Dark Heart
6 Coração Vazio
Notas iniciais

“Você matou minha mãe", "Você matou minha mãe", "Você matou minha mãe".
A escuridão era completa, não enxergava nada, só ouvia essa voz infantil e seu eco assombrando meu subconsciente, tentava correr mais só havia o vazio.
Acordei arfando, suada e assustada. Já era de manhã, mas eu só tinha vontade de me enrolar no lençol e ficar na minha cama pelo resto do dia, sem pensar em nada, sem ferir ninguém. Olhei para o lado e vi a rosa murcha em minha mesinha de madeira, levantei e a joguei no lixo.
—Amber, já acordou querida?-gritou meu avô Lourenço do andar de baixo.
— Estou indo vovô.
Limpei as lágrimas que involuntariamente escorriam pela minha bochecha. Apesar do meu pai não estar morto, meu avô era a única família que restava para cuidar de mim. Não podia deixar nada acontecer, ele tinha cuidado de mim quando mais precisei, chegou a hora da minha retribuição. É claro que levar alguém para aquele sádico não estava em cogitação, tinha três dias para pensar no que faria. Agora só precisava me arrumar para ir à escola.
Desci as escadas e para minha surpresa encontro Dylan na mesa do café da manhã com meu avô Lourenço. Os dois pareciam estar envolvidos em uma conversa bastante interessante, pois ambos riam. Aproximei-me vagarosamente. Agora que perdi toda a adrenalina da noite passada, voltei a ficar incomodada com sua presença, simplesmente não conseguia confiar em pessoas bonitas e me sentia desconfortável perto delas. Mas, depois de ontem meio que devia uma para ele. Talvez ele não fosse uma pessoa ruim. Eu que sou maluca. Tinha certeza que se desse uma chance, Dylan se provaria uma pessoa de total confiança e quem sabe um amigo.
—Dylan o que está fazendo aqui?
— Seu avô me chamou para o café. Daqui já podemos ir para escola.
— Podemos ir agora.
— Não vai comer?- indagou meu avô.
— Não estou com fome, mas não se preocupe mais tarde eu como na escola. — falei lhe dando um beijo e indo em direção à porta.
Dylan agradeceu pelo café e veio em meu encalço. A verdade é que realmente não conseguia comer, o sonho que eu tive foi muito perturbador, ainda sentia minha garganta embargada, me informando que sem chances para comida agora.
No caminho até a porteira, não dissemos nada. Acho que ele queria eu começasse a falar voluntariamente. Bem, isso não iria acontecer. Por mim, daria esse assunto por encerrado. Minha enrascada. Não quero envolver mais ninguém nisso.
Subimos na Harley Davidson. Cheguei à conclusão que o melhor a fazer agora era ficar o menor tempo possível sozinha, por isso, de hoje em diante aceitaria sua carona. Coloquei meus braços em sua cintura. Ao andar em sua moto, sentia uma sensação de liberdade, de que poderia fazer qualquer coisa, de que se simplesmente abrisse meus braços poderia voar.
Quanto mais nos aproximávamos da escola, começava a pensar em Kian. O que diria para ele? Como não perder sua amizade? E se eu tentasse dar uma chance para ele, não seria melhor do que perdê-lo?
Dylan estacionou e pude logo avistar Kian encostado em uma parede me esperando. Nossos olhos se encontraram, por um momento pude perceber felicidade neles, alívio. No momento seguinte notei que sua cara fechou, uma carranca substituiu seu rosto normalmente tranquilo. Não entendi o motivo. Será que não estava feliz em me ver? Até que a ficha caiu. Eu chegando de moto, com outro cara. Não qualquer cara, mas um absurdamente lindo. Hoje Dylan vestia uma camiseta azul escuro (combinavam perfeitamente com os meus olhos), com um jeans claro, e botas pretas de cano alto. Seu cabelo perfeitamente bagunçado como sempre. Assim que a moto parou, entreguei o capacete e fui imediatamente a encontro do meu melhor amigo. Por enquanto, resolvi agir normalmente, fingir que nada tinha acontecido, que ele não tinha se declarado, que era mais um dia normal. O motoqueiro vinha logo atrás de mim e não tive escapatória.
— Ki, vocês não foram apresentados formalmente. Esse é meu vizinho Dylan.
— Prazer.
Eles apertaram as mãos e seguimos para sala de aula. Ao decorrer da aula, podia notar o olhar de meu amigo, inquieto, cheio de expectativas sobre mim. Com certeza esperava pela minha resposta na hora do almoço. No final da última aula do período matutino a Diretora entrou na classe.
—Senhores, devido ao triste ocorrido ontem em nossa cidade, não teremos aula no período da tarde. A jovem baleada não morava em nossa cidade, mas era parente do nosso querido prefeito. A cidade está de luto.
Eu tinha que ir lá com a família dele prestar minhas condolências, mas não podia, pois eu sabia que tinha sido a culpada por sua morte. 15 segundos e sua vida seria poupada, 15 segundos e ela veria seu filho crescer, 15 segundos ela voltaria para os braços do marido, 15 segundos foi o bastante para eu conseguir destruir várias vidas. Meu dever era pelo menos ir prestar minhas últimas homenagens, engolir minha culpa, encarar as consequências dos meus fatos.
No fim da aula, caminhei até o estacionamento ao lado de Kian.
— Eu te dou uma carona hoje- disse.
— Não precisa, já tenho carona- tentei me esquivar.
— Eu insisto, precisamos conversar- encerrou o assunto.
— Tudo bem, vou só avisar o Dylan.
— Por quê? Ele por um acaso é seu namorado pra ficar dando satisfação? — falou sentido.
— Você que me conhece tão bem, acha que eu ficaria dando satisfação para um namorado?- disse rindo dando-lhe um beijo na bochecha.
— Vou com o Kian hoje- falei pra Dylan assim que o encontrei.
— Parece que seu namorado ficou com ciúmes- disse com um sorriso torto.
Apenas revirei os olhos e fui fazer o que tinha de fazer. Dizem que para não sofrer muito, devemos puxar o band-aid de uma vez só, talvez eu devesse tentar essa técnica com Ki.
Estávamos no carro, eu olhava pela janela tentando me distrair.
— O que aconteceu ontem? Começou a correria, eu fui atrás de você. Te liguei milhões de vezes, você não atendeu. Cheguei ir à sua fazenda, seu avô disse que estava dormindo. Fiquei muito preocupado. — disse pegando minha mão e beijando.
— Eu, eu estava lhe esperando, e ela, ela, levou um tiro bem na minha frente e eu fiquei muito assustada e simplesmente corri. Desculpa.- comecei a gaguejar aos prantos.
Kian parou o carro e me abraçou. Descansando minha cabeça em seu peito comecei a derramar toda a angústia em sua camisa de linho vermelha.
—Eu sinto muito, Am! — disse beijando o topo da minha cabeça.
Depois do meu avô, Kian era a pessoa mais importante pra mim no mundo. Como poderia perder isso?
— Obrigada Kian, obrigada por sempre está comigo quando preciso. Promete, promete que nunca vai me deixar.
— Isso depende inteiramente de você Am. Se quiser ficar comigo, eu prometo que nunca vou lhe decepcionar. Mas não é justo que peça que fique ao seu lado e fingir que não sinto nada depois de tudo que falei. Eu precisaria esquecer você, precisaríamos nos separar, pelo menos por um tempo.
Alguém enfiou a mão em meu peito arrancando meu coração a sangue frio, mas isso não foi o bastante, pois ele foi pisoteado até só restarem pequenos cacos espalhados ao chão, soprados pelo vento, não restando nada. Era uma sensação horrível, então deveria saber que o que Kian estava sentido deveria ser 10x pior. Ele me entregou seu coração, para fundi-lo ao meu, para que batessem em apenas um ritmo, mas o joguei fora sem dó nem piedade. Não entendo. Porque eu não o amava do mesmo jeito. Era fato que eu o amava. Só não do mesmo jeito. Sabia que ele tinha razão, não era justo prende-lo a mim. Seria eu tão egoísta a esse ponto? Não, me importava demais com ele para fazer isso.
Kian me largou e voltou a dirigir, esperando pela minha resposta. Precisava reunir toda a minha coragem é altruísmo para fazer a coisa certa para ele. Chegamos a minha fazenda o encarei nos olhos, quase que minhas palavras não saiam. Seus olhos verdes, o leve bronze de sua pele, seu cabelo loiro e desgrenhado. Tão lindo, tão doce, tão fácil de amar. Coração burro, burro, burro.
—Tem razão, eu não posso lhe prender, o melhor é a gente dá um tempo um do outro. — falei saindo do carro antes que começasse a chorar.
Pude ver seus olhos em choque. Ouvi a porta do motorista se abrindo e segundos depois uma mão estava em meu pulso. Ele largou minha mão, observando meu rosto surpreendido. De repente senti uma de suas mãos agarrando minha cintura e a outra estava em minha nuca. Kian me beijava, seu lábio era macio, sua boca exigindo a minha, seu hálito mentolado me invadindo. Até que me largou, deixando- me para trás tentando recuperar o fôlego.
— Sentirei sua falta Amber Rhodes- sussurrou, voltando para o carro.
Fiquei estática, meus dedos mecanicamente pousados onde seus lábios tocaram os meus. Meus pés ganharam vida própria e me levaram para cama. Fiquei observando o teto, repassando tudo na minha cabeça. Sempre o imaginei como um irmão, até que ele me obrigou a vê-lo de outro modo. Exigiu outra perspectiva. Colocou-se em outro ângulo. Demandou minha atenção. Porém, minha vida era o que menos importava agora, tinha problemas maiores para resolver. Comecei a bolar ideias, a pensar em como sairia dessa enrascada, até que adormeci.
Acordei, abrindo os olhos lentamente, já era de noite. Minha janela estava aberta, a lua no alto. Olhei para o lado e um frio percorreu minha espinha. No vaso, em cima da minha mesinha de madeira, havia uma rosa vermelha perfeitamente nova, aparentava ter sido recém-colhida. Corri a procura do vovô.
— Vovô você colocou alguma rosa no meu quarto?- indaguei rapidamente.
— Não querida, fui à cidade hoje à tarde, comprar algumas coisas no supermercado.
Fiquei branca igual a um fantasma.
— Vamos hoje à casa do prefeito prestar nosso respeito. Chamei um táxi. Vai comigo?
— Sim vovô, me arrumo em um minuto- falei baixinho. Ficar sozinha nessa casa não era mais uma opção para mim.
Chegando lá, na porta da grandiosa casa do prefeito havia várias pessoas colocando velas e flores. Creio que minha paranoia tinha chegado a um nível bastante elevado, porque por mais que houvesse outras flores, inegavelmente as que prevaleciam eram as rosas vermelhas. Vovô entrou, mas resolvi esperar do lado de fora com as outras pessoas, ainda não me sentia pronta para encarar a família dela.
Entres as árvores da propriedade ao longe avistei uma silhueta, tentando se esconder nos troncos. Senti que não havia perigo, o local estava cheio de gente, qualquer coisa era só gritar. Aproximei-me, mas quem quer que fosse ouviu meus passos e saiu correndo. Com a escuridão não pude identificar. Será que era o assassino das rosas? Não creio que ele se arriscaria a chegar tão perto, mas mesmo assim não deixa de ser estranho.
Havia chegado o terceiro dia, o relógio marcava 23h. Tinha convencido vovô a ir visitar meu pai. Como a viagem era longa, ele dormiria por lá e só viria pela manhã. Por fim, resolvi que a melhor coisa a fazer era enfrentá-lo, eu já tinha causado danos demais. Quem sabe por sorte não conseguiria sair viva dessa. Peguei a antiga arma do meu pai, uma pistola calibre 38, lembranças horríveis emanavam dela, mas tinha que esquecer isso pelo menos por essa noite. Quando tinha completado 16 anos meu pai me ensinou a atirar, ótimo presente de aniversário. Por último, é claro, não podia faltar um spray de pimenta. Peguei minha bicicleta e fui rumo à cabana no ar gélido da noite.
Quando cheguei, havia um bilhete grudado à porta.
Querida Amber,
Saiba que eu lhe conheço e você jamais seria capaz de trazer alguém para mim (pelo menos não agora). Por isso, resolvi lhe dar uma ajudinha. Gostei de você, e por isso, resolvi torná-la minha aprendiza. Tenho certeza que fará coisas grandiosas.
Ass,
Ass.
Meio confusa abri a porta e o que meus olhos encontraram nem se comparava com a realidade que tinha imaginado. Minha alma torturada impiedosamente, meus valores jogados ao pó, minha existência se tornará patética, meu corpo apenas um casco de um coração vazio.
Na minha frente deveria haver uma mulher jovem, negra, cabelos cacheados pretos com uma flor branca na cabeça, olhos vendados, usando um vestido branco, de joelhos, com as mãos firmemente amarradas em suas costas e a cabeça presa em uma guilhotina improvisada. Ao girar a maçaneta ativei a armadilha que nela estava amarrada. A cabeça da jovem rolou aos meus pés. Na minha frente havia apenas o corpo de uma mulher jovem, negra, usando um vestido branco, de joelhos, com as mãos firmemente amarradas em suas costas, sem sua cabeça. A realidade me atingiu firme como um soco na cara, eu tinha matado uma pessoa.
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