Dark
1 F o r e w o r d
Notas iniciais

O céu estava escuro, a lua refletia a luz do sol com uma leve amargura, uma chuva torrencial caía e esmurrava o solo sem piedade enquanto na grande casa da Rua Proustier, número 120B, a única fonte luminosa vinha do quarto do primeiro andar.
Era o quarto de Astrid Dubravka. O rapaz alto e atraente que andava silenciosamente pela rua solitária, parou e encarou a garota, totalmente corada, pela sua janela. Havia desenvolvido um estranho vício nesse horário ao decorrer de três semanas de punição.
Observou, com os cílios carregados de água, a figura descontente e raivosa da menina ao desferir golpes no saco de pancadas. Os seus cabelos castanhos claros, quase loiros, estavam rebeldes, em sintonia com sua alma. Sem querer, recordou-se das vampiras raivosas e extremamente sexys do fantástico clube de luxo noturno, o Chateau.
Um sorriso fraco tremeluziu na face do misterioso rapaz assim que seu alvo de observação tirou a blusa azul clara, agora escura pelas manchas de suor, para ficar apenas com o seu top preferido.
E como se estivesse notado que estava sendo monitorada, sua visão fora diretamente para rua enquanto tirava, com ajuda dos dentes perfeitamente alinhados, as luvas do Muay Thai [1].
Seu corpo magricelo encostou-se no encosto da varanda de vidro e ficou ali, em seus devaneios, por um tempo. Tempo esse no qual o rapaz não se atreveu a mexer um músculo como se ela fosse desaparecer em um piscar, ficar assustada e correr ou simplesmente enxergá-lo e notar o suave ritmo de seu coração. Era idiotice, já que a runa da invisibilidade ainda estava impregnada em sua pele.
Permitiu-se, apenas, a contemplar seus traços sobre as violentas gotas de água que caíam do céu.
Quando a menina sentiu um arrepio profundo correr por sua pele, retornou ao quarto e fechou as persianas, resultando num descontentamento por parte do rapaz que queria analisá-la mais um pouco, tentar descobrir o porquê de tanta fúria e tristeza para uma dia só.
Astrid tinha uma vida social ampla, diferente da dele que apenas resumia-se em treinar na parte da manhã e divertir-se na parte da noite. Isso antes, por que agora como consequência de seu mau comportamento em Pluto, sua dimensão, havia o transtorno, apesar de pacato, de assegurar toda a invisibilidade do mundo mágico e presenciar discussões entre os piores feiticeiros egocêntricos e demônios adolescentes incompreendidos em algumas reuniões. Também, havia a obrigação de relatar, todas as noites, os detalhes das vidas humanas de determinada rua para a Comissão do Comportamento Humano sobre o Mundo (CCHM), órgão em que sua família o submetera assim que souberam de suas façanhas impertinentes.
O olhar do rapaz, finalmente, retornou ao longo da rua solitária e sua expressão tornou-se entediada novamente.
Tudo voltou ao barulho apenas da chuva, o que parecia normal ao senso comum. Porém, um instinto de desconfiança repentina o fez esperar.
Assim que um grito aterrorizado foi escutado na Rua Proustier, não só sua mente turbulenta como suas nebulosas asas, com penas negras e elegantes, o guiaram quase na velocidade da luz para onde Astrid se contorcia de pura agonia sobre o gélido piso de porcelana, tentando lutar contra algo que não tinha a capacidade de visualizar.
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