Dark Blood

1 Discussões com sangue


11/05/2013 — 01h27min — Montanhas Rústicas — Cidade de Sankya (EUA)

Jessica bufava de raiva, enquanto dirigia sua Mercedes Benz. Jessica Lawge era uma empresária muito bem resolvida em sua vida profissional, mesmo que na vida familiar deixava a desejar, nos últimos dias. Morena, olhos verdes, 39 anos e com aparência de muito menos, já tinha sido modelo na adolescência, mas deixou a carreira por ter se apaixonado perdidamente. Karen, uma garota com visuais excêntricos e cabelos pretos com mechas avermelhadas, estava sentada ao lado de sua mãe. Karen também estava com a cara fechada, olhando para a paisagem obscura que estava naquela noite de sábado. A neve caía sem parar, atrapalhava a visão de qualquer motorista que estivesse naquela rodovia, naquela hora. Aparentemente, apenas mãe e filha estavam ali, no momento.

Karen movimentou sua mão até o botão de ligar o aparelho de som do carro. Aumentou ao máximo o volume, para irritar ainda mais a mãe. Estava tocando Back In Black, da banda AC/DC. Jessica foi rápida e desligou o som quase que no mesmo instante em que a filha ligara.

— Você só pode estar doida, Karen! — disse Jessica, com um tom ríspido.

— Doida é você que ainda se preocupa comigo como se eu ainda fosse um bebê. — a filha retrucou.

— E continuarei me preocupando, pois seus atos são tão infantis quanto os de uma criança mimada. Você só tem 15 anos...

— 16, daqui dois dias! — Karen interrompeu a mãe.

— ... e mesmo tendo ainda 15 anos, se acha a dona da verdade! — Jessica falou mais alto, para sintetizar a idade que Karen ainda tinha. — Quando chegarmos em casa, você vai ter que me explicar o porquê daquele rapaz, ou melhor, pirralho, sem camisa, oferecendo um copo de vodka para você, naquela festa onde só tinham meninos bêbados e garotas drogadas!

— Não tinha nada disso! Era apenas a festa de aniversário da minha amiga, poxa! — Karen gritou muito alto.

— Você disse que ia estudar na casa dela! Mas pelo visto, as aulas eram de como ser uma vädia mentirosa! — Jessica gritou ainda mais alto, enquanto olhou para o rosto de Karen.

— MÃE! Olha pra frente!

A última coisa que Jessica ouviu foi o grito desesperador de sua filha. Jessica estava com tanta raiva, que quanto mais gritava, mais acelerava o carro e menos atenção no trânsito tinha. Após o aviso da filha, Jessica olhou fixamente para a frente e viu um homem deitado no meio da estrada e um outro do seu lado, ajoelhado. Tarde demais. O carro atropelou os dois homens que ali estavam. A pista escorregadia desestabilizou o controle do carro, que acabou capotando, dando vários rodopios pela rodovia. Apenas parou quando acertou em cheio uma árvore de tronco grosso e firme. Ninguém estava ali para ajudar.

11/05/2013 — 03h01min — Montanhas Rústicas — Cidade de Sankya (EUA)

Os sons de gritos que momentos atrás eram emitidos na rodovia monótona das Montanhas Rústicas, agora estavam apenas na memória de Jessica. O silêncio mórbido era tão aterrorizante que soou como um alarme gritante para a empresária, que acordou assustada. O carro estava totalmente amassado. O airbag salvou a vida de Jessica. O impacto tinha sido muito forte.

— Ai, minha cabeça... Karen, você está bem? KAREN? — Jessica olhou para o banco onde Karen estava. A porta do passageiro estava aberta. O celular da garota estava sobre o banco.

Jessica começou a tremer. O frio era intenso e sua perna esquerda estava presa. Doía muito quando tentava puxá-la. A única iluminação naquele local eram os faróis, que ora funcionavam, ora falhavam. Jessica, após várias tentativas doloridas, conseguiu desprender sua perna das ferragens, mas ao puxá-la, a pele da coxa se rasgou, começando a sangrar e doer muito. Jessica também já tinha sido, em sua vida de sucesso, uma assistente de enfermeira, em seu estágio na faculdade, por isso sabia o que deveria fazer: pegou uma blusa que estava no banco traseiro, rasgou-o e amarrou fortemente no ferimento. Ainda doía, mas não sangraria tanto. Jessica pegou uma lanterna que tinha no porta-luvas e o celular da filha. Olhou para a foto que tinha no plano de fundo do aparelho celular. Caíram algumas lágrimas. A imagem continha ela, à esquerda, Karen, no meio, e o pai de Karen, Herryson, à direita. Os dois beijando Karen na bochecha, um de cada lado. Todos felizes. Jessica guardou o telefone no bolso da jaqueta de couro legítimo, limpou as lágrimas e saiu do carro, enquanto ligava a lanterna.

— Preciso encontrar Karen! Não lembro-me de como aconteceu este acidente... tudo está tão confuso.

Quando Jessica começou a olhar para os lados, pensando por onde começariam suas buscas pela filha, avistou um homem totalmente prensado entre o carro e a árvore que havia parado o acidente. Jessica iluminou-o e se aproximou mais para ver se ele estava vivo, mas sua situação comprovava o contrário e negava qualquer tipo de esperança: suas pernas estavam dilaceradas, sua coluna estava quase que totalmente exposta e seu rosto desfigurado. Jessica até tentou se aproximar e ver como poderia ajudar, mas o cheiro de podridão estava insuportável. "Como alguém que foi atropelado a poucas horas já estava cheirando a podre?", pensou Jessica. Ela virou-se, pensava, agora, só na filha. Mas, ao virar-se de costas para o homem, um gemido vindo dele foi ouvido por Jessica. A empresária voltou seus olhos, novamente, para o homem. Ele estava inquieto, batia forte as mãos no capô do carro e seus olhos fixos nos de Jessica. Ela estava apavorada. Não tinha como alguém, naquele estado, que em poucos momentos já estava em processo de putrefação, estar vivo. Jessica se aproximou dele. Queria ajudar. Ao colocar a mão perto de seu rosto, o homem ficou ainda mais inquieto. Tentou mordê-la, mas ela foi mais rápida, tirando a mão no mesmo instante.

— Que diabos está acontecendo?! Isto não é humano! — Jessica se afastou do homem.

Ela ainda olhava para ele, com medo, dando passos para trás. Jessica não percebeu que o outro homem que ela atropelara estava caído no chão, e acabou tropeçando nele, caindo de costas na grama fria e macia. Ela fixou sua lanterna no homem que estava caído. Ele estava com vários ferimentos nos braços e na cabeça. Pareciam mordidas. Jessica estava, agora, ainda mais preocupada...

Continua...