Dare To Dream

4 Corredores da Tortura


Notas iniciais
Oi! Como prometido, mais um capítulo essa semana! Espero que gostem! *Capítulo modificado.

Entro em uma sala no interior do Edifício dos Testes. Numa mesinha há um pequeno copo descartável com um líquido verde para dormir. Bebo e sento em uma cadeira inclinada, espero olhando para o teto branco. Meus olhos ficam pesados e tudo escurece. A simulação para controle do temperamento diante da tortura é feita no inconsciente. Cinco minutos que estou desligada do mundo colocam como uma espécie de lembrete no meu cérebro de que eu não tenho medo, agonia, e que não passo mal diante da visão do sangue. Acordo e olho desconfiada para o rapaz que controla as simulações. Uma janela de vidro separa a sala de controle da sala em que estou, não gosto da ideia das pessoas verem ou colocarem informações no meu inconsciente. Ele faz um sinal de que acabou e posso sair.

Abro a porta e sigo em frente até uma passarela que liga ao outro prédio. Coloco meus pés sobre o piso e eles se prendem, e deslizam rapidamente até a outra extremidade. A passarela esteira é uma medida de segurança para que ninguém fuja do prédio das torturas. Me dirijo aos corredores com amplas janelas de vidro em todas as paredes, dentro ficam as salas de tortura. Tenho que observar e fazer um relatório técnico de tudo que eu ver. Detalhar a dor e sofrimento das vítimas, sem esconder nenhum detalhe, e sem colocar detalhes pessoais — como se você conhece a pessoa que está sendo torturada, e bom, não tenho que colocar que sinto a dor e pena pela pessoa.

Antes de começar, respiro fundo e prendo a respiração, o cheiro do sangue não ultrapassa o vidro, mas a visão me impressiona demais. Não sei o que tem de errado com o líquido verde, simplesmente não faz efeito em mim. Continuo não gostando de ver essas imagens e continuo me sentindo mal. Quanto mais eu demorar mais tempo vou ter de ficar ali, então levanto a cabeça.

As torturas sempre são reinventadas, ao lado na parede há um nome e a explicação da tortura para melhor entendimento, para caso você no futuro queira ajudá-los a criar novas torturas. Não, obrigado. Leio rapidamente. A tortura à minha frente é uma bem antiga, criada há muito tempo na China, chamada de "O Pingo D'água". Reconheço a mulher, seu nome é Samantha, trabalhava na secretaria da escola. Nunca falei com ela, mas nas vezes que passava pela secretaria ela estava sempre séria. Aparentava ser alguém de forte personalidade, não parecia alguém que teria um ataque. Um dia rasgou e jogou todos os papéis de cima da sua mesa, começou a gritar e chorar de raiva. Gritava xingamentos, dizia que odiava o trabalho, que não era pra ela, que não nasceu para ficar o dia todo numa cadeira ouvindo reclamações dos alunos. Boatos dizem que ela é louca. Se é ou não, eu a entendo.

Ela está presa numa cadeira com seu pescoço virado para o lado, embaixo de uma torneira pingando. Coitada, suas palavras se voltaram contra ela e agora ficaria numa cadeira pro resto de sua vida. Um pingo de água parece inofensivo, mas se só o som de uma torneira pingando já é bem irritante, uma torneira pingando na sua cabeça e você não podendo se mexer deve ser terrível. Fazem três semanas que ela está aqui, ligada a um aparelho em seu braço que transmite algum tipo de soro, alimento em suas veias, para que possa sobreviver e aguentar a tortura.

Ela grita, faz força para se mexer, tudo em vão, seus braços e pernas não se movem, presos na cadeira por grossas pulseiras de ferro. Após diversas tentativas, ela se cansa de se debater e olha para mim. Um olhar cansado, com profundas olheiras. A água pingando não deixa a pessoa dormir. Seus olhos por um breve momento transmitiram mudanças do inexpressivo, para o dolorido, e depois cheios de ódio me encaram.

– Covarde – ela grita – Sua covarde. Fica parada aí, sem fazer nada. Covarde! Covarde!

"Não, eu não sou covarde. Não fui eu que te coloquei aí. E se pudesse te tirava de todo esse sofrimento. Se pudesse quebrava esse vidro." Queria poder falar essas palavras para ela, mas não posso falar nada. É proibido interagir com o torturado. Aos gritos ela abaixa a cabeça um centímetro, deixando à vista uma ferida em sua testa, causada pelos constantes pingos. É como o ditado: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". Saio da vista de Samantha, ela não precisa sofrer mais. Escrevo rapidamente em uma ficha e em menos de cinco minutos vou ao próximo.

Um homem de uns 40 anos. Não sei o que ele fez, pelo seu estado deve ter sido algo muito grave. Ele está acorrentado de costas em uma mesa metálica. Ao redor dele duas pessoas com máscaras brancas cobrindo a boca e o nariz, como se ele estivesse alguma doença contagiosa, o torturam. Uma está marcando suas costas com uma espécie de vara metálica que vai ao fogo e depois queima sua pele. A outra está cuidando de seus braços e pernas, fazendo pequenos cortes com uma faca. Quanto menor, mais tempo e mais dor. Fico enjoada ao ver sua perna esquerda em carne viva, seu pé jorrando sangue. O chão todo sujo do líquido vermelho escuro.

De tão concentrada no sangue, não prestei atenção no homem que gritava e desmaiava de minuto a minuto. Ele estava perdendo muito sangue, ainda assim, de algum jeito faziam com que ele acordasse para não perder a cena do que lhe acontecia. Uma televisão à sua frente mostra cada corte em tempo real.

Com a visão já embaçada anoto palavras desconexas com uma letra tremida na ficha. Saio quase correndo por uma porta branca. Ao bater da porta em minhas costas, paro.

O prédio das torturas tem muitos corredores, é conhecido pelo nome Corredores da Tortura. Nunca tinha pensado dessa forma antes. Agora eu via à minha frente.

Muitos corredores, como um labirinto. O labirinto da tortura. Não. Por que isso volta toda hora? Olho o teto acima em céu aberto e as paredes de pedra, as flores no canto, o forte cheiro metálico. Fecho os olhos, e ao abrir nada muda. Não dá para acreditar. Como? Eu estou acordada, não estou? Olho para os lados como se alguém pudesse ouvir meus pensamentos e responder. Ouço passos se aproximando, cada vez mais perto e mais ameaçadores. Olho para trás, a porta branca intacta, eu podia voltar e… A maçaneta se mexe e sinto o perigo.

Corro pelos corredores sem esperar para ver quem está me perseguindo. Ao virar à direita a porta bate e começo a ouvir os passos acelerarem à medida que eu acelero. Meu coração se acelera mais ainda e continuo a correr. Sem perceber estou fazendo um caminho que reconheço e os corredores ao fim vão dar no local onde vi Jake caído. Viro para um corredor desconhecido no caminho contrário. Ouço o som de meus passos, da batida rápida de meu coração e minha respiração ofegante. O resto é silêncio. Paro por um segundo e minhas pernas tremem, a lateral do meu abdômen dói e suor escorre pela minha testa.

Recomeço a andar cautelosamente, dessa vez olhando para trás e para frente, para todos os lados. A cada passo tento não fazer nenhum barulho. Viro e ouço os gritos da tortura. No corredor mais a diante quando vejo uma pessoa estou prestes a correr novamente, então o reconheço. Jake. Com uma ficha na mão, olha atentamente para a parede de concreto. Sei que estou numa simulação, porém sinto que ele não é uma imagem na minha cabeça. Ele é real. Ouço passos, e sussurro para Jake. Ele não me ouve.

– JAKE! – grito desesperada ao ver a silhueta de um homem atrás dele, se aproximando – Corre! Atrás de você! Rápido!

Ele enfim me ouve e me olha com um olhar confuso.

– Corre! – Não o espero e volto a correr, olho para trás e nada de Jake.

Tropeço em meus pés e vou para o chão, por sorte ou destino ou imaginação, que seja, um quadrado abre-se no piso, como um alçapão. Pulo dentro e estou em uma escada, viro para tentar fechar o buraco com a grade e então vejo uma faca. Aquela mesma faca que cortava a pele do homem minutos atrás. Ou seria a faca que vi em minha mão no meu sonho? Desço os degraus de dois em dois temendo cair e rolar escada abaixo. Quando vejo algo brilhante, uma porta — o brilho falando para mim: "Entre. Agora. Não irá se arrepender." Não penso muito e a abro, a distância da porta ao chão é de alguns degraus que não estão abaixo, pulo e caio de pé na grama. E então estou na praça central. Até onde sei aquela saída não existia, nunca tinha visto nenhuma porta ali. A confusão me domina.

Tudo era verde. A grama, as árvores e uma fonte ao centro jorrando um líquido verde-água. A cor verde em outras circunstâncias poderia transmitir calma, aliás significa natureza, ar puro... Mas naquele momento nada era tranquilizante. O sol acima de minha cabeça me fazia ver tudo verde, e eu me forçava a continuar no lugar.

Via o mundo girar à minha volta. Eu me sentia verde. "Eu não concordo com o manifesto, não concordo com as leis. Não ligo para o modo que tenho de agir. Não concordo e não aceito as minhas consequências e as consequências de todos os outros." Gritava em meus pensamentos. Não sentia meus pés e não tinha força para me manter de pé. A praça estava vazia. Era só eu e minha voz presa em minha garganta. Sentia que iria cair, estava explodindo de raiva e passando mal ao mesmo tempo. Me segurava para me manter no lugar, para não cometer mais um erro. Tinha que dar o passo a frente. Quando movi minha perna eu só vi a grama, esperei a dor e nada veio. Não vi mais nada.

Parece que fiquei fora do ar por dias, mas olho para o céu acima, manchado de rosa, o sol está se pondo. Estou deitada em um banco da praça, tento me levantar e quando faço o esforço minha visão embaça e fico zonza. Ao ouvir meus esforços e murmúrios de dor, uma mão me ajuda a sentar devagar. Me viro e lá estão os olhos mais reconfortantes que já vi, azuis como o oceano. Estamos tão próximos que posso sentir sua respiração controlada, nunca estivemos tão próximos antes. Ele se afasta, como se estivesse ouvindo meus pensamentos.

– Você está bem?

– Hã… É… Sim.

Jake me olha com um olhar desconfiado, não acreditando muito na minha resposta. É que ele me deixa tão nervosa que ao abrir a boca para falar, as palavras não saem.

– Mesmo?

– Claro – respiro fundo. Fale normal, respire fundo e fale. É simples. – Estou bem

Ele me dá um leve sorriso.

– Então, o que passou pela sua cabeça para fugir do expediente da tortura?

– Eu não… Não fugi do trabalho, fugi porque estava sendo perseguida. Em uma simulação. Você não estava sob simulação?

Mesmo que não real, se algo te acontece na simulação pode afetar em sua vida de alguma forma. Se cair pode torcer o pé de verdade, por estar correndo mesmo. Se for atingida pode ter um hematoma e talvez até sangrar. E a realidade que vê à sua volta, não é a mesma que os outros veem.

– Simulação? Não, eu estava no corredor três e você começou a gritar e correr. Eu te segui e você foi à uma área restrita e conseguiu encontrar uma saída, tipo secreta.

Demorou um tempo para eu assimilar o que ele falava.

– Não foi o que eu vi exatamente.

Ele me olhou atento, esperando uma explicação do que eu vi, apenas olhei ao longe. Não podia contar a ele sobre o pesadelo em que o vejo inconsciente e sangrando após ter sido torturado. Era loucura. E ainda mais o pesadelo ter voltado como uma simulação.

– Como eles podem me colocar em uma simulação assim do nada?

– Não sei. Você foi na sala da simulação para tortura hoje, não? – confirmo com a cabeça. – Podem ter colocado o líquido da simulação em você. Agora o porquê…

Olho para a grama, um tremor de medo passa pela minha espinha. Não sei o que aconteceu realmente, não entendo o que aconteceu. E por quê? Acontece no meu cérebro e eu não sei o que acontece. Lembro da sensação que tive mais cedo aqui na praça na hora do recital.

– E eu meio que senti que algo errado iria acontecer.

– Sentiu antes de acontecer? – confirmo e encaro a grama, ele continua – Isso se chama intuição, e você sabe, é proibido. Pelo menos na teoria, mas deve ter sido um alerta de perigo da sua mente.

– Eu não sei. Acho melhor eu ir para a casa.

– Temos que descobrir o que acontece com você – ele diz ao mesmo tempo que eu, não me ouvindo – Ah, ok. É melhor, você está bem mesmo?

– Disse que estou. – sorrio para ele. – Podemos procurar sobre isso depois. Mas você sabe, temos muito a descobrir e nada em que pesquisar. E você não precisa fazer isso por mi… – Falo dando a chance dele desistir, mas ele me interrompe.

– Não preciso, mas eu vou. E vamos conseguir.

E ele sorri. Um sorriso que faz meu coração bater mais forte, como nunca bateu antes.

Notas finais
Horrível as torturas, o pior é elas existirem de verdade, seria bom se fosse apenas imaginação, se não passasse de uma história… :( O que há de errado com Liz? Jake é racional ou emocional? Deem os seus chutes! Me contem nos reviews! Beijos Xx