Dark Moon
8 Segredos, Assassinato e um grupo de detetives amadores
Notas iniciais
Naquela noite me vi de volta ao porão.
Em um sonho.
Eu me via criança, via minha mãe e via mais claramente o lugar agora, via a lua cheia, a serpente rodeando o caldeirão – como isso tinha me escapado quando criança – e via aquela coisa que minha mãe guardava.
Não eram tentáculos. Eram garras, patas? Feitas de pura fumaça. Eu sentia a vibração, a energia, a fome que elas sentiam.
E revivi tudo aquilo de novo.
Vi as garras irem a minha direção, minha mãe lutar – e morrer – para me defender, eu vi eu sobre ela, ela me dando os livros, dizendo que me amava e senti as lágrimas molharem meu rosto como molharam naquele dia.
Pisquei.
Não estava mais lá.
Estava no casamento do meu pai.
O vestido florido, a raiva em ver meu pai tão feliz com aquela burra.
Novamente, lembrei-me de tudo, da raiva, do ódio que sentia em ver meu pai abraçando e beijando aquela menina. O olhar dela de interesseira.
Eu briguei com meu pai antes desse casamento, joguei na cara dele o que era ela, ele falou que tinha raiva pela minha mãe, eu falei que ela só queria o dinheiro dele, ele disse que ela poderia levar, que eu não deveria me preocupar, o meu dinheiro estava na conta particular da minha mãe.
E foi a partir desse dia que eu me encontrava com meu pai em raras ocasiões.
Pisquei.
Estava no parquinho da escola agora, me via com sete ou oito anos brincando com a Priscila e a Larissa.
Lucas chegou por trás, me cutucou no ombro, eu virei para um lado, depois para o outro – nesse momento ele me deu um selinho.
Eu realmente não me lembrava disso.
Meu primeiro beijo foi com Lucas Montez? Quem diria...
Larissa deu gritinhos entusiasmados, Priscila fez cara de nojo – era o irmão dela – e eu bati com força no ombro do Lucas que riu da minha cara e saiu correndo – provocador desde criança.
Pisquei.
E estava no meu quarto.
Com 20 anos novamente.
Coberta de suor.
Com a luz da manhã me cegando.
Que horas são? Meu Deus! O café da manhã!
Saltei da cama, tomei banho e me arrumei em horário recorde, desci as escadas em um pulo pegando a chave com uma Shelby parada do lado da porta:
—Está atrasada. Ela se limitou a me dizer enquanto eu punha o casaco, olhei para ela de forma sarcástica, ela deu de ombros e voltou para a sala de jantar.
Saí correndo meio desesperada, uma parte racional minha dizia queeu iria morrer naquele barranco na velocidade que o descia, mas meu coração dizia que eu não poderia me atrasar – desde quando eu ouvia meu coração mesmo?
Cortei um carro na avenida e acelerei, eu tinha cinco minutos para fazer um trajeto de quinze, eu teria que ser muito boa e ter sorte para não pegar trânsito.
Cheguei sete minutos depois, subi as escadas da cafeteria e depois de respirar por vários minutos, olhei para Priscila sentada na mesa tomando um café calmamente.
—Desculpa o atraso. Ela olhou o relógio e ergueu a sobrancelha:
—Dois minutos? Eu só estou aqui porque meu irmão entrava as nove em ponto no serviço. Vocês dois têm sérios problemas com horários.
—Talvez seja o trabalho – Disse me sentando e olhando o cardápio – Larissa ainda não chegou?
Priscila me olhou cética:
—Larissa? Sério? A mais atrasada de nós três?
Priscila mal terminou a frase quando um carro estacionou em frente a cafeteria – o mesmo carro que eu tinha cortado dez minutos atrás, uma garota de cachos ruivos acobreados desceu, olhou meu carro por um instante e entrou:
—Por que não fico surpresa de saber que você me cortou na avenida? Larissa disse chegando onde estavamos.
—Não gosto de chegar atrasada. Sorri.
—Não teria me atrasado se não tivesse me cortado.
—Mentirosa. Priscila riu.
Larissa nos abraçou a sua maneira – esmagadora – e sentou pedindo um afé preto sem nem olhar o cardápio.
—E então? – Ela sorriu entusiasmada – Ninguém me contou o que motivou esse encontro? Ou o que você está fazendo de volta a Lambert Anne.
—Sinceramente – Priscila disse – Não achamos que voltaria depois do que aconteceu.
Suspirei fundo e por um minuto não acreditei que estava dizendo aquilo:
—Eu voltei obrigada, é difícil ficar na casa onde... Não consegui completar.
Nem Priscila, nem Larissa completaram a minha frase:
—Tia Rebeca era muito legal – Larissa disse e eu assenti sentindo as lágrimas nos olhos – Voltou a trabalho?
Obrigada Larissa.
—Sim – Forcei um sorriso – A empresa que eu trabalho quer negociar alguns contratos.
Priscila sorriu entusiasmada:
—E nós queremos a sua ajuda para uma coisa... Ela cutucou Larissa com aquele sorriso esperto.
Eu tinha ligado para Priscila na noite passada e falado a verdade: Queria ajuda para encontrar o assassino de Yane Renet, minha amiga gritou no telefone por minutos antes de concordar – de certa forma, eu não poderia ter escolhido detetive amadora melhor.
—E para que seria? Larissa retribuiu o sorriso e alternou o olhar entre Larissa e eu.
—Bem – Eu prolonguei a expressão – Você gostaria de fazer uma manchete de primeira página sobre, vejamos, o assassinato de Yane Renet?
Larissa assumiu um ar desconfiado:
—Seria ótimo.
—Queremos descobrir quem a matou. Priscila disse de uma vez.
—Se envolver em um caso de assassinato – Larissa esbugalhou os olhos – É loucura.
—Não se tomarmos cuidado, com os meus contatos, os seus contatos e a ousadia da Priscila, talvez descubramos a verdade.
—E o Lucas pode ajudar. Priscila disse.
—Mas...
—Larissa! Primeira Página!
—Os policiais já não estão cuidando disso?
—Estou com a impressão de que não estão me contando tudo, principalmente você Anne.
—Não estamos escondendo nada. Priscila jurou.
Só eu estou escondendo a parte da névoa, nos uivos e tudo aquilo sobrenatural.
Larissa nos encarou por minutos antes de suspirar:
—Por que vocês fazem isso? Me levam para uma jornada que sabem que eu não vou recusar.
Eu e Priscila trocamos olhares e sorrisos:
—Topa? Arrisquei perguntar.
—Se o assassino aparecer eu vou jogar vocês duas para ele e sair correndo.
—Feito. Priscila riu.
*
Recebi um telefonema perto da noite. Tínhamos passado o dia atrás de pesquisas e lugares para revisitar amanhã – como uma caça ao tesouro – a família, a casa, o trabalho e mais alguns lugares que aquela mulher esquisita visitava com frequência.
—Atrás de um assassino?
—Sua irmã não consegue ficar com a boca fechada?
—Para pedir minha ajuda ela precisava falar comigo.
—Não pedi sua ajuda.
—Nossa, quanta grosseria para quem é amigo dos oficiais e justiça e da polícia.
—Como você é influente. O sarcasmo estava evidente na minha voz.
Ouvi sua risada:
—Sabe que é perigoso o que está fazendo não é?
—Sim – disse mudando o tom de voz – Mas eu preciso fazer.
—Tem alguma coisa que não me contou?
—Sim – Não menti – Mas não posso te contar.
—Por quê?
—Porque não sei o que é, mas é arriscado e tem a ver com a morte da minha mãe.
—Coisa antiga?
—Sim, mas por favor, não insista.
Ele ficou mudo na linha por alguns instantes:
—Eu vou te ajudar se no final me contar o que está me escondendo.
—Não posso te garantir nada.
Silêncio de novo:
—Vou te ajudar mesmo assim.
Suspirei aliviada:
—Obrigada Lucas.
—E provando meu ponto, vou te lembrar que você deveria ligar para o seu chefe e inventar uma desculpa do porque vai ficar mais.
—Confirma meu ponto ao dizer que sua empresa é difícil de negociar.
—Obviamente.
—Ótimo.
—Boa Noite Anne.
—Boa Noite Lucas.
Foi uma ótima noite.
Fale com o autor