Dark Blood

5 Sangue hospitalar


11/05/2013 — 00h59min — Montanhas Rústicas — Cidade de Sankya (EUA)

— Samantha, vai com calma. Não quero levar você em coma alcoólico para casa.

— Fica fria, Karen. Só preciso ficar um pouco mais alegrinha, se é que me entende. O Dennis precisa ver que sou uma garota descolada e não apenas uma — *soluço* — ops, uma caipira.

— O Dennis é um idiota. Não sei como você atura aquela criança. Tem dezoito anos, que não serviram em nada para o seu currículo de “bom samaritano”.

— Ele pode ser idiota, mas é o idiota mais gostoso do colégio. Ele tá vindo, cala a boca.

— E aí, garotas, vocês vão ficar a noite inteira aí, conversando apenas entre vocês? Venham interagir, a Sue quer cantar os parabéns. Espero que não estejam tão bêbadas ao ponto de terem esquecido que estão no aniversário dela.

— Eu não estou nem um pouco bêbada, Sr. Imbecil.

— KAREN! Desculpe, Dennis, ela só não está na vibe hoje.

— Tudo bem, eu sei resolver isto rapidinho. Tome um gole disto, Karen. Coloquei um pó mágico que vai fazer você deixar de ser careta. Talvez eu até te dê uns beijinhos depois.

— Enfia este copo naquele lugar, Dennis. Samantha, eu estou indo embora. Não deveria ter vindo para cá.

— KAREN!! Não, por favor! Fica, por mim!

— Então aqui estão as garotas mais estudiosas da cidade! Ou eu poderia dizer “as mais mentirosas”?

— Mãe?! O que você... está fazendo aqui?

— Entre no carro agora, Karen. Temos uma longa viagem, acompanhada por uma conversa nada agradável.

11/05/2013 — 06h27min — Centro Hospitalar/Unidade Montanhas Rústicas — Cidade de Sankya (EUA)

— SALVE MINHA ESPOSA, PELO AMOR DE DEUS! – Sr. Trevolt berrava e, ao mesmo tempo, dava murros no balcão onde estava a recepcionista, com olhares perplexos, fitando as ações do idoso.

Logo que o casal e Karen entraram no centro hospitalar, foram barrados por um segurança, mas sem dificuldade alguma, a passagem foi liberada. Karen foi quase que instantaneamente até a recepcionista, solicitar o telefone para tentar entrar em contato com Jessica. A linha sempre caía. Em questão de minutos, Esther já estava deitada em uma espécie de maca, aguardando atendimento. Mas a demora era enorme, vários outros pacientes estavam na mesma situação que a esposa de Julian. Esther começou a ter uma convulsão, o que fez com que Julian ficasse extremamente nervoso, resultando nos socos que assustavam a recepcionista.

— C-c-calma, s-senhor! – a moça, de cabelos negros, olhos verdes e um nariz arrebitado, tentava discar rapidamente os dígitos do aparelho telefônico, possivelmente para chamar algum segurança, para fazer Sr. Trevolt se acalmar, mas era impossível, suas mãos tremiam muito. Gaguejava com tristeza nos olhos. – Eu sei que sua esposa não está bem, mas não podemos fazer nada! Até ontem, por volta das onze horas da noite, nossos leitos estavam quase que cem por cento disponíveis aos pacientes, mas depois começaram a vir pessoas com febre, infecções graves, no mesmo estado em que sua esposa está.

— E o que a senhorita quer que eu faça? Veja minha esposa agonizando, morrendo, sem que eu possa mover um músculo para salvar sua vida? Cadê o médico? Por que tantas pessoas estão doentes?

— Poucos médicos estão trabalhando, é sábado. Tentamos entrar em contato com aqueles que estão em folga, mas sem sucesso algum. Estamos fazendo o nosso melhor, por favor, acredite senhor. Agora se sente e aguarde.

— Só me responda o seguinte: a polícia está ciente destas pessoas que estão atacando umas as outras?

— Sim, logo que o número de pacientes aumentou, informamos aos policiais locais. Eles já estão investigando.

Sr. Trevolt voltou para perto de Karen e Esther. Não comentou nada, não precisava. Todos que estavam próximos à recepção estavam atentos à discussão. Sra. Trevolt estava queimando em febre. Karen não aparentava preocupação, mas com certeza não estava calma.

— E sua mãe, menina... como você acha que ela deve estar?

— Pensei que ela estivesse muito mal, depois do acidente. Mas assim que o senhor me disse que havia conseguido conversar com ela, fiquei mais tranquila.

— Eu não me perdoo. Não sou homem de descumprir com o que foi combinado. Sinto que traí a confiança de sua mãe.

— Não pense assim, Sr. Trevolt. Ela deve estar bem e, querendo ou não, deve saber que eu estou bem. Mães sempre sabem.

— Espero que...

— AAAAAAAAAAAAAHHHHH! SOCORRO! SOCORRO!!! – um grito apavorante fez Sr. Ttrevolt ser interrompido e a atenção de todos, inclusive a de Karen, voltar-se para um dos quartos, no interior do hospital. O grito era altíssimo, mas aparentemente vinha de um quarto distante. Os gritos só aumentavam.

Em alguns segundos, o segurança, que antes havia tentado bloquear a entrada dos Trevolt e Karen, já havia entrado no hospital, assustado, indo em direção aos gritos. Karen ficou curiosa. Precisava saber o que estava acontecendo. Saiu do lado de Esther sem avisar. Trevolt, ao perceber que a garota de cabelos avermelhados passava em sua frente, tentou agarrar seu braço, para impedi-la de sair por perto, mas não obteve sucesso. Os sons ao redor de Karen ficaram todos abafados, menos os gritos. Eram como um alarme chamando por ela. Todas as pessoas ficavam o mais longe possível do quarto de onde os gritos saíam. Mas ela, sem ver o que estava acontecendo naquele quarto que, a cada passo dado, ficava mais perto, já sabia o que deveria estar ocorrendo: alguém doente, com a boca encharcada de sangue de algum médico que ficou próximo demais, devorando o braço ou alguma outra parte do corpo deste possível médico, ou enfermeiro, tanto fazia. O segurança deveria estar tentando, agora, apartar o “doente” do médico. E não conseguiria, então ou levaria uma mordida também e ficaria infectado, ou sacaria a pistola que estava em sua cinta e atiraria contra o zumbi. Karen já tinha todas estas ideias em sua cabeça. Quando se referia, mentalmente, à infecção ser passada pela mordida, passava a imagem de Esther. Karen já tinha ciência de que Esther, em questão de minutos, não seria mais ela. Queria acreditar que estava errada, mas chegando ao quarto, tudo se comprovou. Entretanto, era bem pior do que ela havia imaginado. A cena era digna de uma carnificina, retratada em algum filme sobre o nazismo de Hitler. Três pacientes, denunciados por suas vestimentas verde-água. Devoravam um médico, cujo jaleco branco já estava tingido totalmente pelo vermelho do próprio sangue. O segurança estava parado, com a arma apontando para as criaturas que aqueles pacientes haviam se tornado. Mas Karen via nos olhos daquele homem negro o pânico. O estranho e gigantesco pânico que era denunciado por aquela expressão em seu rosto e pelas mãos trêmulas. Sua aparência forte, por ser um homem com características de um típico segurança (alto, braços grandes, peitoral mais do que definido, careca) desabou-se. Estava ali, na frente de Karen, um homem com medo e com “o rabo entre as pernas”.

— Atira na cabeça. – Karen falou da forma mais normal e serena possível.

— O quê?! Garota saia de perto, você não pode ficar aqui! – o segurança alertou. Ao ouvir a voz de Karen, voltou sua atenção para ela.

— Olhe para frente, em um momento eles estão se alimentando do médico. Em outro, vão vir na sua direção.

Como se Karen estivesse ordenando, o segurança voltou seus olhos para os zumbis. E, quase que no mesmo instante, disparou. De fato, um dos pacientes já estava muito perto do braço do segurança. O tiro foi certeiro, atingindo o cérebro da criatura, que desabou no chão. Os dois outros, que estavam se alimentando do doutor, se levantaram e começaram a ir até a direção do segurança. O homem, que ainda segurava a arma utilizada para tirar a vida de alguém que já não a tinha, não conseguia mais se mexer. Não conseguia mais disparar mais uma vez. Karen correu até a porta e fechou-a. Antes que ela fechasse por completo, ainda foi possível ver o médico se mexendo, talvez tentando se salvar daquilo que já não tinha mais solução. As criaturas batiam na porta incessantemente. Os sons das batidas se tornaram insignificantes assim que mais gritos atormentadores iniciaram: agora, vinham da recepção; outros quartos; de todos os lugares. Até parecia que existia uma hora marcada na agenda dos mortos-vivos para começarem a atacar as pessoas, os familiares, os maridos e as esposas. Esther e Julian. Os Trevolt.

— O quê está havendo?! – o segurança não sabia o que fazer. Estava atordoado.

— Temos que sair daqui. Qual é o seu nome? – Karen precisava do homem. Na verdade, precisava de sua arma.

— Ramon. Ramon Coñsuelo. – seu sotaque estrangeiro o denunciava: um típico mexicano.

— Precisamos sair daqui. Qualquer doente que tente te morder não é mais um doente, entendeu?

— Hãn?! – sua expressão demonstrou que não havia entendido de forma alguma.

— Apenas acerte na cabeça, qualquer um que chegar próximo demais e não responder às suas perguntas. Por onde podemos sair daqui, com segurança?

— Não sei, eu não sei de nada! Padre nuestro que estás en los cielos, santificado sea... — Ramon começou a rezar. Era um homem de fé. Mas fé, naquele instante, era algo extremamente insignificante.

— Panaca. – Karen falou baixo, mas não se preocuparia se o segurança havia a ouvido. Ela precisava, antes de pensar em sair dali, se Sr. Trevolt estava bem. Voltou rapidamente para a recepção e mais uma cena de horror: vários pacientes, que estavam aguardando por atendimento, agora já se alimentavam das pessoas que estavam por perto. Esther e Sr. Trevolt não estavam mais ali. Sair pela porta principal seria impossível, pensou Karen. Então, voltou sua atenção para Ramon. Precisava fazer com que ele a ajudasse a sair. Tarde demais. Vários zumbis já estavam ao redor dele, que estava ajoelhado, rezando e chorando. – Ram...

Karen ia gritar. Ia tentar ajuda-lo. Mas uma mão enrugada pressionou a boca de Karen, abafando seu grito. Puxou-a para dentro de um corredor escuro. Logo ela conseguiu verificar quem era: Sr. Trevolt. Ele tirou as mãos da boca de Karen.

— Desculpe, venha comigo. A recepcionista achou um lugar para ficarmos, por enquanto, seguros.

— Mas e o segurança...

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH! – o grito de Ramon interrompeu Karen.

— Onde iremos ficar seguros, mesmo?

Julian e Karen entraram rapidamente numa espécie de sala de reuniões. Lá já estava Esther, deitada sobre uma mesa comprida e mais três pessoas. Uma delas, a recepcionista. Mas antes que qualquer apresentação fosse realizada, a convulsão de Esther alertou a todos. Todos sabiam de algum modo que aquela senhora já não tinha mais vida. A infecção já havia tomado conta de seu corpo. Karen olhou para Julian. Ele não olhava para ninguém, exceto sua esposa.

— Eu sei o que precisará ser feito, pequena garota. Eu sei... – disse o idoso.

Ele foi até a direção de Esther. Pegou um pequeno lenço, que estava dentro do bolso de sua calça. Limpou o pus branco que saía da boca de Esther, pegou-a no colo e levou-a até o banheiro que tinha naquela sala. Fechou a porta. Ninguém falava nada. Apenas dois sons eram ouvidos: os gritos de pessoas que estavam fora daquela sala e os soluços de choro de Julian, vindo do banheiro. Até que, alguns minutos depois, um pequeno momento de silêncio preencheu todo o centro hospitalar. E, sem que ninguém esperasse, o som do disparo de alguma arma, vindo do banheiro onde o casal de idosos estavam, emudeceu ainda mais a situação.

Continua...

Notas finais
Ele sabia o precisaria ser feito...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.