Roupas espalhadas por um quarto que geralmente ficava bem arrumado não eram um bom sinal. O fato de ele estar vazio à uma hora da manhã também não. Parecia ter sido invadido, mas não era esse exatamente o caso. Não que alguém pudesse dizer o contrário já que ao que tudo indicava, isso era exatamente o que acontecera. Não havia um bilhete e não havia qualquer pista que indicasse para onde o prévio morador daquele cômodo fora, se por vontade própria ou se forçado a isso.

Não houveram gritos diante da descoberta. Não houveram acusações. Os outros moradores da casa apenas se encararam em silêncio, sem que palavras fossem necessárias entre eles. Se eles se sentiram tristes ou traídos ninguém poderia dizer. Se eles mandaram procurar pelo desaparecido ninguém ficou sabendo. Mas as coisas aconteciam às escuras naquele lugar e aquelas pessoas eram mais frias do que se poderia esperar, mais preocupadas com o próprio orgulho que com o outro.

Ele já esperara por isso quando juntou tudo o que considerava importante em uma mochila e partiu sem olhar para trás. Percorreu três ou quatro quilômetros a pé, alerta, com medo. Usava uma capa negra sobre seu corpo e isso disfarçava sua silhueta, mas sabia que se alguém estivesse a seu encalço isso não seria suficiente. Haveria um duelo e não se considerava forte o suficiente para tanto. Não ainda.

As três noites não dormidas começaram a pesar-lhe na medida que o sol escalava o céu. Ele olhava em volta procurando alguma estalagem, mas o medo impedia-lhe de entrar em qualquer uma delas. Podia haver algum conhecido. Não podia se dar ao luxo de ser reconhecido. Seus passos diminuíram de ritmo até parar totalmente. Permitiu sentar-se por um minuto na calçada, mas seus olhos começaram a se fechar gradualmente.

Não aqui, pensou. Não agora. Foi por pura força de vontade que conseguiu levantar e continuar andando. Sua força de vontade, no entanto, durou apenas até que seus pés o levassem até uma pequena pensão, que parecia ser trouxa. Pediu um quarto e caiu duro na cama, sem nem mesmo trocar de roupa. Foram dez horas seguidas de sono antes que acordasse.

Não tinha um plano, mas aquilo não era sua prioridade no momento. A primeira coisa a fazer era sair do país, viajar para um lugar totalmente inesperado. Se tinha algum em mente? Apenas opções. Faria uni-duni-tê e veria o que sairia. E então... Bem, teria que esperar para ver. Nunca fora bom em seguir planos, de qualquer maneira.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.