Dark Angel

8 Capítulo VII - Neverland


Notas iniciais
Eu andei ocupada... desculpa?

Quinn estava escrevendo no notebook quando Rachel apareceu na porta do escritório que a loira mantinha em casa.

– Incomodo? – Perguntou timidamente.

Quinn ergueu os olhos antes de sorrir e acenar para que ela entrasse.

– Não, eu estava justamente lhe esperando. – Se levantou dando a volta na mesa. – Achei que tivesse esquecido.

– Nunca. – Sorriu apertando a mão da loira e se sentando na cadeira que lhe era indicada, Quinn se sentou ao seu lado. – Eu estava tentando localizar as pessoas que possuem os direitos autorais da peça…

– Conseguiu? – A loira perguntou sorrindo.

– Sim, é uma senhora que mora no interior da Escócia, parece que o marido dela era descendente do escritor o senhor Barrie.

– Descendente? Ele não teve filhos. – A loira comentou. – E se eu não me engano ele doou ainda em vida os direitos autorais para um hospital infantil.

A morena franziu as sobrancelhas parecendo frustrada.

– Não acredito que eu fui enganada. – Resmungou arrancando uma leve risada da outra.

– Não se martirize querida. – Quinn estendeu a mão tocando o braço de Rachel. – Pode ser que um descendente dos garotos Davies tenha adquirido os direitos posteriormente.

Rachel continuou carrancuda fazendo com que a loira se levantasse e pegasse alguns papéis sobre a mesa.

– Eu achei a sua proposta interessante… principalmente quando analisei melhor alguns dados. – Se sentou outra vez. – Realmente ocorre uma melhora significativa quando as crianças se “distraem” de seus tratamentos, é como um efeito psicológico milagroso.

– Sim, eu acabei fazendo uma pesquisa, o que incluiu um vasto questionário ao meu pai.

– Ele é médico? – Quinn inclinou a cabeça demonstrando curiosidade.

– Psicólogo infantil. – Rachel respondeu sorrindo.

– Bem, seria maravilhoso se ele pudesse nos ajudar. – Quinn manteve a cabeça inclinada. – Talvez ele possa vir trabalhar para mim, em um dos hospitais da Fundação Fabray.

– Dúvido. – Rachel gargalhou. – Papai não trocaria Lima por nada no mundo.

– Nem pela oportunidade de ficar com você? – Quinn franziu as sobrancelhas.

– Meus pais gostam da vida na cidade pequena. – Rachel respondeu.

– Hn… — Quinn franziu as sobrancelhas. – Não sei se conseguiria, mas considerando que não saio de casa.

– Eu acho que seria saudável você sair um pouco mais de casa, a primavera está chegando e a cidade está linda. – Rachel a tocou no braço.

Quinn deu um pequeno sorriso e se levantou andando até a janela.

– Minha esposa amava a primavera. – Comentou olhando pela janela. – Não sinto vontade de sair. Não tem nada pra mim lá fora.

Rachel respirou fundo até a loira conseguir lhe encarar outra vez.

– Perdão. – A loira murmurou. – Vamos almoçar?

Rachel sorriu se levantando enquanto a loira se aproximava.

– Eu ainda vou achar um motivo para você sair. – Rachel sorriu enquanto a loira abria a porta.

– Soube que a senhorita está cotada para o Tony deste ano. – Quinn lhe ofereceu um pequeno sorriso.

– É o que dizem os críticos. – Rachel deu de ombro.

– Não está me parecendo muito animada com isso.

– Me sinto mais animada com o nosso projeto do que com a premiação. – Rachel se adiantou pegando o jornal que estava sobre a mesa de centro.

Quinn parou mais atrás observando a reação da mulher, Rachel tencionou o maxilar olhando a página.

– Não gosta dessa… justiceira? – Questionou.

Rachel desviou os olhos do jornal para encarar Quinn.

– Ela me salvou. – A diva retrucou antes de olhar para o retrato falado. – Apenas sou grata a ela e sei que algumas pessoas também são.

Permaneceram se olhando por um instante antes da loira indicar a sala de jantar. A morena soltou o jornal e caminhou ao lado de Quinn.

– O que você acha? – Rachel perguntou assim que Quinn afastou a cadeira para ela. – Dessa justiceira como você mesma diz.

– Eu não sei… — Se sentou ao lado da diva. – Como ela se chama mesmo?

– Dark Angel. – Respondeu automáticamente.

– Isso… — Quinn deu um pequeno sorriso. – Acho complicado… parece ser uma mulher com grandes desequilíbrios emocionais.

– Eu não acho. – Rachel contrapôs, passaram a se servir. – Acho que ela cansou.

– Cansou de que?

– De esperar por uma justiça que não vem. – A morena sussurrou. – Não entende?

– Melhor do que você imagina. – Quinn falou com a voz baixa e rouca.

Um arrepio percorreu Rachel junto com uma sensação famíliar.

– Desculpe. – Rachel pediu.

Quinn acenou com a mão sinalizando que a conversa havia se encerrado, a loira fitava o prato enquanto a morena encarava o seu perfil.

– O que você pensou para a peça? – Quinn perguntou com a voz moderada.

Rachel levou alguns segundos para perceber a mudança de assunto, tomou um gole d’água para limpar a garganta.

– Eu queria lhe pedir algo. – A morena deu um pequeno sorriso.

– Claro. – Quinn acenou com a cabeça. – Você saria uma Wendy perfeita.

Rachel soltou uma risada negando com a cabeça.

– Sininho então?

– Nem uma coisa e nem outra. – Rachel sorria tímidamente.

– Peter então. – Quinn concordou com a cabeça.

– Eu não quero atuar e sim dirigir a peça. – A morena falou com calma.

Quinn limpou a boca antes de se virar para a morena.

– Dirigir? – Repetiu. – Tem certeza?

– Quero aprender, quero aprender mais. – A morena encarou os olhos verdes. – Preciso me desafiar.

– Muito bem. – Quinn falou pausadamente. – Irá dirigir e produzir.

A morena sorriu concordando com a cabeça.

– Obrigada. – Sussurrou.

– Sou eu que agradeço. – A Fabray afagou suavemente o dorso da mão de Rachel. – Vamos almoçar e depois iremos falar de negócios.

*

Rachel recolhia os papéis com a ajuda de Quinn.

– Leve o motorista. – Quinn entregou o maço que segurava. – Darei ordem para que ele fique a sua disposição para o que precisar.

– Não precisa. – Rachel olhou para o relógio.

– Eu insisto. – Quinn a segurou pelo pulso.

– Quando você vai assistir a minha peça? – Rachel soltou de supetão.

Quinn soltou uma risada fraca, pegou o casaco de Rachel e o abriu insinuando que iria ajudar a morena a se vestir.

– Este seria um bom motivo para sair. – Rachel passou os braços pelas mangas do casaco. – Kyle disse que Annabelle amava a arte.

– Sim, ela amava. – Quinn respondeu. – Me diga porque insistem em usar minha falecida esposa como motivo para me forçar a fazer coisas?

Rachel se virou devagar, seus olhos levemente arregalados.

– Me desculpe, eu não quis… eu… me desculpe.

– Não se preocupe. – Apoiou as mãos nos ombros de Rachel. – Tenho certeza que Annabelle iria insistir para que eu a levasse para assistir a sua peça. Mas eu não tenho vontade de fazer isso sozinha.

– Te faz sentir mais saudade. – Rachel sussurrou.

– Sim.

– Eu sentendo a teoria, mas não consigo assimilar totalmente o sentimento.

Quinn ajeitou o casaco de Rachel, seus dedos roçaram contra a pele morena causando um arrepio involuntário.

– Um dia… um dia eu irei conseguir ir ver uma apresentação sua. – Quinn recuou as mãos e deu um pequeno sorriso.

– Eu estarei esperando por isso. – Rachel sussurrou sem conseguir desviar os olhos do verde intenso que Quinn exibia.

– Senhora? – Dave apareceu na porta do escritório. – Edgar já está esperando a senhorita Berry.

– Obrigada Dave. – Quinn abriu um sorriso um pouco maior. – Entrarei em contato com o dono do teatro como me pediu, espero que o seu cunhado possa fazer o figurino. Eu pago todo o material e a mão-de-obra é claro.

– É… — Rachel murmurou ainda em transe, balançou a cabeça dando um sorriso sem graça. – Claro… eu vou… falar com ele.

Quinn inclinou a cabeça com um sorriso calmo.

– Tenha uma boa noite. – Sussurrou. – Quebre a perna?

Rachel soltou uma risada fraca.

– Posso te abraçar? – Pediu de braços abertos.

Quinn a puxou pela cintura a envolvendo em um abraço firme e seguro.

– Boa noite Quinn. – Rachel sussurrou.

*

Seus joelhos cederam diante do contato de seus pés com o solo.

– Solte-a. – Sua voz rouca veio por debaixo do capuz.

O beco sujo e escuro era preenchido pelo barulho dos carros e os soluços fracos da adolescente que mal deveria ter 16 anos. O rosto do homem que a imprensava contra a parede estava coberto por sombras.

– Não se meta. – O grunhido da voz masculina.

– Resposta errada. – Dark Angel respondeu puxando uma flecha da aljava e a encaixando no arco.

O homem urrou quando a ponteira rasgou a carne da panturrilha e o sangue quente empapou as roupas.

– Corre. – Mandou, mas a menina não se moveu, estava paralisada pelo pânico.

Dark Angel deu um pique, impulsionou os pés e prontamente acertou um chute na lateral da cabeça do sujeito. A faca caiu no chão com um tilindar, olhou para o homem se aproximando, agachou segurando a cabeça dele. O filete de sangue escorreu pelo nariz.

– Saia daqui. – Mandou sem olhar para a menina. – Corra.

Deu as costas para a menina e o morto andando até o final do beco, agarrou uma escada de incêndio e se içou.

O vento fraco tocou o seu rosto quando chegou ao topo do prédio, correu até a lateral e pulou para o outro prédio com um salto gracioso. As sirenes dos bombeiros chamou sua atenção, um clarão fora do comum estava a sua esquerda. Um incêndio. Puxou o capuz se aproximando da lateral, abaixando-se contra as sombras. Era um teatro antigo, mal cuidado para aquela área da cidade. Os bombeiros tinham tudo sobre controle.

*

Rachel se movia pelo camaraim agitada, mal notando a entrada de Finn e os seus chamados.

– Rachel. – A agarrou pelos ombros. – Por Deus, estou aqui falando com você.

– Eu… eu não tinha te visto. – A morena balbuciou.

– Percebi. – Finn franziu as sobrancelhas. – O que foi?

– Eu estava pensando. – Rachel balançou a cabeça. – Vamos?

– Hn… — O homem mateve os olhos atentos. – Kurt e Sam nos esperam no restaurante.

– Claro. – Rachel murmurou sem realmente ouvir o que ele dizia. – Vamos?

Finn a abraçou pelos ombros a conduzindo para fora, Rachel permanecia absorta em seus pensamentos.

– Senhorita Berry. – Edgar a chamou. – Pronta para ir?

Finn estreitou os olhos apertando a mandíbula.

– Obrigada Edgar, mas essa noite eu estarei acompanhada pelo meu noivo. – Rachel respondeu com um sorriso com um sorriso amistoso.

– Eu posso leva-los. – Edgar prontamente se ofereceu. — A senhora Fabray…

– Vamos com o meu carro. – Finn o cortou irritado.

Rachel encarou o noivo antes de olhar para o motorista que permanecia parado encarando o Hudson.

– Eu agradeço Edgar, mas esta noite terei que declinar. – Rachel deu um pequeno sorriso.

– É claro. – Edgar sorriu para a morena antes de estender um cartão. – A senhora Fabray pediu para que a senhora guarda-se o meu número, para garantir que sempre que seja necessário a senhora tenha um carro a sua disposição.

– Obrigada. – Rachel recolheu o cartão. – Boa noite.

– Tenha uma excelente noite senhorita. – Edgar lhe deu um olhar caloroso antes de sair.

Finn aprumou os ombros enquanto Rachel se afastava para atender uns poucos fãs que ali estavam. Ele deu as costas e fora pegar o carro, achava o cúmulo a ousadia do motorista e estava ainda mais pocesso com todo aquele cuidado da Fabray. Havia aceitado que Kyle queria ajuda para trazer alguma sanidade a mulher, aceitando em termos, estava mais disposto a participar daquilo para poder manter um olho no Kingston. Tinha plena certeza que o homem iria tentar seduzir Rachel em algum momento, mas agora… agora talvez ele devesse se preocupar com a Fabray. A mulher parecia encantada com Rachel e todo aquele cuidado e atenção poderia muito bem virar a cabeça da morena.

Estacionou observando o sorriso da Berry enquanto tirava fotos. Em partes aquela aproximação pudesse lhe ser vantajosa se soubesse como manejar a situação. Ligou o carro quando Rachel abriu a porta e se acomodou ao lado dele.

A morena mordia a parte interna da bochecha reprimindo a torrente de palavras que queria jogar encima dele.

Finn manteve um leve sorriso nos lábios, tinha que aprender a controlar a situação.

– Como foi a apresentação? – Perguntou atencioso.

– Boa, você deveria assistir alguma. – Rachel retrucou ainda olhando pela janela.

– Mas eu já assisti. – Finn sorriu, soltou o volante e acariciou o joelho da morena. – Sua noite de abertura, estava na primeira fila como estive em todas as suas apresentações.

– E nunca mais foi. – Rachel zombou rolando os olhos, ele não se incomodou. – Mudamos algumas coisas desde então, e aprimoramos outras.

– Está certo, estou sendo muito relapso. – Finn prontamente se desculpou. – Irei ver amanhã e depois podemos jantar no seu restaurante favorito, o que acha?

– Pode ser. – Rachel concordou sem entusiasmo.

– Vai ser bom, tem tempo que não temos uma noite só nossa. – Finn sorriu a acariciando na coxa antes de voltar a mão para o volante. – Sinto falta disso e prometo ter mais tempo e prestar mais atenção.

Rachel virou o rosto para encara-lo.

– E o que está ocasionando todas essas mudanças? – Rachel perguntou desconfiada.

– Eu andei pensando e decidi que poderia ser um namorado melhor. – Ele encolheu os ombros. – Cansei de brigar por qualquer motivo, eu te amo Rachel e quero ter uma família com você. – Sua voz adquiriu um tom mais sério. – Quero estar a sua altura e não quero perder você por idiotices minhas.

– Então você percebe que a sua grosseria com o Edgar agora a pouco foi ridicula? – Rachel acusou irritada.

– Me pegou de surpresa. – Finn se defendeu. – Mas assim, foi errado e eu irei pedir desculpas nas próxima vez que o vir.

A morena arqueou as sobrancelhas, agora ele havia a pegado de surpresa.

– Ok. – Rachel comentou sem acreditar.

Finn sorriu estacionando o carro.

*

– Então você vai dirigir uma peça? – Finn questionou servindo mais vinho na taça do irmão que encarava a cunhada abismado. – Porque não me disse que queria isso?

Rachel sorriu timidamente antes de encolher os ombros.

– Estou com esse desejo desde a última temporada, mas não achei que fosse levá-lo adiante. – Rachel explicou. – Então, hoje pela primeira vez eu verbaliziei isso e Quinn foi extremamente gentil em concordar.

– Mas você não vai receber reconhecimento por isso. – Finn contrapôs.

– Não quero reconhecimento e sim aprendizado. – Rachel tomou um gole de vinho. – E eu gostaria muito da ajuda de vocês dois.

Kurt arqueou as sobrancelhas antes de se virar para o namorado, os cabelos loiros cortados curtos, olhos azuis firmes e lábios rosados e grossos.

– Nossa ajuda? – Sam comentou com um sorriso. – Bem, já adianto que é só me dar os desenhos e os cenários irão ser entregues onde você mandar.

– Nesse caso eu dou os figurinos. – Kurt já se adiantou.

– Vocês são incríveis, mas Quinn faz questão de pagar. – A morena segurou a mão dos dois. – Nem que seja apenas o material.

– Não podemos aceitar. – Kurt recusou pelos dois.

– Então, deverão fazer a recusa para ela. – Rachel falou calmamente.

– Iremos vê-la? – Kurt se agitou.

– Irei providênciar isso.

– E em que eu vou poder ajudar? – Finn perguntou.

Rachel o olhou com um sorriso.

– Me de todo o suporte e opiniões honets que eu pedir. – Se aproximou dando um beijinho nos lábios dele.

*

Quinn se sentou na cadeira e prontamente elevou o tampo da mesa o ajustando. A madeira estava empoeirada, pegou um bloco de papel liso e um lápis grosso.

– Vai desenhar? – Annabelle estava nas suas costas olhando por cima de seu ombro.

Quinn destacou uma folha e a prendeu contra o tampo

– Quinn… — Annabelle a chamou outra vez.

– Irei projetar. – Quinn respondeu com a voz rouca. – O que acha… de um teatro? Como os antigos, mas completamente modernizado.

Annabelle pousou as mãos nos ombros da loira com um pequeno sorriso.

– Acho que seria fantástico.

Quinn rabiscou um nome no alto da página.

– Neverland?

– Sim, a terra onde tudo é possível. – Quinn sorriu.

O gráfite roçava no papel produzindo um ruído calmante. Annabelle sorriu para a imagem da esposa desenhando tão concentrada e com calma começou a se afastar deixando-se fundir a escuridão do aposento.

Quinn estava envolta em uma arredoma de luz que parecia forte diante do breu que a cercava.

Notas finais
@just_someone13 e ask.fm/PSomeone