Dark Way: Todos Temos Uma Sombra
2 Episódio 1 - The Brands
Notas iniciais
17 YEARS LATER
Era um daqueles dias onde você imagina que tudo vai se sair bem o suficiente. E Eu... Bem, eu estava certo disso, apesar de estar caminhando em direção a entrada do colégio, tentando arrumar a bagunça de meus livros dentro da mochila como quem tenta por o mar em uma lagoa.
– Leon! -Anna acenou pra mim, com um sorriso no rosto.
– Ann... -Tentei acenar de volta, juro que tentei, mas não consegui terminar a frase, porque o besta do valentão que vinha de skate jogou meu material no chão, Jake.
– Pera Leon, eu te ajudo. -disse Anna sorrindo, e se agachando no chão para me ajudar.
– Sempre a mesma coisa todo início de ano Anna, eles não respeitam a gente, olham pra gente como se fossemos nada. — já era possível ver o ar de bravura no meu rosto.
– Ah Leon, não liga pra isso. Você mesmo sabe que desde sempre, desde quando a gente chegou que eles são assim. -Fica tranquilo.
Anna sabia do meu temperamento nada estável, então tentava me acalmar o máximo possível. E eu gostava disso. Sério, eu gostava quando me ofereciam ajuda com meus sentimentos, gostava tanto quanto eu gostava quando o idiota do Jake jogava meus materiais no chão. Mas por favor, não conte isso à ela, ela ficaria extremamente chateada.
SINAL DA ESCOLA: Trimmm 8')
– Ei bobões, levantem daí ou beijem logo o chão. -foi o que o Jake disse quando passou por nós outra vez, só que agora com o skate na mão e indo em direção ao corredor. -Falando nisso, colar maneiro, roubou de onde?
Por um súbito momento de raiva, eu quis que ele tropeçasse, queria que ele caísse e beijasse o chão da escola pra experimentar a sensação.
– Tomara que esse idiota tropece e beije o chão, já que ele indica, deve gostar mu... -não creditei no que vi na minha frente.
Enquanto eu me levantava, e punha a mochila nas costas, conseguia ver a cara de espanto da Anna. Ela havia ouvido o que eu tinha dito a pouco. Mas parecia custar a crer na cena cômica que estava na sua frente. Jake de cara no chão e com a boca ensanguentada, devido a um tropeço que deu no meio do corredor lotado.
Peguei no braço de Anna.
– Vamos Anna, não podemos perder mais tempo com esse babaca, ou professor vai acabar suspendendo a gente por atraso.
Então saímos andando até a sala. Enquanto eu ria descontroladamente, Anna olhava pra mim e sorria, pois não aguentava me ver rindo igual a um daqueles palhaços que vimos uma vez no circo da cidade.
4 HORAS DEPOIS
Anna veio comigo até o Instituto. Estávamos conversando sobre as matérias escolares e os testes da semana, até eu ver que Tio Jhonnatan estava na porta me esperando, já passava das 13:00 da tarde, e ele não gostava de atrasos.
– Até mais Anna. -abracei ela, como de costume.
– Até mais Leon. -e ela retribuiu meu abraço, como sempre.
Então Anna apenas deu as costas e seguiu em frente. Talvez ela não tenha ficado a vontade com a expressão séria de tio Jhonn na porta do instituto.
Tio Jhonn era um cara bacana, com cabelos medianos e escuros, pele clara, olhos de gato, como eu costumava dizer. Ele me criou, e pelo que sei faz parte dele (o instituto) mesmo antes de eu chegar.
Pelo pouco que me contou, parece que quando meus pais morreram, minha tia ficou cuidando de mim, até que ela faleceu e Tio Jhonnatan ficou comigo aqui no instituto como meu 'protetor'. Tio Jhonn nunca menciona a morte deles, não sei o motivo, mas não gosta de falar disso.
Você deve estar se perguntando como é ser criado num instituto... Sabe, não é tão ruim. Vivi minha vida inteira sem saber quem eram meus pais, só sei que eu nasci e eles morreram. Daí minha tia morreu também e me deixou aqui. Tio Jhonnatan não gosta muito de tocar no assunto, ele sempre diz que "Passado é passado".
– Atrasado Leonard... -disse o tio Jhonn com um ar sério, mesmo sabendo que 95% das estatísticas já deviam ter feito ele se convencer de que não sou tão pontual.
– Tio... -tentei falar.
– Já conversamos sobre atrasos Leonard. Você sabe que não pode chegar atrasado em seus compromissos... -ele falando o mesmo sermão de sempre, já até decorei de cabeça.
– "Pois garotos como eu devem ser sempre pontuais"... Eu sei tio, o senhor já disse isso.
– Se disse, você deveria por em prática...
– Caramba Tio me deixa falar! -de repente meu humor alterou como se eu fosse pular em cima dele.
– Controle Leonard. Respire, inspire, suspire. -disse ele com a voz mais mansa do mundo, como se soubesse o quanto era difícil pra mim controlar meus sentimentos e minhas alterações bruscas de humor. Alterações que só vinham piorando desde os últimos meses.
– Diga Leonard...
– Olha, é, eu nem sei mais como fazer isso tá legal? As coisas só pioram, as vezes sinto minha mente em chamas, em outras parece que ela tá tão calma que sou capaz até de dormir e prestar atenção na aula ao mesmo tempo. Mas eu não quero mais isso tio. Não quero mais ter que ficar respirando, inspirando e suspirando como se isso fosse melhorar algo. Eu fico parecendo um... Retardado mental.
Ele só me olhava atentamente.
– Tio?
Ele continuava a me olhar... Mas dessa vez olhava para o quadro de Tia Clary, sua esposa já falecida, a moça que me deixou aqui.
– Ah, e além disso, aquela coisa esquisita que eu tinha te falado voltou a acontecer. -peguei um pacote de biscoito e me joguei no sofá do salão, fingindo que não estava extremamente irritado com o fato de ele não ter me respondido.
– Como foi dessa vez Leonard?
– Engraçado.
– Engraçado?
– É... Foi tipo, o garoto chato lá da escola, jogou meu material no chão, daí eu já me esquentei. Então eu me abaixei pra catar o material, e ele disse pra eu aproveitar e beijar o chão.
– E aí?
– Aí eu falei: "Tomara que esse idiota tropece e beije o chão, já que ele indica, deve gostar muito". Quando levantei, ele tava no chão com a boca ensanguentada.
– Achou isso engraçado?
– Sim tio. Afinal o cara me perturba o tempo todo. O que o senhor queria que eu achasse, que pensasse que foi ago ruim e fosse lá ajudar ele?
Se eu soubesse que isso ia acontecer tinha pedido pro cabelo dele crescer rápido e loiro. Já que ele me zoa tanto por ser Gay. Muleque mais chato, até do meu colar ele falou mal.
– Ora Leonard, não se importe com isso. -tio Jhonn sorrio.
Finalmente meu tio tinha dado um sorriso, e um ar mais brincalhão havia saído do seu rosto sério. Quando me entra pela porta o maluco do Topher.
Sr. Topher era um dos protetores, ele era alto devia ter uns 1,82 de altura, cabelos escuros e curtos, olhos cerrados e castanhos de quem já se assustou com muita coisa nesses anos que trabalha no instituto. Ninguém sabia ao certo a idade dele. Alguns já arriscaram dizer que ele tinha 40, mas a aparência jovial não permitia dizer isso, ele tava mais com cara de 35.
Ele entrou pelo salão com cara de espanto. Falando nisso, pela milésima vez né, pois quase todos os meses é isso. Me parece até esquisito, que toda vez que alguém no instituto completa 18 anos, sempre se repete a cena.
Sr. Topher vem com cara de espanto, como se tivesse visto uma assombração, e meu tio larga tudo e vai até ele, fazer não sei o que lá num dos dormitórios.
Sabe, já pensei altas besteiras sobre eles dois quando iam correndo assim pros dormitórios .
– Senhor! -disse Topher com a cara pálida.
– Leonard, me espere aqui, já volto pra terminar essa conversa.
– Ok tio, pode deixar. -disse eu, imaginando ser essa a resposta mais indicada pro momento.
Daí meu Tio e o Sr. Topher saíram mais apressados, e por mais que eu não quisesse notar, eu notei. Sr. Topher estava com um olhar diferente, olhar mais intenso e preocupado, como se dessa vez algo acontecera a alguém da família dele. Isso me levou a crer que devia ter acontecido no mínimo um algo com o protegido dele. O Julian.
– Ai Caramba! o Julian!
Quando imaginei isso, não pude resistir e sai correndo atrás dos dois, mas é lógico, fui por outro caminho, peguei os corredores que ligavam a cozinha até os corredores do dormitório.
De fato achei que esse atalho ia me levar mais rápido ao dormitório, afinal eu conheço esse instituto na palma da minha mão. Quando estava chegando bem no corredor dos dormitórios as pressas, na hora de virar a esquina, escutei o bater de portas. O susto foi tão grande que me joguei pra trás como se tivesse sido abatido por uma explosão. Deixei meu braço bater na mesinha que tinha em cima um vaso ornamentado, muito bonito por sinal, que caiu em cima do meu colo.
Então levantei e pus o vaso no lugar, dando graças a deus por não ter sido nenhum dos milhares de quadros espalhados nesses corredores, foi quando Mag (a garota com cara de maléfica) passou por mim, me olhando como quem olha um maluco. Só acariciei o vaso como se nada tivesse acontecido e fui até a porta do dormitório do Julian.
Pude ouvir o choro dele, e isso me deixou muito irritado. Não sabia o motivo, não consegui entender a causa de eu me irritar com o sofrimento dele...
Não sabia o que estavam fazendo com ele lá dentro. Fiquei preocupado, afinal ele era meu melhor amigo. Abri a porta bem devagar e dei uma espiada. Não consegui acreditar no que vi. Julian deitado na cama, se mexendo de um lado pro outro, mordendo os lábios. Talvez de dor.
Mas o que mais me intrigou, foi uma marca que estava nele. Uma marca enorme nas costas. Essa Marca eu tenho quase certeza de já havia visto em algum lugar do instituto...
Encostei o ouvido na porta e pude escutar uma conversa.
– Jhonnatan, olha isso, apareceu mais cedo que o comum. Isso não devia acontecer com ele.
– Fica calmo Cristopher, ele vai ficar bem, todas essas marcas são sinal de que ele foi bem cuidado por você durante todos esses anos.
De fato eu não tava entendendo nada na conversa. Só conseguia prestar atenção no Julian.
– Olhe acredite, eu também tenho andado meio preocupado com o Leon.
Quando ouvi meu nome, gelei. Afinal, não sabia por qual motivo meu tio devia estar preocupado comigo. Aliás, minhas notas eram as melhores, minhas provas geralmente perfeitas e eu nunca dei problemas no instituto pra nenhum dos outros protetores além do Sr. Cristopher. E da Madame Levière. E daquele carinha da portaria. Ah tem também a moça da biblioteca... Tudo que ele podia ter de preocupação comigo era sobre meu problema com meu humor.
– Leon também anda dando sinais?
– Na verdade não são sinais, o humor dele tem piorado cada vez mais, tenho medo que ele acabe se machucando ou machucando alguém. -Eles falavam enquanto meu tio dava algo pro Julian tomar.
Não sei ao certo que 'troço', foi aquele, mas me aliviei quando Julian dormiu.
– Leon seria incapaz de machucar alguém, Jhonnatan. Pense bem, o humor instável dele indica que ele tem tanto talento quanto os PAIS.
Pais. Foi a última coisa que consegui escutar, senti que alguém vinha se aproximando do corredor então entrei no meu quarto, que é ao lado do quarto do Julian. Durante o resto da tarde fiquei com a cabeça doendo. Talvez porque eu seja péssimo em pensar coisas diferentes ao mesmo tempo.
Não conseguia tirar da cabeça o choro do Julian, nem o fato de Sr. Topher conhecer meus pais de seja lá onde for. No meio desse pensamentos lembrei da tal marca. E lembrei de onde a reconheci: BIBLIOTECA.
Sabe, eu nunca fui um cara muito centrado em leitura, até leio um pouco aqui, e outro ali. Mas me lembro que a uns dois meses, precisava de livros pra uma pesquisa. Mas como havia passado a tarde toda fora, só tinha aquela noite pra fazer a pesquisa e entregar no dia seguinte pra escola. Então roubei as Chaves da moça da biblioteca do instituto enquanto ela tomava seu chá da noite com os outros protetores, e fui até a biblioteca com toda cautela que tenho: NENHUMA.
Chegando lá eu abri a porta, entrei e tranquei por dentro. A biblioteca é realmente bonita. Um formato de teto oval, que a noite dá até pra ver as estrelas. E a lua as vezes.
Fui andando entre as sessões, entre elas, vi uma com livros empoeirados, escrito na estante: The Brands. Na verdade a sessão que eu devia estar naquela noite era História da Criação e Fundação do Instituto Witleston. Mas não sei o que me atraiu nela, talvez tenha sido as marcas em dourado que tinham nas capas dos diversos livros.
Por sinal uma das marcas que vi em um livro, era a que estava nas costas de Julian. Cada livro com uma marca maior na capa, e pelo que li em alguns, cada marca significava uma coisa.
Quando li o livro, pensei que se trata-se apenas de hieróglifos, ou sei lá o que. Mas o que me deixava realmente preocupado era o fato de que aquela marca estava no corpo do Julian.
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