Dark Angel
10 Capítulo IX - Segredos
Rachel picava a abobrinha para poder refogar, prestava atenção na reportagem que falava do teatro que começava a ser demolido no Harlem e a compra do terreno pela Fabray Enterprises. Quinn havia lhe mandado uma mensagem mais cedo dizendo que havia conseguido os direitos sobre a peça, a morena quase pulou de alegria. Jogou a abobrinha dentro da panela quando seus ouvidos captaram outra coisa no jornal, desligou o fogo e se aproximou da sala para poder ver com clareza.
– …o departamento de polícia pede a todos que se virem a justiceira mascarada que liguem imediatamente para o 190. Ela é perigosa e está armada…
Tirou o som da televisão com um suspiro cansado, voltou para a cozinha voltando a preparar o jantar. Era a sua noite de folga e Finn havia lhe avisado que iria trabalhar até tarde, seu plano era jantar e ver algum filme. Ouviu o barulho na janela do quarto, franziu as sobrancelhas olhando para o corredor, desligou o fogo outra vez e parou ouvindo. Os passos abafados chegaram ao seus ouvidos, respirou fundo sentindo o coração acelerar, se aproximou do telefone pronta para ligar para a polícia. Ergueu os olhos e prontamente o retrato falado de Dark Angel entrou em seu campo de visão, abaixou o telefone e olhou para o corredor.
Morava no 9º andar de um prédio de 15º andares, era improvável que algum assaltante tivesse subido pelas escadas de incêndio apenas para lhe assaltar. Pegou a faca que estava ao lado da tábua de corte e se aproximou com passos lentos, o quarto estava vazio e a janela aberta. Os movimentos dentro do banheiro lhe deixou com a adrenalina a mil, parecia que alguém mexia em seu armário de remédios. Empurrou a porta vendo Dark Angel tensionar as costas.
– Eu não vou te machucar. – Rachel sussurrou. – Estou sozinha, não vou te machucar.
Acendeu a luz vendo o sangue escorrer pelo braço pálido da mulher.
– Oh meu Deus. – Rachel se aproximou soltando a faca sobre o balcão do banheiro, a puxou delicadamente para olhar o braço, o corte parecia ser fundo. – Senta me deixa cuidar disso.
A colocou sentada a beirada da banheira, se abaixou abrindo o armário debaixo pegando toalhas limpas e a caixa de primeiro socorros. Molhou uma parte da toalha e passou sobre o braço tentando limpar o sague, Dark Angel inclinou a cabeça para impedir que a mulher tivesse alguma visão de seu rosto. Limpou cuidadosamente o corte sentindo a mulher extremecer.
– Desculpa. – Sussurrou passando a toalha o mais suavemente possível. – Talvez você precise de pontos.
Dark Angel balançou a cabeça negando algo.
– Não? – Rachel perguntou curiosa.
– Não. – Ouviu a resposta rouca.
Rachel se arrepiou ouvindo o tom de voz que ela empregara, lhe lembrava algo, mas não conseguia saber o que. Mexeu a caixa pegando o spray antibactericida.
– Desculpa. – Sussurrou enquanto borrifava o spray sobre o corte, ouviu a mulher sugar o ar e o gemido abafado. – Desculpa.
Pegou um pouco de gaze o tampando, limpou o resto do sague.
– Como você se machucou? – Perguntou recolhendo o que usara.
– Um bandido. – Dark Angel falava pausadamente e com a voz pesada. – Ele estava assaltando uma mulher com uma criança. Lutamos. Ele me feriu. A polícia apareceu.
– Por isso o alerta? – Perguntou suavemente. – Estão emitindo um alerta na televisão dizendo para ligarem para a polícia caso você seja vista.
Dark Angel acenou com a cabeça.
– Me desculpe, sua casa era o local mais perto. – Sua voz pausada saiu mais uma vez por debaixo do capuz.
– Você me assustou. – Rachel sussurrou guardando a caixa.
– Eu vi a faca. – Ouviu o tom de voz zombeteiro.
– Eu poderia ter te machucado. – Rachel argumentou vendo a mulher se levatar, o arco estava transpassado no seu corpo junto a aljava. – Fique mais um pouco, a polícia está a sua procura.
– Já abusei de mais. – Respondeu se afastando da morena e indo até a janela do quarto, olhou de um lado para outro. – Obrigada Rachel, eu lhe agradeço muito.
– Dark Angel. – Rachel sussurrou. – Por que você faz isso?
– Porque alguém tem que fazer. – Respondeu passando a perna para fora da janela.
– Por que você?
Dark Angel parou movendo apenas o rosto na direção de Rachel.
– Ela gostaria disso.
*
O buquê de tulipas brancas fora colocado no camarim de Rachel logo após o início da apresentação. A morena estava inquieta, era esse o seu estado de espirito após a visita inesperada há algumas noites, os noticiarios continuavam a rodar sobre como perigosa e procurada Dark Angel era. A morena terminou a apresentação indo para o camarim tirar a maquiagem e trocar de roupas, o buquê lhe chamou a atenção assim como o cartão.
Perdoe-me por ainda não ter visto uma apresentação sua, mas se posso dizer pelas apresentações na internet, sua voz é fantástica.
Janta comigo essa noite?
Quinn Fabray
Sorriu timidamente antes de se aproximar para sentir o cheiro das flores, guardou o cartão delicadamente dentro da bolsa. O coração acelerado a fez fechar os olhos e respirar fundo, terminou de se arrumar e saiu com o buquê em mãos.
Edgar se adiantou para pegar o buquê e as coisas que Rachel carregava, sorriu para a morena.
– A senhora Fabray me pediu para perguntar a resposta.
Rachel sorriu. – Apenas vou atender aos fãs e já podemos ir até ela.
Edgar inclinou a cabeça se afastando para guardar as coisas que a morena havia lhe dado. Rachel sorriu vendo as pessoas e um flash ou outro, começava a fazer o seu nome e isso lhe dava um prazer incondicional.
Finn começara a parecer mais participativo em sua vida, ele assistia a peça algumas vezes por semana e sempre tentava lhe dar a sua perspectiva do espetáculo naquela noite. Alguns comentários eram totalmente sem sentido, mas outros Rachel conseguia usar para tentar se aprimorar um pouco. E além disso agora ele dividia os problemas no trabalho com ela e até considerava algumas de suas opiniões, era como se o relacionamento deles estivesse revivendo aos poucos, mas ela já não sentia que eles caminhavam no ardor da paixão e nem no fogo brando do amor… estava mais para a brisa refrescante da amizade.
– Senhorita Berry? – Ouviu o chamado suave, se virou encontrando os olhos azuis de um homem.
Ele era elegante, possuia uma postura quase impecável, olhos azuis sarcásticos por natureza, os cabelos escuros bem despenteados ea pele clara. Ele não sorria, estava sério.
Estendeu a mão, era um papel bem dobrado, Rachel o recolheu já pronta para assinar, mas o homem deu as costas e foi embora empurrando levemente uma senhora parada na calçada. Ele não parecia ter pressa em se afastar do local. Rachel franziu as sobrancelhas, sentiu a mão segurando seu cotovelo.
– É melhor irmos. – A voz de Edgar estava menos agrável.
Rachel sorriu para os poucos que ficaram e acenou deixando Edgar lhe conduzir até o carro.
A morena se acomodou no interior do veículo e olhou curiosa para o papel. Olhando mais atentamente ele tinha um tom cremoso e uma textura mais grossa, ela tinha certeza que era um papel caro. Seus dedos roçaram a beirada do papel e ela o abriu.
Se afaste dela.
Rachel franziu as sobrancelhas, as palavras tinham um gosto amargo em sua boca. No canto inferio esquerdo tinha uma espécie de brasão, era um circulo com uma cruz.
– Está tudo bem senhorita? – Edgar a olhou pelo retrovisor.
– Sim. – Rachel balbuciou, dobrou o papel outra vez e o guardou na bolsa ao seu lado.
*
Quinn estava revisando os relatórios do projeto Neverland, Sam havia lhe enviado alguns esboços e orçamentos. Tomou um gole da água ao seu lado, estava sentada no chão da sala de estar apoiando as costas no sofá e os papéis espalhados pela mesa. Ouviu a porta do elevador e ergueu a cabeça.
– Boa noite. – Rachel deu um pequeno sorriso.
– Oi… — Quinn tratou de levantar. – Desculpe o convite repentino, te atrapalhei?
– Não… não… Finn saiu com alguns amigos para ver um jogo de hóquei.
Quinn acenou com a cabeça e com a mão pediu para que ela se senta-se. A morena suspirou tirando o casaco o deixando sobre o braço do sofá junto com a bolsa antes de abraçar a loira, Quinn ficou sem reação por poucos segundos antes de abraça-la.
– Está tudo bem? – Quinn perguntou baixinho sentindo o corpo tenso da morena relaxar. — Rachel?
– Estou… apenas… — Suspirou sentindo o cheiro de Quinn lhe invadir, entrar pelas suas narinas, seus poros. – Me segure um pouco mais…
Quinn a apertou em seu corpo a envolvendo com cuidado.
– Me diga algo que nunca contou a ninguém… — Rachel sussurrou de olhos fechados.
– Como? – Franziu as sobrancelhas claras.
– Apenas… me diga… — Sussurrou apertando os olhos.
Quinn parou, com a mão fez circulos nas costas da morena, deu um pequeno sorriso.
– Eu não tomo sorvete há… cinco anos.
Rachel se afastou para olha-la, franziu as sobrancelhas.
– Isso não é um segredo. – Sentenciou.
– Ninguém sabe disso. – Quinn contrapôs, deu outro pequeno sorriso. – Posso compartilhar pequenos segredos Rachel… mas os grandes… vou carregar comigo por mais tempo.
– E se eu descobrir? – Rachel sussurrou a encarando.
– Então será digna de saber. – Quinn abriu um sorriso maior.
– Eu vou. – Seus olhos se desviaram por um instante descendo para os lábios de Quinn, estavam tão próximas.
– Mandei preparar o jantar, já deve estar quase pronto. – Quinn lambeu os lábios inconscientemente. – Sente fome?
– Unhum… — Rachel deu um sorriso carinhoso.
– Sopa de cebola francesa… — Quinn sentia os lábios secos, respirou fundo e o cheiro de Rachel lhe acertou mais forte. – Tomates à provençal e uma salada.
– Parece delicioso. – Rachel manteve o contato de olhos.
– Um aperitivo para abrir o apetite? – Quinn se afastou sutilmente, caminhou até o bar.
– Vinho… branco de preferência.
– Tenho um que vai te agradar. – Quinn se abaixou puxando uma garrafa da estufa.
Rachel deixou os olhos vagarem pelos papéis, o projeto tomava forma e era magnífico. Rachel se ajoelhou puxando as plantas para perto.
– Se ficar desse jeito… será incrível. – Olhou para a loira que se aproximava com a taça de vinho, o aceitou tomando um gole. – Hnnn… incrível…
– Imaginei que fosse gostar, ele tem nuances frutados quase perfeitos. – Quinn se ajoelhou ao lado dela, puxou alguns papéis para perto e afastou outros. – Aqui… eu quero essa fachada… o que acha?
Rachel se aproximou enquanto Quinn alisava o papel, a morena sorriu.
– Lindo… — Seus dedos roçaram as linhas traçadas. – Posso fazer uma pergunta?
– Claro. – Quinn a olhou com a cabeça inclinada.
– Por quê você faz isso? – Seus olhos concentradas no letreiro acima do esboço da fachada. – Eu sei que você sempre colaborou com obras sociais, mas…
– Depois da morte delas eu… — Se calou, olhou para o papel.
– Você se envolveu em praticamente todas as caridades que conseguiu, construiu creches, hospitais, abrigos…
– Porque alguém tem que fazer. – Respondeu olhando para os papéis.
– Por que você? – Rachel sentiu um arrepio em seu corpo.
Quinn moveu o rosto para olha-la, seus olhos verdes penetrantes e incrívelmente brilhantes.
– Ela gostaria disso.
Rachel prendeu a respiração sem desviar os olhos da loira. Quinn sorriu com o canto dos lábios.
– Jantar?
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