Dark Angel

24 Capítulo XXIII - Confiança


O capuz estava cobrindo seu rosto. Olhava atentamente para o homem que estava apoiado na saída de um restaurante observando quem passava. Um movimento dele a fez estreitar os olhos e enquanto ele apagava o cigarro na sola do sapato, ela puxava uma flecha da aljava e a alojava perfeitamente sobre o dedo. A corda tesa, a respiração calma e os olhos fixos. Observou ele pegar a bolsa de uma mulher e correr com a faca na mão assustando quem vinha na direção a qual se dirigia. Respirou fundo uma vez. Duas vezes. Três vezes. Disparou.
O homem caiu no chão tendo espasmos devido a carga elétrica que circulava por seu sistema. Os gritos das pessoas e a mulher que havia sido roubada quase desmaiando.
Dark Angel subiu as escadas do prédio aos pulos e logo pousou no terraço correndo para o lado oposto.
Era sua rotina,vigiar as ruas paralelas ao teatro de Rachel para garantir que nenhum traste estivesse no caminho da morena. Mesmo que o diretor tenha dado uma semana de folga para a pequena atriz, esta era sua rotina a três dias. Já havia abatido pelo menos cinco elementos até aquele momento, em que momento a cidade New York sucumbiu ao crime?
O apito suave em sua orelha lhe deu noção que precisava recuar. Precisava retornar. Amanhã seria um grande dia, os pais de Rachel chegariam a cidade.

*

A tigela de frutas pousou na mesa e Rachel rapidamente começou a arrumar os pratos. Quinn escolheu esse momento para sair do corredor com os cabelos molhados do banho que havia acabado de tomar.
– Bom dia. — Sussurrou abraçando Rachel por trás. — Te acordei quando cheguei?
– Não. — Rachel deu um pequeno sorriso antes de arrumar os guardanapos. — Eu estava esperando você chegar para dormir.
– Você não precisa fazer isso. — Quinn franziu as sobrancelhas antes de roubar uma uva da tigela.
– Eu me sinto melhor quando sei que você está em segurança ao meu lado. — Rachel respondeu acariciando o rosto de Quinn. — Não se preocupe.
– Você tem que descansar. — Quinn argumentou vendo Rachel arrumar de novo os guardanapos. — Rachel, pare. O que foi?
– Nada. — Rachel apoiou as mãos na testa olhando para baixo, tomou uma respiração profunda.
– Querida. — Quinn se aproximou a segurando pelo pescoço, os polegares se encaixaram no maxilar e calmamente ergueram o rosto. — Me diga o que foi.
– Meus pais. — Rachel suspirou fechando os olhos. — Eles podem ser difíceis e eu sei que eles vão perceber que eu menti para eles. Eu realmente quero que eles gostem de você.
– Calma. — Quinn sussurrou roubando um beijo da mulher. — Eu sei ser encantadora.
Rachel fechou os olhos respirando fundo. O toque do interfone a fez suspirar, deixou Quinn lhe soltar e foi abrir o portão para os pais. Olhou para Quinn.
– Não me odeie, mas você poderia... não sei... colocar uma roupa mais social? Eu acho que você tem aqui em casa. — Mordeu o lábio antes de pegar as chaves. — Por favor?
Quinn sorriu antes de se virar para voltar ao quarto. Rachel parou na porta respirando fundo antes de abri-la e olhar para o elevador.
– Pai! Papai! — Abriu um sorriso olhando para os dois homens que saiam do transporte. — Que saudade.
– Estrelinha. — O mais alto se adiantou abraçando a filha com força. — Você nos assustou e não conseguimos sair mais cedo.
– Eu sei, eu sei. — Sorriu para o pai antes de se virar para o outro e aceitar o abraço dele. — Vamos, eu preparei o brunch.
Ajudou os dois homens com as malas antes de fechar a porta.
– Temos companhia? — Hiram olhou para a filha notando os quatro pratos.
– Sim. — Rachel sorriu. — Quinn.
– Ela está atrasada. — Leroy comentou olhando no relógio.
– Hnn.. na verdade ela só está terminando de se arrumar. — Rachel deu as costas para os pais indo até a geladeira, estava se preparado para o interrogatório. — Mel? Eu fiz chá, tem café e suco.
– Rachel, ela está aqui? — Ouviu a pergunta lenta de Leroy. — Achei que vocês eram amigas.
– Bem... — Rachel pegou o mel no armário antes de o colocar na mesa ao lado da geleia. — Nós estamos... namorando.
– Namorando? — Hiram franziu as sobrancelhas. — Você mal terminou com o Finn. Achamos que as fofocas não passavam disso, fofocas.
– Eu não queria contar por telefone. — Rachel olhou para os dois tentando se manter calma. — Mas eu estou feliz com ela e não, eu não trai o Finn. Ficamos juntas depois que eu terminei o noivado.
Os dois homens se entreolharam antes de manter um silêncio assustador. Rachel respirou fundo enquanto se ocupava em terminar de arrumar a mesa.
– Sentem, por favor. — Sorriu para os dois que se mantinham sérios, tentou evitar o tremor em seu corpo. — Vou ver se Quinn já está pronta.

*

Se virou assim que ouviu a porta batendo suavemente, Rachel apoiou o corpo contra a madeira ignorando o olhar curioso da loira.
– Meus pais são um... — Rachel parou respirando fundo. — São gente de cidade pequena.
– Hnnn... — Quinn se aproximou terminando de ajeitar a gola da camisa. — Qual o problema?
– Acredito que nosso brunch será servido pelos enviados do inferno.
Quinn reprimiu a risada curta antes de dar um pequeno beijo nos lábios da mulher.
– Não pode ser assim tão apavorante. — Quinn a provocou a puxando sutilmente antes de abrir a porta. — Não seja tão medrosa, afinal de contas... eu passo a noite me arriscando, posso enfrentar seus pais.
– Acredite, você vai querer ir ficar pulando de prédio em prédio. — Rachel estreitou seus olhos.
Quinn revirou os olhos antes de olhar para ela.
– Observe. — Piscou um dos olhos para a morena enquanto entravam no ambiente aberto. — Senhores Berry, peço desculpas pelo meu pequeno atraso.
Quinn sorriu para os dois homens que estavam sentados a mesa, não recebeu uma resposta de nenhum dos dois. Sentiu Rachel lhe puxar e prontamente puxou a cadeira para a morena, tomando o lugar ao lado desta.
– Como foi a viagem? — Rachel perguntou com um pequeno sorriso.
– Razoável. — Hiram respondeu calmamente, estendeu a mão para o bule de café e se serviu antes de passa-lo para LeRoy. — Pegar um táxi nessa cidade que foi terrível.
– Você poderia ter pedido para o Edgar esperar seus pais no aeroporto. — Quinn comentou calmamente adoçando o chá.
– Kyle precisou dele para buscar alguns senhores que vocês tem reunião hoje. — Rachel a olhou com um pequeno sorriso. — Esqueceu?
Quinn parou franzindo as sobrancelhas, repassou sua agenda mentalmente e sentiu que não tinha nenhuma reunião agendada, deu um sorriso sem graça.
– Acho que sim, desculpe querida. — Tocou a mão de Rachel que estava sobre a mesa. — Vou deixa-lo a sua disposição pelo resto da semana.
– É um costume seu? — LeRoy perguntou pausadamente. — Se atrasar ou esquecer compromissos?
Quinn ergueu os olhos para o homem e deu um sorriso amável.
– Não, muito pelo contrário, apenas tivemos uma semana um pouco atribulada e isso embaralhou um pouco meu senso de pontualidade e responsabilidade. — Segurou a mão de Rachel entrelaçando os dedos.
– Quinn tem ficado comigo o máximo de tempo que pode, estou me sentindo culpada já. — Rachel deu um pequeno sorriso. — Ela apenas não acha que é seguro me deixar por muito tempo.
– Por causa de um assalto? — Hiram arqueou as sobrancelhas antes de dar uma mordida na torrada. — É uma cidade grande, um alto índice de assaltos, você sabia disso quando decidiu vir morar aqui. Já é o segundo assalto que você sofre nos últimos meses.
– Na verdade não foi bem um assalto. — Rachel sentiu Quinn endurecer na cadeira. — Foi um fã muito apaixonado. Ele está um pouco inconformado com a maneira como a qual meu relacionamento com Quinn se desdobrou.
A loira tencionou o maxilar tomando um gole do chá quente.
– Isso já ocorreu antes? — LeRoy arqueou as sobrancelhas grossas.
– Uma vez. — Rachel falou em voz baixa atraindo a atenção de Quinn. — Finn acabou se excedendo e batendo no rapaz, foi uma verdadeira confusão e acabamos conseguindo uma ordem de restrição.
– E porque não faz o mesmo agora? — Hiram olhou para Quinn.
– Não conseguimos identificar o agressor. — Quinn respondeu calmamente. — Rachel estava sozinha no momento, sem meu motorista, e os transeuntes não conseguiram fazer um retrato falado dele.
A loira passou a língua nos lábios respirando fundo, Rachel repousou a mão na coxa pálida coberta pela saia.
– Já fomos a delegacia, uma capitã conhecida de Quinn está tomando as devidas providências. — Rachel olhava para o perfil da loira ao invés de olhar para os pais.
– Espero que isso se resolva logo. — Hiram comentou.

*

Quinn entrou no último andar da empresa, Angelina estava examinando uns documentos quando a Fabray parou na frente dela.
– Kyle? — Perguntou calmamente a secretária que ergueu os olhos.
– Na sala de reuniões com alguns senhores. — Angelina indicou a porta ao lado. — Achei que fosse tirar o dia de folga.
– Não sabia que tinha uma reunião sem a minha presença. — Quinn arqueou a sobrancelha.
Angelina arqueou as sobrancelhas, tinha pensado que Kyle havia informado sobre o conteúdo da reunião a Quinn, mas pelo visto se enganara. Com um movimento fluído entregou uma pasta que havia sobrado das que havia montado para a reunião e estendeu para a chefe.
Quinn abriu a pasta preta e deslizou os olhos pelos documentos, franziu as sobrancelhas enquanto ia percebendo qual era o assunto da reunião. Fechou a pasta com um estalo e sem falar mais nada se dirigiu a sala de reuniões.
Kyle parou no meio da frase quando Quinn entrou e fechou a porta, o rapaz arregalou levemente os olhos, Finn estava sentado ao seu lado.
Do outro lado da mesa estava um senhor de cabelos encaracolados e olhos azuis que se interessaram pelas reações de Kyle.
– Quinn Fabray. — Se levantou com um movimento rápido. — Estava me perguntando porque não estava na reunião, soube que havia retomado a vida pública.
– Will Schuester. — Quinn apertou a mão do homem. — Sim, sim... eu tinha alguns compromissos, mas essa reunião era deveras... — Olhou para Kyle. — Interessante para que eu ficasse de fora.
Kyle deu um sorriso amarelo antes de se adiantar para Quinn dando um leve abraço na mulher.
– Rachel está bem? — Perguntou em voz baixa parecendo estar preocupado.
– Está com os pais. — Quinn aceitou o braço que ele lhe ofereceu e caminharam lentamente. — Que merda é essa?
– Você tinha muita coisa na cabeça e eu não quis colocar mais uma. — Kyle retrucou antes de sorrir levemente e puxar a cadeira da cabeceira para ela.
Quinn se sentou vendo Finn endurecer na própria cadeira, Kyle prontamente puxou seus documentos para o lado e se sentou, olhou para Quinn.
– Não se acanhem por minha causa. — Quinn sorriu cruzando os dedos na frente do estômago. — Podem continuar, eu serei apenas uma espectadora.
Kyle tomou um gole de água antes de olhar para o homem no outro canto da mesa que apertava ligeiramente os olhos azuis.
– Se for um problema podemos adiar essa reunião. — Schuester ergueu a mão calando um de seus assessores.
Quinn olhou para Kyle. — Você acha que devemos adiar essa reunião?
Kyle tamborilou na mesa antes de se levantar, fechou o botão do terno e sorriu para o Schuester.
– O senhor pode nos dar licença? — Sorriu para o senhor. — Apenas gostaria de travar algumas palavras com Quinn. Deixa-la mais a par da nossa situação, ocorreram alguns problemas pessoais e acabei deixando passar alguns detalhes.
– Claro. — William arqueou as sobrancelhas.
– Irei pedir para servirem um café e um lanche aos senhores, eu lamento muito. — Estendeu a mão para Quinn que a aceitou.
Saíram da sala de reunião, Kyle parou para pedir a Angelina que ela providenciasse algum tipo de lanche antes de entrar na sala de Quinn.
– Você pode me explicar que merda é essa? — Ergueu a pasta preta assim que ele fechou a porta.
– É uma decisão estratégica. — Kyle respondeu. — Vender esse poço é...
– Um poço produtivo. — Quinn o interrompeu. — É um poço em funcionamento pleno, ele da mais de 800 mil barris por dia. Você está louco se acha que eu vou permitir que você venda esse poço, sem falar que são as minhas terras.
– Apenas estou tentando fazer circular algum capital. — Kyle abriu os braços.
– Por trás das minhas costas? — Quinn franziu as sobrancelhas. — Não faça com que eu me arrependa de ter confiado em você.
– Então continue confiando. — Kyle se aproximou dela. — Estou apenas fazendo o que é melhor para nós, a companhia precisa de capital novo.
– Por que não me disse?
– Você estava tão feliz com Rachel que eu não quis te deixar preocupada. — Kyle esfregou a nuca. — Precisamos de uma injeção de capital. Para manter todos os projetos ativos.
– Estamos com déficit de receita?
– Não, nossos projetos executivos estão garantidos, me refiro aos projetos sociais. — Kyle cruzou os braços. — Algumas vendas não foram bem sucedidas e isso afetou a renda dos programas sociais, estou fazendo isso para que você não tenha que colocar dinheiro seu.
– Todo esse dinheiro é meu. — Quinn se aproximou dele. — Eu não quero saber de você fazendo negócios pelas minhas costas Kyle. Suas intenções podem ser maravilhosas, mas me deixe decidir sobre isso. Sobre o futuro da minha Companhia. Fui clara com você?
– Perfeitamente. — Ele engoliu saliva. — E agora o que eu faço?
– Dispense o Schuester. — Quinn deu as costas para ele.
– Quinn!
– Diga que eu decidi rever melhor os números. — Quinn não se virou para ele. — E que entraremos em contato, peça desculpas e garanta que a estadia deles é por nossa conta, de ingressos para o teatro sei lá que merda. E que assim que eu me sentir mais confiante no negócio iremos até ele e não o contrário.
Kyle tensionou a mandíbula e saiu.

*

Rachel estava ciente que Edgar lhe seguia de longe, os pais pareciam alheios a isso enquanto faziam compras.
– Podemos convidar Finn para jantar, não acha? — Hiram perguntou enquanto mostrava um suéter para o marido.
– Vamos jantar com Quinn essa noite. — Rachel respondeu com um suspiro. — E já não me sinto confortável perto de Finn.
– Que bobagem, vocês cresceram juntos. — Hiram balançou a mão. — O primeiro amor nunca se esquece.
– Ele já ficou violento comigo por duas vezes. — Observou os olhares surpresos dos pais.
– Ele encostou em você? — LeRoy se aproximou estreitando os olhos.
– Não, Kurt e Sam chegaram a tempo ele estava me agarrando pelos ombros e na segunda vez Quinn entrou antes que ele fizesse algo. — Abraçou o próprio corpo respirando fundo. — Os senhores estão certos. Crescemos juntos e ele foi o meu primeiro amor e eu nunca imaginei que ele fosse capaz de fazer isso, mas ele fez.
LeRoy abraçou a filha sentindo o fungar que ela soltou baixinho. Finn Hudson era um homem que tinha acabado de ganhar dois sérios problemas.

Notas finais
@just_someone13 e ask.fm/PSomeone