A próxima chance seria literalmente a última. Era o último dia de aula. O trote daquele dia seria se vestir de criança, e embora fosse bem longe do que eu havia planejado, eu não teria outra opção. Tentei arranjar algo que fosse ambíguo, que eu pudesse usar no dia-a-dia , mas que também pudesse passar por criança com um pouco de imaginação.

Enfim, chegando perto da hora da saída, as garotas se dirigiram ao banheiro para se trocarem. Meu coração queria saltar da boca cada vez que eu lembrava o que estava prestes a fazer. Na minha mente as frases ensaiadas no dia anterior ecoavam e eu não conseguia desviar o pensamento.

Não me recordo exatamente a ordem dos fatos, não sei se saí direto do meu andar para onde ela estaria, ou se esperei por um tempo no pátio. Mas isso não vai fazer muita diferença. Eu sabia que ela estava aplicando uma prova para uma outra turma e esperei por ali com minha amiga, numa sala que estava vazia.

Só de relembrar aquele dia, sinto o mesmo frio na barriga, a mesma ansiedade, como se estivesse passando por tudo novamente.

Os alunos da sala começaram a sair e eu percebi que o momento estava chegando. Eu sentia aquele receio, que você quer que passe logo, mas ao mesmo tempo você quer que não chegue nunca. Combinamos que quando ela saísse, eu a chamaria para um canto e minha amiga me esperaria em outro lugar.

Ela saiu da sala e fui em sua direção, que me cumprimentou e quase passou direto para a escada, então a chamei e disse que queria falar com ela. Tentei traze-la para outro lugar, apenas para que ninguém visse e ela não se sentisse incomodada, mas ela estava relutante, como se não quisesse falar comigo. Queria que continuassemos andando e eu perguntei se pelo menos poderia olhar nos olhos dela, então ela parou. Toquei em suas mãos, mas não consegui segura-las pois estava segurando alguns livros. Achei que as palavras não sairiam, que o brilho dos olhos dela ofuscariam qualquer razão que eu ainda tinha, mas meus sentimentos simplesmente fluíram. Tive medo de assusta-la, ou de parecer desesperada, então apenas disse o que era mesmo importante:

-Acho que você já sabe, mas esperei o ano inteiro para falar olhando nos seus olhos que Eu Te Amo.

Juro que eu não sabia o que esperar, então esperava por tudo. Tanto que ela amasse, quanto que odiasse. Mas eu não esperava pelo que aconteceu. Ela não teve reação alguma, nem mesmo sua expressão mudara. Apenas me respondeu com um “tá bom”, me deu um meio-abraço e saiu.

Demorei um bom tempo pra acreditar que realmente tinha sido daquele jeito. Foi como se todo o amor, todo o carinho que eu dediquei para ela, naquele ano inteiro, não significasse absolutamente nada. Como se todos os dias e noites que gastei pensando nela, tivessem sido em vão. Senti o chão se abrir abaixo de mim, como se entrasse num vácuo, como numa dimensão paralela. Queria que algo me acordasse e me mostrasse que não tinha sido daquele jeito, que ela se arrependesse, ou que me contasse que eu tinha falado com uma irmã gêmea dela. Qualquer coisa que me fizesse crêr que ela não era uma pessoa tão distante assim.

Eu sabia que não éramos amigas, sabia que não éramos próximas, mas pensei que uma declaração tocasse qualquer coração. Eu pensei que choraria, por dentro eu estava em prantos, sentia o coração rasgar em mil pedaços, sentia minha alma se debater dentro do meu corpo, impotente. Mas as lágrimas não saíam, se recusavam a aliviar um pouco meu sofrimento, aumentando meu castigo.

Depois daquilo, a vi de relance umas duas vezes, mas não falei mais. Acho que se passaram seis meses. Pensei que tivesse esquecido, superado. E de repente ela invadiu meus pensamentos, e voltei a pensar nela todo dia. Tentei estabelecer um contato, mas ela não fala comigo. Acho que meu amor não foi suficiente para que eu me tornasse alguém para ela. Uma parte de mim quer muito ir vê-la novamente, mas tenho medo de me magoar ainda mais. De chorar na frente dela.

Mas tem algo de que tenho ainda mais medo: De esquecê-la.

De esquecer como era exatamente seu rosto, seu olhar, seu toque, sua voz, seu sorriso. Tenho medo de esquecê-la e continuar amando. Amando o que eu pensei que ela era, amando a mulher que eu achava que conhecia, amando um fantasma.

[Fim]

Notas finais
Obrigada por lerem. Espero que tenham gostado. Review please^^ Obrigada novamente
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!