamente, infeccionados. Deveriam ter sido fechados com pontos, não com gaze, muito menos papel higiênico.

Enquanto o anticristo pegava o gel antisséptico, seguido de linha e agulha para fechar aquelas feridas horríveis, pensamentos preocupantes passaram por sua mente.

Não tinha como aquilo ter sido feito durante a escola, o que significava que os machucados foram feitos em outro lugar.

Damien não gostava de pensar que Pip sofria abusos em sua casa, porém, a outra opção não era muito melhor.

Enquanto aproximava o algodão com o gel dos cortes para desinfetá-los, um de seus pensamentos, de alguma forma, conseguiu escapar dos confins de sua mente e fazer-se ouvido.

— Pip, você se corta?

De tudo que poderia perguntar, escolheu aquela em específico ao perceber que, de forma alguma parecia algo que se fazia com uma faca. Sim, haviam cortes, mas também um gigantesco hematoma que preenchia toda a área ao redor dos cortes, os quais, além de tudo, eram irregulares demais para terem sido feitos pelo britânico. Mesmo assim, Damien se sentia na responsabilidade de perguntar, só para ter certeza. Quando se tratava de Pip, ele nunca sabia quando ele estava sendo sincero ou quando tentava omitir a verdade achando que era “o melhor para ambos”.

Os olhos do britânico se arregalaram em choque, não apenas por aqueles machucados arderem como fogo, mas pelo absurdo que era aquela suposição.

Tecnicamente, considerando a posição em que ele estava, não era algo muito fora da curva para aquela linha de raciocínio. Ainda assim, totalmente fora da realidade.

— O que? Não, não, não! Isso não fui eu! É só que… — seus pensamentos aceleraram com desculpas que poderia dar, mas, vendo aquele brilho de preocupação nos olhos do anticristo, sabia que, não importa o quanto tentasse, não poderia mentir. — … Minha prima tem um problema com álcool. Às vezes ela sai de casa pra beber e acaba voltando com algumas doses a mais. Ela sempre tem muita coisa na cabeça dela e não aguenta…

— E desconta em você? — finalizou o anticristo, tirando o algodão das feridas e, o mais delicado que conseguiu, tirando restos de papel higiênico de seu braço. O aceno com a cabeça de Pip fez seu peito doer. — Como você conseguiu esses machucados?

O britânico encolheu de dor ao sentir a agulha picar sua pele e começar a puxá-la como se fosse um tecido. Se a região já não estivesse parcialmente dormente devido ao uso do gel, com certeza teria gritado.

Enquanto observava Damien costurar seus machucados, tomou o ar em seu pulmão e a coragem para responder à pergunta:

— Garrafa de vidro.

Ele ainda conseguia sentir a dor inicial de quando o primeiro golpe o atingiu, a forma como seu braço gritava de dor a cada impacto do objeto duro em sua pele, a torturante espera que levou à quebra do vidro e seu braço conhecer a dor de verdade. A pior parte era saber que ela estava mirando em seu rosto.

Damien estava tentando ao máximo se controlar e focar apenas em costurar os machucados de Pip, mas, quanto mais ele olhava para aquele estrago, pior ele se sentia e mais raiva acumulava dentro de si. Perguntas não paravam de surgir em sua cabeça, uma mais preocupante que a anterior.

— Ela está de alguma forma relacionada ao seu gatilho? — perguntou ao partir para o segundo corte, repondo sua linha e começando tudo de novo.

O britânico soltou um gemido baixo pela dor e engoliu em seco antes de responder.

— … Está. — confessou de cabeça baixa. — Ela jogou a cadeira em mim uma vez. Disse que eu era a fonte dos problemas dela e que, se eu não estivesse lá, ela ainda teria um namorado.

Damien franziu o cenho e conteve um gemido de frustração. Pecadores que faziam loucuras por amor ou obsessão eram alguns dos que ele mais odiava. Para ele, não fazia sentido você dar um chilique por alguém ter te deixado, pois isso não traria a pessoa de volta. Qualquer um que se tornasse obcecado por outra pessoa a ponto de matar outros ou até a si mesmo já tinha seu lugar reservado no inferno. E sem direito a fiança.

— Tem contexto?

Pip assentiu. Achava um pouco desconfortável expor toda sua história de vida, mas, a esse ponto, já estava devendo à Damien respostas demais.

— Quando minha guarda passou pra ela, ela estava namorando um rapaz. Ele era bem legal. Se chamava Wallace, veio de Denver. — um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. — Ele era como um pai pra mim, sempre me deu atenção e me tratava como um filho. Acho que, de todas as pessoas que conheci, ele foi quem cuidou melhor de mim.

Isto é, antes de você chegar.

O anticristo murmurou em compreensão, ainda devotando a maior parte de sua atenção a dar aqueles pontos, mas continuava interessado na explicação de Pip.

— E o que aconteceu com ele? — perguntou, já ciente de que aquela história não tinha um final feliz.

Quando retraiu o braço, Damien parou por um segundo, pensando ter acertado algum nervo ou feito algo de errado, mas, ao olhar nos olhos do loiro, percebeu que não era pela dor, mas, sim, pela próxima parte da história.

— Ele e minha irmã tinham… Opiniões mistas sobre mim. Na verdade, foi ele quem convenceu ela a ficar com a minha guarda. Eles viviam brigando e discutindo porque não gostava do jeito que ela me tratava, e isso acabou com o relacionamento deles. Ele até tentou conseguir a minha guarda denunciando ela pra polícia e entrando na justiça, mas… Bom, como você pode ver, não funcionou.

— E a polícia não fez nada?

Pip conteve-se para não rir.

— Todo mundo me odeia, Damien. Não importa qual a condição que eu vivo ou o que acontece comigo, todos prefeririam que eu estivesse morto.

Em circunstâncias normais, ele diria que o britânico estava exagerando. Porém, ele conhecia South Park bem o suficiente para saber que aquilo não estava muito fora da curva.

— Eu sinto muito. — disse enquanto dava o último nó no último ponto.

— Está tudo bem. — retribuiu Pip de cabeça baixa.

— E o que aconteceu com esse cara?

Antes de responder, o loiro tremeu ao sentir uma bolsa de gelo ser colocada sobre suas feridas, o conflito de temperaturas abalando seu corpo ao mesmo tempo que o relaxando.

— Ele terminou com ela e voltou pra Denver; não queria mais ficar olhando pra cara da minha prima sabendo das coisas que ela faz. Por um tempo, ele chegou a mandar dinheiro pra que eu pudesse me virar. Todo o dinheiro que temos veio dele.

— Eu assumo que sua prima não o usa muito bem, não é?

Ele sorriu, embora não tivesse nada feliz ali que pudesse provocá-lo.

— Assumiu corretamente. — fez uma breve pausa e soltou um suspiro trêmulo. — O dinheiro parou de chegar quando eu fiz dezoito anos. Ele provavelmente assumiu que eu já tinha um trabalho e podia me sustentar sozinho, ou esqueceu da gente.

Por isso ela o chamava de razão dos problemas de sua vida. Se dependesse dela, ele sequer teria nascido, sem a menor sombra de dúvida.

Damien tinha sorte de ter conseguido domar, nem que seja um pouco, sua raiva, pois, se não fosse por isso, teria facilmente deixado a cidade inteira em chamas.

Deus, por que fizestes criaturas tão cruéis e horríveis, com tanto ódio no coração? Seria o mesmo que tu carregas por tua criação? Pois, para Damien, não fazia o menor sentido criar criaturas tão delicadas quanto Pip para serem jogadas a monstros como aqueles.

O anticristo, com o cenho franzido, largou o braço de Pip e voltou-se à caixa de primeiros-socorros, retornando com um rolo de gaze.

— Me dá o seu braço, preciso enfaixar as feridas menores.

No minuto em que ia tomar a pele judiada em sua mão, o britânico a puxou para si.

— Damien, eu agradeço muito o que você está fazendo por mim, mas eu posso cuidar disso sozinho. Não é a primeira vez que me acontece e com certeza não será a última. — o ar escapou forte pelas narinas do anticristo, mandando impulsos de nervosismo pelas veias de Pip. — Eu sei lidar com faixas e gazes. — disse, trêmulo. — Não será um problema trocar depois.

Trocar depois?!

— HAH! E você acha que eu vou deixar você voltar pra casa desse jeito? Com o braço nesse estado? Me dê seu braço.

Pip mordeu o lábio inferior, resistindo à tentação de fazer o que ele queria.

— Damien, eu realmente estou muito agradecido pela sua atenção, mas realmente não é necessário. Eu me viro.

— Pip, eu sou o anticristo. — aumentou o tom de voz. Embora mínimo, para quem falava com um tom tão baixo, qualquer alteração já era um sinal de que ele estava ficando estressado. — Posso usar meus poderes para o que eu quiser e como eu bem entender, e eu estou dizendo que, por favor, me dê seu braço para que eu possa enfaixá-lo.

Os olhos azuis desviaram para o chão e, relutantemente, estendeu o braço. As faixas foram atadas perfeitamente sobre seus machucados, ocultando-os de vista, e cuidadosamente evitando os pontos para evitar que enroscassem. Era bem mais trabalhado que o trabalho que Pip tinha feito anteriormente, como se Damien fosse um profissional. Ao terminar, ele já quase não podia sentir dor.

Damien tomou seu braço enfaixado e, ternamente, beijou a pele sensível, sentindo a mesma se arrepiar debaixo de seu toque.

No mesmo segundo, a dor começou a diminuir, não chegando mais que apenas uma pontada de leve, como se Pip tivesse apenas batido o braço e conseguido um pequeno roxo.

As bochechas do britânico tomaram um tom avermelhado e seus olhos desviaram para o chão, evitando contato com o carmim do anticristo.

— Isso deve servir por enquanto. — disse Damien, acariciando a pele debaixo de seus dedos. — Vai previr futuras infecções e não vai doer tanto quanto deveria. Se tomar analgésicos, nem vai perceber que estão aí.

O britânico assentiu, tudo enquanto observava as bandagens amarradas delicadamente sobre seus ferimentos.

— Obrigado.

E, depois disso, silêncio. Não por falta de assuntos, mas pelo clima pesado. Damien ainda tinha muito que queria perguntar à Pip, e o loiro estava cheio de reservas quanto à muitas coisas, mas nenhum deles queria se fazer ouvido por medo de constrangimento, ou, até mesmo, chatear a outra pessoa.

Aquilo ainda era um encontro, no fim de tudo, não queriam que acabasse com uma atmosfera negativa.

Damien olhou de soslaio o relógio pendurado na parede. Marcava quatro horas.

— Sabe, ainda falta um tempo até o dia acabar. — Pip ergueu o olhar, curioso. — Ainda podemos nos divertir, sem que seja algo que te pressione e te deixe nervoso.

O coração do loiro palpitou em seu peito ao ver o sorriso em seus lábios. Damien era tão lindo quando sorria, ele não podia evitar de sorrir em retorno.

— O que você gosta de fazer pra relaxar?

Eles decidiram fazer chá. Ou melhor, Damien foi fazer chá enquanto Pip ficava de repouso no sofá. Se tinha algo de que o anticristo se garantia é que ele não usaria aquele braço para nada até que os machucados estivessem curados completamente. O anticristo retornou com duas xícaras e alguns torrões de açúcar, entregando um a cada, antes tendo certeza de que Pip estava segurando a sua com a mão boa.

— Faz tanto tempo que não bebo desse chá. — disse o britânico ao provar do líquido quente.

— É um dos meus favoritos. — Damien respondeu.

— Sério?

Pip não devia estar tão surpreso considerando que, no dia em que reencontrou Damien, ele lhe ofereceu uma xícara de chá.

O anticristo assentiu com a cabeça.

— Eu sempre bebo antes de começar a revisar os perfis dos recém chegados ao inferno. Ajuda a clarear a mente e consigo analisar melhor os perfis que chegam pra mim.

Damien era um rapaz tão interessante. Enquanto Pip era um garoto de vida sofrida e sem graça, ele já tinha um emprego, era pago, e governava um reino inteiro, isso sem nem tocar no assunto de seus poderes. Ele tinha toda uma vida incrível pela frente enquanto Pip provavelmente acabaria trabalhando para um patrão rude por um salário mínimo.

Pip era tão sem graça, enquanto Damien tinha um perfil impressionante. Ele não conseguia evitar de querer saber mais sobre ele.

— Perdoe a intromissão, mas, se você pode usar seus poderes como quiser, sem restrições, por que não o faz?

O anticristo parou o movimento com a xícara já a pouquíssimos milímetros de seus lábios. Ele manteve o olhar baixo, concentrando o brilho carmim no líquido escuro em movimento.

— Não é algo justo. Enquanto estou usando meus poderes para me satisfazer e facilitar meu trabalho, poderia estar usando para melhorar a vida de meus inquilinos.

Pip arqueou a sobrancelha.

— Inquilinos?

— Aqueles que são mandados para o inferno por algo injusto: suicídio, divórcio, conversão, essas coisas. — tomou um gole do chá. — Eu tiro eles do fogo e cada um segue sua vida normalmente, com sua própria casa, hobbies, e tal.

— Como um condomínio. — o britânico disse com animação.

— Se quiser fazer essa comparação, sim. Mas ainda temos que lidar com as pessoas que têm que passar pela punição, por isso vim pra cá. — mordiscou o interior da bochecha. — Aqueles gritos me enlouquecem e não consigo me concentrar no meu trabalho.

Pip deu um sorriso torto.

— Ah, eu temo que aqui não seja muito diferente.

Era tão fácil para pessoas começarem a gritar em South Park. Qualquer mínimo problema que acontecesse, as pessoas já entravam em pânico completo. Isso era péssimo quando tudo que se queria fazer é a lição de casa.

Damien, no entanto, o encarou de soslaio, como se ele tivesse dito algo muito estúpido. Talvez ele tivesse, não sabia sobre a forma como Damien vivia lá embaixo.

— Mas é. — o anticristo disse. — Você não conhece o inferno, não sabe como é, bom, um inferno.

E provavelmente nunca saberia.

O loiro riu baixinho, dando mais um gole em seu chá.

— Eu acho que nunca te agradeci. — murmurou após engolir.

— Pelo que?

— Por ficar sempre tão preocupado comigo. — sorriu.

Pip tinha um sorriso tão bonito. Devia sorrir mais.

— Não precisa me agradecer pelo mínimo que eu podia fazer. — Damien respondeu ao desviar o olhar, as bochechas levemente tingidas de vermelho. — Se preocupar por alguém machucado é o mínimo de decência humana. É só uma pena que seus colegas não sejam assim.

O britânico abaixou os olhos azuis em direção aos próprios sapatos.

— Eles não são todos ruins. A maioria só prefere cuidar da própria vida. Nenhum deles quer acabar sendo alvo de bullying frequente ou, pior, fazer alguém com quem se importam sofrer por culpa deles. — apertou a xícara entre seus dedos, inconscientemente encarando a faixa em seu braço. — Nenhum deles quer acabar como eu.

Damien não entendia a razão de pessoas com tantas oportunidades diferentes escolherem um destino tão imbecil. Embora a maioria delas pudesse ser salva, o crime insistente só aumentava a pena. Elas podiam ascender aos céus depois, mas todas passariam pelo inferno, de qualquer forma, algumas com penas mais longas que outras.

Às vezes Damien gostaria de adiantar essas penas.

— A sua prima notaria se você não voltasse pra casa hoje? — ele perguntou após alguns segundos de silêncio.

Embora sem palavras, a expressão de Pip já era o suficiente para ele ter noção da resposta.

— Não, não notaria.

A não ser que ela sentisse vontade de tomar chá, a existência do garoto loiro não faria a menor diferença para ela. Ele era como um empregado da casa; não podia fazer nada a não ser que terminasse todos os seus afazeres primeiro. E, mesmo quando terminava, ela lhe dava mais.

E ai de Pip se não terminasse tudo na hora.

— Você gostaria de passar a noite aqui? — Damien ofereceu em voz baixa. — Eu realmente não gostaria que você tivesse que sair a essa hora desse jeito. — apontou para seu braço enfaixado.

Pip permaneceu calado por um tempo. Ele realmente gostaria de passar mais tempo com Damien, ele era realmente legal com ele e ele adoraria poder ficar com alguém que não o tratava mal como os demais.

Então por que não ficava? Ele não via nenhum motivo para não fazê-lo, exceto talvez a falta de preparação.

— Gostaria, sim. — respondeu com um sorriso terno no rosto.

Damien teve que se conter ao máximo para não agarrá-lo e clamar aquele sorriso para si com todo o fogo que queimava em seu peito.

Notas finais
Favoritos e comentários aceleram a produção da história ;)