Acordo e sinto um cheiro inconfundível de chocolate quente com pedacinhos de marshmellow. Olho ao meu redor e não reconheço o lugar. Estou em um quarto iluminado apenas pelos feixes de luz que escapam pela cortina meio-aberta. As paredes são brancas e há apenas uma poltrona ao lado de minha cama e, mais a frente, um guarda-roupa. Não consigo focar muita coisa, minha cabeça arde toda vez que tento pensar. Cansada, olho para o meu corpo coberto por um fino lençol de algodão. O único que não me dá alergia. Passo as mãos por meus braços e sinto arrepios com meu próprio toque. Estou com medo. Medo de mim mesma. Olho novamente para o meu corpo, que está cheio de hematomas, como se tivesse sofrido pancadas fortes. Lentamente, imagens por imagens voltam a minha mente. Lágrimas invadem meus olhos e não faço força para tentar controlá-las. Apenas quero tirar tudo isso de dentro de mim. Não consigo mais me controlar, quero gritar. E é isso que eu faço. Grito. Grito até minhas gargantas doerem. Alguém entra no quarto. Só consigo identificar um vulto feminino sentando ao meu lado e um masculino sentando em minha cama. Logo adormeço.

Abro os olhos e respiro fundo. Lembro-me rapidamente de minha ultima vez consciente. Abraço minhas pernas e afogo minha cabeça entre elas. Jogo meu corpo para trás. Quando o mesmo atinge a cabeceira, ignoro a dor em minhas costelas e impulsiono-o para frente. Meu pé dói, lateja, está provavelmente inchado. Ignoro isso também. Não vou chorar, odeio parecer fraca.

Sempre me dizem que sou madura demais para ter apenas nove anos. Talvez estejam certos. Sou muito diferente das garotas de minha idade. Não gasto meu tempo assistindo desenhos ou brincando de bonecas, prefiro ler um bom Shakespeare. Também gosto de escrever. Um dia vou ser uma escritora tão incrível como minha mãe, Hermione Weasley. Minhas costas batem novamente na cabeceira, deixo escapar um leve gemido de dor. Abraço-me o mais firmemente possível, lembrando-me de que todas as partes de meu corpo estão aqui, estão seguras.

A porta se abre e passos caminham em minha direção. Não levanto minha cabeça, não quero falar com ninguém. Quero sim é saber onde estou. Mas tenho a impressão de que perdi minha voz. E se eu não estiver segura? E se tudo isso for uma alucinação, uma saída de minha alma para um lugar melhor?

– Já acordou?

Relaxo ao ouvir sua voz. É ela. Ela conseguiu me salvar! Ela prometeu que me tiraria e me tirou!

Levanto minha cabeça e a encaro. Ela ainda está de roupão. Seu rosto não possui nenhuma cicatriz, seus longos cabelos negros não estão mais ressecados, caem em perfeito alinhamento sobre sua pele branca. Apesar da palidez, um novo brilho existe em seus olhos, não é aquele triste olho castanho. Ela está feliz.

– Estava preocupada. — Continuou. — Eu sei que você está com medo, pequena, mas você está segura agora.

– Onde estou? — Quase não fiz som algum, me surpreendo quando ela me responde.

– Em minha casa. Eu vou cuidar de você, não vou deixar ninguém te machucar. Eu prometo.

– Obrigada.

Ela sorri e tira o cabelo de meu rosto gentilmente.

– E meus pais?

– Eles vieram te ver. Convenci-os de que estaria melhor aqui, pelo menos por um tempo. Posso chamá-los, se quiser.

– Por enquanto não, obrigada. Será que você pode deitar comigo?

Ela sorri de novo e se deita ao meu lado. Seu braço passa protetiva mente ao meu redor enquanto deito em seu colo.

– Qual é o seu nome? — Me sinto estupida. Depois de tudo o que passamos juntas, eu não sei o seu nome.

– Astória. Astória Malfoy.

– Você tem dois filhos, não é?

– Sim. Scorpius, que tem a sua idade e Scarlet, de 8 anos.

– O meu irmão tem oito anos. Ele veio aqui?

– Não. Sua mãe não quis preocupá-lo. Você que comer alguma coisa?

Sorrio e balanço a minha cabeça positivamente. Com um aceno da varinha, o mesmo chocolate quente do outro dia apareceu em minhas mãos. Quando sinto o cheiro invadir minhas narinas, percebo o quanto estou faminta.

– Há quanto tempo estou desacordada?

– Uma semana.

Engasgo com o liquido. Não fiquei fora tanto tempo.

– Está tudo bem. Ninguém sabe que você está aqui, é melhor se mantermos segredo.

Assinto. É melhor mesmo.

Alguém bate na porta. Astória fala para a pessoa entrar. Fico com um pouco de medo, mas logo relaxo com ela me abraçando. Um homem aparece com receio, seus cabelos são loiros quase brancos e olhos cinza como o gelo. Ainda assim, pude sentir o calor em seu olhar.

– Rose, esse é o meu marido, Draco Malfoy.

Sorrio para não parecer mal-educada. Ele sorri de volta e se senta à minha frente na cama.

– Como você está Rose? Nós ficamos preocupados com você.

– Estou bem, obrigada.

– Acho que você precisa descansar, ficou uma semana inconsciente. Astória, vamos?

Astória beija a minha testa e segue o marido para fora. Deito na cama, tentando descansar. Então, ouço risadas perto de mim. Procuro a fonte delas, quem sabe posso rir um pouco também. Olho para a janela é de lá que vem. Tento me levantar calmamente. Como adivinhei, meu pé está inchado e dói a cada passo que dou. Quase caio, mas me apoio no guarda roupa e vou escorando na parede até a janela. Debruço-me no parapeito e observo. No jardim da Mansão Malfoy, cinco crianças estão sentadas fazendo picnik. Parecem felizes. Duas crianças loiras e as outras três morenas. Os dois loirinhos, presumo eu, devem ser os Malfoy.

Fico um bom tempo olhando-os. Gostaria de poder ir lá... Será que eles sabem que estou aqui? Será que sabem que sou uma Weasley? Um dos meninos, acho que o mais velho, desvia seu olhar para a janela e me pega os observando. Mantemos contato visual por um tempo, mas percebo que não aguento mais ficar de pé. Arrasto-me para uma porta que julgo ser um banheiro. Entro cautelosamente e vejo que meu pijama está aqui. Pela primeira vez, olho o que estou vestindo, uma camisola normal que vai até os tornozelos e cobre por completo meus braços. Tiro-a lentamente e sinto a brisa fresca tocando minha pele ainda machucada. A banheira se enche instantaneamente, mágica. Fico uns bons cinquenta minutos ali. Finalmente saio e me seco. Coloco o meu pijama, um short rosa e uma blusa de manga cumprida branca. Detalhe: tinha orelhas de coelhinho no capuz. Adoro coelhinhos, são criaturas fofas e inocentes.

Entro no quarto e congelo. O menino que encarava mais cedo está sentado na poltrona. Ele me olha e acena com a cabeça para que eu sente na cama a seu lado.

– Você quer chocolate quente?

Engulo em seco e sento-me cuidadosamente na cama, abraço minhas pernas, mas não tiro os olhos dele.

– Sou Matthew, Matthew Zabine. Mas pode me chamar de Matt. E qual o seu nome, coelhinha?

– Sou Rose, Rose Weasley. — Minha voz teima em não sair, mesmo assim ele estreita os olhos, confuso por meu sobrenome.

– O que aconteceu com você, Rose?

– Eu... — Limpo minha garganta, sem saber se continuou ou não. — Fui sequestrada. Astória me salvou.

Tento inutilmente segurar minhas lágrimas. Não aqui, não agora, não perto dele. Matt fica sem palavras e senta a meu lado, abraçando-me protetiva mente como Astória fez.

– Está tudo bem agora, coelhinha, eu estou aqui.

Lentamente, vou me acalmando. Ele limpa minhas lágrimas e beija minha cabeça.

– Você quer conversar sobre isso?

Nego e me aconchego mais em seus braços. Não sei o que é, mas algo nesse garoto me faz sentir segura.

– Quantos anos você tem?

– Onze, vou para Hogwarts esse ano.

– Faço dez esse ano, vou só ano que vem.

– Vou te esperar lá.

Ele beija minha cabeça uma ultima vez e adormeço sentindo o calor de seu corpo.

Uma semana depois...

Já estou bem melhor. Matthew vem de vez em quando escondido, de acordo com ele, Astória e Draco pediram para as crianças que estão na casa não irem incomodar a hospede. Ele me contou sobre seus irmãos, Daniel e Annabelle, são gêmeos e vão entrar na escola no mesmo ano que eu.

Também vou poder ir embora em breve, não estou tão animada. Sinto-me segura aqui, com eles.

Minhas pálpebras pesam sobre meus olhos e não faço esforço para deixá-las abertas. A casa repousa num silêncio absoluto, exceto por passos. Posso ouvir passos no corredor, a porta se abre. Provavelmente Matt.

– Matt? — Pergunto ainda de olhos fechados.

Não sinto mais tanto medo assim, estou protegida.

– Não sou Matt, sou Scorpius. Scorpius Malfoy.

Abro os olhos assustada. Scorpius Malfoy. Ele não deveria estar aqui.

– Qual o seu nome? — Continuo calada.

– Você não está com frio? Esta congelando lá fora e você só com esse cobertor fininho. Você se importa se eu te cobrir?

– Não quero te incomodar. — Digo a ele.

– Não é incomodo algum.

Amaldiçoo o breu que esta por não poder ver o que esta acontecendo. Logo sinto um edredom sendo estendido sobre o meu corpo.

– Obrigada.

– Não ha de que. Posso ficar um pouco aqui? Não consigo dormir.

– Tudo bem, também não consigo dormir.

Sento-me na cama enquanto vejo o vulto de Scorpius sentar na poltrona.

– Pesadelos?

– Vou embora amanha, não consigo parar de pensar nisso. Faz três semanas que não vejo meus pais.

– Você não vai me contar por que esta aqui. — Ele adivinha.

– Acho que e melhor se você não ficar sabendo.

– Tudo bem, não vou te forcar a falar nada. — Apesar do escuro, posso sentir o seu sorriso. — Você achou que eu era o Matt, por quê? Ele veio aqui?

– Veio. De vez enquanto, nos ficamos conversamos.

– A minha mãe disse que não podíamos te incomodar. — Isso na voz dele é ciúme?

– Então o que você esta fazendo aqui?

– Eu errei a porta. — Ele se defendeu. — Depois você me chamou, ou chamou o Matt, tanto faz.

Rio de seu desconcerta mento e sinto arrepios, está realmente frio.

– Ainda esta com frio? — Scorpius me pergunta.

– Muito.

– Você... Ahn... Você se importa se eu me deitar com você?

Posso ver por sua silhueta que ele esta com um braço no pescoço.

– Claro. — Me afasto um pouco, dando espaço na cama para ele.

– Você esta tremendo! Não está tão frio assim!

– Você mesmo disse que estava congelando!

– Quando você estava com aquele cobertorzinho. — Scorpius pôs a mão em minha testa, checando a minha temperatura. — Você esta suando

– Estou com frio.

– Deve estar com febre.

Surpreendi-me quando senti seu braço em minha cintura. Seu toque não me assustou, na verdade, me fez sentiu segura. Mais que o abraço de Matt, ou Astoria ou Draco. Não demorei muito para dormir.