Darghalt: A Batalha dos Anões

2 Ildriel: O choro e o pingente


A cultura dos Qelenitas nortenhos continuava a mesma. A carnalidade que era mantida como uma prática comum na região se originava da mistura racial dita proibida décadas atrás. A luxúria, a libertinagem, os costumes considerados pagãos. Ali, não havia qualquer julgamento sobre tais práticas, pois eram as tradições do antigo culto à Ahrimã, o deus-serpente. Uma cultura tão peculiar causaria estranheza aos estrangeiros desavisados vindos do Deserto ou das ilhas no Sul, mas não para os dois indivíduos que caminhavam tranquilamente pelas vielas da Cidade dos Impuros.

Ildriel, o anão renegado, e o seu grande companheiro Takeshi Yakatsu, o samurai andarilho, iam de encontro aos seus amigos mercenários, os Vermes Ultrajantes. Combinaram de se encontrar ao anoitecer no Coelho Manco, a taberna mais popular do local.

Ruas sujas com o forte cheiro de urina, as casas e prédios de pedras apodrecidas, a areia que era trazida pelo vento do Norte. Eram as características que Ildriel nunca deixou de notar quando passava por ali.

A Cidade dos Impuros recebia esse nome pelo seu forte culto às Ordens de Ahrimã, o deus-serpente, e aos Dev's, os servos imortais de Ahrimã que foram depostos por Ormuzd, a Suprema Ordem. Por mais que fizesse trinta anos desde o extermínio de Ahrimã, sua força permanecia real e seus fiéis continuavam a propagar suas Leis e Ensinamentos. Os Impuros eram os que continuavam a seguir Ahrimã, um título dado pelos Sacerdotes de Ke-Hendur para profanar aquela antiga fé.

Os dois companheiros de viagem podiam afirmar que poucas mudanças haviam sido realizadas. Pelos relatos que Ildriel recebeu, os Sacerdotes buscavam uma relação mais pacífica, apesar de prosseguirem na execução de rebeldes. O morticínio feito na década passada havia aquietado o conflito.

— Três anos se passaram desde a última vez que estive aqui e tudo continua igual. — disse Ildriel enquanto seguiam por uma rua escura com pequenos prédios de pedra amarela e madeira. Não havia muita movimentação naquele lado. Podia-se ouvir o som de cabras e galinhas, alguns indivíduos estranhos desconfiados com os estrangeiros. Das janelas, algumas mulheres colocavam seus olhos curiosos para ver quem passava por ali. Era uma área de moradores comuns que faziam o que podiam para sobreviver.

— Quase tudo — prosseguiu ele. — O cheiro de urina e merda diminuiu.

Takeshi permanecia em seu silêncio regular. Ildriel era o falante do grupo, sempre querendo opinar sobre tudo, incomodando quem estivesse ao lado. O samurai era o total oposto, só falava quando lhe era perguntado algo. Isso deixava o anão um pouco frustrado, pois adorava conversar. Não seria reconhecido como um samurai se não fosse por sua desgastada armadura de placas metálicas azuis que se sobrepunhavam umas às outras fazendo uma camada de proteção no peitoral e nos braços, com aquele típico desenho do tigre de bronze em seu peito. O resto da armadura era um revestimento de couro negro no abdômen e nas pernas. A armadura se tornou uma mistura do que sobrou de suas antigas vestes e do material que conseguiu durante seus treze anos no continente.

— Mesmo depois de trinta anos, — comentou Takeshi — é difícil acabar com a prática comum de um Povo. Os Sacerdotes de Ormuzd destruíram os Dev's e não a Ordem de Ahrimã.

— Ahrimã permanece vivo? — A pergunta de Ildriel soou mais como uma afirmação irônica.

— Há quem diga que sim. Não podemos esquecer que Zahhak continua a levar as Leis de Ahrimã para todo o canto do Deserto.

— Claro! — exclamou o anão. — Ele está sendo caçado pelos Sacerdotes. O Deserto Profundo é o único lugar que eles não ousam entrar.

— E acredito que seja por isso que estejamos aqui — disse o samurai cruzando a esquina da rua sossegada, mais um pouco e chegavam à taverna. — Lembra da Aldeia que vimos destruída?

— Claro que lembro! Não sou o Ibrahim para esquecer das coisas. — O anão cismava em perturbar os Vermes. Sempre com seu tom zombeteiro, ele era aquele que sempre trazia mais humor aos corações tão duros dos companheiros. Em especial, Ibrahim, o líder do bando, sempre o mais aberto às brincadeiras.

— Disseram que monstruosas criaturas de quatro braços e presas gigantescas atacaram a aldeia e levaram diversas pessoas como prisioneiras. Só existe um tipo de criatura assim... Thi-kreen’s. — Ele deduzia. Um breve momento de silêncio surgiu. — Nós ouvimos crianças e idosos. Não há como saber se estavam falando a verdade ou delirando — completou.

— Você acha que estavam delirando? — O samurai encarou o amigo.

— Provavelmente. Thri'Kreens não seriam loucos de atravessar o Deserto Profundo só para saquearem aldeias do Norte de Ke-Hendur. — Ildriel não imaginava um motivo plausível para isso. Para ele, continuavam quietos em suas aldeias. Sem dúvida alguma, aquelas eram as criaturas mais esquisitas da Segunda Terra. Ildriel se sentiria aliviado de não ter que cruzar com eles por algum caminho do Deserto Profundo. Já tivera esse desprazer antes e preferia não repetir. Os relatos dos aldeões atacados não passavam de delírios de mentes aterrorizadas.

— Se foram eles, há um motivo — Takeshi prosseguiu. — De qualquer forma saberemos logo. Creio que iremos nos encontrar com um certo tipo de pessoa que não gosta muito da gente. — Era gentil em suas palavras.

— Há muitas pessoas que não gostam de nós, Takeshi.

— E nós também não gostamos delas, então está tudo bem, não é?

— Pelo que te conheço, acho que está tentando entrar no assunto da garota da aldeia. — Ele viu apenas o samurai sorrir. Aquela conversa labiosa foi ensinada pelo próprio anão, quando se conheceram Takeshi não possuía nenhum senso de astúcia.

— Você se preocupa com as pessoas.

— Eu me preocupo? Fala sério, Takeshi! Você quem se solidarizou com a órfã e prometeu que encontraria seus pais.

— Eu sou um samurai. Mesmo longe de Nobuyuki, permaneço fiel à minha conduta de honra e franqueza.

A terra natal de Takeshi era conhecida pelos habitantes do continente de Ilhas Samurai, porém seu nome oficial era Nobuyuki e inclusive possuía seu próprio idioma. Era engraçado o Nobushi tentando entender o idioma do deserto e falando tais palavras. Aquele sotaque o deixava totalmente desconfortável diante dos Qelenitas naturais.

A rua era uma das mais movimentadas, mas naquele horário a circulação era muito menor. A noite possuía uma obscuridade imensa. Algumas pessoas estranhas e encapuzadas surgiam pelas ruas, para cumprirem com o culto à Ahrimã. Caçadores de recompensa iam em busca daqueles que propagavam a fé ao deus-serpente. Gemidos de dor e prazer podiam ser escutados dos becos ao redor. Sangue podia ser visto, não naquele momento específico, quando Takeshi e Ildriel se aproximavam da Taverna, mas sendo inocente ou criminoso, o sangue sempre estava presente nas noites da Cidade.

— Você se preocupa, mas disfarça com o sarcasmo e a grosseria. — Takeshi completava quando já avistavam a entrada da taverna.

— Já estou cheio dessa conversa! Agora só quero comer aquele delicioso pato assado de sempre. Acredito que depois de três anos, a comida dessa espelunca continue com o mesmo gosto mal temperado. — O anão gargalhou deixando os dentes amarelos a mostra.

Ildriel não era altruísta, seu coração era bom, mas suas tendências não. Era o que preferia acreditar. A menina da aldeia em que passaram durante o percurso até a cidade dos Impuros, a qual não havia sido capaz de dizer palavras de alento, uma criança fraca, pobre e indefesa que Ildriel ignorou, havia causado um incomodo inexplicável. Por que lutava tanto dentro de si? Por que se dividia entre suas vontades e suas malícias? Takeshi conhecia Ildriel muito bem e sabia a razão dele ser como era. O esperneio e o choro martelavam constantes na mente do anão.

****

— MÃE! PAI!... — A garotinha gritava — onde estão meus PAIS? — Chorava incessantemente.

A aldeia com suas cabanas e tendas queimadas e a fumaça que ia se findando subindo aos céus.

Uma mulher tentava acalmar a criança e outra fazia um curativo no grave corte na barriga que a fazia sangrar dolorosamente.

Por todo canto, podia-se notar a areia manchada do sangue dos inocentes. Muitas pessoas morreram tentando lutar contra as criaturas que passaram por ali. Crianças e velhos haviam falado com os viajantes, assustados, de certas criaturas de quatro braços espinhosos que saquearam a aldeia, levando jovens e adultos como cativeiros.

— Seus pais ficarão bem! Não se preocupe! — a mulher a consolava com carinhos no cabelo de cachos da menina. Ela não parava de chorar.

— Vamos Takeshi! — Ildriel pediu. Os dois observavam ao longe toda a movimentação dos aldeões em tentar reerguer o que sobrara de seus lares. E olhavam para a menina, Takeshi com pesar nos olhos, Ildriel com negligência. Não demorou muito para Ildriel se irritar.

— Garota! — Exclamou se aproximando. A menina estirada no chão em um lençol de lã com as duas mulheres tentando diminuir o estrago de sua ferida física e emocional. Olharam estranhando e alertas. A menina se debateu com menos intensidade. E os olhos acastanhados de Ildriel encontraram os de âmbar dela. Expressavam dor e solidão, e Ildriel entendia muito bem disso. A pele mestiça estava suja de terra e os trapos que na ocasião serviam de roupa, perderam sua cor natural por completo.

— Não precisa ter medo. Eu sou Ildriel. Como pode ver sou um Anão... Você provavelmente nunca deve ter visto alguém como eu, mas isso não vem ao caso... Sim! Sou do seu tamanho e já sou adulto. Olha! Sei onde seus pais estão. — Ildriel se aproximou ainda mais, agachando ao lado dela.

— Qual o seu nome?

— Thabit.

— Thabit. Quantos anos tem?

— 10 anos. — Seus olhos lacrimejavam. — Seus pais... eles saíram.

— Como assim saíram? Eu estava dormindo e... acordei assustada... — As lágrimas voltaram a descer. — E eu não os encontrei... — "Crianças são tão complicadas", pensou o anão.

— Saíram, mas voltarão logo. Devo te dizer que sou um ladino e garanto que sou capaz de encontrá-los. — A atuação era boa o bastante para o planejado.

— Encontrá-los? — A menina intercalava soluços com palavras. — Diga onde... estão meus PAIS!... EU QUERO MINHA MÃE! — Gritava e chorava para a raiva do anão.

— Eu garanto que eles estão bem. Só foram passear um pouco pelo Deserto com alguns amigos e os trarei de volta.

— Você vai trazê-los... de volta? — Um sorriso se formou no rosto da menina, tentava secar o choro. Ildriel observou uma pequena multidão se formar ao redor deles. Perfeito!

— Eu e meu amigo samurai com sua katana capaz de cortar um urso em pedaços em menos de um segundo. Iremos encontrá-los.

E o povo se maravilhou com aquilo. Não era o anão que fazia a diferença e sim o samurai, ele era o perigo real.

— Mas claro que não poderei fazer isso sem um custo e é bem simples: ouro. — O anão levantou, se direcionando à multidão. — Me deem o ouro que tiverem e trarei de volta não só seus pais, Thabit, mas todos aqueles que foram levados por essas criaturas.

— Ouro? — A menina perguntou com a tristeza retornando à face. A dor da ferida se tornou mais forte e ela gemeu. As mulheres trataram de verificar o curativo.

— Nós não temos! — gritou um homem da multidão. É claro que não teriam ouro.

— Ildriel. Chega! — ordenou Takeshi.

— Sem problema! Se não há ouro, há prata. Se não há prata, qualquer objeto valioso será aceito. — disse o anão com um sorriso. O samurai o puxou pelo braço, afastando-o um pouco da pequena multidão.

— O que está fazendo? — Sussurrou com os pequenos olhos expressivos.

— Sou um mercenário e, além disso, um Anão. Sou movido pelo ouro.

— E acha que essas pessoas terão algum para lhe dar?

— Elas têm prata, ou cobre, ou objetos valiosos. Qualquer coisa irá servir.

— Você é um verme miserável.

— Todos somos podres por dentro, Takeshi. Até você! — Acusou.

— Então, caros aldeões! — exclamou o ganancioso retornando ao centro da multidão com Thabit sentada na lã. — Se não tem ouro, nem prata e nada de valor, não poderei fazer algo a respeito. Infelizmente seus pais não poderão retornar, Thabit!

As vozes descontentes que se importavam o bastante ganharam espaço nos murmúrios da multidão. "Anões só pensam em si mesmo". "Volte para suas montanhas sem vida, pequeno homem cabeçudo." "Vá embora, anão estúpido." "Baixinhos e egoístas."

Aquelas frases o deixaram um pouco desconcertado.

— Acharam o quê? Que iria de boa vontade brincar de pique-esconde no Deserto sem receber nada em troca? Somos mercenários, é isso que fazemos! — Estava prestes a partir do local, mas a garotinha estendeu a mão.

— Aqui está, anão! — falou com a voz chorosa. — Objeto de valor, foi isso que pediu. O Anão a olhou com receio, não esperava por aquilo. Pegou o pingente da mão de Thabit e o analisou por um momento.

— Que valor isso tem? — Arqueou a sobrancelha esquerda.

— Minha mãe me deu para me manter protegida... É tudo que restou dela.

— Não, menina! Eu quero valor real. Esse pingente tem valor sentimental. Não é útil!

— Por favor! — A garota recomeçou o choro — não conseguirei viver... sem meus pais. — As lágrimas caíam rápidas na terra. Era um choro de desespero, um choro que lhe trazia recordações. Sua mãe havia lhe dado um Pingente, quando era um jovem rapaz. O pingente o mantinha ligado a ela, por isso não podia aceitar o de Thabit. Era aquilo que manteria a esperança no coração da garotinha.

— Não posso aceitar, Thabit. Se contente em viver órfã. — Duras palavras para engolir o peso do passado. Aquela era a frase que Ildriel assumiu para si quando partiu de Darghalt.

— Mas eu posso. — Takeshi sempre com sua conduta de honra. Aproximou-se e pegou o pingente da mão de Ildriel.

— Vou encontrar os seus pais e os trarei de volta — declarou. — E todos os habitantes dessa aldeia e de todas as aldeias que foram saqueadas. Iremos para a Cidade dos Impuros reencontrar nossos amigos e partiremos para o Norte.

Sem hesitar, a menina levantou e abraçou forte o samurai, agradecendo o ato de heroísmo. Ele olhou para o anão com uma expressão de insegurança e de satisfação, fez aquilo por simples honra, nunca cansava de sua integridade.

E Ildriel permaneceu quieto durante toda a viagem. Sentiu a saudade da mãe retornar ao pegar aquele pingente. Um pingente simples com o desenho de um pássaro de asas douradas talhado em sua extremidade. De uma forma ou de outra o passado sempre retornava em formas diferentes, ia ser difícil esquecer aquela menina. Mais uma vez Ildriel tentava afundar em seu interior aquele desejo altruísta, permitindo que a negligência abundasse.

Os dois companheiros chegavam ao local de destino, a Taberna do Coelho Manco, a lua minguante crescendo no céu. A placa na entrada em cima da porta tinha o desenho rabiscado de um coelho em pé com as patas viradas ao contrário, um osso quebrado saía da pata dianteira direita. Lá dentro, os Vermes Ultrajantes aguardavam. Cinco meses sem se verem, muito assunto para pôr em dia e uma nova missão a cumprir.

Notas finais
Oi! Espero que tenham gostado. Críticas e sugestões são sempre bem vindas. Continuem, garanto que não irão se arrepender. SZ
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.