Dark Moon
6 As lendas são verdadeiras
Notas iniciais
Merda
Merda
Merda
Isso realmente não pode estar acontecendo.
Isso só pode ser minha imaginação.
Não pode estar acontecendo.
Mas estava.
Peguei o livro em minhas mãos e folheei.
—Posso ajudar? A voz me arrepiou inteira e eu me virei na defensiva: Era só a bibliotecária.
—Perdão, eu acho que me distraí. Ela assentiu compreensiva mas ainda me encarava de forma estranha quando saiu.
Eu precisava daquele livro.
Eu não queria.
Mas precisava.
Me aproximei da mesa da moça silenciosamente e pus a mão em seu ombro, ela não demonstrou reação:
—Será que eu poderia...
—Levar o livro para casa? Claro.
—Não tem nenhuma regra...
Ela deu de ombros e me encarou com olhos verdes inexpressivos:
—Confio que vai devolvê-lo ao seu lugar e você já foi uma aluna. Ela pesquisou meu nome de dez anos atrás no cadastro e anotou o livro, o computador aceitou sem problemas.
Eu pisquei alarmada:
—Obrigada. Eu acho.
Ela sorriu:
—De nada.
Algo me atraiu para fora daquele biblioteca e para bem longe daquela bibliotecária sinistra, apenas quando estava fora da escola, lembrei:
Eu nunca disse que já tinha estudado lá.
*
Parei na praça da cidade com o livro bem abraçado em meus braços, sentei o mais afastado que pude do público e comecei a ler. No começo nada que importava de verdade, lendas e superstições antigas sobre a criação, até que chegou no capítulo 4:
O pequeno vilarejo de Lambert foi criado acima de um culto mágico, nunca se sabe se eram de bruxas malignas ou wikas benignas, infelizmente para nossos colonizadores, foi preciso muito mais do que a curiosidade para conter a magia.
Foi a época das trevas, animais — ou o que quer que aquelas coisas fossem — atacavam crianças e mulheres na calada da noite com uma violência desmedida e sempre que um grupo de corajosos guerreiros seguiam os rastros de sangue e carne até as tumbas, apenas um voltava, e pouco tempo depois morria totalmente consumido pela loucura e pela escuridão no olhar.
De um momento a outro, os ataques se dispersaram, incrivelmente nem mais uma pobre alma foi atacada e todo o crédito se deu ao neto do nosso colonizador mais antigo — os Magie — que foi ressaltado com honra e respeito pela comunidade, o herói da nossa pequena vila...
O clima estava ameno e ainda sim, eu suava como uma condenada, eu conhecia essa história como ninguém, Hugo Magie era meu tataravô, bisavô da minha mãe, e unindo essa história a tudo o que eu vi naquela noite, eu desconfiava que o crédito não fora dele afinal, as palavras da minha mãe ecoavam na minha cabeça, a história que ela me contava antes de dormir que no final sempre tinha a frase:
—Meu amor, nem tudo é o que parece e algumas vezes, os verdadeiros heróis ou as verdadeiras heroínas permanecem escondidas na calada da noite.
Eu precisava reler o livro Roxo, novamente, agarrar qualquer pontinha de esperança que ele tivesse.
*
Não conversei com Shelby quando entrei em casa, dei uma desculpa sobre uma dor de cabeça e um telefonema para o meu chefe e segui correndo escada acima, arranquei os meus livros antigos de onde sempre o escondi e os joguei no chão deitando no assoalho, comecei a leitura rapidamente:
Magie, uma família tão pura e tão corrompida ao mesmo tempo.
Pulei para a história original sobre Lambert:
Horrores, gosmas, coisas, trevas, era isso que Lambert era quando Silício Magie e sua esposa chegaram, passaram noites adentro nas florestas e pouco a pouco construíram suas casas...
Onde estava o resto? Uma folha arrancada? Uma folha que falava sobre a magia? Como eu nunca tinha reparado nisso? A voz praticamente pairava na minha cabeça: Você nunca prestou a devida atenção, você gosta do ceticismo.
Não mais, eu preciso saber, eu tenho que saber.
—Anne?
Saltei do chão ficando em pé em uma posição defensiva extremamente rápida, Shelby pulou para trás alarmada:
—Qual o seu problema menina? Eu só vim perguntar o que vai querer de almoço?
Pisquei ainda incerta sobre aquela situação:
—Frango grelhado.
Ela assentiu franzindo o cenho como fazia quando estava alarmada, segui seu olhar até o livro e detectei a surpresa em seus olhos:
—Esse livro...
—Era da minha mãe. Justifiquei.
—Eu sei, ela andava com ele para cima e para baixo quando era menor que você, dizia que as lendas eram impressionantes.
Sorri amarelo:
Ela não fazia ideia.
—De qualquer forma — Ela sorriu nostálgica — Vou preparar o frango. E saiu me deixando a sós com a atmosfera de desconfiança, medo e porque não um pouco de mágica.
*
Passei o resto da tarde fazendo anotações, marcando lugares onde a página poderia estar, eu visitaria todos, da biblioteca da escola à caverna favorita da minha mãe, eu precisava descobrir os segredos, eu visitaria cada lugar e atrasaria a — agora inevitável — visita ao porão da minha mãe — e pensar que houve uma época em que meu sonho era ir lá.
Agora tudo o que eu queria era terminar de uma vez com isso.
Jantei rapidamente evitando o olhar da Shelby e um encorajamento a mais perguntas que eu não queria nem poderia responder — principalmente porque eu não sabia as respostas.
Dormi cedo aquela noite, mais cedo que o de costume e mais rápido também, infelizmente ouvi uivos durante toda a noite e aquela atmosfera esquisita continuava no meu quarto, eu daria tudo para estar no meu apartamento agora.
*
Mas eu não estava na Capital, nem no meu apartamento, eu estava em Lambert, e infelizmente para mim, não poderia esquecer disso tão cedo.
Na manhã seguinte, eu acordei sem a comum sensação de arrepio repentina, eu acordei como acordei nos últimos dez anos — cética e viciada em normalidade — infelizmente não durou muito tempo.
Ainda escovando os dentes, Shelby invadiu meu quarto em prantos, eu sentei com ela na minha cama e esperei a mulhr se acalmar, peguei o copo de água intocável na cama e dei para ela, ela bebeu tudo em um gole só e entre prantos sussurrou:
—A lenda é verdadeira.
Um arrepio percorreu meu corpo, as eu forcei um sorriso amarelo:
—Que lenda Shelby? Você deve ter tido um pesadelo.
—Policiais, bombeiros, estão todos em frente ao caminho da floresta, tem um corpo Anne! Um corpo!
Não.
Não.
Captei suas palavras lentamente, ainda em choque e saí correndo escada abaixo e colina abaixo até me deparar com a multidão, empurrei e soquei algumas pessoas na minha frente até conseguir encontrar o corpo.
Não.
Não.
De maneira alguma isso poderia estar acontecendo.
Mas obviamente, mesmo com o ventre rasgado por o que parecia ser dentes, o sorriso assustadoramente tenebroso e o corpo nu, estraçalhado e sem vida, os olhos continuavam os mesmos — inexpressivos.
A bibliotecário assustadora estava morta.
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