Notas iniciais
E mais um capítulo prontinho para vocês, espero que gostem.

—Você está com uma cara péssima.

—Bom dia para você também Shelby.

A governanta deu de ombros servindo meu leite com café:

—Não dormiu bem?

Não sei nem se dormi.

—Um pouco de insônia, colchão novo.

—Colchão velho você quer dizer.

—Pode ser.

—Vai fazer suas transições hoje para ir embora desse lugar amaldiçoado logo?

Meu sangue gelou:

—Esse lugar não é amaldiçoado Shelby.

—Eu sei disso, mas será que você sabe?

Não

—Claro que sei, mas respondendo sua pergunta, vou passear pela cidade, analisar minhas opções, meu avião só volta em uma semana, não vou ter menos que isso.

—E não vai dar um jeitinho?

—Por que daria?

—Porque você sempre se livrou do que não gostava quando era pequena.

—Eu gosto dessa casa.

—Eu acredito em você, você gosta dessa casa, só não gosta das lembranças que ela te traz.

—Sem psicologia barata a essa hora Shelby. Por favor.

*

Eu sabia que Shelby tinha razão, mas ouvi-la dizendo tudo aquilo era horrível demais, então encurtei o máximo que pude meu café da manhã e saí de lá antes que ela recomeçasse, não estava preocupada em ser uma mulher de negócios, então fingi ser uma simples turista, saí da minha casa para uma caminhada, vestindo legging preta, blusa branca e tênis.

A caminhada até o centro da cidade não foi longa, meia hora entre as árvores e as mansões, me lembrou as corridas que eu apostava com meu pai toda semana, eu conhecia cada atalho e caminho dessa floresta, mas ninguém poderia saber disso.

Olhei a lista no meu celular — três empresas — e eu tinha o dia inteiro.

Passei por entre as lojas de artesanatos, tecidos coloridos, roupas, passei pelos caminhos que levavam aos pontos turísticos, vi turistas de verdade, e tive que admitir que Lucas estava certo, minha cidade sempre foi um ponto turístico, mas agora, ela estava muito mais linda.

—Você?

Olhei para trás e meu coração gelou — Droga! — é claro que ele não poderia estar fazendo o que quer que ele fizesse hoje, ele tinha que estar de folga com calças jeans folgadas e uma blusa verde colada.

—Pois é — Sorri de forma encorajadora — O que nossos trabalhos não fazem?

—Não parece estar a trabalho.

—Estou tirando o dia de folga hoje.

—Então seguiu meu conselho? Lucas se aproximou de mim e eu vi em seus olhos um misto do que via neles quando dançávamos com dez anos — o desafio — e a atração — que estava cansada de notar nos olhares dos caras com quem ficava.

—Seu conselho foi vir para cá, então acho que meu chefe seguiu seu conselho.

Ele riu — Caramba, é claro que ele usou aparelho e corrigiu aqueles dentes horrorosos — e olhou para mim curioso, eu tinha que mudar o foco, eu não tinha mudado tanto, ele poderia me reconhecer.

—Então, o que sugere para essa turista em seu dia de folga? Sorri da melhor maneira que consegui.

Ele fingiu pensar — como eu fingia — e sorriu:

—Que tal se eu te mostrar a cidade?

De jeito nenhum.

—Aposto que está ocupado.

—Eis a desgraça de um viciado em trabalho, ele nunca te nada para fazer nos seus dias de folga.

Pensa Anne. Pensa!

—Bem, e uma namorada?

—Não tenho namorada.

—Amigos?

—Se não percebeu gatinha, hoje é quarta feira, meus amigos estão em seus serviços.

—Gatinha? Ele tinha ido definitivamente longe demais.

—Não se acha bonita?

—Não me acho gatinha. E depois dessa, perdeu o pouco interesse que eu tinha em uma visita guiada.

Touché.

Dei meia volta em direção a uma das lojas, mas ele me agarrou pelo braço e me puxou, me deixando tortuosamente perto dele, felizmente, até ele percebeu isso e me soltou, me dando espaço.

—Perdão, acho que entendi outra coisa.

—Não deveria entender.

—Tem namorado?

Não.

—Tenho.

—Compreendo, nesse caso, estou realmente oferecendo minhas desculpas e uma retratação, eu te levo para visitar a cidade toda e pago o almoço.

Eu realmente não queria fazer isso. Não queria sair por aí com um ex colega de classe, mas naquelas circunstâncias, eu não tinha muita escolha.

—Feito. Estendi a mão que ele apertou com força.

*

Eu só não esperava que o passeio fosse maravilhoso, eu esperava algo que beirava o sem graça, mas aquele passei foi incrível, revisitei lugares onde cresci, descobri sobre algumas empresas, me atualizei da minha própria cidade, almocei no meu antigo restaurante favorito.

E naquele momento, estava tomando o famoso sorvete de doce de leite — iguaria que tinha crescido gostando -da minha cidade.

—É o melhor. Pode falar. Ele disse.

Eu ri — de verdade, sem sarcasmo, sem falsidade, eu simplesmente ri:

—Sim, é o melhor, me faz lembrar o que eu tomava quando era pequena.

—Na Capital.

—Não morei lá, morei em uma pequena cidadezinha no interior de um estado, tão pequena que nem lembro o nome.

—Como se esquece do nome da cidade natal? Ele riu e eu ri junto:

—Não sei — Dei de ombros — Eu fui embora muito pequena.

—Quantos anos tinha?

—Dez.

—Então não era muito pequena.

— O suficiente para não me preocupar com o nome da cidade onde morava.

—Eu tive uma colega de turma que foi embora com essa idade — Não — Ela era minha parceira de dança e personalidade, brigávamos o tempo todo e ainda sim acho que éramos quase amigos.

—Quase? Disfarcei minha preocupação.

—Nunca fizemos o que amigos fazem.

—E o que amigos fazem?

—Conversam, trocam segredos, se apoiam, brincam, brigam, só éramos experts na última parte, do resto, éramos comuns, colegas comuns, eu nem me lembro o sobrenome dela.

Ótimo.

—Lembra o primeiro nome? O que, pelos céus, eu estava fazendo?

—Anne.

—Engraçado.

—Por quê?

—Meu nome é Anne também.

—Coincidências acontecem.

—Mais do que você imagina.

*

-Enfiou o nariz nas empresas criança?

Eu sorri, Shelby tinha essa mania de me chamar de criança, e algo me diz que seria assim para sempre.

—Menos do que gostaria. Vou precisar refazer minhas visitas amanhã.

—Devo lavar sua legging então?

—Não, eu vou parar de ser preguiçosa e vestir algo mais formal.

—Como?

—Como o vestido preto que uso para essas transações senhora.

—Hum, compreendo, e por que preto?

—É uma cor mais sóbria, inspira confiança.

—Inspira medo e luto. Merda.

—Pela milésima vez, não estou de luto pela minha mãe, isso aconteceu há dez anos.

—Mas para você, parece que aconteceu ontem, não minta para mim, eu vejo isso nos seus olhos.

—Deveria parar de ler os olhos das pessoas então, você não é tão boa nisso quanto pensa. Subi as escadas rapidamente e a última coisa que ouvi foi:

—Sim eu sou, você que não é em esconder seus sentimentos, não tanto quanto pensa.

*

Não saí mais do meu quarto, não fui atraída para fora dele, apenas tomei um banho e caí na minha cama com muita dor nas pernas e com os olhos cansados.

Ainda sim, acordei com uma má sensação no dia seguinte.

Notas finais
E então, o que acharam? Comentários? Recomendações? Críticas? Alguém já shippa o casal?