Dark Side
14 Some time later...
Notas iniciais
Meses se passaram, e durante esse tempo fiquei treinando com a própria Elalren.
Toda noite, após o jantar, íamos para o jardim do seu castelo para nossas aulas de magia particulares, pois já que meus poderes consistiam em terra, planta e ar, teria que fazer isso ao ar livre, e não numa sala.
Eu estava sem esperanças no começo, ainda não crendo que havia poderes, mas esses meses serviram para que eu me calasse, pois a cada dia eu evoluía um pouco. Já conseguia mover pedras, areia, barro, sabia abrir pequenos buracos e crateras, também fazia algumas plantas crescerem e se moverem a meu comando. Já meus poderes com o ar eram mais difíceis de serem dominados, conseguia fazer pequenas correntes de ar e até faze-las formar um pequeno tornado de poeira, e era esse o nosso foco.
Caminhavámos até a praia, onde o vento era mais forte, havia acostumado a andar descalça durante os treinos para sentir melhor a terra, Elalren parecia orgulhosa do meu progresso, mesmo com sua face misteriosa. Ao chegarmos no nosso ponto de sempre, Elalren começou a fazer comigo uma meditação, para que eu relaxasse bastante.
—Consegue sentir o ar do mesmo jeito que sente a terra? -Elalren me perguntou, de olhos fechados.
—Um pouco... -Respondi, também de olhos fechados.
—Relaxe mais -Aconselhou-me minha treinadora. -Limpe sua mente como lhe ensinei, inspire e expire devagar.
Fiz tudo o que ela me aconselhou. Minha meditação sendo embalada pelo barulho da maré e o som do vento nas folhas da árvore. Sentia o vento com mais clareza ao meu redor, e instintivamente abri os braços para sentir melhor, sem abrir os olhos. Expirei e continuei relaxando, sentindo a brisa me envolver. Levantei devagar e finalmente abri os olhos, me sentindo leve como uma pluma.
Elalren continuava sentada na areia, me observando.
—Deixe seu coração lhe guiar, Lorelay. Sinta o vento. Sinta a mágica. -Ela sorria suavemente enquanto me orientava, e eu apenas a respondia com um aceno de cabeça.
Direcionei meu olhar para o mar, de onde o vento vinha, e movimentei as mãos do jeito que sempre fazia para comandar aquela corrente de ar que chegava até mim. Ela me obedeceu sem problemas. Voltei a fechar os olhos e continuei movimentando as mãos, agora caminhando cegamente pela areia, como se eu e o vento estivessemos dançando.
A brisa fresca do mar se tornava mais intensa, sentia a corrente de ar seguindo meus comandos suaves, sentia todo meu corpo leve e em paz, e por isso demorei para perceber que não sentia mais a areia da praia nos meus pés.
Abri os olhos lentamente e olhei para baixo, me deparando com o vento me sustentando no ar, me fazendo flutuar a alguns metros do chão. Tentei não entrar em pânico e estragar o momento. Inspirei profundamente e movimentei meus braços para baixo, e o vento obedeceu, me descendo com calma até a areia. Respirei aliviada ao sentir novamente um chão.
Elalren se aproximou, aplaudindo calmamente e sorrindo de orgulho, já que era a primeira vez que eu chegava a voar usando o vento. Ela me parabenizou com um abraço e, após mais alguns treinos com areia, retornamos ao castelo.
Já estava tão acostumada a ficar acordada de noite que, quase todos os dias, depois do treino e de tomar um bom banho, ia até a biblioteca procurar respostas para minhas missões como princesa. Depois de tanto ler, e depois de algumas aulas com o bibliotecário também, já havia aprendido a ler fluentemente aquelas diferentes línguas que os livros apresentavam.
Já estava nas últimas prateleiras das últimas sessões, e me frustrava saber que não havia nada ali sobre o que procurava. Após horas sentada no chão verificando os livros, Matt se aproximou, como se tivesse acabado de acordar.
—Ainda não foi dormir? -Ele bocejou levemente.
—Não... Não consigo achar algo sobre o que estou precisando... Já verifiquei todos os livros daqui... Literalmente! -Falei para ele, um pouco aborrecida.
—Bem, é verdade que temos poucos livros sobre alguns assuntos... Mas sei onde pode achar uma variedade de livros...
—Onde?
—Na biblioteca no QG da Guarda de Eel. -Ele se abaixou e me ajudou a colocar os livros no lugar.
—É mesmo! Eu não havia pensado nisso! Eu vou lá!
—O que? Agora?
—Sim! Está bem tarde! Com certeza é mais fácil entrar num horário assim!
—Quer que eu chame alguém para lhe acompanhar...?
—Não precisa, Matt, muito obrigada. -Levantei-me e sorri para ele. -Se eu não chegar até o amanhecer, é porque fui pega.
—Tem certeza que é realmente necessário...?
—Absoluta! Até o amanhecer! Certifique-se de avisa-los caso eu não voltar!
E saí correndo para meu quarto e me arrumei com minha roupa de espionagem o mais rápido que conseguia, me armei com minhas adagas e saí até o jardim em passos rápidos, indo até o círculo mágico pintado de vermelho e mentalizando a orla da floresta. Logo a fumaça apareceu e me levou até onde eu queria.
Corri até a árvore que usávamos para pular o muro, e me surpreendia o fato de não terem tirado aquela árvore dali para evitar as invasões. Pulei o muro e me esgueirei por cima das árvores até o QG, e na minha rota vi que haviam poucos guardas, provavelmente estavam cansados demais para andarem pelo refúgio e optaram por ficarem parados em algum lugar.
Abri a janela silenciosamente e avaliei o interior do QG antes de entrar. Estava um silêncio profundo, sem guardas. Entrei com cautela e me dirigi até a biblioteca, atenta a qualquer armadilha, apesar de pensar que o foco das armadilhas era a despensa. Afinal, quem pensaria em invadir a biblioteca, não é mesmo?
A porta se abriu sem fazer nenhum rangido. Me esgueirei para dentro e olhei ao redor, me certificando que estava sozinha. Fechei a porta e coloquei uma cadeira contra a maçaneta, para impedir que alguém entrasse e atrapalhasse minha procura. Após preparar tudo para que não me flagrassem, parti para a sessão de magia, que era o que me interessava.
Calmamente comecei a procurar, sem baixar completamente a guarda, meus olhos esquadrinhavam as lombadas e os títulos dos livros com rapidez. Demorou mais do que eu esperava, mas encontrei o livro, sentia nele uma força mágica que me atraía e afirmava que era o que eu procurava. A capa era cinzenta, quase prateada, com a estampa de uma ninfa e de um dêmonio, numa posição que me lembrava Yin e Yang. Abracei o livro e, quando dei um passo na direção da porta, ouvi a maçaneta mexer. Paralisei no lugar por um segundo antes de voltar para trás das estantes.
Ouvia uma voz abafada do outro lado da porta, seguida de mais tentativas na maçaneta e alguns empurrões insistentes. Olhei na direção da janela e vi que a mesma se encontrava coberta por cortinas, talvez fossem verificar se a janela estava aberta e nesse momento eu pudesse escapar pela porta.
Vi um brilho pelas brechas da porta e logo a porta foi arrombada com magia, permitindo a entrada de um Kero muito desconfiado, que balbuciava "Eu não deveria ter quebrado a porta assim...". Ele olhou ao redor e, como esperado, se voltou para a janela e se dirigiu até ela. Quando ele estava relativamente longe da porta, saí correndo e sai da biblioteca, mas ao ouvir o som de surpresa dele, deduzi que havia sido vista de qualquer forma.
Abraçava o livro como se minha vida dependesse dele e desci as escadas correndo, pulando os degraus de dois em dois, focando na janela que havia aberto, Kero não havia gritado por ajuda, então talvez eu tivesse uma chance...
Mas a chance foi interrompida no momento que alguém saiu de um corredor e se meteu na minha frente, me fazendo bater com tudo naquela parede que era o corpo de Jamon. O mesmo agarrou com força um dos meus braços enquanto eu o olhava assustada e ouvia mais passos se aproximando.
Eu havia sido pega.
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