Dark Blood
3 Encontrando esperanças
05/01/2013 — 12h05min — Hospital de Sankya — Cidade de Sankya (EUA)
— Tudo vai dar certo, pai! Você vai ver que, depois desta consulta com o doutor, a sua saúde está melhor do que nunca, não é mãe?
— Você está certa, Karen! Amor, não precisa se preocupar! Ontem você só deve ter tido um dia muito estressante, por isso desmaiou. Herryson, eu, Jessica, sua mulher, não vivo sem você!
— Eu sei, meus amores, mas estou preocupado com essas tonturas que estou tendo, dia após dia. Mas Deus ouça vocês. Sairei daqui muito melhor se o doutor disser que estou apenas com uma simples doença. Obrigado Jessica e Karen pelo apoio, vocês são as coisas mais importantes da minha vida!
— Você também é, pai! Para nós duas! Agora, vem um de cada lado e me deem um beijo na bochecha! Vou bater uma foto e colocar como plano de fundo do meu celular!
*Tirando foto*
— A foto ficou excelente, Karen! Agora vamos entrar, o doutor está me chamando...
11/05/2013 — 04h54min — Montanhas Rústicas — Cidade de Sankya (EUA)
Jessica precisava atender. Apertou o botão "Receber Chamada" que aparecia na tela do celular e começou a correr. Ao mesmo tempo que tentava falar com quem estava ligando para ela, tinha de correr, pois umas cinco a seis pessoas começaram a correr atrás dela.
— Alô?! Karen? É você? — Jessica não parava de correr, estava muito assustada. O som dos "canibais" eram aterrorizantes. Qualquer descuido de Jessica faria com que virasse banquete daquelas pessoas infectadas.
— Não moça, não é a Karen. — uma voz de um homem aparentemente idoso respondeu às perguntas de Jessica. — Sou Trevolt, Julian Trevolt. Estou te ligando porque...
— Como conseguiu o número da minha filha? Por favor, diga que está com ela, por favor! Eu estou desesperada, pessoas estão me perseguindo, preciso desligar o telefone, me fale rapidamente onde estão, para eu poder encontrar-me com vocês!
— Bom, eu encontrei uma garota, no meio da estrada que leva a minha casa, mas não sei o nome dela. A única coisa que ela disse foi este número, que eu presumi que era um número celular. Eu não conheço esta garota, senhora, mas vou confiar em você. Eu moro na Rua Santa Luzia, próximo ao pórtico das Montanhas Rústicas, conhece?
— Sim, sei onde é! — Jessica já não aguentava mais correr, estava ofegante. Aquelas pessoas que corriam atrás dela já não estavam mais tão perto, eles não eram tão rápidos, mas Jessica nem estava prestando mais atenção neles. Só queria saber de Karen.
— Então, venha até o pórtico. Verás uma casa, cheia de neve, com piscas-piscas de natal. Sei que não é época, mas deixamos o ano inteiro a casa enfeitada.
— Tudo bem, me encontro com vocês aí. Mas posso dar uma palavrinha com minha filha, a Karen?
— Ela está desacordada, senhora. Eu e minha esposa encontramos ela desmaiada, no chão da estrada. Ela estava muito gelada, mas agora está enrolada em um cobertor e na frente de uma lareira. Logo que ela... — a ligação caiu. Mas Jessica já estava mais calma, pois sabia que sua filha deveria estar em boas mãos.
— Agora só preciso chegar até a casa deste senhor. Deus, proteja eu e minha filha. Pensar que a última coisa que chamei ela antes do acidente foi de vadia mentirosa, só me deixa ainda mais perturbada. Agora só preciso voltar para a estrada e... — quando Jessica virou-se para trás, um homem pulou em cima dela. Estava tentando mordê-la, sua boca estava cheia de sangue e pus. — Socorro! Socorro! Me solte, seu imbecil, o que você está tentando fazer? — Jessica gritava, sem sucesso. Com uma força desconhecida, conseguiu fazer com que o zumbi saísse de cima dela e começou a correr. Ele estava vindo atrás, mas era muito lento.
11/05/2013 — 05h07min — Casa do Sr. Trevolt — Cidade de Sankya (EUA)
Trevolt e sua esposa, Esther, estavam sentados em duas grandes poltronas enquanto escutavam músicas de uma antiga vitrola. Os discos de vinil que o casal tinha ainda estavam impecáveis. A lareira quente aquecia Karen, que abriu seus olhos enquanto saía de um sonho onde estava ela, seu pai e sua mãe numa roda-gigante, comendo maçãs do amor e rindo de coisas sem graça, o que tornava tudo mais divertido.
— O-onde estou? — perguntou Karen, ao levantar-se da cadeira que estava e tirando as cobertas que a envolviam.
— Karen? Este é seu nome? Eu sou Trevolt e esta é minha esposa, Esther. Encontramos você na estrada, desmaiada. Trouxemos você para cá e ligamos para sua mãe, você ficará bem! Ela já está vindo te buscar. — Sr. Trevolt era um idoso elegante. Tinha 80 anos, mas aparentava ter menos. Usava uma blusa de tricô, feita pela mulher. Esther também, tinha 82 anos, mas parecia ter bem menos. O casal parecia ser muito unido, enquanto falavam com Karen, tinham suas mãos unidas sempre.
— Não se preocupe, linda criança, sua mãe já está chegando. Meu marido só não entendeu quando ela disse que estava sendo perseguida por pessoas! Como você foi parar no meio da rua, Karen? — perguntou Esther, com seus lindos cachos de cabelo esbranquiçados.
— Eu lembro que sofri um acidente de carro, enquanto brigava com minha mãe. Eu saí do carro, vi que ela estava desacordada, e queria pedir ajuda. Mas estava muito frio. Deixei meu celular no banco do carro, para o caso de eu encontrar ajuda e ligar para ela, avisando que tudo ficaria bem. Mas... — um barulho vindo da cozinha da casa do casal idoso interrompeu Karen.
— Tudo bem, tudo bem, deve ser meu gatinho, o Roslie, brincando com as panelas. Ele ama fazer isso. Eu já venho. — Esther se levantou e foi para a cozinha.
— Ainda bem que eu e Esther encontramos você, Karen. As Montanhas Rústicas não é um lugar muito visitado, poucas pessoas moram por aqui e suas chances de ficar lá, desmaiada no frio, sem que ninguém te encontrasse, eram grandes. Por que você e sua mãe estavam brigando?
— Após a morte de meu pai, Herryson, nossa família se desestruturou. Ele, digamos, era quem segurava as pontas da família. Ao morrer, as pontas foram quebradas. Minha mãe era muito ligada a ele. Deixou sua carreira de modelo, quando era mais nova, para casar com ele, a muitos anos atrás. E eram apaixonados desde sempre. Após ele morrer, ela não ligava para mais nada, nem ninguém. Ela tenta ser uma boa mãe, mas não consegue.
— AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH! — um grito de Esther veio da cozinha. Trevolt e Karen se levantaram rapidamente. Na cozinha, uma cena horrível: a porta dos fundos estava aberta e um homem, com roupas rasgadas e cheias de sangue, mordia o braço de Esther. Puxava com uma força tão grande que apenas sangue era jogado para todos os lados. Trevolt correu até a mulher, pegou uma faca de cozinha e enfiou na cabeça do homem, que caiu no chão, parecendo que estava morto.
— O que houve? Esther? Por favor, diga que está bem! — disse Trevolt, com lágrimas nos olhos. Não podia estar acreditando no que estava vendo. Sua mulher estava cheia de mordidas. Quando Esther iria respondê-lo, várias pessoas começaram a entrar pela porta aberta. Estavam todas no mesmo estado daquele que Trevolt havia matado.
— Vamos sair daqui! — Karen gritou. Trevolt pegou a mulher no colo e as chaves do seu Opala que estava em cima da mesa. Karen abriu a porta da sala e correu para perto do carro. Trevolt destrancou as portas do carro e Karen entrou rapidamente. Trevolt colocou a esposa no banco traseiro, junto com Karen, e entrou no carro. A tensão mal havia começado: a neve, que encobria as rodas do carro, faziam com que o carro apenas dançasse no mesmo lugar, sem sucesso algum de fugir daquele local sanguinário que se tornara em questão de segundos. Karen queria gritar, pressionar o idoso que estava na direção, mas sabia que não iria ajudar em nada. Olhava para o rosto de Esther e a via contorcer suas expressões faciais, revelando que as mordidas recebidas a estavam fazendo sofrer muito. As pessoas que haviam invadido a casa dos Trevolt agora estavam indo em direção ao carro. As luzes dos faróis e o barulho dos motores do Ford Corcel 1969 eram ímãs para atrair os "doentes".
— O que vamos fazer, Esther, o que vamos fazer? — Sr. Trevolt sabia que falava sozinho, já que a esposa estava desacordada e tremendo de dor, mas tinha o intuito, mesmo assim, de receber um auxílio daquela pessoa que ele tanto amava.
— O senhor não vai conseguir sair do lugar sem que consigamos tirar um pouco desta neve que acumulou nas rodas. Eu vou ajudar. Pare de acelerar o carro. — Karen abriu a porta e saiu. Trevolt tentou proibi-la, mas já era tarde.
Karen, ao pular do carro, fechou a porta rapidamente. Ela não era burra e seu período adolescente da sua vida a permitia assistir vários filmes e séries sobre ficção científica, o que ela amava, incluindo, especificamente, histórias sobre zumbis. Então, ela achou melhor interpretar aquelas pessoas como tais: mortos-vivos. Mais de dez zumbis estavam chegando perto do carro, ela precisava ser rápida. Precisava ganhar tempo. Então, começou a gritar e assoviar. "Venham, por aqui" era a frase que ela mais repetia, enquanto balançava os braços. Ela pensava também que isso era um modo de fazê-la se aquecer, já que o frio ainda era intenso. Sr. Trevolt parou com as tentativas de fazer o carro sair do local em que estava e desligou os faróis. Assim, não foi difícil mudar a atenção daquelas criaturas para Karen.
— Sr. Trevolt, tente tirar o excesso de neve! Eu os mantenho ocupado, são muito lentos! — Karen gritou, com sucesso, já que, quase no mesmo instante, o idoso saiu do carro e começou a puxar a neve com a mão, jogando para longe. Em questão de minutos, já havia tirado o bastante para conseguir sair daquele lugar caótico.
— Venha, Karen! Podemos ir! — o idoso gritou. Karen voltou correndo para o carro. Felizmente, as criaturas, ou melhor, os zumbis, como Karen já tinha certeza de que aquilo não eram simples pessoas doentes, eram extremamente lentas e não foram um obstáculo tão perigoso para a garota de mechas vermelhas. Ela entrou no carro e em segundos já estavam na estrada, deixando para trás aqueles que queriam devorá-los.
Os planos haviam de ser mudados. Esther estava agonizando, Karen tentava acalmá-la. Trevolt não sabia para onde ir. Apenas tinha ciência de que aquilo que havia sido combinado com a mãe de Karen iria ser quebrado. Sua esposa era tudo para ele, como Herryson era tudo para Jessica. O sol começava a surgir por detrás das Montanhas Rústicas, iluminando os tristes acontecimentos repentinos que estavam acontecendo.
Continua...
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