Dark Awareness

1 Capítulo 1 - Conhecimento Oculto


Minha Cabeça dói, não me lembro de nada, estou com medo e com frio, sinto algo áspero em minhas costas, a luz está diretamente em meu olho, abro as pálpebras vagarosamente, o sol está bem a minha frente... Espera... Estou deitado? Ah... Me Lembrei... Estou deitado no concreto, ao pátio da escola, não foi por vontade própria, essa gritaria, esses risos, foram estímulos para que o valentão me esmurrasse, minha cara lateja, meu olho arde, minha visão está embaçada, tudo que eu vejo são pessoas desfocadas e o sol na minha cara, o sinal bate repentinamente, e todo mundo que estava ali observando meu sofrimento correu para dentro do colégio, tentei me levantar, mas estava doendo muito e então acabei apagando ali mesmo...

Meu nome é Diego Tavares, 15 anos, sou estudante do Colégio Weinfield do primeiro ano do Ensino Médio, sou novo na cidade minha mãe aceitou uma proposta de emprego aqui e nos mudamos para cá a algumas semanas, não tenho amigos, não conheço ninguém, não conheço nada aqui, sou completamente sozinho, minha mãe fica o dia inteiro fora trabalhando e só nos vemos duas horas por dia, mesmo assim minha mãe não é das melhores... Desde a morte do meu pai ela entrou em depressão e não conversa muito comigo, não me dá muita atenção. Eu sou um cara baixinho, tenho apenas 1,65 metros, sou fraco e magrelo, e ainda tenho um cabelo esquisito e espetado, obviamente sou alvo constante de zoações, e ainda apanho para os valentões, não tem nem como correr, os caras são jogadores de futebol são muito mais rápidos e mais fortes do que eu, eu odeio futebol.

Acordei numa sala com cheiro de remédio, estou com muita dor de cabeça, deve ser a enfermaria, minha segunda casa dentro da escola, estou deitado na maca e sinto que tem alguma coisa grudada em cima do meu olho, deve ser um algodão úmido, está me irritando ao invés de ajudar, eu o retiro puxando e desejei não ter feito aquilo, a cola puxou a minha pele dolorida junto o que só piorou as coisas, me levantei, um pouco tonto ainda e caminhei em direção a saída, estranhamente não havia nenhuma enfermeira por perto, caminhando pelo corredor vazio até a minha sala foi uma tarefa fácil, difícil foi entrar nela, a aula era de matemática, da Sra. Smichtts, apesar dela já ter idade ainda é muito durona e rígida, ao abrir a porta da sala ela parou imediatamente a aula para gritar comigo, o que provocou risadas, e aumentou mais ainda minha dor de cabeça, eu me sento e fico quieto no meu canto, eu odeio este lugar, estou aqui a apenas uma semana e já estou sofrendo como se fosse uma eternidade, queira ser alto e forte pra bater nesses valentões que se acham o máximo, ou ser bonito para conseguir uma namorada e ser respeitado (E não ser sozinho também), minha vida estava um lixo, eu poderia morrer agora que não ia fazer diferença para ninguém... Nem mesmo para mim.

Passaram-se dois meses desde a mudança, apanhando todo dia, levando bronca dos professores por não fazer as tarefas de casa (São muito chatas e difíceis, eu simplesmente não consigo), era ignorado por todos, eu não conversava com ninguém, eu ainda tinha que ir e voltar a pé (E minha casa é bem longe da escola), eu só não paro de ir por respeito a minha mãe, que está pagando o colégio com o mísero salário que ela ganha, aposto que se eu estivesse num colégio público seria bem pior, eu já estaria morto... Literalmente...

Hoje um novo aluno vai entrar no colégio, coitado... Todo mundo sempre zoa os novatos em seus primeiros dias de aula, o sinal toca e todos então na sala, quando o professor entra com o aluno novo eu me espantei, (E a sala inteira também) o menino devia ter uns dois metros de altura, parecia ser bem forte, o cabelo grande dele cobria seus olhos, tinha uma expressão vazia no rosto, como se não temesse nada, era... Assustador, o professor inquieto olhando para sala se apressou em dizer:

— Bem turma... Esse é o nosso novo aluno, ele se chama... Ahn.. – O professor faz uma pausa, pega uma papel do bolso e diz – Quiti... Soro?

- Kytsuro Yahagami... – Disse o novo aluno meio inquieto, como se estivesse com vergonha, sua voz grossa fez eco na sala, provocando risadinhas nas meninas e alguns balbucios dos meninos.

- Certo, certo... – Disse o professor com um tom de desprezo como se estivesse perdendo tempo – Porfavor sente-se novato, hmm, parece que o único lugar disponível é aquele logo ali, atrás do... Como é mesmo seu nome rapaz? Daniel? – O professor aponta para mim.

- Diego... Sr. Perreira... – Disse baixinho... Como se quisesse que ninguém me ouvisse.

O professor simplesmente fez um gesto com a mão, como se quisesse dizer “Tanto faz, sente-se logo”, se virou e começou a escrever a matéria na lousa, era gramática... A que eu mais tinha dificuldade. O novo aluno se sentou logo atrás de mim, o que foi meio desconfortável pois ele não cabia naquele espaço, fazendo com que os joelhos dele empurrassem a minha carteira, mas decidi ficar quieto... Se já era horrível apanhar dos valentões não quero nem saber desse ai...

Uma longa e chata hora depois o sinal do intervalo bate, como sempre todos saíram correndo da sala, o que me fazia esperar e sair por ultimo para não ser atropelado, alguns minutos depois só estávamos eu, o professor e o novo aluno na sala, o professor estava arrumando suas coisas parecendo apressado para sair, o novo aluno nem se mexeu...

Eu levantei por fim, e caminhei até a saída, o novo aluno fez o mesmo logo atrás de mim, fiquei com um pouco de medo, pois mesmo caminhando até o corredor parecia que ele estava me seguindo, até que ele disse:

- Ei... Diego, certo? – Ele soltou um suspiro – Eu sou novo na cidade... Será que você pode me mostrar as coisas?

- Sinto muito... Err... Kytsuro... Eu também sou novo aqui, pra falar a verdade eu não conheço nada aqui...

- E seus amigos?

- Eu não tenho amigos...

- Ah... Sinto muito, eu não quis...

- Tudo bem... Já me acostumei com a ideia de ser solitário...

- Mas... E sua família? – O tom de Kytsuro pareceu falhar.

- Meu pai morreu há alguns anos... E minha mãe trabalha até tarde... E ela não tem irmãos...

- Ah... Sinto muito, eu não queria... – Ele cerrou os punhos, como se estivesse arrependido.

- Tudo bem, não se preocupe... Sério... Mas, e quanto a você grandão? De onde você veio?

Kytsuro apertou os lábios e baixou sua cabeça, como se estivesse olhando para o chão, o que não dava para saber, pois seu cabelo cobria seus olhos.

- Eu vim do Japão, meu pai abandonou minha mãe antes mesmo de eu nascer, e minha mãe morreu no parto, eu vivi em um orfanato até os 10 anos, até que um advogado me trouxe aqui para o Brasil, ou melhor, me abandonou aqui, pois fiquei morando na rua por uns dois anos, até que uma senhora idosa me deu um lar em troca de que eu fizesse as tarefas domésticas, ela gostou de mim e acabou me “adotando” como filho dela, ela quis que eu arrumasse um emprego e por isso me pois nessa escola...

Fiquei boquiaberto, ele falou isso como se já me conhecesse, disse sem medo.

- Nossa cara... Sinto muito, essa é uma história muito triste...

- Não se preocupe, eu também me acostumei com a solidão... Ei, o que são essas marcas na sua cara? Você andou apanhando?

- Ah, isso? Sim... Eu apanho todo o dia aqui... Sou o saco de pancadas da escola...

- Por quê? Você fez algo a eles? – Kytsuro ergueu o rosto, como se estivesse olhando para mim.

- Não, absolutamente nada, é só porque eu sou baixinho e magrelo, porque sou indefeso.

- Que covardia... Não acredito que façam isso com alguém... Muito menos sem motivo...

- Ei... Você tem aparência de valentão mas... É bem legal... Você não me bater vai? – Consegui dar um sorriso com o canto da boca.

- Não, fique tranquilo. – Kytsuro pareceu sorrir também.

O sinal toca, está na hora de voltar para sala... Parece que eu fiz um amigo...

Pareceu que aquele dia passou mais rápido, quando me dei conta as aulas já haviam acabado, como sempre logo após o sinal tocar o povo desesperadamente saiu correndo da sala, ficando apenas eu e Kytsuro.

- Então Diego... – Kytsuro se levantava cautelosamente para não levar a carteira junto – Você vai para casa agora?

- Eu acho que sim... Não tenho mais nada para fazer...

- Você quer... Tomar um sorvete? Acho que vi uma sorveteria a caminho da Escola. – Kytsuro colocou a mão no bolso, como se estivesse procurando algo.

- Ah... Tá bom, vamos lá então. – Sorri com o canto da boca, mas eu estava desconfiado, para falar a verdade estava com medo, porque um cara como esses ficaria meu amigo assim... De uma hora para outra?

- O que foi? Não está afim? – Kytsuro abaixou a cabeça.

- Ah, não foi nada não... Vamos. – Admito que fiquei sem graça.

Nós começamos a caminhar para fora do colégio, o dia estava quente, um monte de alunos ainda estava aos redores do colégio conversando com os amigos, provavelmente esperando seus pais os buscarem, seguimos na direção contrária da que vou para a minha casa, já tive um mal pressentimento, mas tentei parecer calmo afinal ele era meu amigo... Eu espero...

- Aconteceu algo Diego? Você está meio inquieto... – Kytsuro disse bem baixinho, como se estivesse com vergonha de que as outras pessoas o ouvissem.

- N-Não... Estou bem... É que essa é a direção contrária da minha casa, só isso... – Tentei parecer seguro, mas aposto que pela falha da minha voz dava para perceber que eu estava com medo.

- Não se preocupe, depois eu te acompanho até sua casa. – Kytsuro disse com tanta confiança que só me deu mais medo ao invés de segurança.

Eu sempre fui um cara medroso, detesto isso porque isso sempre me impede de fazer as coisas, de ter amigos, de expressar minhas ideias, de experimentar coisas novas... Eu admiro quem é corajoso.

Andamos apenas alguns metros quando um grupo de seis garotos apareceu na nossa frente, eram os valentões que me batiam todo dia, que ódio desses caras. Era um maior e mais forte que o outro, mas nenhum deles alcançava Kytsuro, eu dei uma passo para trás, mas meu amigo grandão não mexeu sequer um músculo, o líder desse grupo deu um passo para frente e logo disse:

- Ora, ora... O que temos aqui? Dois novatos cruzando nosso território? Vocês estão malucos? – A voz dele era irritante, falava de um jeito puxado como se estivesse forçando a voz para parecer um marginal.

- Que eu saiba essa é uma rua pública, não é propriedade de ninguém, muito menos vocês. – Kytsuro disse isso num tom calmo sem deixar a voz falhar, a voz grossa dele somente aumentou a firmeza em sua fala, que assustou um pouco os outros garotos, inclusive eu, que já estava suando e pensando “Vamos morrer... Estou morto, já era”.

O garoto do meio levantou uma sobrancelha e disse:

- O que disse? Está me desafiando? Não vá achando que só porque você é grande que você mete medo não, eu te derrubo com as mãos nas costas mané... Tá a fim de morrer agora mesmo?

- Quero ver você tentar. – Kytsuro endireitou as costas, o fazendo parecer ainda mais alto, com o peito estufado ele parecia ser uma armadura feita de pele e músculos.

O tempo parou para mim aquela hora, vi minha vida passar pelos meus olhos, o que não demorou muito pois todos meus dias foram iguais, mesmo antes dessa cidade. De volta a realidade eu estava tremendo e suando frio, queria gritar para minha mãe e sair correndo, mas eu mal conseguia me mexer, Kytsuro estava imóvel não dava para ver seus olhos mas a expressão em seu rosto era de pura confiança, eu estava com muito, muito medo mesmo.

- Hahahaha, vejam só pessoal um piadista! Bom, vamos pagá-lo pelo seu show, acabem com ele, não quero sujar minhas mãos com esse inútil.

Ele se afastou e os outros começaram a avançar, já levantando seus punhos cerrados, eu queria gritar para Kytsuro correr mas eu não conseguia, e tudo o que ele fez foi ficar parado, os garotos avançaram e começara a soca-lo, no braço, no estomago, no peito, no rosto, chutando suas pernas e entre elas também... O que mais me assustou não foi a violência dos garotos, foi Kytsuro, que ficou imóvel sem expressar absolutamente nada de dor, parecia que não estava acontecendo nada a ele, os garotos foram cansando, e seus socos foram parando aos poucos, todos estavam boquiabertos, surpresos com o que viam, o líder que havia se afastado apesar de estar surpreso faz um gesto de desprezo e diz:

- Uhn, Vocês são muito fracos, deixe-me mostrar-lhes como se briga de verdade. – O desgraçado puxou um canivete do bolso, agora eu tinha certeza, ia perder meu único amigo.

Ele avançou rapidamente e antes que eu pude perceber eu havia me jogado na frente de Kytsuro, espantado por essa ação espontânea o valentão parou bruscamente, mas a lâmina passou raspando pela minha face, um pouco abaixo do meu olho esquerdo, senti o sangue escorrendo pelo meu rosto e antes que eu pudesse cair Kytsuro me segurou pelo ombros.

- Ora, Ora, isso foi inesperado, quer mesmo morrer antes do grandão ai? Imbecíl. – O desgraçado estava rindo, com o canivete ensanguentado em mãos.

Ouvi um grunhido de raiva, quando olhei para cima vi Kytsuro com uma expressão de puro ódio, ele me soltou e andou na direção do valentão, que logo parou de rir e empunhou o canivete para cima, quando ele estava prestes a ataca Kytsuro segurou seu pulso, eu não estava na pele dele mas até eu senti sua dor, o pulso do valentão estralava e ele urrava de dor, Kytsuro parecia estar o esmagando com força bruta.

- Pare! Pare! Você vai quebrar meu pulso! – Incrível mas ele começou a chorar.

- Você não tem respeito pelos outros, porque eu deveria respeitar você? – Kytsuro soou mais sério do que antes.

Antes que o valentão pudesse dizer ou fazer qualquer coisa Kytsuro torceu a mão, provocando um baita de um estralo, o que eu aposto que não quebrou apenas o seu pulso, mas sim seu braço inteiro. Nessa hora os outros cinco que observavam a cena horrorizados saíram correndo, o grito que o valentão soltou foi o suficiente para parar a rua inteira, fazendo todos olharem para nós.

- Desgraçado! Eu vou te matar! EU VOU TE MATAR! – Com a outra mão ele puxou um revólver da cintura e apontou na cabeça de Kytsuro.

Rapidamente Kytsuro empurrou a arma para o chão com a outra mão, o impacto foi tão forte que fez o corpo do valentão dar um giro, torcendo ainda mais seu braço quebrado.

- AHH! MALDITO! – Ele gritava desesperadamente, eu até fiquei com um pouco de dó dele, parecia estar sofrendo muito, as pessoas ao redor não se atreveram a se aproximar, apenas olhavam horrorizadas.

Kytsuro por fim o empurrou para o chão e se virou na minha direção, nunca tinha sentido tanto medo na minha vida.

- Você está bem? – Perguntou ele com muita calma.

- Sim... O que aconteceu? Como você está? – O corte em meu rosto sangrava e ardia muito, mas eu estava ligando mais para o que aconteceu com Kytsuro.

- Estou bem, sinto muito por tudo isso, acho que deixei a raiva me levar, não posso deixar um amigo se ferir na minha frente.

A palavra “amigo” bateu em mim mais forte do que um soco, um cara ariscou a vida por mim, sem mais nem menos, e ele foi muito corajoso, como eu já mais vi uma pessoa ser.

- Cara muito obrigado, eu te devo essa... Mas você está bem? Você levou muitas pancadas.

- Estou bem sim, sabe esses anos que eu morei na rua me ensinaram a me defender, enfim, e quanto a esse corte ai? Venha, vou te levar ao hospital.

- Certo, está doendo bastante...

Mesmo com aquela confusão toda, nós saímos andando tranquilamente, ninguém ousou falar nada muito menos nos impedir de sair dali, olhei para trás por um instante e vi algumas pessoas ajudando o valentão caído no chão se contorcendo de dor pelo braço quebrado... Quebrado? Devo dizer estilhaçado, o braço dele estava dobrado em tantos lugares que nem seria legal se eu o descrevesse.

Andamos até o hospital, fui atendido... (Depois de algumas horas esperando, parece que mesmo com uma ferida exposta no meio do rosto eles não lhe dão preferência nenhuma), Agradeci Kytsuro por tudo e me despedi dele, corri para casa porque já estava muito tarde, minha mãe pode não demonstrar afeto por mim, mas ela fica muito preocupada quando eu sumo, e começa a entrar em pânico.

No caminho de casa eu vi algo estranho, não sei descrever porque foi tudo muito rápido, um vulto passou por mim desaparecendo em um beco, a velocidade era incrível, e tinha a altura de uma pessoa, não parecia ser nenhum animal... Não que eu conheça. Eu estava com pressa então não liguei muito para isso, simplesmente continuei meu caminho, havia corrido apenas metade do caminho e eu já estava exausto... Sem contar que eu não sou rápido.

Finalmente chego em casa, mas para a minha surpresa minha mãe não está lá... Olhei em todos os cômodos e gritei pelo seu nome, mas não havia ninguém lá, nem o carro estava na garagem, procurei por bilhetes ou algo parecido, mas não encontrei nada fora do comum. Tentei relaxar e não ligar muito para isso, minha mãe deve ter ido fazer compras ou algo assim e eu já tinha mais coisas para me preocupar, o incidente de hoje com certeza não acaba aqui, eles vão querer se vingar, aposto que serei o primeiro. Vou até a cozinha para pegar algo porque estava faminto, para minha surpresa havia uma barra de chocolate, pode não parecer muito mas é como um banquete quando sua geladeira fica vazia constantemente, pego um copo de água, abro o pacote da barra e me jogo no sofá, ele é tão desgastado que chega a ser bem desconfortável, mas pelo menos é melhor que o chão. Ligo meu videogame (Um SuperNintendo caindo aos pedaços) mas logo após liga-lo a energia da casa acaba, fiquei tão irritado que atirei o copo na parede, desejei não ter feito aquilo pois agora eu estava no escuro com cacos de vidro no chão molhado. Devorei minha barra de chocolate e fui pelo lado oposto ao que eu havia atirado o copo, a janela da cozinha estava aberta, fazendo com que a lâmpada da rua iluminasse um pouco aquele local, me aproximei para ver se havia alguém na rua, mas estava um silêncio mortal, o que não é estranho porque aquela rua é praticamente deserta. Estou com sono e cansado de tudo que passei hoje, acho que vou ignorar tudo isso e ir dormir, estou preocupado com a minha mãe, mas espero que ela esteja bem, apaguei imediatamente assim que deitei na cama.

Sonhei que eu estava em um quarto bem diferente de qualquer um que eu já mais vira, era todo feito de mármore branco com detalhes entalhados como se estivessem sido feitos a mão, uma leve névoa flutuava sobre o chão, a sala estava vazia somente comigo no centro, eu me sentia leve como se pudesse flutuar, dessa vez eu estava consciente de que era um sonho, quem sabe eu não poderia controla-lo? Eu imaginei uma espada de lâmina de titânio negro com cabo de magma sólido e detalhes em prata, sempre gostei de armas medievais e de magia, gosto dessas histórias ficcionais, é o assunto que eu mais leio sobre. Mas não é que a espada apareceu em minha mão mesmo? Exatamente do jeito como eu imaginei, fiquei entusiasmado, queria criar tantas coisas, fazer tantas coisas, ser rei do meu próprio mundo! Mas... A sala começou a tremer e a rachar, parecia que iria desabar a qualquer momento, mas não havia saída. Rapidamente o teto de mármore branco desabou em mim, me fazendo acordar na mesma hora.

Estava tendo uma tempestade de raios lá fora, era um clarão atrás do outro, um estrondo maior que o outro, obviamente fiquei com medo, ainda mais de raios que é um dos meus pavores mortais. Tentei acender a lâmpada do meu quarto, mas ainda estávamos sem luz. Abri a porta do meu quarto e desci a escada bem devagar chamando por minha mãe, mas ninguém respondia, foi quando ouvi pancadas desesperadas na porta, não sei o que deu em mim, apesar de estar com muito medo eu abri a porta mesmo assim. Havia uma garota encharcada com um cabelo moreno comprido, olhos verdes provavelmente da mesma idade que a minha e aproximadamente uns 10 centímetros maior do que eu. Eu fui tentar dizer algo quando de repente ela me cortou, gritando:

- Temos que sair daqui! AGORA! Siga-me se quiser viver. – Ela agarrou o meu pulso e me puxou para fora, o que não deve ter sido difícil para ela.

- Espere! O que está acontecendo aqui? – Entrei em desespero na hora! Que papo é esse de vida ou morte?

- Não temos tempo Diego! Temos que te tirar daqui agora! – O fato de ela saber o meu nome me assustou ainda mais, acabei não resistindo e a segui embaixo da chuva.

Mal acreditei que a minha casa simplesmente explodiu enquanto estávamos a apenas alguns metros dela, fiquei imóvel olhando para ela, sem saber nem o que pensar. Mas a garota me puxou e por impulso acabei seguindo ela, sem olhar para trás dessa vez...

Algumas horas depois eu me sentia completamente perdido, não fazia a mínima ideia da onde estava, a garota era muito mais rápida que eu, mal conseguia acompanha-la até que enfim paramos em frente a uma casa particularmente bonita, enfeitada e organizada, é claro que uma tempestade arruína qualquer paisagem. Ela foi logo entrando na casa, que com um pouco de receio fiquei parado ali na frente, mas me apressei a entrar logo que ela me lançou um olhar furioso. Logo ao entrar já achei o lugar fantástico, era muito bem organizado e limpo, coisa que definitivamente minha casa não era (E nunca mais será) porque eu não ligava a mínima e minha mãe não tinha tempo, minha mãe! O que aconteceu com ela? Eu devia estar viajando em meus pensamentos porque não percebi que tinha alguém falando comigo até a garota beliscar o meu braço.

- Ai! Isso doeu! – Isso soou infantil, desejei não ter falado aquilo.

- Tenha mais respeito – Disse a garota indiferente.

- Ora, Ora tudo bem... – Disse uma senhora em uma cadeira de balanço sentada a minha frente. – Sente-se meu jovem, coma um biscoito.

Havia uma bandeja de biscoitos numa mesinha perto de uma cadeira em frente à lareira que estava próxima a senhora na cadeira de balanço, a menina sentou-se em outra cadeira perto da porta, apesar da expressão séria em seu rosto eu podia perceber que ela estava preocupada com alguma coisa.

- Então meu jovem, você é o Diego certo? Diego Tavares? – A voz da senhora tremia um pouco.

- S-Sim... Como a senhora sabe o meu nome? – Minha voz tremia, eu não tinha ideia do estava acontecendo.

- Ah... Eu sei de muitas coisas meu jovem... Meu nome é Mirtes Avelares, mas pode me chamar de vovó. – A senhora deu uma risada simpática que fez até a garota dar um risinho com o canto da boca, educadamente também sorri.

- Certo, erm... Será que a senhora... poderia me explicar o que está acontecendo por favor? – Eu dava uma mordida nos biscoitos, falava, dava outra mordida... Eu sei que é falta de educação, mas os biscoitos estavam deliciosos e eu estava faminto.

- Meu jovem, você teve um sonho em uma sala fechada? Vazia dentro?

- Sim... Foi a pouco tempo. – Eu estava realmente desesperado, o que estava acontecendo? Como ela sabia de tudo aquilo?

- Você criou alguma coisa dentro dessa sala? – A expressão dela ficou séria.

- Sim... Eu imaginei uma...

Repentinamente eu fui cortado por alguém entrando na sala.

- Vovó Mirtes! Achamos mais um! – Era um garoto um pouco mais alto que a menina, mas com certeza mais velho, ele tinha uma barbicha e um topete meio bagunçado por causa da chuva, mas parecia ainda estar inteiro, porque deveria usar spray de cabelo, gel ou algo do tipo.

A menina logo apertou as mãos e desviou o olhar, o cara da barbicha parecia desesperado, e vinha mais alguém atrás dele, era alguém bem alto... Não pode ser... Era Kytsuro!

Ele parecia estar bem calmo, mas foi logo perguntando:

- O que está acontecendo? – Sua voz saiu fraca e cansada.

- Espere sua vez Kytsuro! Achamos mais um perto da ponte! Marcos está tentando trazê-lo para cá, mas ele está resistindo! – O cara da barbicha soou bem desamigavel, mas falou como se já conhecesse Kytsuro.

- O que está havendo? Você conhece esse pessoal Kytsuro? – Levantei logo em seguida, limpando a boca na manga da camisa.

- Por favor acalmem-se, Jonathan vá ao encontro de Marcos e traga ele e o novato em segurança, Alessandra prepare quartos para os novos hóspedes, Kytsuro traga meus remédios por favor. – A senhora tremia apesar de sua expressão parecer bem calma.

O nome da menina era Alessandra? Interessante, achei um nome bonito.

Será que essa é a senhora do qual Kytsuro havia me falado? Mas se tem outras pessoas aqui como ele viveu sempre sozinho?

- Diego, entenda uma coisa meu jovem, coisas horríveis estão por acontecer, e nós vamos precisar de toda a ajuda possível, você provavelmente vai achar loucura o que eu irei te dizer, mas nós não temos tempo... Você também Kytsuro, preste atenção.

As portas e janelas se fecharam sozinhas eu uma leve névoa cobriu o local, me deixando em pânico na hora.

- Todos os seres humanos possuem habilidades, algumas mais extraordinárias que as outras, mas existem ainda alguns em que essas habilidades são sobrenaturais, geralmente pessoas que possuem tais poderes ficam loucas e se excluem da sociedade, outras ainda conseguem fugir para outras dimensões, outras... Bem, fazem coisas ruins...

Os que conseguem controlar sua sanidade geralmente buscam elevar a potência de seus poderes... Alguns outros poucos simplesmente desistem e tentam esquecer que são diferentes. Diego, sabemos que sua aura é diferente, você só tem que acordá-la, Kytsuro infelizmente sua aura é oculta, não sei te dizer se você também é assim, mas posso dizer que você é diferente.

- Espere! O que está dizendo? Que eu sou um mutante ou algo assim? – com certeza eu não estava acreditando naquilo, loucura!

- Vovó... Os outros que moram nessa casa... Também são anormais? – Kytsuro parecia estar acreditando.

- Sim meu filho... Mas nós preferimos nos denominar... Kotonarus...

- Kotonaru? Diferente em japonês?

- Precisamente Kytsuro... Entre os Kotonarus existem três divisões, os Kyotsu que significa “comum”, os Sentaku que significa “escolhido” e os Hanrei que significa “lenda”. Não posso definir um Kotonaru somente olhando para ele, temos de fazer testes, Diego, Kytsuro, vocês aceitam abandonar suas vidas como estão e tentar entrar para um mundo totalmente diferente com coisas chamadas “irreais” em seu mundo?

- Espera um pouco! Isso é algum tipo de pegadinha? Minha mãe está desaparecida e minha casa explodiu e você vem me falar de aberrações com superpoderes? O que está acontecendo?

- Diego... – Mirtes falava com um tom doce – As leis antigas dizem que todos os Kotonarus devem descobrir quem são por si próprios para que não acabem ficando loucos, mas infelizmente essa lei foi quebrada por muitos que seguiram o caminho do mal, denominados Kage-Kotonaru, eles recrutam mais e mais a cada dia, por isso nós estamos tendo que quebrar as leis também para tentar equilibrar os lados, isso vai gerar um grande conflito para os dois mundos, mas pelo menos é melhor que estejamos preparados para que o lado das trevas não consuma a luz. Diego, eu sei que deve ser difícil de acreditar, mas precisamos de sua ajuda.

- Tá... Então eu sou... Ahn... Diferente? Certo, mas infelizmente eu não tenho nenhum poder, eu não sou forte, eu não sou rápido, eu não sou inteligente, eu não sou nada! Eu sou inútil! Sinto muito, mas eu não posso te... Ajudar... – Me senti mal por falar assim tão friamente, mas era a verdade, o que eu poderia fazer? Nem para sair correndo eu serviria.

- Diego – Kytsuro falou seriamente – Olha... Você não é inútil, ganhou essa cicatriz ai para me defender, infelizmente ela é culpa minha mas você foi muito corajoso nessa hora, eu mal acreditei, quem sabe esse é o seu poder? A coragem! – As palavras de Kytsuro foram inspiradoras mas...

- Você está maluco? Eu sou o maior medroso do mundo! Eu não tenho a mínima ideia de como eu fiz aquilo mas eu duvido eu consiga fazer algo assim de novo, e se fizer provavelmente não sairia vivo.

Kytuso abriu a boca, mas antes que ele pudesse falar a garota abre a porta, fazendo a névoa se dissipar, ela entra na sala e diz:

- Os quartos estão prontos, Jonathan e Marcos ainda não retornaram.

- Certo, meus queridos, porque vocês não dormem um pouco? Descansados vocês pensam melhor sobre o assunto, e me dizem o que irão escolher... Mas por favor se apressem, eu não quero parecer chata, mas a situação está difícil...

- Certo vovó... – Kytsuro se virou e caminhou em direção a saída, a garota estava do lado da porta, provavelmente me esperando para mostrar o quarto.

Despedi-me da senhora e segui Alessandra até o quarto, não prestei atenção no que havia nele e logo após que a garota saiu eu deitei na cama e apaguei.