Dark - Segunda Temporada
2 Prólogo
Notas iniciais

CAPITULO IV
Londres tem a mesma lembrança fria que estão ainda em minhas memórias. Quando deixei para trás os Estados Unidos e tudo que me prendia a ele, não pude esperar que isso me fizesse tão mal. Eu estava doente. Frustrado, sofria de alucinações e praticamente o dia era meu refugio e a noite minha saída.
Eu ainda me lembrava dela, a cada segundo do meu dia, se eu pudesse respirar, respiraria por ela, se eu pudesse ter uma esperança, ela seria minha âncora. Eu não podia fechar os olhos e fingir que este era eu. O meu eu era irrevogavelmente e incondicionalmente apaixonado por ela. Tive muita dificuldade para não pegar o telefone e ligar para ela, confesso que nos primeiros meses que discava o numero de sua casa e assim que podia ouvir o tom de sua voz, eu desligava, se eu tivesse um coração, naquele momento, ele estaria acelerado.
– Vista-se. – Adam empurrou a porta do meu quarto e entrou com uma bandeja de prata em suas mãos.
– O que é isso?
– Seu café da manhã. – ele colocou a bandeja em cima da minha cama e cruzou os braços, dando-me um sorriso sarcástico. – Melhor qualidade, veio especialmente das geladeiras do hospital da Inglaterra.
– Adam...
– Não me venha com desculpas. – ele veio até mim. – Não está se alimentando a dias desde que começou essa coisa estúpida de se transformar num triarco.
– Eles precisam de uma prova para que eu esteja falando sério. Existe melhor prova do que um vampiro evitando sangue humano?
Eu sei que ele tinha razão em estar preocupado, ultimamente nem sangue de animal eu experimentava, porque esta era a ordem. Se eu quisesse a confiança do triarco, se eu quisesse a minha pena perdoada, eu tinha que abolir certas prioridades em minha vida. Desde que deixei Nathalie para trás, a minha maior prioridade tinha sido afastada de mim, qualquer coisa eu poderia fazer agora.
– Mas confiança se dá aos vivos, não a você morto. Ou morto de novo.
Tive que rir.
– São meus planos, aceite-os Adam. – disse-lhe agora em voz alta e fria. – Onde está mamãe? Ela não me visitou hoje, é meio estranho já que Rebecca aparece aqui toda a hora para me dar um beijo.
– Ela está em Londres. Aceitaram ela para uma nova faculdade.
Olhei-o surpreso.
– Sério? Isso é fantástico. Pelo menos ela esquecerá de mim por um tempo, ela te medo que algo me aconteça. Ela certamente deve me culpar o tempo todo por ser imprudente.
– Na verdade, — Adam se sentou no divã da minha cama. – ela culpa Nathalie por tudo que está acontecendo.
– Ela ainda está pensando nisso? – grunhi.
– Está. Noite após noite, dia após dia, se ela pudesse, arrancava de vez Nina da sua vida. – ele riu de repente.
– Por que está rindo? Isso não é engraçado.
– Estou pensando. Nathalie nunca conheceu a sogra dela e já tem uma inimiga declarada. Tem como isso ser mais errado?
Revirei os olhos.
– Por que não volta de onde veio?
Como eu o conhecia, ele certamente soltaria qualquer ofensa para mim, mas, pela primeira vez, ele me obedeceu. Deu-me as costas e foi embora, deixando meu “café-da-manhã” posicionado no alto da minha cama.
Nada parecia ter mudado, o clima permanecia o mesmo, Rebecca estava longe para o bem de todo mundo, Adam fingia que estava tudo bem e Estenio fingia que estava feliz com seu novo cargo no ministério, como se nossa “eleição” fosse comum a todas no restante do mundo. Faz algumas horas que deixei o palácio de Vinum, uma estrutura imperial, alta e com decoração mórbida, triste e ao mesmo tempo – e ironicamente – angelical, mas trouxe comigo uma carta assinada por Michael Ischovick, o único triarco que se ofereceu a estudar meu caso, ou melhor, a me aceitar como um deles.

Enfiei a carta dobrada no meu bolso e saí em disparada para fora do meu quarto. Com as chaves de um carro alugado na capital, dei a desculpa que iria negociar com a empresa a compra deste, não sei se Adam foi capaz de acreditar, mas me liberou a saída sem mais perguntas. As ruas de pedras balançava o carro bem lentamente, a maioria estava aproveitando a mínima incidência de sol na cidade, outros, saíam a esta hora de bares com copos cheios e pingando de bebida. Quando deixei para trás as ultimas casas e passei pelo grande portão de pedra como se Vinum fosse uma cortina de ferro, Londres era a minha próxima parada.
Depois de algumas horas impacientemente longas, passei pelos primeiros distritos da cidade. Quando mais novo, eu vinha muitas vezes com amigos da escola até o Hyde Park, outras, caminhava pela Denmark Street por causa da musica. Ao norte de Westminster, peguei a Derby Street que dava exatamente na entrada do grande parque. Estacionei o carro em uma das vagas e fechei a porta atrás de mim. Por sorte a nuvem densa estava por toda a Londres, como em Vinum também. Fazia alguns meses que eu não me alimentava bem, se tivesse o mínimo de incidência possível de sol, eu sofreria bastante com a dores. Primeiramente o enjoo, juntamente com a visão turva, escurecendo aos poucos, terceiro as dores musculares e na região da barriga, depois, a ardencia na pele até você começar virar pó. Os efeitos do sol interferem positivamente – na maioria pelo menos — em tudo que há vida, e negativamente em tudo que apodrece.
Aqui era bem publico para um encontro casual entre vampiros, e isso me deixava confuso. Se Michael pensava em me destruir fora do alcance do triarco e da minha familia, escolher um lugar tao publico parecia inapropriado, mas se ele quisesse me dar uma chance, seria bem estranho ainda estar em publico. Então, qual era seu objetivo?
O rio Serpetine à margem brilhava com tão pouco, algumas crianças felizes e ao mesmo tempo desesperadas corriam de seus pais, casais circulavam tranquilos e outras pessoas caminhavam como se não se importasse muito com a paisagem, afinal, viam aquilo quase todos os dias, desde o começo de suas vidas. Numa arvore de copa alta, bancos enfeitavam o longo do parque, e quanto mais eu adentrava, mais perdido eu parecia. Michael mencionou que eu não precisava de recomendação, ele queria dizer que eu não precisava chamar a atenção para ninguém, pois quem quer que esteja a minha espera, me encontraria. Isso me frustrava ainda mais. Com quem eu me encontraria?
– Seja bem-vindo de volta, Drew.
Reconheci aquele cumprimento nas minhas mais remotas memórias passadas. Virei-me para trás e lá estava ela.
– Melissa?
Das minhas lembranças, Melissa tinha cabelos enormes e ruivos, mas agora, deram vida a um cabelo fogo, liso e curto. Seus olhos verdes eram o mesmo, porém, com um especial diferente, eram menos doces e ingênuos. Minhas memórias estavam marcadas de saídas no colégio, sorrisos e flertes trocados na sala de aula e fora dela. Melissa sempre foi a minha melhor amiga desde que eu tinha dezessete anos, estudamos juntos desde criança, mas o tempo fez muito bem a nós dois. Ela sempre foi maravilhosa, estudiosa e sonhadora, e na maioria das vezes, eu sempre ficava indeciso ao que eu queria, exceto ela. Eu a queria mais do que qualquer coisa, nossos destinos pareciam se cruzar como se fossemos perfeitos um para o outro, até que eu me transformei e tive que me afastar dela. Alguns anos depois, descobri que Melissa tinha escolhido outra pessoa para dividir o que eu achei que tivéssemos juntos.
– O que aconteceu com você? – perguntei tentando entender.
– O mesmo que te aconteceu, de outra forma claro. – ela sorriu animadamente em me ver.
Eu a olhei pasmo.
– Isso não pode ser possível.
– Quando você foi embora, muita coisa mudou Andrew.
– Eu sei. – murmurei. – Mas não isso. Você tinha uma bela vida pela frente, por que se tornou isso?
Pela primeira vez, aquela feição sedutora demonstrou uma garota angelical.
– Não foi algo que escolhi, Drew, tudo aconteceu tão rapidamente.
Eu me aproximei.
– Nunca imaginei que iria te ver novamente.
– Eu imaginei. – encarou-me. – Todos os dias me culpo até hoje por ter desistido de você quando se afastou, se tivesse me contado o que aconteceu com você, talvez eu teria aceitado.
Encarei meus dedos.
– Não teria. – murmurei.
Ela encostou os dedos no meu queixo e o ergueu.
– Você sempre foi o amor da minha vida.
Desviei dela o mais rápido possível sem tornar o movimento indelicado. Melissa soube disfarçar o descontentamento.
– Quando me tornei igual a você, eu vi que podia concertar todos os erros do passado, Drew. – me disse. – Sei que parece confuso tudo isso, mas te contarei tudo.
– Que tal começar como eu estar aqui com você a pedido do Michael? – perguntei ansiosamente esperando uma resposta.
– Michael me adotou quando para meus pais eu estava morta, definitivamente, depois de me tornar uma de vocês. É por isso que estou aqui, para te dar uma salvação.
– Me deixando voltar para casa?
– Não, Drew. – ela discordou. – Esta é sua casa, estou aqui para trazer de volta tudo aquilo que perdemos.
Afastei-me.
– Muitas coisas mudaram Melissa.
Ela se aproximou.
– Não para mim, quando me tornei uma de vocês, vi um mundo diferente, Michael me trouxe a missão de ajudar os recém-criados na cidade, o numero caiu muito pouco, o que é melhor para nós, menos atenção.
– Você não devia ficar com algo assim. Olhe para o que está dizendo Melissa, você queria ser jornalista e viajar pelo mundo, agora está presa a isso. – apontei para ela.
– Eu gosto, Drew.
– Ah, por favor.
Ela segurou minha mão e me trouxe para sentar em um banco vazio.
– Esta é sua única chance, Drew. Se você quiser liberdade, você terá, mas primeiramente vai ter que passar por todo o triarco. Você amava essa cidade, o Drew que eu conhecia amava tudo isso.
– Não sou mais o Drew de antes, Melissa. Eu já disse. – eu a olhei nos olhos. – Tenho outras prioridades.
– E o que elas te trouxeram? Você foi banido do seu “lar”.
Encarei meus pés por um longo tempo, antes de resolver falar.
– Não te falaram por que fui expulso?
– Digamos que você extrapolou um pouco. – disse-me baixinho. – Você queria mesmo matar todas aquelas pessoas, Drew?
Bufei irônico.
– É esta a historia que está rolando por ai?
Melissa franziu a testa.
– Você acha isso engraçado, Drew? Pessoas inocentes morreram, isso é terrível, não é nada como você era, quando nos conhecemos. – disse-me zangada. – Além de acabar com a vida do Jeffrey O’Connel, você tentou destruir a vida da filha dele? Era algum tipo de vingança?
As palavras se prenderam na minha garganta. Eram essas as historias que circulavam sobre mim, que eu era um monstro. Eu me odiava tanto por isso quanto pelo o que Lewis fez, cheguei a um ponto de que estava prestes a me tornar um monstro e quando decido parar, tudo ainda se revolta contra mim.
– Eu não matei essas pessoas, Melissa, se você tem um misero de lembrança do que eu era, você vai saber que estou falando a verdade. – disse, olhando-a nos olhos.
– Então por que você foi expulso?
– Fui expulso por isso, fiz muitos inimigos e nesse plano ridiculo de me culpar, aqui estou, sendo culpado por algo que eu não fiz.
– Drew... Você já tentou dizer isso a eles? – Melissa pareceu preocupada.
– Claro que disse, mas conseguiram provas. Estou sem planos por enquanto.
Melissa segurou firme minhas mãos, a alguns anos atrás, eu poderia ficar feliz e relaxado se eu voltasse a sentir seu toque. Mas agora, eu só sentia sua pele fria se misturar a minha, sem emoção, sem vida, como uma memória que ficou para trás. Era a mesma Melissa, só que eu não era o mesmo Andrew.
– Eu vou te ajudar, Drew, estaremos juntos nessa, como prometemos, lembra? – ela sorriu ligeiramente feliz. – Na noite que demos nosso primeiro beijo, prometemos que estaríamos sempre juntos.
Encolhi os ombros, eu não sabia o que dizer e Melissa sabia disso, sabia que o tempo nos afastou, que tudo havia mudado, ela só não sabia o quanto.
– Eu sei que você não esqueceu do que tivemos juntos, embora ainda seja um pouco diferente agora, por isso não cobrarei nada.
Suspirei como se precisasse, parecia que cada gesto, que cada som de sua voz me deixasse mais tenso. Eu não queria magoá-la, havia uma parte de mim que queria seu bem, mas eu não a amava mais. Depois de Nathalie, é como se eu esquecesse do passado.
– Agora que eu sei da verdade, Drew, preciso que você me conte tudo, se quer que eu te ajude, preciso que me conte toda a verdade.
– Que verdade?
– De como aconteceu. – ela foi direta. – Por exemplo, a garota, se você não queria destruir a vida dela, por que se aproximou?
Encarei dela o rio.
Havia como explicar o motivo exato que me fez me aproximar de Nathalie? Segui Gale para a livraria e me deparei com ela, a mesma garota do posto. Eu havia pensado nela todos os dias depois daquele dia, é como se eu não pudesse esquecê-la mesmo depois de ter trocado algumas palavras.
Eu podia ter sido tolo por ter pensado nela, mas no fundo eu sabia que havia alguma ligação nisso, e com o passar dos dias, isso ficava mais intenso, mais poderoso, eu não tinha como lutar contra isso. Meus passos me levavam a ela, dentre os caminhos que eu poderia escolher, ela sempre foi a melhor escolha.
– Você quer saber da verdade, Melissa?
– Estou aqui para isso.
– Eu me aproximei da garota porque me apaixonei, — disse-lhe. – Eu a amo de todas as maneiras mais doces e mais amargas possíveis. Eu me apaixonei.
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