Dark Heart
5 O Jogo
Notas iniciais

Roda Gigante (nem tão gigante). Montanha Russa. Casa dos espelhos. Carrossel. Tiro ao alvo. Amava essa atmosfera. As luzes, o cheiro amanteigado da pipoca, as pessoas, a empolgação, as gargalhadas. Parecia que ao chegar ao parque de diversões todos vinham e deixavam seus problemas em casa, se entregavam a essa realidade paralela. Por se tratar de uma cidade pequena, o parque não era tão grande, porém bastava para mim. Praticamente toda a cidade estava lá, um formigueiro gigante.
— Vou comprar os ingressos, você fica na fila da roda gigante- tentei falar por cima do barulho.
—Tá, te encontro lá.
Após o que pareceu uma eternidade consegui comprar os ingressos, fui correndo ao encontro de Kian. Por sorte, era nossa vez. Apesar de não ser gigante, ainda era capaz de mostrar a cidade quando atingia seu topo, as luzes das varandas pareciam milhões de estrelas caídas. A lua resolveu mostrar todo seu esplendor esta noite para combinar com as estrelas criadas em minha imaginação.
—Am? Preciso te dizer uma coisa.
— Que foi? — sussurrei distraída com a paisagem.
Kian segurou minha mão, nunca tinha visto ele tão sério.
— Eu gosto de você.
— Também gosto de você seu bobo — murmurei dando-lhe um empurrão leve em eu seu ombro.
— Am, você não entendeu, eu gosto muito de você.
A compreensão chegou aos meus olhos. O encarei, seus lindos olhos verdes me prendendo a ele.
— Não sei o que dizer — respondi com a verdade.
— Faz muito tempo que guardo isso comigo e não consigo ficar nem mais um segundo sequer sem te olhar e saber que não é minha. Sabendo que posso perdê-la simplesmente porque fiquei calado.
—Você é meu melhor amigo, eu nunca pensei em você dessa forma — respondi baixinho, temendo magoá-lo ainda mais com o simples som da minha voz.
— Eu amo o jeito que seus cabelos vermelhos brilham ao serem tocados pelo sol, amo sua pele de porcelana, amo quando suas bochechas ficam rosadas quando está envergonhada, amo o azul escuro de seus olhos, tão profundos e tempestuosos, difícil para os outros entenderem mais tão calmos ao encontrarem o meu. Amo nossos almoços juntos. Amo o jeito que seus braços se encaixam perfeitamente em mim quando me abraça. Eu te amo e temo não suportar ficar perto de você caso me rejeite, pois será uma lembrança constante de que não fui o suficiente- sua voz grave parecia sincera e sedutora. Seus dedos tocavam levemente minhas bochechas.
O abracei forte, só de pensar em perdê-lo parecia que meu coração seria esmagado e se quebraria em pequenos fragmentos. Não queria largá-lo, mas não podia mentir, a verdade é que sempre o considerei um irmão, alguém que sempre estaria lá por mim, meu porto seguro. Sabia que a partir desse momento jamais seriamos os mesmos. Mas eu tinha que soltá-lo, precisava criar coragem e lhe contar a dura verdade. A rosa gigante parou. Abri a boca e fechei novamente. Acho que ele sabia o que viria.
— Não precisa responder agora é melhor irmos para casa. Vou pagar o estacionamento e já volto.
Ele estendeu a mão para me ajudar a descer e depois sumiu na multidão. Perdida em minha cabeça, presa em um labirinto sem saída. Era assim que estava quando meu telefone tocou, atendi institivamente. No outro lado da linha uma voz monótona e computadorizada.
— Amber Rhodes, acho que você pegou algo que não lhe pertencia.
—Quem está falando?
— Uma rosa vermelha, aquele presente não era pra você.
Fiquei muda, as palavras simplesmente ficaram presas em minha garganta, se recusando a sair, meus ouvidos mais afiados do que nunca, meus olhos arregalados de terror.
— Sabe, estou meio entediado ultimamente. Você poderia se redimir e jogar um jogo comigo.
Ainda não respondi, a essa altura minha voz já tinha chegado ao Alaska com malas pronta pra tirar férias.
— Não vai gostar de me vê jogar sozinho é melhor responder. Estou lhe observando Amber.
Percorri os olhos no aglomerado de pessoas, poderia ser qualquer um.
—Se não jogar verá as consequências se desenrolar diante de seus olhos. Sua primeira tarefa é sair desse parque e me encontrar na cabana perto da sua fazenda. Tem 15 segundos para sair daí.
A ligação foi encerrada. Não me movi. Caramba! O que tinha de errado comigo. Meus pés simplesmente não obedeciam, acho que estava em estado de choque. Seja como for, não levei a ameaça ao sentido literal. Porém, os 15 segundos devem ter se passado, pois o que aconteceu em minha frente foi inacreditável. Uma mulher que passava em minha frente, uma morena de cabelos lisos, alta, abraçada ao seu filho no colo, foi atingida com uma bala na cabeça, o sangue respingou em meu rosto como um balde de água fria me puxando de volta para a realidade. Ela caiu de joelhos, deixando a criança sem entender nada, aos pés da mãe. Esse choque me fez lembrar como mexer as pernas. As pessoas começaram a gritar em desespero, a correr desfazendo as filas. O pânico tomou conta, o medo irracional agora era dominante entre eles. Antes que mais alguém se machucasse eu corri, corri, corri, o mais rápido que consegui em direção a cabana. Meu peito em chamas, meu rosto um emaranhado de lágrimas e sangue.
Estava na escuridão da estrada, até que uma luz forte quase me cegou. Dylan parou imediatamente a moto colocando-a de canto e jogando o capacete no chão, seus olhos cor de âmbar esbanjando preocupação. Estava vestindo um uma blusa branca, uma jaqueta de couro preta, um jeans escuro, botas camufladas cano alto e seus cabelos pareciam estrategicamente bagunçados.
Sem pensar duas vezes, ele me toma nos braços, afagando minhas costas sem se preocupar em manchar a camisa. Tira a jaqueta e coloca sobre meus ombros trêmulos.
— Está tudo bem, tudo bem. Eu estou aqui, ninguém vai machucar você- me consolava.
Estava tão abalada que me permiti pousar a cabeça sobre seu peito e simplesmente chorar.
— O que aconteceu?
Ainda não havia terminado, tinha algo a fazer.
— Me leva à cabana- disse desesperada.
— O que?
— Por favor, só faça isso. — implorava.
Dylan pegou a moto e subi na garupa, envolvendo meus braços em sua cintura. Seguimos reto por alguns quilômetros na estrada até chegar a uma cerca de madeira. Descemos da moto e abri o portão cautelosamente. Reconheci o lugar do meu sonho.
— Pode me dizer o que estamos fazendo na minha cabana?
—Sua cabana?
— É da minha família, há gerações, mas até antes de eu nascer meus pais pararam de frequentar aqui, nunca me disseram o motivo. Nunca tinha vindo aqui na verdade.
— Como sabe que é sua?
Ele apontou para uma pequena placa perto da porta: PROPRIEDADE DOS SHARPES.
Era uma cabana simples de pesca, com uma pequena lagoa atrás da casa. Dentro a decoração era muito diferente do que em meu sonho. As paredes tinham varas, anzóis e peixes de porcelana de enfeite. De mobília apenas uma mesa de madeira perto da chaminé, mesmo diferente ainda sentia calafrios por estar ali. Em cima da mesa havia uma carta com meu nome em letras digitadas. Abri-a cuidadosamente, como medo de descobrir seu conteúdo.
Vamos jogar um jogo?
Uma rosa por outra rosa. Ache minha próxima vitima, traga ela daqui a três dias a esta cabana, meia noite em ponto. Se fizer você se sentir melhor escolha alguém que ache que mereça morrer. Quando chegar o dia e a cabana estiver vazia seu avô morre, se alertar a policia, ele morre.
Ass.
Ass.
Dylan esperava ansioso atrás de mim.
— Me leva pra casa.
— O que aconteceu?
— Amanhã prometo que explico, agora só precisa da minha casa.
— Eu te levo, mas saiba que pode contar comigo.
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