Dark Wonderland
1 Prólogo.
Sempre ouvira que tudo aquilo não se passava de um sonho, mas era muito real para ser apenas um sonho. Meu pai dizia, “belisque seu braço para acordar, e tudo ficará bem”. Costumava funcionar, mas em certo ponto, acreditei tão firmemente naquele sonho que ele se tornou real, e se tornou um pesadelo...
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Durante essa noite, tive o mesmo sonho. Sempre tomava chá, e todos sempre pareciam loucos. Mas o chá tinha um gosto amargo que o açúcar não conseguia amenizar, e a loucura daqueles que chamava de amigos, não parecia acolhedora, não mais, desta vez assustava-me. Mesmo de dia o sol não brilhava intensamente, como se fosse uma lâmpada velha prestes a queimar, e tornava o lugar macabro. Não aguentaria nem mais um segundo ali. Levantei-me, tirando de forma suave as migalhas de minha calça jeans. E assim que estava prestes a me despedir, senti mãos em meus ombros. Mão que me agarraram com força e me forçaram a sentar, mãos um dia delicadas, hoje brutas como as de um lenhador.
Virei o rosto devagar, lembrando-me de que movimentos bruscos não são bem vindos aqui. O chapeleiro estava atrás de mim, encarando o vazio com o olhar perdido. Suas roupas perderam a elegância e a cor, estavam desbotadas e rasgadas. Até seu amado chapéu foi estregue ao tempo.
- Ahn... – engasguei com as palavras por alguns segundos, pensando em uma mentira que fosse convincente- Acredito que meus pais estejam preocupados, acho melhor que eu vá agora...
Tentei erguer meu corpo novamente mas fui impedida com violência, sabia que haviam mudado, mas não tanto assim. Sua voz era rouca, ele realmente parecia cansada, e senti pena dele naquele momento. – Desculpe-me, querida Alice. Você não poderá ir hoje, acho que está na hora de ficar... – ele fez uma pausa, escolhendo a palavra certa – permanentemente.
Sabia que isso aconteceria, sabia que teria que fazer coisas que nunca havia nem imaginado fazer. Mas era necessário. Conversar não era uma opção. Deixei sua proposta pairando no ar e escorreguei a mão lentamente até a mesa, me movimentando sem ser notada. Passei os dedos lentamente envolta da pequena e pontuda faca que era usada para contar pães. “Não havia escolha”, repeti isso em minha mente várias vezes, pois não queria fazer algo tão horrendo. Não havia escolha, Alice.
Movimentei-me rápido, virando o corpo para trás e cravando a faca na parte alta do ombro do chapeleiro, perto do pescoço, mas não o suficiente para mata-lo. Era apenas um aviso. Um aviso de que na próxima vez, não hesitaria em acertar sua artéria.
Ele caiu de joelhos no chão, se contorcendo de dor, e aproveitei os poucos momentos que tinha para escapar. Corri o mais rápido que conseguia, e não de forma silenciosa. Qualquer um saberia para onde estou indo, ou pelo barulho das folhas secas se chocando com a sola de minhas sapatilhas, ou simplesmente por saber que só há uma forma para de mim de sair de Wonderland, a porta.
Podia ouvir os gritos furiosos se aproximando de mim, e isso me fez correr mais e mais e mais. A porta estava bem a minha frente.
Só mais um pouco, Alice.
Só mais um pouco.
Joguei-me ao chão e rastejei para dentro da pequena porta de madeira lascada, quase destruída pelo tempo. Ouvia as batidas do outro lado, mas consegui tranca-las. E fiquei na escuridão, engatinhando no pequeno espaço, procurando pela segunda porta.
Mas pela primeira vez, não precisei dela. Bastou que piscasse os olhos com mais calma que estava no meu quarto novamente. Não da forma certa, mas estava. Estava em pé ao lado da minha cama, observando meu próprio rosto sereno, dormindo calmamente em minha cama. Ainda estava sonhando, mas pelo menos nada de ruim aconteceria.
Pelo menos era o que eu achava.
Senti um calor estranho percorrer meu corpo de dentro pra fora, como se meu sangue estivesse fervendo dentro de minhas veias, e a Alice Sonolenta também sentiu. Ela se revirou na cama enquanto eu curvava o corpo. Meu estômago doía e esquentava, tudo ao mesmo tempo. E o calor subiu garganta acima, explodindo em minha boca. Alice Sonolenta conseguiu se sentar antes que o líquido avermelhado voasse de sua boca, assim como da minha. Mas parecia que estávamos em universos diferentes, e eu apenas podia observar a outra versão de mim. O que cuspimos no mesmo segundo, nitidamente era sangue. Mas meu sangue não a sujou, e nem o dela a mim.
A sensação não passou, e a dor só aumentava, o sangue continuava a escorrer de minha boca, tentei tampa-la, mas serviu apenas para sujar minha mão. Alice Sonolenta levantou-se, apressada, jogando os lençóis brancos, agora pintados de vermelho, que a cobriam para o lado. Foi direto ao espelho, querendo checar que desastre estava a acontecer. Segui-a e parei atrás dela. Pude ver meu reflexo no espelho, mas aquela não podia ser eu... meu cabelos estavam marrom cor de lama, e meus olhos, sombrios como os de um corvo, quase morto, mas ainda havia um leve tom de verde neles. Minha aparência pareceu atordoar mais a ela do que a mim. O sangue rojou em sua boca, numa tentativa desesperada de se livrar do excesso, e essa ação foi seguida de um grito abado. Não podia ser eu, pois estava sorrindo enquanto via a outra versão minha sofrer...
Então sentei abruptamente na cama, soada e desesperada procurando por ar. Foi só um sonho, ou quase isso.
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