Dark Past
5 Verdades e Questionamentos
Notas iniciais
O prédio, completamente escuro, estava empoeirado. Não havia eletricidade, uma vez que Andrew tentou ligar um interruptor e não deu em nada. Não demorou até seus olhos começarem a se acostumar à escuridão, foi então que viu tochas. Estavam fixadas em suportes de ferro parafusados na parede. Andrew retirou uma das tochas e pegou seu isqueiro. Era um isqueiro com tampa, abastecidos a óleo ou algum tipo de fluido inflamável. Quando a tocha acendeu os garotos puderam ver um saguão de algum tipo de prédio executivo, com vários escritórios, porém estava tudo destruído e desorganizado, além da poeira excessiva. “Parece que alguém não passa por aqui a anos”, Alan pensou. Em seguida viu mais tochas seguindo para uma escadas.
— Ele deve estar em algum andar acima. Vamos. — Disse Andrew, andando a frente, com a tocha em sua mão. Era possível ver mais tochas, e quando chegaram ao segundo andar, puderam ver uma porção de salas com materiais de escritório, todas abandonadas, mas o caminho de tochas para uma direção. — Acho que se seguirmos as tochas chegamos a Robert. — Disse Andrew, com uma cara séria. Ele servia de apoio para seu amigo, que apesar de nervoso não demonstrava, por seu amigo..
Seguiram as tochas por mais ou menos 5 minutos, subindo alguns lances de escadas até chegar ao quinto andar, e ao que parecia, o último. Diferente dos outros andares as tochas deste estavam acesas, e era possível sentir um cheiro estranho no ar. Pareciam ervas.
— Sente esse cheiro? — Pergunta Andrew, farejando o ar como um cachorro.
— Cheiro? — Alan parecia confuso.
— Não consegue sentir este cheiro de ervas no ar? — Alan negou com a cabeça após tentar farejar o ar como Andrew. Teria de pensar nisso depois mas provavelmente tem relação com a audição aguçada que Andrew demonstrou na casa de Alan mais cedo. Ignoraram e continuaram a andar.
Passaram por algumas salas, a princípio deveriam ser somente escritórios mas alguns serviam como depósito, com barris e baús espalhados. Em outros haviam animais, não carcaças mas sim animais. Pássaros faziam seus ninhos nas estantes, guaxinins comiam grãos de alguma saca rasgada, espalhando seu conteúdo pelo chão. Em uma das mesas havia uma raposa preguiçosa em uma posição que, se qualquer pessoa visse iria achar nada menos que cômico, com suas pernas viradas para o alto, sua barriga e sua cabeça virada para o lado e sua língua pendendo de sua boca. Estava em um sono profundo. Haviam mais animais porém os garotos precisavam focar, precisavam achar Robert.
Andrew seguiu o cheiro mais uma vez, que estava mais forte do que antes, até que descobriu sua fonte. Uma sala entreaberta. Era possível ver formas dançando à luz de uma tocha dentro da sala. Os pelos na nuca de Andrew se eriçaram.
— Definitivamente é ali. — Ele disse, com uma cara séria. Alan engoliu em seco.
— Como tem certeza? — Perguntou Alan, sem tirar os olhos da porta.
— Além do fato do cheiro estar vindo dali, eu não sei, simplesmente sinto que é ali. Eu realmente não consigo expressar isso em palavras mas algo me diz isso. É como uma voz que sinto que posso confiar completamente, por mais estranho que isso possa parecer. — Alan olhava para Andrew, que estava pensativo olhando para as formas bruxuleantes da tocha em sua mão. Foi então que voltou a si e disse: “Vamos", sem esperar uma resposta de seu amigo, que apenas o seguiu.
Chegaram na porta e colocaram a cabeça pela fenda entre ela e a parede para espiar o que havia na sala. Haviam mais barris, alguns frascos com conteúdos coloridos, plantas secas penduradas por prendedores a cabides, e um homem de estrutura grande virado de costa. Sua gigante sombra sendo projetada pela tocha a sua frente, e ele parecia estar batendo algo. Andrew reconhecia o barulho. Era um almofariz e pistilo, mas grande parte das pessoas conhece simplesmente como misturador ou amassador. Andrew sentia o cheiro das ervas e talvez de alguns produtos químicos. Era possível ouvir o tanger rítmico do pistilo batendo contra o almofariz. Ficaram observando por um tempo.
Subitamente o homem parou de mexer as mãos, o que fez o som do pistilo batendo contra o almofariz cessar.
— Eu estava esperando por vocês. Podem entrar, não precisam ficar parados na porta. — Alan olhou para Andrew surpreso e Andrew sabia o porquê. Eles não fizeram barulho ao chegar, e o homem também não se virou para os ver. Andrew simplesmente entrou, e Alan o seguiu, se perguntando como seu amigo conseguia ser tão indiferente.
— Desculpe a intrusão repentina. — Andrew disse, parando a alguns passos do homem, que estava curvado, focado no almofariz.
— Está tudo bem garoto. Eu sabia que uma hora você viria, então eu venho me preparando para isso a algum tempo. Não se preocupe, irei acabar isso logo logo. Podem se sentar nas cadeiras ali no canto da sala. — Disse o homem, sem tirar os olhos da porcelana. Após misturar por mais alguns segundos ele pegou um saco com algum tipo de pó e despejou no recipiente. A este ponto os garotos estavam sentados, apenas observando. Ao voltar a misturar um cheiro muito forte emanou pela sala. Era forte suficiente para Alan sentir mas para Andrew era quase insuportável. Tampou as narinas com toda força e escondeu a cabeça nos braços. Alan não entendeu o porquê, já que para ele o cheiro não incomodava. Na verdade, era agradável, como um perfume de ervas silvestres. Andrew estava lacrimejando com o cheiro que invadia suas narinas, foi quando ouviu um barulho agudo. Levantou o rosto para ver o que era.Robert havia soltado o misturador e pegado um objeto de metal com duas hastes. Alan reconheceu o objeto de quando tinha aulas de violão, era um diapasão. Esse objeto costuma ser usado para afinar certos instrumentos porém o tamanho deste era incrível, quase do tamanho de uma espada.
— Sinto muito garoto, isso vai doer bastante. — Então Robert deu um peteleco no objeto, fazendo um barulho agudo ecoar pela sala. A vibração emitida por aquele objeto era surreal e não demorou nem 3 segundos para que Andrew gritasse de dor, caído no chão.
— Andrew! — Gritou Alan, se jogando ao lado de seu amigo. Andrew tinha as duas mãos tampando os ouvidos com força e uma cara de dor angustiante. Robert então pegou o conteúdo do almofariz e simplesmente colocou em água fervendo. Era conteúdo para chá. Alan estava de queixo caído, mas não podia se preocupar com isso agora. Para sua sorte o barulho não demorou e parou pouco tempo depois. Andrew finalmente podia relaxar. Alan então voltou-se para Robert, que estava com um copo de chá na mão.
— O que você fez com ele? — Gritou Alan, com os olhos em chamas.
— Eu não fiz nada, culpe a química e a física. — Disse Robert, dando um gole em seu chá. — Parece então que você é genuíno. — Disse Robert, olhando para Andrew com um sorriso e coçando sua longa barba negra. — Sentem-se, temos muito o que conversar caro Andrew.
Alan olha para o estado de seu amigo no chão, ainda se recuperando do choque de sentidos que acabou de ter. Não sabia quem era o homem, mas tinha certeza que não era uma pessoa comum. O interesse dele por Andrew também preocupava Alan.
— Andrew… — Alan tentou falar, mas Andrew o silenciou rapidamente, pondo um dedo em frente a seus lábios.
— Não se preocupe Alan. Eu estou bem. Eu não sei o porquê disso estar acontecendo comigo, mas tenho certeza que ele pode nos explicar. Parece que isso foi só um teste para confirmar o que eu havia dito a você sobre meus sentidos estarem mais apurados.
— Garoto esperto. — Robert sorriu. — É exatamente isso, mas antes, gostariam de um chá? — Disse, pegando 3 copos de uma gaveta próxima. Serviu aos garotos e se sentou em uma terceira cadeira.
— Por onde devo começar… — Disse, pensativo, enquanto tomava um outro gole de seu chá. Os garotos tomaram também e para a surpresa deles, era delicioso. Nada que haviam tomado antes. — Vejo que gostaram. — Disse Robert, decidindo o ponto de partida. — Sim, o chá. Ele não tem nada de especial. Simplesmente juntei algumas ervas da região, porém são ervas extremamente fragrantes. Ervas com um cheiro extremamente forte. Não para humanos, mas para nós. — E com isso um calafrio correu a espinha de Alan. “não para humanos e sim para nós?”, seu coração acelerou instantaneamente. Sabia que falava somente com Andrew. As coisas estranhas acontecendo ultimamente estavam todas envoltas dele, e esse “teste” preparado por Robert atingiu somente Andrew também. Não gostava nada de onde essa conversa estava chegando, mas teria de ouvir. — Vejo que ficou nervoso senhor Alan, não posso lhe culpar. Para ser sincero, eu gostaria de revelar isso somente a Andrew mas para você ter vindo até aqui com ele mesmo com todas as adversidades, vejo que você é um bom amigo. — Disse, soltando o copo de chá. — Ouçam bem. Andrew, você não é humano. Este é o motivo de seus sentidos terem ficado mais apurados. Outros sintomas aparecerão conforme os dias passam, e seus sentidos vão ficar ainda mais sensíveis. Principalmente seu olfato.
A cabeça de Andrew girava e ele estava se esforçando simplesmente para manter-se de pé, não pela provação que passou minutos antes, e sim pela informação que acabara de receber, informação essa que o atingiu com força. Mas tinha de ser forte. Tinha de descobrir a verdade.
— Se eu não sou humano, o que eu sou? — Disse, gaguejando um pouco. Foi a primeira demonstração de insegurança de Andrew o dia inteiro. Alan entendia o porquê, era muito para Andrew de uma vez. Era sua vez de ser forte. Por seu amigo.
— Vamos com calma. Por enquanto só saiba que você não é humano, ou pelo menos não um humano qualquer. Agora, devo presumir que você tem visões constantes de coisas que você nunca viu em sua vida, assim como sonhos. Estou certo?
— Sim… — Andrew olhou para baixo. Acabou involuntariamente lembrando das visões que teve ao encostar na árvore. Robert percebeu a repentina insegurança que assomou o garoto.
— Algo aconteceu em algum dos sonhos? — Perguntou Robert, retirando um cachimbo do bolso de seu casaco.
Andrew ficou em silêncio por alguns segundos. Foi então que começou a falar. Falou da árvore retorcida e sombria na floresta. Das visões que teve ao encostar a palma de sua mão nela e do sentimento de medo que ela transmitiu. A árvore parecia falar com ele.
— Entendo. — A tranquilidade nos olhos de Robert havia desaparecido. — Não queria que isso acontecesse. — Sua expressão ficou séria. — Ouça bem, aquela árvore está viva. Não como as outras, ela está enfeitiçada. Foi por isso que ela lhe atraiu. Aquela árvore se alimenta de emoções. Principalmente do medo, o medo dos de nossa espécie. Não pensei que teria uma dessas aqui. Elas são raras. Quase uma lenda hoje em dia. Não dá para explicar exatamente o que está acontecendo, até porque não temos tempo, mas basicamente aquela árvore se mostrou a você depois de milênios escondida. Elas são protegidas por fortes barreiras mágicas, mas essa se mostrou a você, o que não é um bom sinal. — Disse, acendendo o cachimbo que segurava. — Infelizmente não é possível explicar tudo a você agora, principalmente depois dessa informação, mas futuramente nos encontraremos novamente Andrew Luuhdrak de SteelClaw.
— O que? Esse não é meu sobrenome, meu sobrenome é…
— Crawford Wood. — Disse Robert, antes de Andrew poder terminar. — Sim, eu sei. Você me disse na primeira vez que nos encontramos. Esse é o sobrenome que as pessoas que cuidam de você lhe deram, mas não o sobrenome que é seu por direito. Você é um lobo da família Luuhdrak. Você é Andrew do clã SteelClaw. Você é da realeza. Um rei por direito sanguíneo. As engrenagens do destino já começaram a se mover. — Robert disse, deixando seu cachimbo em cima da mesa onde amassara as ervas anteriormente e pegando um grosso casaco de couro. — Não é mais possível fugir de seu destino. Sei que não escolheu este caminho, mas peço que percorra-o até o final. Você é um dos últimos lobos, não relute filho, domine-o, só assim você poderá sobreviver no mundo que acabou de entrar.
Andrew e Alan estavam com olhos arregalados. Não sabiam o que tinham acabado de escutar, afinal, escutar e assimilar são coisas completamente diferentes. Andrew não é humano? A árvore que encostou era mágica? Andrew é da realeza? O sobrenome que seus pais lhe deram não é seu sobrenome, o que gera uma pergunta ainda mais dolorosa, seus pais eram realmente seus pais? A cabeça de Andrew explodia, ele queria saber mais porém Robert já estava de partida. Usava seu grosso casaco de couro e suas botas.
— Vamos andando, não temos muito mais tempo. — Disse Robert, mais sério que antes.
— Tempo? Mas temos até 6 da manhã. — Disse Alan, olhando seu relógio. Marcava 2:38 da madrugada.
— Não é disso que estou falando. — Robert disse, saindo da sala na frente. — Vamos.
Os meninos o seguiram. Andrew confiava nele, por algum motivo, e Alan não tinha mais motivos para desconfiar. A cabeça de ambos os garotos explodia de informação, e Robert sabia disso, mas não havia mais tempo. Eles estavam chegando, e não queria que os garotos passassem por isso novamente tão cedo. Desceram o prédio a passos largos, até que saíram para a noite fria.
Ao sair quase imediatamente Andrew começa a farejar o ar.
— Esse cheiro… — Andrew diz ao farejar o ar novamente. — Me lembra o cheiro que senti na floresta ontem, apesar de não lembrar bem.
— Seu faro é realmente muito bom. É exatamente isso. Eles estão vindo pra cá.
— Eles quem? — Alan perguntou.
— As mesmas coisas que atacaram vocês, e eles estão perto. Bem perto. Pelo menos 4. — Ao terminar Andrew e Alan ouviram um guincho vindo da floresta.
Andrew engoliu em seco, não queria ter que encontrar outra criatura dessas. Pelo menos não tão cedo. As mãos de Alan tremiam e Andrew olhava para o chão, sem saber o que fazer, foi quando Robert disse as palavras finais.
— Vocês vão pra casa. As criaturas não irão mais sentir seus cheiros quando saírem de Big Field. Eu vou segurar elas aqui.
— Você o quê? Mas, você sabe o que eles são capazes de fazer, e agora eles vieram em grupo. — Alan começou a falar mas Robert colocou a mão em seu ombro e o silenciou.
— É preciso um exército deles só para me arranhar, não se preocupe. — Ele disse, olhando diretamente para Alan, que viu seus olhos castanhos brilharem como jóias. Este homem passava uma confiança incrível.
— Entendi. Você é como eu então? É por isso que você tem esse cheiro tão familiar?
Robert sorriu.
— Exatamente. Eu irei me apresentar novamente. Meu nome é Robert Belmont do clã HighPaw, o clã dos ursos. — Disse ele, com sua grande figura de quase 1,90 dando jus ao nome de seu clã.
Os garotos estavam boquiabertos. Nao sabiam o que falar. Foi quando Robert colocou a mão nos ombros de ambos.
— Vão para casa, descansem, e tenham uma vida normal por enquanto. Ainda é possível para você Alan, sair deste mundo, e Andrew, mesmo que tenha mais perguntas, não volte aqui. Esperem-me contatar vocês. Agora, podem ir. Tenham uma viagem segura para casa e não parem por nada. Vão. Sem tempo para despedida, só vão.
Ao dizer isso, Robert começou a andar em direção a floresta. Em direção ao guincho que ouviram a pouco. Os meninos sabiam que não deveriam ir para lá. Robert é um homem sábio, ouvi-lo é a melhor opção.
Com isso foram em direção ao ponto de ônibus, mas sabiam que não encontrariam ônibus nenhum a essa hora da madrugada. Teriam de andar até o ponto de civilização mais próximo e pegar um táxi.
Andaram em silêncio por um tempo, tinham muito a pensar. Andrew tentava absorver toda informação que recebeu mas não conseguia pois uma única pergunta rodeava sua cabeça. Seus pais eram seus verdadeiros pais? Alan olhava para seu amigo, sabia exatamente o que ele pensava, mas não sabia o que falar para amenizar suas dúvidas ou pelo menos para tranquiliza-lo um pouco. Se sentia um inútil. Foi quando Andrew parou de andar. Alan olhou para trás e viu seu amigo com o rosto para o alto. Sua expressão facial, antes tranquila, apesar das dúvidas, tomada por uma de horror.
— Alan, corre! — Andrew gritou. Alan não entendeu o motivo a princípio. Foi quando se lembrou das palavras de Robert, os sentidos de Andrew eram apurados, como os de um animal.
— Eles estão… — Alan tentou falar para confirmar suas dúvidas, mas Andrew foi mais rápido.
— Sim. Eles estão perto! Muito perto! — Andrew disse ao passar seu amigo e dar um tapa em suas costas, o incentivando a correr. Felizmente funcionou, pois Andrew ouvia os passos de Alan atrás, mas sentia o cheiro de algo bem pior também. Um cheiro pútrido e doce, que lembrava decomposição. O cheiro se aproximava.
Os garotos correram porém Andrew ouviu o barulho de algo cair no chão, e ao olhar rapidamente para trás viu seu amigo. Ele não caiu para o nada, ele foi derrubado, e bem na frente dele a mesma coisa que os atacou. Com a luz dos postes ele via claramente as feições do monstro. Seus pelos negros e oleosos, seu corpo, com quase dois metros de altura quando em duas patas, seus dentes pontiagudos a mostra em um rosnado e seus olhos vermelhos encarando Alan, sugando sua vitalidade. A este ponto seu rosto estava branco. Os instintos de Andrew diziam para ele correr, para salvar sua pele, e ele até cogitou a ideia por um segundo, mas não faria isso. Alan sabia dos perigos que enfrentariam ao voltar a essa área, sabia e mesmo assim foi com Andrew, ele não abandonaria seu amigo.
— Andrew, vai! — Alan gritou para Andrew, mas o mesmo não estava mais lá. Ele nem precisou gritar. Andrew já se fora. Por um lado estava feliz que seu amigo sobreviveria, mas por outro estava assustado. Tinha medo da morte. Qualquer um tem. A criatura se aproximava cada vez mais, até que um estrondo pôde ser ouvido.
Andrew havia jogado uma lata de lixo na criatura. Felizmente a atingiu bem na cabeça, porém ela se virou instantaneamente, com um ódio nitidamente visível em seu rosto bestial. A criatura se afastou de Alan e começou a andar em direção a Andrew. Foi quando algo que não imaginaram aconteceu. A criatura começou a falar.
— Ora ora lobinho. Voltou para ajudar seu humano de estimação? — Disse a criatura, de forma grotesca com uma voz gutural. — Não se preocupe. Não me importo se é carne were ou carne humana, eu aprecio o gosto de ambas.
Foi então que Alan se levantou. Andrew fez um sinal para Alan para que ele corresse a qualquer momento. A criatura então pula para cima de Andrew, que desvia por pouco e corre com seu amigo. A criatura ginchou novamente, agora mais alto. Os garotos corriam como se suas vidas dependessem disso, e elas dependiam. Andrew não podia evitar. Sempre foi mais rápido que Alan mas agora era como uma lebre e uma lesma apostando corrida, porém não deixaria seu amigo para trás. Ouviu a criatura vindo atrás e ao olhar não conseguiu enxergá-la.
— Andrew! Em cima! — Alan gritou.
Ao olhar para cima viu que ele estava correndo pelos prédios, e era muito rápido, até que desapareceu. Andrew não ouvia mais a criatura mas ainda sentia seu cheiro, e isso era incentivo suficiente para continuar a correr. Foi quando ouviu algo, ao olhar não viu mais Alan. Ele havia desaparecido.
Um grito foi ouvido em um dos becos. O grito de Alan. Andrew temia o pior, não deveria ter ficado tão a frente de Alan. Correu para a direção do beco, para achar a criatura com os dentes cravados no ombro se Alan, o dilacerando. Alan estava virado para baixo, seus olhos estavam fechados. Parecia um cadáver.
— Alan! — Andrew gritou, esperando que seu amigo abrisse os olhos, mas nada aconteceu.
— Que criança frágil. Eu nem precisei fazer muito para matá-la, e você é o próximo. — A criatura ficou de pé e começou a andar na direção de Andrew, que tinha lágrimas em seus olhos.
— Você matou ele… — Andrew falava, quase em um sussurro. — Você matou ele, você matou ele, você matou ele. — Andrew não parava de repetir, enquanto a criatura se aproximava devagar. — Eu nunca vou te perdoar por isso! — Andrew se lançou contra a criatura, dando um soco em seu focinho, que não resultou em nada. Ao tentar dar outro soco a criatura agarrou seu braço e o jogou na parede, o fazendo cuspir sangue.
Uma dor aguda atingia o corpo de Andrew, mas essa dor havia começado antes mesmo de seu ataque de raiva ou de ser jogado contra a parede. Era uma dor interna. Sentia seus ossos se deslocarem, seu peito se expandir, sua mandíbula se quebrando para ser realocada. Era uma dor tão forte que ele não conseguia gritar. Só fazia um som, quase inaudível, de um animal sendo torturado. Sentia suas unhas crescendo rapidamente e ficando pontiagudas, se tornando garras. Quando seus ombros se deslocaram, fazendo seus braços ficarem mais longos. uma das piores partes começou. Sua pele parecia em chamas e descascava. Foi possível ver sua carne por uma fração de segundos, até crescerem pelos. Quando estes pelos cresceram, a criatura, que continuava a se aproximar sem pressa percebeu o que estava acontecendo. Ele estava se transformando. Sua calma foi automaticamente substituída por pressa, e ela correu em direção ao Andrew caído, porém não foi suficiente. Andrew, com um simples movimento de seu braço, agora longo e peludo, mandou a criatura para longe. Seu braço se moveu por si só.
A essa altura seu corpo inteiro havia sido tomado por pelos, com exceção de sua cabeça. Sua cabeça se movia descontroladamente, fazendo parecer que seu pescoço quebraria, e seu nariz e boca começaram a se deformar, crescendo até se tornar um focinho. Os cabelos negros de Andrew foram se tornando cinzentos, assim como o resto do pelo em seu corpo. Suas orelhas ficaram pontiagudas, até ficarem longas como a de um cão, ou um lobo, como disse Robert. A transformação parece ter durado uma eternidade na mente de Andrew mas ela durou pouco mais de 1 minuto, e agora ela estava completa. O corpo de Andrew ainda estava dolorido mas agora ele conseguia ficar de pé. Tinha quase dois metros, e sentia estar de igual pra igual com a criatura, que o olhava em um misto de ódio, curiosidade e medo. Mas então a criatura sorriu, um sorriso grotesco.
Andrew ouviu a criatura sussurrar uma palavra.
— Filhote inexperiente.
Neste momento a criatura pulou para cima dele, encurtando a distância entre eles em um segundo, fazendo-os se atracar no chão sujo do beco. Baba e sangue voando de ambos, que se mordiam e rasgavam. Era realmente uma luta de feras.
A não muitos quilômetros dali Robert se perguntava como estavam os meninos. Robert expulsou os 3 ratos que tentaram os atacar.
— Que estranho… — Pensou Robert, voltando da floresta. — Tenho certeza que eles estavam em quatro. — Foi então que Robert se deu conta do que eles pretendiam. Isolar os garotos do urso, deixando-os vulneráveis, e foi exatamente isso que fez, exatamente como os ratos queriam. — MERDA! — Gritou Robert com sua voz grave antes de começar a correr de volta a Big Field. Esperava encontrar os garotos antes do rato. Esperava não ser tarde demais.
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