Notas iniciais
Duas das supostas Herdeiras De Netuno irão se enfrentar, a fada Jhynn e a sereia Matilde. Quem irá vencer?

Matilde inclina a cabeça para o lado e suspira enquanto me encara com certa raiva. – Claro, bolinhas de sabão. – Diz ela enquanto abre os braços e os ergue no ar. Atrás dela vejo uma movimentação sobre o escuro da noite e quando a luz da lua reflete eu enxergo. Uma água negra se movimenta em sua volta, como se a água tivesse vida própria e fosse serva da garota.

– Você sempre fez parte dessa loucura toda? – Interrogo.

– Desde que eu soube que eu poderia ser a Herdeira. Quem você acha que matou o professor centauro? – Ela diz enquanto ergue a sobrancelha direita e sorri cinicamente.

– Então aquilo na sua festa foi apenas uma armadilha para nos pegar?

Ela mexe nos cabelos negros, se fazendo de inocente. – Na verdade foi apenas para pegar você e Roger. Rick, Nicole e Daiana foram um bônus. – Ela abre os seus lábios escancaradamente, exibindo um sorriso branco.

Passo a mão nos meus cabelos dourados e os jogos ao ar. – Hum, você tentou me pegar querida? Agora sou eu que vou te pegar. – Com um gesto simples com a mão o chão sobre os nossos pés treme levemente. Surgem pequenas rachaduras no palco de pedra e delas saem espinhos grossos feitos de terra dura. Duas fileiras de espinhos brotam em direção da Matilde, mas antes de chegarem nela sua água negra os cortam como se não fossem nada.

– Ainda estou esperando você me pegar. – Diz ela, confiante de sim mesma.

Em resposta eu apenas sorrio. Ela faz cara de confusa, mas logo sua expressão é substituída por dor e um grito. Seu pescoço está sendo enforcado por uma grossa vinha que eu fiz brotar atrás de si, ela nem sequer notou pois estava distraída com os espinhos. – Últimas palavras?

– Vá se fuder. – Diz ela com a voz acabando.

Olho para a vinha que segura firmemente o pescoço da garota, que agora se enrola mais ainda como uma cobra querendo matar a sua presa. Em alguns segundos ouço o estalo do pescoço dela quebrando, e Matilde fecha os olhos lentamente. A planta solta o corpo da garota e então eu me viro, indo embora com o gostinho da vitória.

– AAAHHH! – Solto um grito de dor, extremamente alto e agonizante. Caio no chão, me ralando no palco de pedra e olho para o meu pé. A água negra esta envolta da minha perna e o meu pé esta virado para o outro lado. Sinto vontade de vomitar ao ver meu pé daquele jeito, mas preciso sair dali antes que a água quebre mais alguma coisa. Levanto voo e subo o mais alto possível. A luz da lua esta mais forte no alto, mas eu não paro de subir mesmo assim. Olho para baixo e vejo a água que é mais escura que a noite dançar envolta do corpo da menina. A água começa a entrar em sua boca, não como se ela estivesse bebendo a mesma, mas como se aquilo fosse uma entidade e estaria possuindo a Matilde.

Matilde abre os olhos, mesmo de longe eu percebo que eles estão totalmente negros, como o céu sem estrelas. Ela ficou em pé e me encarou, em seguida soltou um grito que deu continuidade a gargalhadas. A água em seus pés se movimenta de forma agita e mal deu tempo de eu procurar um lugar para me esconder. A água se transforma em bolhas que voam como balas de uma metralhadora em direção ao céu. Voo para trás do navio enterrado, mas antes que estivesse protegida pelo casco de metal velho eu sou atingida. Mordo os lábios para não gritar, mas agora não quero mais gritar, quero fugir. Ouço o som das balas de água atingindo o metal do navio, e espero, espero muito que isso aguente. Olho para mim e procuro o local onde eu fui atingida, no ombro, mais um pouquinho para baixo e meu coração já era.

Vejo uma das balas de água perfurar o casco e passar do meu lado, a alguns metros longe. Não posso ficar esperando a sorte da munição dela acabar, preciso fazer algo. Faço brotar novas vinhas, mas desta vez precisarei de muitas. Me ajoelho sobre o chão e ponho minhas mãos na terra. Minha magia passa pelo meu corpo e se dilui no solo, fazendo com que vinhas e grandes plantas trepadeiras surjam. Em pouco tempo elas se enroscam no enorme navio e o levantam. Eu salto em um voo e olho para o rosto da Matilde. Com as mãos ordeno que as vinhas lancem a embarcação contra minha inimiga.

Mas ela é rápida e faz de sua água de espadas cortantes novamente, usando ela como chicotes que partem o navio em vários pedaços antes que a acertassem. Mas agora nós duas estamos surpresa com o que sai dos destroços do barco. Uma grande quantidade, um exército de monstros metade homens e metade cobras ficam confusos em quem atacar, mas na duvida eles atacam nós duas. Uso as vinhas que eu tinha brotado há pouco tempo para afastar eles de mim, enquanto Matilde penetra sua água cortante no coração de cada monstro.

– Parem de nos atrapalhar, seus merdas. – Grita ela, mas em poucos segundos todos os monstros já estão mortos. Não sei se fico aliviada ou assustada de tamanho poder da garota. Olho para minha inimiga e ela ainda está distraída com os monstros mortos e então eu pouso na terra firma, pisando apenas com um pé e deixando outra perna erguida devido ao meu ferimento. Ao pisar no chão uma pequena cratera se abre e a minha frente surge uma enorme rocha que voa em direção de Matilde. Sua mente finalmente retorna a batalha a tempo de ela cortar a rocha no meio, e sair ilesa do ataque.

– Ai ai, não era você a poderosa fada da terra? Não vejo nada além de uma fadinha assustada. – Diz ela enquanto anda em volta do altar que fica no meio do palco de pedra de Netuno. Ela para e olha para mim, com uma enorme sede de sangue em seu olhar. – E ainda quer achar que pode ser a Herdeira de Netuno. – Ela começa a gargalhar como um personagem de filme de terror, e o pior de tudo é que sua gargalhada ecoa mesmo estando em um local aberto. Isso me faz ficar com mais medo ainda.

– Por que você quer ser tanto a herdeira? – me arrisco a perguntar.

– Convenhamos que eu sou a melhor opção. Você é uma fada, o que você quer ser herdeira do criador das sereias? Bem, claro que ele não escolheu para quem ele entregou parte de sua magia, mas a magia dele não iria para uma fada, não mesmo. – Matilde se senta em cima do altar, e pela primeira vez nessa batalha eu a vi como uma adolescente e não como uma sereia horrorosa do mal. Ela cruza as pernas curtas e continua a falar. – Sabe, quando o pai renascer, vir para a Terra, ele será o rei disso tudo. Dos humanos e das criaturas mágicas. Não terá ninguém mais poderoso do que ele, afinal nosso planeta é praticamente água e ele criou a água, ele é a água. E eu serei a sua querida e fiel Herdeira, se o mundo estará sobre o seus pés, ele também estará sobre os meus pés. – Ela movimenta os pés, fazendo com que os sapatos altos batam um contra o outro. – Meu pai diz que as sereias não são mais respeitadas como antes. Antigamente éramos temidas, donas dos mares, dos rios e lagos. Podíamos matar os humanos afogados e fazer o que bem entendemos. Hoje temos que obedecer regras, e temos que se esconder sobre a forma humana para não ser descobertos. Você é uma fada, e também precisa se esconder, não podia exibir suas asas ou mostrar o seu poder, se não seria ou morta pela Conselho das Fadas ou capturada por cientistas humanos e seria estudada até morrer. Jhynn, nós somos mais do que apenas historinhas de crianças. Você não se cansou de ser apenas um conto e mito de humanos?

Notas finais
A luta continua no próximo capítulo. Deixem seus comentários por favor.